A OMS Está à Procura da Origem do Vírus. Descubra os Novos Detalhes.

Os investigadores de doenças que já trabalharam em casos semelhantes dizem que a investigação continua como é habitual, mas agora com ferramentas e técnicas avançadas que podem ajudar no processo.

Tuesday, November 10, 2020
Por Larry Mullin
Membros da Equipa de Resposta de Emergência de Wuhan fazem buscas no Mercado de Marisco de ...

Membros da Equipa de Resposta de Emergência de Wuhan fazem buscas no Mercado de Marisco de Huanan, na cidade de Wuhan, na província de Hubei, no dia 11 de janeiro de 2020.

Fotografia de Noel Celis, AFP via Getty Images

PEQUIM – Já passaram dez meses desde que as autoridades de saúde citaram o Mercado de Marisco de Huanan, em Wuhan, como o ponto de partida para a pandemia de COVID-19 – e desde então, também se arrasta um debate global sobre como é que a pandemia começou. Mas em breve o público pode vir a descobrir as respostas, à medida que a Organização Mundial de Saúde entra nos estágios finais de uma investigação sobre as origens do coronavírus.

Durante uma conferência de imprensa no dia 23 de outubro, Michael Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências de Saúde da OMS, disse que os cientistas chineses já tinham começado os estudos para uma investigação de duas fases. Com base no que estes especialistas descobrirem, a OMS irá enviar uma equipa internacional para a China para colaborar com muitos dos principais cientistas do país no rastreio das raízes da COVID-19. Uma semana depois, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que um grupo de especialistas internacionais tinha realizado a primeira reunião virtual com os seus colegas chineses, antes de assumir um compromisso total da OMS neste processo. E no dia 5 de novembro, a OMS divulgou discretamente os detalhes sobre a sua missão com a China, que descreve como sendo um estudo global sobre as origens do SARS-CoV-2.

O atraso de meses no início desta investigação levantou críticas por parte de investigadores de saúde pública e líderes mundiais, como o presidente dos EUA, Donald Trump, que acusou a OMS de respeitar demasiado os desejos da China. Durante a primeira fase de investigação, a equipa da OMS não irá estar presente para as pesquisas no terreno, e irá apenas rever e debater os dados recolhidos pelos investigadores chineses. Alguns relatórios descreveram este acordo como uma cessão de responsabilidade por parte da OMS, dado que a organização é financiada por nações individuais e a China é o seu segundo maior financiador, a seguir aos Estados Unidos.

Mas os investigadores de doenças que já trabalharam em casos semelhantes dizem que este procedimento é normal. A OMS carece de pessoal – com 7000 funcionários espalhados por 150 países – para conduzir uma investigação em grande escala por conta própria, e depende sempre de equipas nacionais, ou de voluntários internacionais, para os trabalhos de campo.

“Se começarmos com uma mentalidade de quem é a culpa, a nossa visão é diferente do que se perguntarmos apenas porque é que isto se propagou e o que podemos aprender”, diz Sian Griffiths, que coliderou o inquérito do governo de Hong Kong sobre a epidemia de SARS em 2003. Sian enfatiza a necessidade de objetividade nestes processos: “Sinceramente, olhar para trás e culpar alguém não é muito relevante”.

Em 2003, uma equipa da OMS chegou à China, quase três meses depois do primeiro surto de coronavírus SARS, e ainda conseguiu identificar a sua origem animal em poucas semanas. Esta identificação é possível muito depois do aparecimento de uma doença graças ao rastreio genético, que desde então progrediu bastante. Esta experiência e outras investigações anteriores podem revelar o que o público deve esperar deste esforço mais recente para descobrir a origem do vírus.

À procura do hospedeiro
Michael Ryan, da OMS, disse que os planos começaram em fevereiro, embora o alcance da missão final só se tenha consolidado em julho, quando uma equipa de duas pessoas da OMS completou uma tarefa preliminar de três semanas: “Temos trabalhado com todas as partes para reunir os estudos necessários para compreender melhor as origens deste vírus”. O projeto vai incluir estudos epidemiológicos de casos de COVID-19, análises biológicas e genéticas, e investigações em saúde animal.

A porta-voz da OMS, Margaret Harris, diz que esta investigação sobre as origens da pandemia não podia ter começado mais cedo porque as primeiras missões da organização sobre a COVID-19 na China tiveram de dar prioridade ao tratamento dos efeitos do vírus na população humana.

