A Moderna Pode Ter Uma Vantagem na Corrida à Vacina COVID-19: Refrigeração

A empresa de biotecnologia alega que a sua candidata consegue oferecer proteção contra a doença mortal e que a vacina pode ser armazenada num congelador normal durante 30 dias.

Thursday, November 19, 2020
Por Sarah Elizabeth Richards
Ficheiros de protocolo para vacinas COVID-19 da empresa de biotecnologia Moderna nos Centros de Pesquisa da ...

Ficheiros de protocolo para vacinas COVID-19 da empresa de biotecnologia Moderna nos Centros de Pesquisa da América, na cidade de Hollywood, na Flórida, no dia 13 de agosto de 2020.

Fotografia de Chandan Khanna, AFP via Getty Images

Ainda é cedo, mas as notícias que nos chegam sobre uma vacina COVID-19 continuam a trazer esperança a um mundo devastado por um vírus.

Na segunda-feira, a Moderna Therapeutics anunciou o primeiro lote de resultados provisórios do seu ensaio clínico de fase três, um ensaio que foi observado de perto. A empresa afirma que a sua candidata a vacina tem uma eficácia de 94,5% –  uma alegação surpreendente que se seguiu à revelação feita na semana passada pelas empresas farmacêuticas Pfizer e BioNTech de que a sua versão obteve uma taxa de sucesso semelhante. Dado que ambas são vacinas mRNA, estas notícias oferecem provas adicionais de que esta tecnologia de ponta pode estar pronta para a sua primeira aprovação em décadas.

O mais importante a reter é que estes anúncios feitos recentemente sobre vacinas, incluindo um terceiro feito pela Rússia, mostram que a ciência está a funcionar, diz Maria Elena Bottazzi, codiretora do Centro de Desenvolvimento de Vacinas do Hospital Infantil do Texas, em Houston. “Sabemos que estas vacinas estão a induzir algumas boas respostas imunitárias.”

Embora a Moderna só tenha revelado um vislumbre dos dados, ainda assim ofereceu mais detalhes do que os seus concorrentes. A empresa partilhou dados demográficos dos voluntários na análise provisória, que envolve um subconjunto de pacientes com casos confirmados de COVID-19 entre as 30.000 pessoas que participaram no ensaio de fase três.

Os dados incluem o número de pessoas em grupos de alto risco, como adultos com mais de 65 anos e participantes de diversas etnias. À semelhança da Pfizer, a Moderna argumenta que a análise atingiu o seu objetivo principal de prevenir uma infeção, dado que só se registaram cinco casos de infeção no grupo vacinado, ao passo que 90 pessoas no grupo não vacinado, ou que receberam um placebo, contraíram o coronavírus. Mas a divulgação da Moderna também inclui informações sobre a gravidade da doença: foram registados 11 casos graves entre os voluntários que receberam um placebo, enquanto que entre os vacinados não foram registados casos graves.

Talvez a grande surpresa tenha sido o anúncio feito em separado de que a vacina da Moderna pode ser armazenada durante 30 dias a temperaturas de 2 a 8 graus Celsius. Esta é a temperatura encontrada nos congeladores normais, ou num frigorífico cheio de gelo. Esta característica pode conceder à Moderna uma vantagem, pois torna a distribuição em massa menos complexa nas áreas rurais e nos países mais desfavorecidos.

Por outro lado, a vacina da Pfizer precisa de ser mantida a 70 graus negativos – um facto que levou as autoridades de saúde pública a temer que esta vacina possa estar desproporcionalmente acessível apenas nos países ricos e nas comunidades que consigam pagar congeladores para esse efeito. Na semana passada, Ugur Sahin, CEO da BioNTech, disse à Reuters que a sua vacina tinha uma duração de até cinco dias em refrigeração.

“Isto facilita as coisas porque não precisamos de inventar novos equipamentos”, diz Bruce Y. Lee, professor de gestão e política de saúde na Universidade City de Nova Iorque, que estuda as cadeias de abastecimento de vacinas. “Muitos níveis da cadeia de abastecimento já têm os congeladores necessários que são usados para outros tipos de vacinas.”

Demasiado frio?
Na última década, à medida que as vacinas foram ficando mais disponíveis, como as vacinas para o rotavírus e HPV, muitos países adquiriram uma experiência valiosa na logística de grande escala: transporte de vacinas desde os fabricantes, armazenamento em locais centrais e distribuição posterior em camiões refrigerados ou de motorizada por cidades e países.

A razão pela qual a vacina da Moderna é mais duradoura com uma refrigeração normal deve-se ao facto de os seus cientistas terem descoberto uma forma para a manter mais estável. Isto foi conseguido através do domínio de uma fórmula estratégica de nanopartículas lipídicas – a espinha dorsal da vacina que também atua como meio de transporte do medicamento para as células humanas, diz Aliasger K. Salem, catedrático de ciências farmacêuticas da Universidade de Iowa. Embora os detalhes da ciência da Moderna sejam patenteados, Aliasger diz que esta vacina contra a COVID-19 provavelmente se baseia nos trabalhos feitos anteriormente pela empresa com nanopartículas lipídicas em imunizações para outras doenças infecciosas, como o vírus sincicial respiratório.

