Um Guia Para Lidar com a Desinformação em Torno da COVID-19

As informações falsas sobre a pandemia estão a aumentar, mas os experientes defensores da ciência climática podem oferecer alguns conselhos para as combater.

Thursday, October 29, 2020,
Por Sarah Gibbens
Um manifestante num comício anti-confinamento em Huntington Beach, na Califórnia, no dia 1 de maio de ...

Um manifestante num comício anti-confinamento em Huntington Beach, na Califórnia, no dia 1 de maio de 2020.

Fotografia de Jamie Lee Curtis Taete

Se existe algum grupo que compreende a forma como a desinformação pode afetar a compreensão pública da ciência, são os cientistas climáticos. Durante anos, estes cientistas têm tentado transmitir as descobertas de uma série interminável de estudos que mostram que o mundo está a aquecer, enquanto combatem interpretações erróneas e notícias falsas. Uma infodemia semelhante – um excedente de informações tanto legítimas como mal fundamentadas – assola agora o surto de COVID-19.

Na era da internet, onde os artigos de investigação estão prontamente disponíveis, qualquer pessoa se pode tornar especialista em COVID-19, ou em alterações climáticas. Mas os mais eruditos também podem escolher os dados que correspondem às suas crenças e falar com uma aparente autoridade sobre o assunto. Estes tipos de personalidades aparecem nos meios de comunicação tradicionais, como na televisão, mas as suas ideias prosperam sobretudo nas redes sociais e plataformas de vídeo. Isto acontece, em parte, porque as redes sociais permanecem amplamente desreguladas, e a atenção – os “gostos” e a interação – que recebem numa publicação pode incentivar as pessoas a partilhá-las.

“Parece que vivemos num mundo de desinformação há algumas décadas, mas com as novas plataformas, a dimensão e o alcance estão completamente descontrolados”, diz Sarah Evanega, diretora da Alliance for Science da Universidade Cornell, uma organização que se dedica a corrigir informações falsas.

E também vivemos numa era de intenso partidarismo onde as pessoas tendem a olhar para os seus líderes políticos para decidir como devem pensar sobre todas as questões, incluindo a ciência. Esta dependência das tendências políticas pode fazer com que as pessoas se tornem suscetíveis a argumentos não científicos.

Pessoas a ignorar os avisos de encerramento devido à COVID-19 num ginásio ao ar livre em Venice, na Califórnia, no dia 31 de março de 2020.

Fotografia de Jamie Lee Curtis Taete

“As pessoas dizem que a Europa está a reabrir as escolas e interrogam-se por que é que não estamos a fazer o mesmo, ou comparam a COVID-19 à gripe”, diz John Cook, especialista em comunicação da Universidade George Mason, que estuda a desinformação sobre alterações climáticas. “Estes tipos de analogias são muito simplistas e enganadoras.”

Para muitas pessoas, as alterações climáticas e a COVID-19 parecem coisas distantes, pelo que estas ameaças aparentemente invisíveis criam um distanciamento psicológico. Isto pode fazer com que as pessoas subestimem o perigo e com que as soluções pareçam piores do que o problema em si.

“Dizem-nos que as soluções são piores do que os impactos: ‘Destroem a economia, tornam o país socialista’”, diz Katharine Hayhoe, cientista climática da Universidade de Tecnologia do Texas. “São estas as coisas que as pessoas dizem para evitar as ações climáticas e, como é óbvio, isto não é de todo verdade.”

A desinformação pode parecer esmagadora, mas existem formas de a combater, dizem os investigadores que estudam o seu alcance generalizado. Ao reconhecer a sua aparência e de onde vem, os especialistas dizem que podemos ajudar a esclarecer os factos.

Montar o cenário
Este ano, pelo mundo inteiro, os cientistas já publicaram dezenas de milhares de estudos sobre a COVID-19 com um ritmo alucinante. Embora não tenham passado por um aumento tão dramático, os estudos sobre as alterações climáticas aumentaram exponencialmente desde 1951 até ao final do milénio, duplicando em número a cada 11 anos. Este padrão acelerou durante este século, à medida que os perigos das catástrofes climáticas se tornam mais evidentes.

Esquerda: Uma manifestante num comício pró-Trump em San Clemente, na Califórnia, no dia 3 de outubro de 2020.
Direita: Um manifestante vestido com as roupas do personagem interpretado por Brad Pitt em Era uma vez em... Hollywood, num comício anti-confinamento em Huntington Beach, na Califórnia, no dia 1 de maio de 2020.

Fotografia de JAMIE LEE CURTIS TAETE

Manifestantes anti-confinamento em Huntington Beach, na Califórnia, no dia 17 de abril de 2020.