“Naquele momento, nada tinha precedência sobre as formas de tratamento clínico, sobre quais eram os fatores que ajudavam na propagação e quais as estratégias implementadas para tentar interromper a transmissão”, diz Margaret Harris. “Precisávamos de aprender muito depressa o que era este vírus e quais eram as melhores formas de prevenir os casos de doença e morte.” Entretanto, os meses de investigações genéticas já concluíram que a pandemia começou com o que se conhece por transbordo zoonótico, um evento no qual um germe passa de um animal para os humanos.

Determinar como é que este transbordo infeliz aconteceu pode agora ser feito com a epidemiologia e a genética, para rastrear o “paciente zero”, diz Linfa Wang, biólogo e diretor do Programa de Doenças Infecciosas Emergentes da Escola de Medicina Duke-NUS, em Singapura. Wang é conhecido informalmente por “Batman”, graças à sua investigação pioneira durante a SARS em 2003. A OMS recrutou Wang durante essa missão para rastrear o caso a partir de humanos, e Wang rastreou o vírus até um hospedeiro intermediário, chamado gato civeta, e depois até aos morcegos.

Para a COVID-19, a peça mais importante deste empreendimento envolve testes de amostras biológicas – como sangue – que geralmente são recolhidas e armazenadas nos hospitais. Os investigadores estudam amostras anteriores e posteriores à declaração pública do surto de coronavírus, que aconteceu em finais de dezembro de 2019. Idealmente, esta investigação retrospetiva deve abranger toda a China e estender-se pelos seus países vizinhos.

“Eu testaria as amostras de sangue humano nas bases de dados, para procurar anticorpos e descobrir há quanto tempo é que o SARS-CoV-2 circula na comunidade humana, e por onde tem circulado”, diz Ian Lipkin, diretor do Centro de Infeção e Imunidade da Universidade de Columbia, cuja equipa usou esta tática para rastrear a origem do coronavírus MERS até camelos no Médio Oriente. (O coronavírus MERS surgiu em 2012 e é um parente do novo coronavírus SARS-CoV-2 e do coronavírus SARS original).

“Dos 336 animais testados no mercado de Wuhan, nenhum testou positivo para o SARS-CoV-2. Por outro lado, 8% das amostras ambientais – muitas envolvendo ralos de escoamento e esgotos – tinham o vírus.”

Estes testes ajudam a construir um cronograma inicial sobre a COVID-19. Christine Johnson, epidemiologista da Universidade da Califórnia, em Davis, diz que entre as questões-chave estão: “Quais eram inicialmente os comportamentos e as ocupações das pessoas quando foram expostas ou infetadas? As pessoas tinham mais probabilidades de interagir com determinadas espécies de animais, ou mais probabilidades de viajar para locais específicos?”

Os investigadores precisam de avaliar o histórico de viagens e de contacto com animais, diz Wang, para identificarem quais são as atividades que colocam as pessoas em maior risco de infeção. As pesquisas recolhem amostras de sangue, de urina e de fezes de animais como morcegos, pangolins, civetas ou de qualquer outro mamífero que se encontre nos mercados, no comércio de animais, nas cadeias de abastecimento, em quintas e em habitats selvagens. Depois, os cientistas podem implementar medidas de rotina para detetar infeções. Isto inclui testes de reação em cadeia da polimerase (PCR), para detetar a assinatura genética do vírus, e testes de anticorpos, que detetam as proteínas no sangue que defendem o corpo de germes, indicando assim uma exposição ao vírus. Algumas amostras também são enviadas para o laboratório para se perceber se é possível cultivar um vírus viável, um sinal de infeção contagiosa.

A capacidade da China em conseguir realizar estas investigações não deve ser subestimada, sobretudo durante a COVID-19, diz Wang. “O investimento científico e nas infraestruturas na China é muito diferente hoje do que era em 2003, e os cientistas chineses são capazes de fazer qualquer coisa que uma equipa internacional consiga imaginar.” Por exemplo, o atual sequenciamento genético de próxima geração acelera este processo.

(Relacionado: A Dinamarca vai abater 15 milhões de visons após casos de transmissão de coronavírus para humanos.)

Raina MacIntyre, especialista em doenças infecciosas e professora na Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, diz que os cientistas chineses já fizeram investigações significativas sobre as potenciais origens animais do vírus SARS-CoV-2. A China e outros países contribuíram com sequências genéticas do coronavírus recolhidas de humanos para uma base de dados, para rastrear a evolução do germe. Ao comparar as diferentes entradas na base de dados, vários grupos de investigação concluíram que o novo coronavírus “provavelmente veio de morcegos, possivelmente através de um hospedeiro animal intermediário”, diz Raina.

