O T. Rex ‘Stan’ Foi Vendido por 31.8 Milhões de Dólares – e os Cientistas Estão Indignados

O valor deste espécime era incalculável para os paleontólogos, e os especialistas temem que o fóssil, que agora pertence a um licitante desconhecido, se possa ter perdido para fins de investigação.

Thursday, October 15, 2020,
Por Michael Greshko
O fóssil de Tyrannosaurus rex conhecido por "Stan" é exibido numa das galerias da leiloeira Christie's, na ...

O fóssil de Tyrannosaurus rex conhecido por "Stan" é exibido numa das galerias da leiloeira Christie's, na cidade de Nova Iorque, no dia 17 de setembro de 2020.

Fotografia de Spencer Platt, Getty Images

Há mais de três décadas, no Dakota do Sul, um paleontólogo amador chamado Stan Sacrison descobriu um titã da antiguidade da Terra: o fóssil quase completo de um Tyrannosaurus rex com 12 metros de comprimento. Apelidado de "Stan" em homenagem a quem o descobriu, este animal foi escavado em 1992 e estava há muito tempo alojado no Instituto de Pesquisa Geológica Black Hills, em Hill City, no Dakota do Sul. Quem nunca teve a oportunidade de visitar este instituto, provavelmente já viu este T. rex. Dezenas de moldes de alta qualidade dos seus ossos estão em exibição em museus pelo mundo inteiro, desde Tóquio, no Japão, a Albuquerque, no Novo México.

Agora, um martelo de uma leiloeira colocou em questão o futuro de Stan, com os ossos do dinossauro vendidos ao maior licitante – que até agora permanece anónimo – alimentando o receio entre os especialistas de que este amado T. rex se possa ter perdido para a ciência.

No dia 6 de outubro, a leiloeira Christie’s, com sede em Londres, vendeu o T. rex pela quantia recorde de 31.8 milhões de dólares, o preço mais elevado alguma vez obtido em leilão por um fóssil. O recorde anterior tinha sido estabelecido em 1997 com a venda de “Sue”, um T. rex praticamente completo que foi escavado pelo mesmo instituto e que eventualmente foi comprado pelo Museu Field de História Natural de Chicago por 8.36 milhões de dólares (o equivalente atualmente a quase 13.5 milhões de dólares).

Um dia depois de Stan ter sido vendido, a paleontóloga Lindsay Zanno, do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte, descreveu o preço de venda como sendo “simplesmente impressionante”.

“Com base no conhecimento que tenho do mercado, é um preço astronómico que roça o absurdo”, acrescentou o paleontólogo David Evans, professor de paleontologia de vertebrados no Museu Real de Ontário, em Toronto, que sugeriu que o comprador anónimo podia ter gasto os mesmos fundos de forma muito mais eficaz no aprofundamento da compreensão da humanidade sobre estes animais pré-históricos. “Se este tipo de dinheiro [fosse] investido de forma adequada, poderia facilmente financiar 15 posições permanentes de investigação de dinossauros, ou cerca de 80 expedições de campo por ano durante muitos e muitos anos”, escreveu David em entrevista por email.

Os cientistas também levantaram preocupações sobre os efeitos negativos que esta venda pode provocar no estudo de dinossauros, ao incentivar as pessoas a procurar e vender fósseis bem preservados, em vez de os deixarem para os paleontólogos estudar.

“Isto é terrível para a ciência e é um grande incentivo para as empresas comerciais explorarem os fósseis de dinossauros do oeste americano”, diz Thomas Carr, especialista em tiranossauros e paleontólogo da Faculdade Carthage de Kenosha, no Wisconsin.

Os paleontólogos receiam que, se o comprador for um colecionador privado, os investigadores e o público possam perder o acesso ao fóssil, limitando a sua capacidade em reavaliar as medições dos seus ossos ou conduzir novas análises com ferramentas e técnicas mais avançadas.

A capacidade de repetir experiências é “um princípio da ciência; faz parte das nossas fundações éticas”, diz Lindsay Zanno. “O mundo da paleontologia está a suster a respiração” em relação ao futuro de Stan.

Vender Stan para quê?
O Instituto Black Hills é provavelmente mais conhecido pelo seu envolvimento na escavação – e durante anos pela batalha sobre a custódia – do T. rex chamado Sue, que envolveu uma vistoria do FBI e uma disputa legal com a Reserva Sioux do Rio Cheyenne. Embora não seja tão dramática, a venda de Stan também deriva de uma decisão judicial.