Fotografia de Jamie Lee Curtis Taete

Mas, para divulgar informações sobre a COVID-19 às autoridades públicas o mais depressa possível, as revistas científicas estão sob pressão para apressar as revisões minuciosas que normalmente são exigidas para a publicação de novas ciências.

“Já publicámos [estudos] uma semana depois de terem sido submetidos”, diz Jennifer Zeis, diretora de comunicação da New England Journal of Medicine. “Isto é invulgar – não somos uma organização de notícias de última hora, e isto é um esforço enorme para os nossos recursos.”

Com a COVID-19, a pressão por informações que podem salvar vidas também deu origem a um excedente de artigos que aparecem nos chamados servidores de pré-impressão. Estas plataformas online permitem aos investigadores partilhar os seus trabalhos assim que as experiências são feitas, ao contrário das publicações académicas que são mais exclusivas e que requerem um processo de revisão moroso por parte de pares científicos.

(Relacionado: As notícias podem ser confusas para as crianças. Saiba como torná-las peritas em ‘fact-checking’.)

“Tem surgido uma quantidade enorme de ciência importante [sobre a COVID-19]. É algo sem precedentes”, diz John Inglis, cofundador da medRxiv, o maior servidor de pré-impressão de artigos médicos. “Obviamente, algumas destas coisas estão erradas.”

Denominado “arquivo médico”, este servidor de pré-impressão tem sido inundado com novas investigações sobre o SARS-CoV-2. Em janeiro, o site publicou 390 artigos sobre diversos temas mas, em meados de maio, este número já tinha subido para os 2200, a maioria sobre COVID-19.

Um manifestante num comício anti-confinamento na baixa de Los Angeles, no dia 13 de julho de 2020.

Fotografia de Jamie Lee Curtis Taete

O medRxiv usa um processo de triagem para garantir que um artigo de investigação inclui resultados e que não é um editorial ou uma teoria sem fundamento. O site executa depois uma verificação de plágio e verifica se o artigo faz alguma alegação danosa. Mas, de acordo com John Inglis, este processo não determina se o estudo é rigoroso, credível ou suscetível de erros de interpretação.

John Inglis encara os servidores de pré-impressão como uma parte natural do processo científico, mas diz que o seu público provavelmente se expandiu para além do mundo académico, dado que a COVID-19 despertou o interesse de todos. Em maio, o medRxiv registou 10 milhões de visualizações por página e cerca de seis milhões de downloads. Isto significa que pessoas que não são especialistas podem aceder aos documentos, interpretá-los de formas que se encaixem nas suas crenças e partilhar as suas opiniões com outras pessoas.

“A pré-impressão não é uma coisa maligna e a revisão por pares não é perfeita. É uma área cinzenta”, diz Ivan Oransky, docente de jornalismo médico da Universidade de Nova Iorque e cofundador do Retraction Watch, uma base de dados de notícias que se dedica a destacar quando os estudos são excluídos ou corrigidos.

Dos cerca de 50.000 artigos e pré-impressões publicados desde janeiro sobre SARS-CoV-2 e COVID-19, o Retraction Watch rastreou 36 artigos sobre COVID-19 que foram excluídos, mas Ivan Oransky salienta que geralmente demora cerca de três anos para um estudo ser corrigido.

Ivan oferece um conselho para o consumo de notícias sobre COVID-19: Não dependa de um só estudo para obter toda a verdade, faça um juízo depois de uma série de estudos se unirem em torno de um consenso.

Lutar contra uma batalha política
Nos EUA, um dos maiores indicadores de que alguém pode negar as alterações climáticas ou COVID-19 depende da sua filiação política. A investigação de John Cook revela que os líderes políticos podem influenciar significativamente a atitude de uma pessoa em relação às alterações climáticas, e John suspeita que o mesmo se aplica à COVID-19.

Por exemplo, uma série de investigações e sondagens de grupos de reflexão mostram que a esmagadora maioria dos democratas tem mais probabilidades de levar a sério a COVID-19, o uso de máscara e o distanciamento social, enquanto que uma minoria de republicanos provavelmente fará o mesmo. Esta polarização política era uma “tragédia evitável”, diz John Cook, sublinhando que a recusa persistente do presidente Donald Trump em usar máscara e distanciamento social são os principais fatores que impulsionam a divisão partidária da atualidade.

“Quando os nossos líderes tribais nos dão indicações, a tribo tende a mover-se nessa direção”, diz John. “A liderança é importante.”

