Uma em Cada Quatro Mulheres Grávidas com COVID-19 Pode Ter Sintomas Persistentes de ‘Longa Duração’

Uma análise abrangente investiga como o coronavírus afeta este grupo de alto risco que é frequentemente negligenciado.

Friday, October 16, 2020,
Por Maya Wei-Haas
A maior análise deste tipo feita até agora preenche algumas das lacunas em relação às mulheres ...

A maior análise deste tipo feita até agora preenche algumas das lacunas em relação às mulheres grávidas e à duração dos sintomas de COVID-19.

Fotografia de Callaghan O'Hare, Reuters

À medida que o número de casos de coronavírus aumentava durante a primavera passada, uma preocupação estava no topo da lista de prioridades de Vanessa Jacoby: a gravidez.

Enquanto obstetra e ginecologista da Universidade da Califórnia, em São Francisco, Vanessa Jacoby está bastante familiarizada com o facto de que as grávidas são frequentemente mais afetadas do que o público em geral durante os surtos de doenças infecciosas. Em 2009, durante a epidemia de H1N1, as mulheres grávidas representavam 5% dos casos de morte, embora representassem apenas 1% da população. E durante os primeiros dias desta nova pandemia de coronavírus, as poucas informações que surgiram sobre o SARS-CoV-2 ignoraram amplamente este grupo de alto risco.

“Quando isto começou, havia várias questões que não sabíamos responder às nossas pacientes”, diz Vanessa. “Sabíamos que precisávamos de respostas, e precisávamos de respostas depressa.”

Agora, na análise mais compreensiva do seu género feita até agora, Vanessa Jacoby e colegas estão a preencher algumas destas lacunas. A equipa descobriu que os sintomas de COVID-19 persistiram em muitas das voluntárias que participaram no estudo, que incluiu 594 grávidas e mulheres que tinham engravidado recentemente, a maioria das quais não foi hospitalizada.

Metade das participantes ainda apresentava sinais de doença passadas três semanas, enquanto que 25% ainda estava a recuperar após dois meses ou mais. (A duração típica para os casos ligeiros é de duas semanas).

De acordo com o estudo, que foi publicado no dia 7 de outubro na Obstetrics & Gynecology, os sintomas das participantes também se manifestaram de formas diferentes dos apresentados pela população não grávida. Por um lado, a febre era incomum, embora fosse um sinal característico da doença; era um dos sintomas iniciais que só se manifestava em 12% das grávidas e que, passada uma semana, só estava presente em 5%. Os outros sinais de COVID-19 – tosse, perda de olfato, fadiga e falta de ar – persistiram numa pequena, mas significativa, proporção de indivíduos até cerca de dois meses.

“Não consigo respirar profundamente desde maio.”

por GEMMA MACLEAN, PACIENTE DE “LONGA DURAÇÃO”, INVERCLYDE, ESCÓCIA

Estas evidências sobre a evolução da COVID-19 durante a gravidez podem ajudar as pacientes e respetivos prestadores de cuidados de saúde a compreender melhor quando é que devem procurar ajuda e o que pode estar reservado para as mulheres grávidas que adoecem. E também oferecem um vislumbre sobre o grupo crescente das chamadas pacientes de “longa duração”, ou mulheres com sintomas de COVID-19 que persistem durante meses e que confundem muitos cientistas.

Gemma Maclean foi diagnosticada com COVID-19 na primavera, quando estava nas 36 semanas de gravidez. “Não consigo respirar profundamente desde maio”, disse Gemma à National Geographic por email. Esta jovem de 26 anos, de Inverclyde, na Escócia, também teve alterações diárias nos batimentos cardíacos, fadiga, problemas gastrointestinais, picos aleatórios de temperatura, sensação de ardor na parte superior das costas e visão turva.

Gemma tem-se esforçado para ser ouvida pelos médicos, que atribuem os seus sintomas à gravidez e a uma variedade de outras condições. “[Eles dizem] que é a ansiedade que afeta a saúde, mas o maior insulto foi dizerem que era obviamente uma depressão pós-parto”, diz Gemma. À medida que os cientistas definem melhor estas doenças de “longa duração”, os casos de pacientes que sofrem em silêncio devem diminuir. E este novo estudo é um passo nessa direção.

Vanessa Jacoby, que conduziu o estudo com três outros investigadores, observa que os resultados ainda são um retrato precoce. A equipa espera fazer análises mais detalhadas às participantes do estudo nos próximos meses.

“Esta base de dados ainda vai oferecer muitas informações”, diz Sarah Cross, professora assistente da Divisão Materno-Fetal da Escola de Medicina da Universidade do Minnesota, que não participou no estudo. “Estou muito expectante para ver tudo o que estão a fazer.”

Corrida para o ponto de partida
Este trabalho faz parte de um projeto ambicioso, apelidado de Registo de Resultados de Gravidez Coronavírus, ou “PRIORITY”, que visa construir um banco de dados nacional de gestantes com COVID-19 e rastrear a sua condição, bem como a dos seus bebés, durante um ano após a gravidez. À medida que os casos de coronavírus disparavam no início da primavera nos Estados Unidos, juntamente com os receios da sobrelotação de hospitais e escassez de equipamentos de proteção individual, Vanessa Jacoby e os seus colegas empenharam-se para criar as bases para este banco de dados.

“O trabalho que normalmente fazíamos em três meses, fizemos em cerca de... duas semanas e meia”, diz Vanessa. “Nós sentimos realmente uma necessidade urgente em fazer isto.”