Durante anos, o Instituto Black Hills exibiu Stan no seu museu em Hill City. Para além de vender moldes de resina para outros museus, o instituto permitiu aos investigadores o acesso ao fóssil, resultando numa miríade de artigos científicos sobre inúmeros aspetos, desde a força imensa da dentada do T. rex até à forma como o crânio do T. rex se podia flexionar e mover.

“O esqueleto de Stan é sem dúvida um dos melhores espécimes de Tyrannosaurus rex alguma vez encontrados, e já foi publicado na literatura científica muitas vezes”, diz David Evans. “Stan é um dos espécimes fundamentais para a compreensão do T. rex.”

Thomas Carr, no início da sua carreira, incluiu Stan em três estudos sobre a diversidade dos tiranossauros e sobre a forma dos seus crânios. Mas agora lamenta essa decisão porque o fóssil esteve sempre em mãos privadas e, portanto, em risco de ser vendido. “No final, juntamente com as outras 45 publicações científicas sobre Stan, acabei por contribuir para o sucesso de venda do fóssil...”, diz Thomas. “Não devíamos sequer ter chegado perto deste fóssil.”

O trajeto de Stan até ao leilão começou em 2015, quando Neal Larson, acionista detentor de 35% do Instituto Black Hills (e irmão do presidente do instituto, o paleontólogo Pete Larson), processou a empresa para liquidar os seus ativos. De acordo com o jornal Rapid City de Dakota do Sul, a empresa tinha excluído Neal Larson do seu conselho de administração três anos antes, após uma disputa conturbada sobre negociações comerciais e por Neal ter defendido um ex-funcionário acusado de má conduta sexual.

Em 2018, um juiz decidiu que Stan teria de ser leiloado para indemnizar Neal Larson pela sua participação no instituto, de acordo com um comunicado de imprensa da empresa. Apesar da venda de Stan, o Instituto Black Hills continua a deter os direitos de fabrico e venda de futuros moldes dos ossos do T. rex, incluindo as réplicas do seu esqueleto em tamanho real.

“Estamos tristes por saber que o licitador provavelmente não era um museu, mas temos a esperança de que o novo proprietário acabe por colocar Stan em exibição, para que o público possa continuar a ver e a estudar este incrível esqueleto original”, disse Pete Larson através de um comunicado de imprensa no dia 7 de outubro.

Em 2018, James Hyslop, chefe do departamento de ciência e história natural da Christie’s, começou a orientar o processo de leilão de Stan. No dia 6 de outubro, James Hyslop estava ao telefone com o licitante anónimo, divulgando o preço de compra vencedor no escritório da Christie’s em Londres.

Num email enviado para a National Geographic, James Hyslop recusou fazer comentários sobre a identidade do licitante vencedor, e também não revelou se o comprador era um colecionador privado ou uma instituição pública de investigação. “Como acontece com todas as vendas bem-sucedidas, estamos satisfeitos por ter alcançado um resultado sólido”, escreveu James. “Foi uma honra ter a oportunidade de trabalhar com um espécime tão extraordinário.”

Luxo e perda
Nos EUA, os ossos fósseis encontrados em terrenos federais são propriedade pública e só podem ser recolhidos por investigadores devidamente autorizados. Os fósseis também devem permanecer sob custódia pública, em repositórios aprovados, como por exemplo em museus credenciados.

Contudo, os fósseis descobertos em terrenos privados dos EUA podem ser comprados e vendidos, e Stan não foi o único fóssil de dinossauro encontrado nos EUA a ser recentemente leiloado. Em 2018, a casa de leilões francesa Arguttes vendeu um esqueleto do dinossauro predador Alossauro, atraindo críticas dos cientistas porque a sua venda, tal como a de Stan, corria o risco de criar a perceção de que os dinossauros valiam mais em dólares do que em investigação científica.

A Sociedade de Paleontologia de Vertebrados (SVP), que tem cerca de 2 mil associados e representa paleontólogos do mundo inteiro, opõe-se aos leilões de fósseis e há muito que desencoraja o estudo de fósseis privados, por temer que os investigadores e o público nem sempre tenham acesso garantido aos mesmos. Em setembro, a organização enviou uma carta à Christie’s a pedir que esta limitasse as licitações de Stan às instituições públicas de investigação. De acordo com Emily Rayfield, paleontóloga da Universidade de Bristol e ex-presidente da SVP, que coassinou a carta da sociedade, a Christie’s respondeu e reconheceu a posição da SVP, mas disse que a venda não podia ser limitada.