Numa análise feita no início de abril sobre a desinformação em torno da COVID-19, investigadores da Universidade de Oxford descobriram que, embora a maioria das notícias falsas sobre a pandemia seja geralmente propagada por utilizadores de redes sociais, os políticos ou celebridades de renome recebem mais atenção e interação nas suas publicações.

“Uma só pessoa não especializada com uma grande plataforma, seja uma celebridade ou uma figura política, pode ter um efeito desproporcional na população”, diz Sarah Evanega.

“Nas redes sociais, as pessoas estão mais focadas na quantidade de amigos e seguidores que vão “gostar” das suas publicações – a quantidade de reforço social positivo que irão receber – do que na veracidade das afirmações.”

por DAVID RAND, INSTITUTO DE TECNOLOGIA DE MASSACHUSETTS

Isto é particularmente verdadeiro para a COVID-19. Num estudo publicado em setembro, Sarah Evanega e a sua equipa analisaram uma base de dados de 38 milhões de artigos com conteúdo em inglês publicados entre o dia 1 de janeiro e 26 de maio de 2020. A equipa encontrou pouco mais de um milhão de artigos de notícias que disseminaram informações incorretas sobre a pandemia.

A desinformação mais popular centra-se em curas milagrosas – medicamentos sem quaisquer benefícios clínicos comprovados que, apesar de tudo, são promovidos como eficazes. A equipa também descobriu que o presidente norte-americano foi o principal impulsionador de desinformação, aparecendo em 38% dos artigos enganadores, e os maiores picos de desinformação aconteceram quando Trump fez alegações sobre medicamentos para a COVID-19.

Mesmo quando os políticos não estão a propagar desinformação, as pessoas podem ter dificuldades em discernir o que é verdadeiro. Num estudo publicado em finais de junho na Psychological Science, cientistas recrutaram 1700 adultos para rastrear o que influenciou a sua probabilidade de partilhar informações incorretas nas redes sociais sobre COVID-19.

Dois grupos receberam títulos de notícias que perpetuavam informações falsas sobre a pandemia. O primeiro grupo foi questionado sobre a probabilidade de partilhar essas notícias, enquanto que ao segundo grupo foi solicitado para determinar a veracidade dos títulos. Comparando os dois grupos, mais de 32% dos participantes estavam dispostos a partilhar um título incorreto, em vez de tentarem determinar a sua veracidade.

Contudo, numa segunda experiência, os participantes foram solicitados para avaliar se um título era verdadeiro antes de o partilharem. Os investigadores descobriram que este pequeno empurrão para pensar de forma crítica fez com que os voluntários no estudo tivessem três vezes mais propensão para detetar informações incorretas.

“Nas redes sociais, as pessoas estão mais focadas na quantidade de amigos e seguidores que vão ‘gostar’ das suas publicações – a quantidade de reforço social positivo que irão receber – do que na veracidade das afirmações”, diz David Rand, um dos autores deste relatório e investigador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que estuda o processo de decisão responsável pela disseminação de informações incorretas.

Um caminho a seguir
Para combater a desinformação científica, John Cook desenvolveu recentemente um protótipo de jogo que explica as diferentes táticas de desinformação. Ao expor os jogadores às evidências de desinformação, as pessoas aprendem a pensar criticamente e conseguem identificar melhor a desinformação daí em diante.

Esta estratégia funciona em ambiente de laboratório, diz John, mas ele não está convencido de que a desinformação possa ser combatida a uma escala global.

“Sou uma pessoa um pouco pessimista por natureza, mas tendo trabalhado na observação da negação das alterações climáticas durante 15 anos, e depois de ter visto e ouvido coisas horríveis, estou a observar esta mesma dinâmica a entrar em ação com a COVID-19 em 2020”, diz John. “A negação em torno da COVID é a negação das alterações climáticas a um ritmo acelerado.”

Katharine Hayhoe é um pouco mais otimista e continua a comunicar ativamente a sua investigação climática em palestras e nas redes sociais. Em 2018, Katharine participou numa TED Talk – que já foi vista 3.6 milhões de vezes – sobre a forma como se devem comunicar as ciências climáticas a pessoas que estão céticas em relação à ciência. Katharine acredita que é possível ter diálogos produtivos.

Acima de tudo, diz Katharine, “tem de haver um respeito mútuo”. Ambos os lados devem chegar a um consenso – “algo em que consigam concordar” – que ajude a encontrar uma solução positiva.

“A pandemia de COVID-19 é um exemplo verdadeiramente infeliz de como a desinformação tem consequências imediatas no mundo real e na saúde pública”, acrescenta Sarah Evanega. “É realmente uma questão de vida ou morte.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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