A gravidez altera profundamente o funcionamento do corpo, aumentando também a sua suscetibilidade a algumas doenças infecciosas. Uma das mudanças importantes envolve uma ligeira supressão do sistema imunitário. A razão para isto acontecer é simples e reflete porque é que as pacientes tomam medicamentos que suprimem o sistema imunitário: para evitar a rejeição de um órgão transplantado, explica Sarah Cross. Metade de um feto em crescimento vem do ADN do pai e pode ser identificado pelo sistema imunitário como um invasor estranho, pelo que o corpo da mãe necessita de ajustar as suas defesas para permitir o crescimento.

A gestação também pode provocar stress nos pulmões de duas formas. Conforme o útero se expande, pressiona o diafragma, ou o músculo plano que controla a quantidade de ar que os pulmões recebem. Isto reduz a capacidade respiratória de uma pessoa. O feto em crescimento também aumenta a necessidade corporal de oxigénio. Ambos os impactos fazem com que os pulmões das mulheres grávidas fiquem “um pouco mais delicados”, diz Sarah.

Surpresas da COVID-19
A equipa do projeto PRIORITY abriu as inscrições no dia 22 de março e o seu banco de dados já conta com 1333 participantes nos Estados Unidos. O novo estudo concentra-se na primeira vaga de voluntárias – quase 600 mulheres grávidas com COVID-19 – que se juntaram ao estudo até ao dia 10 de julho.

A diversidade racial foi um dos focos centrais para o recrutamento desde o início, diz Vanessa Jacoby. Muito antes de surgir a COVID-19, o racismo sistémico levou a disparidades nos cuidados de saúde e nas oportunidades socioeconómicas, que se refletem nos resultados da gravidez. As mulheres negras têm até seis vezes mais probabilidades de morrer de complicações durante a gravidez do que as mulheres brancas.

A pandemia exacerbou estas desigualdades. A taxa de hospitalização de afro-americanos e hispânicos com COVID-19 é quase cinco vezes superior à dos brancos. A inscrição de um grupo diversificado no estudo PRIORITY permite aos investigadores abordar questões sobre o progresso da doença especificamente relacionadas com estas comunidades mais vulneráveis. Cerca de 41% das participantes no estudo são negras, nativas americanas e hispânicas – e cerca de 15% do grupo de estudo fez a sua inscrição num idioma diferente do inglês.

“Vamos continuar a aprender sobre as consequências a longo prazo da COVID durante os próximos anos e décadas.”

por JORGE SALINAS, FACULDADE DE MEDICINA CARVER DA UNIV. DE IOWA

“Como todos sabemos, o idioma não é uma barreira contra a infeção pelo vírus”, diz Vanessa.

Para além disso, a maioria dos estudos feitos anteriormente sobre a COVID-19 e gravidez foram feitos com pessoas que estavam hospitalizadas, o que significa que já tinham doenças moderadas ou graves. Mas 95% das participantes no estudo PRIORITY estão a resistir à doença em casa, como acontece com a grande maioria das pessoas que têm a doença nos Estados Unidos. A esperança é obter uma noção representativa de como a doença progride não só entre as mulheres grávidas, mas também nas comunidades.

“São os nossos amigos, vizinhos e familiares que vivem com a COVID-19, mas que não estão suficientemente doentes para necessitarem de hospitalização.”

No geral, os resultados do estudo sugerem que muitas das mulheres grávidas podem apresentar sintomas prolongados de COVID-19, mas o motivo exato para isto acontecer permanece desconhecido. A equipa está a trabalhar para desvendar os fatores subjacentes que estão em jogo e, agora que o estudo PRIORITY já está em andamento, os investigadores também planeiam fazer estatísticas mais abrangentes.

As pacientes com COVID-19 de “longa duração” permanecem um mistério. Não se sabe exatamente porque é que os seus sintomas não desaparecem após duas semanas, como acontece com os casos típicos ligeiros, e o quão comuns são na população em geral. Sarah Cross diz que há pequenas diferenças nos grupos de estudo que têm dificultado as comparações diretas. Sarah também refere uma investigação feita num hospital em França que descobriu que dois terços dos adultos com casos ligeiros de COVID-19 continuaram a apresentar sintomas passados dois meses após os primeiros sinais. No entanto, uma sondagem telefónica realizada pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA descobriu que só 35% das pessoas tiveram consequências prolongadas durante duas a três semanas após um teste positivo.

O próprio empreendimento PRIORITY, como acontece com qualquer outro estudo, também tem as suas limitações. Jorge Salinas, epidemiologista da Faculdade de Medicina Carver da Universidade de Iowa, diz que as participantes do estudo têm em geral um estatuto económico mais elevado e que são mais instruídas do que a população em geral, com 41% a auferirem de um salário superior a 100.000 dólares anuais. Isto acontece, em parte, porque as mulheres grávidas que trabalham em cuidados de saúde constituem uma grande parte – um terço – dos sujeitos presentes no estudo.

“A COVID surpreende-nos todas as semanas desde que apareceu”, diz Jorge Salinas, sublinhando que nem sequer passou um ano desde que surgiram informações sobre o primeiro caso na China. “Vamos continuar a aprender sobre as consequências a longo prazo da COVID durante os próximos anos e décadas.”

Sarah Cross salienta que a inclinação do estudo para pessoas de origens mais abastadas pode significar que o seu quadro geral é ligeiramente mais otimista do que o que está realmente a acontecer por todo o país

“Estamos a entrar numa fase diferente da pandemia e temos a sorte de ter pessoas que estão a fazer esta investigação muito importante”, diz Sarah. “Temos alguns dados que podemos consultar, fazendo-nos sentir um pouco mais confortáveis no aconselhamento das pacientes e na tomada de decisões de gestão.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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