Há outras técnicas para reforçar a estabilidade de uma vacina que incluem a adição de mais conservantes inertes ao líquido que é usado para armazenar a mistura, ou o ajuste da estrutura das nanopartículas para proteger melhor a fita de RNA ao longo do tempo, ou para prevenir a sua deterioração em temperaturas mais quentes.

Embora o envio e armazenamento da vacina da Moderna com uma refrigeração comum seja uma vantagem, ainda é cedo para se declarar uma versão vencedora. Isto acontece porque as vacinas pioneiras podem ter desempenhos diferentes dependendo da demografia da população. Por outras palavras, pode haver necessidade de usar ambas as vacinas.

“É realmente importante adequar o tipo de vacina à cadeia de abastecimento disponível e às pessoas que vão receber a vacina.”

por BRUCE Y. LEE, UNIVERSIDADE CITY DE NOVA IORQUE

“É realmente importante adequar o tipo de vacina à cadeia de abastecimento disponível e às pessoas que vão receber a vacina”, diz Bruce. Por exemplo, para as pessoas que podem ser difíceis de alcançar (ou que são menos propensas a levar uma segunda dose num esquema de vacinação de duas fases), pode ser prudente uma vacina de injeção única com uma proteção mais duradoura

(Relacionado: Dezenas de vacinas contra a COVID-19 estão em desenvolvimento. Descubra as mais promissoras.)

Mesmo que se recorra à infraestrutura de refrigeração existente no mundo, não vai ser fácil. No início deste ano, a empresa de logística alemã DHL estimou que 3 mil milhões de pessoas não tinham acesso aos recursos necessários da cadeia de refrigeração para obter a vacina, mesmo considerando uma refrigeração normal. Os atrasos na cadeia de abastecimento são inevitáveis, diz Bruce, visto que nenhuma agência de saúde pública ou governo foi obrigado a agir tão depressa e com esta escala. “Pode haver uma situação em que a vacina da Pfizer é mais adequada para alguns lugares e a da Moderna melhor para outros, e temos outras vacinas a caminho.”

Estas decisões vão depender do acesso a mais dados. Os especialistas, numa das críticas que tem aumentado de tom em torno dos resultados provisórios – e sobre a respetiva falta de transparência – dizem que são forçados a levar em consideração o seu entusiasmo inicial e as possíveis preocupações. Por exemplo, Peter Doshi, professor associado de investigação de serviços farmacêuticos de saúde na Faculdade de Farmácia da Universidade de Maryland, diz que o anúncio da Moderna não oferece muito contexto sobre os 11 casos, entre os 90, que foram considerados “graves”.

Em geral, Peter Doshi receia que todos os testes da vacina COVID-19 usem uma definição muito vaga da palavra “grave”, que permite que uma doença ligeira seja qualificada como grave. “Quero saber muito mais sobre estes casos”, diz Peter, acrescentando que estas informações serão críticas para os consumidores que estão a avaliar os prós e contras da vacinação.

(Relacionado: Quem vai receber primeiro a vacina COVID-19? Descubra qual pode ser o seu lugar na fila de espera.)

Outra das considerações prende-se com o facto de uma em cada 10 pessoas na análise da Moderna ter apresentado efeitos secundários de fadiga e mialgia (dores no corpo), que foram atribuídos à escassez ou excesso de atividades diárias. “Para as pessoas que inicialmente são de baixo risco, o perfil dos efeitos secundários pode tornar-se bastante relevante, mesmo com uma vacina altamente eficaz”, diz Peter.

Os especialistas em saúde estão ansiosos para saber como é que este primeiro lote de vacinas se irá comportar a longo prazo, e se será eficaz em crianças e nas mulheres grávidas, dois grupos pouco representados nos ensaios da vacina COVID-19. Até que estas questões sejam abordadas, as pessoas precisam de encarar os resultados provisórios como uma amostra do que está por vir. “Vamos esperar até termos os dados finais”, diz Maria Elena Bottazzi. “Também vamos esperar para ver a publicação revista por pares que irá destacar a ciência que suporta estes comunicados de imprensa.”

Enquanto os cientistas tentam apressadamente fazer os ensaios clínicos, é possível que surjam versões melhoradas das vacinas COVID-19 – podendo surgir uma vacina que exija menos ou nenhuma refrigeração. Os bioquímicos da Pfizer estão a reformular a composição química da sua candidata a vacina, algo que pode reduzir a temperatura necessária para o seu armazenamento, diz Aliasger K. Salem: “Os bioquímicos estão a trabalhar numa versão em pó que pode ter menos requisitos de refrigeração, mas é um trabalho em desenvolvimento.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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