“A natureza de alto perfil do leilão e a publicidade em torno do mesmo foram projetadas para atrair licitantes sofisticados, elevando assim o preço do material fóssil e promovendo os fósseis como itens de luxo”, escreveu Emily Rayfield em entrevista por email. “Como é que as instituições de confiança pública podem gastar este tipo de dinheiro em espécimes fósseis individuais – dinheiro que poderia financiar empregos, programas de campo, formação, exposições e muito mais?”

Há países que adotam posturas mais rígidas em relação ao comércio de fósseis. Por exemplo, em Alberta, no Canadá, os fósseis encontrados nesta província não podem ser exportados, graças a uma lei dos anos 1970 que designa os fósseis como parte do património natural de Alberta. Também há leis semelhantes em vigor em zonas de interesse paleontológico, como no Brasil, na China e na Mongólia. Porém, David Evans diz que o comércio ilegal de fósseis continua a persistir nesses países, em parte devido às quantias exorbitantes que estes fósseis conseguem atingir.

“A venda de Stan vai perpetuar mais pilhagens de fósseis protegidos em grande escala”, diz David. “É de partir o coração.”

Jessica Theodor, paleontóloga da Universidade de Calgary e presidente da SVP, acrescenta que as quantias apresentadas pelos leilões não só colocam os investigadores de parte, como podem alterar a procura de fósseis nos anos vindouros. Após a venda multimilionária de Sue em 1997, alguns investigadores americanos foram excluídos dos terrenos privados em que trabalharam durante décadas, diz Jessica, em parte porque os proprietários dos terrenos queriam vender os seus fósseis, ou arrendar os direitos de escavação nas suas terras a empresas privadas. Os paleontólogos também testemunharam um aumento no vandalismo em sítios arqueológicos de fósseis, à medida que ladrões tentam roubar o que consideram ser itens valiosos.

“Uma venda desta dimensão pode provocar muito mais danos do que [a venda de] Sue”, diz Jessica.

Apelo paleontológico
Nos EUA, os escavadores comerciais de fósseis argumentam há muito que o seu modelo de negócio revela fósseis importantes, porque a motivação do lucro incentiva mais pessoas a escavar. Algumas destas empresas mais conceituadas escavam e preparam fósseis de acordo com padrões elevados e entram em contacto com investigadores quando encontram fósseis de grande importância científica.

Na melhor das hipóteses, este sistema pode encontrar e proteger fósseis inestimáveis, como o dinossauro blindado Zuul crurivastator, que a empresa americana de fósseis Theropoda encontrou numa quinta privada, no Montana, em 2014. Assim que a Theropoda percebeu o que tinha em mãos, contactou o Museu Real de Ontário do Canadá e, em 2016, o museu enviou investigadores para o local e comprou o fóssil por uma quantia não revelada.

Apesar de todo o debate em torno das vendas comerciais, os leilões públicos são por si só colossais. As guerras de licitações podem elevar o preço dos fósseis muito para além do que qualquer universidade ou museu pode pagar. Assim, os fósseis que de outra forma entrariam no património público acabam em coleções privadas.

Stan parece ser uma espécie de espólio desta guerra. Durante o leilão, dois licitantes elevaram o preço de Stan em milhões de dólares numa questão de minutos. Esta ascensão meteórica pode ter eliminado as capacidades de compra da maioria das instituições públicas – sobretudo este ano, já que a COVID-19 devastou financeiramente os museus pelo mundo inteiro.

Os paleontólogos contactados pela National Geographic apelaram ao novo proprietário anónimo de Stan para doar o espécime de T. rex a um museu ou instituição de investigação.

“Faça o que é correto: renuncie por completo à propriedade do fóssil e considere a sua doação a um museu de história natural credenciado, para que a ciência possa ser feita eticamente com Stan para o benefício de todas pessoas no planeta que têm interesse em dinossauros”, disse Thomas Carr.

“Você tem a oportunidade de partilhar um tesouro com o mundo”, acrescentou Lindsay Zanno. “É uma bênção rara – aproveite-a.”


Se tiver conhecimento sobre a identidade do comprador de Stan, ou dos planos para o fóssil, partilhe as suas informações através do email michael.greshko@natgeo.com.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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