A miríade de vírus semelhantes à estirpe responsável pela SARS que os morcegos-de-ferradura transportam tornam-nos num dos principais suspeitos das origens da atual pandemia. E estes habitantes notívagos das cavernas não se encontram apenas na China, mas também em países vizinhos como Myanmar, Laos e Vietname. “Precisamos de uma rede de colaboração internacional patrocinada pela OMS, como a que tínhamos em 2003, e precisamos de considerar seriamente as investigações fora da China”, diz Wang.

Embora os mais desatentos possam acreditar em reviravoltas no enredo semelhantes ao que aconteceu nos filmes Outbreak: Fora de Controlo, Contágio e noutros sucessos de bilheteria com a temática de pandemia, na realidade, a maior parte do trabalho envolve apresentações em PowerPoint e folhas de cálculo.

“Para ser completamente sincero, as missões como esta servem mais para trocar conhecimentos e ideias do que para fazer um trabalho de campo em ‘ciência inovadora’”, diz Wang. Com isto, Wang quer dizer que os especialistas internacionais envolvidos nestes trabalhos fazem revisões sobre as descobertas, partilham informações, debatem o que encontram e colaboram entre si.

O trabalho de campo que antecede a missão da OMS pode ser feito pelos cientistas chineses que possuem todos os conhecimentos, o financiamento e as ferramentas necessárias, diz Wang. Para além disso, não é invulgar os governos limitarem o acesso de pessoas de fora em investigações sobre uma pandemia. “Não imagino os EUA a convidarem cientistas chineses para recolherem e analisarem amostras”, diz Ian Lipkin.

E durante a investigação de 2003 que procurava um anfitrião da SARS na China, Wang diz que, “antes de uma equipa conseguir entrar no país, era necessário um acordo prévio para uma agenda e itinerário específicos para qualquer missão da OMS”.

Muito pouco, demasiado tarde e mistérios por desvendar
Alguns especialistas receiam que o novo projeto da OMS não encontre nada de útil porque já passou quase um ano desde que apareceu a COVID-19. Yanzhong Huang, investigador de saúde global do Conselho de Relações Externas dos EUA, teme que  as amostras ou evidências importantes se possam ter perdido, salientando que o mercado de Huanan foi alegadamente encharcado com desinfetantes antes de os cientistas investigarem o local.

Mas Daniel Lucey, investigador de doenças, diz que há indícios de que a China já fez um trabalho considerável.

“É claro que eles iriam fazer este trabalho”, diz Daniel, que trabalha na Universidade de Georgetown, “porque é do interesse nacional da China fazer uma investigação o mais rápido possível, pelo bem da sua saúde pública”.

Daniel refere que a China rastreou o primeiro paciente confirmado com a pandemia até ao dia 17 de novembro de 2019. Depois, houve uma investigação em janeiro conduzida por 29 investigadores chineses numa série de instituições que examinaram quantos pacientes iniciais com COVID-19 poderiam ser associados ao mercado de Wuhan. Os seus resultados indicaram que 14 dos 41 primeiros casos não foram expostos ao vírus no mercado.

Ainda assim, há mistérios por desvendar em torno das investigações iniciais. O Centro Chinês para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) disse em finais de janeiro que já tinha recolhido cerca de 600 amostras no mercado, e Shi Zhengli, virologista do Instituto de Virologia de Wuhan, fez declarações públicas no verão passado sobre os testes de amostras de solo, amostras de esgoto e de maçanetas de portas neste mercado.

Mas os novos detalhes do relatório da missão da OMS dizem que foram recolhidos cerca de 1200 espécimes no mercado de Wuhan, que tinha 653 vendedores que vendiam itens que variavam desde marisco e esquilos a salamandras gigantes e veados-sika. Ainda assim, dos 336 animais testados no mercado de Wuhan, nenhum testou positivo para o SARS-CoV-2. Por outro lado, 8% das amostras ambientais – muitas envolvendo ralos de escoamento e esgotos – tinham o vírus.

“Não se sabe se o mercado foi uma fonte de contaminação, se atuou como um amplificador para a transmissão de pessoa para pessoa, ou se foi uma combinação entre esses dois fatores.”

por ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE

“Portanto, não se sabe se o mercado foi uma fonte de contaminação, se atuou como um amplificador para a transmissão de pessoa para pessoa, ou se foi uma combinação entre esses dois fatores”, escrevem os autores do relatório. O relatório também refere uma investigação feita na primavera que descobriu que 14% dos gatos domésticos e gatos de rua de Wuhan tinham testado positivo para o vírus. Nos Países Baixos e na Dinamarca, o coronavírus tem afetado as quintas de criação de visons, e estes mamíferos peludos também são criados em grande parte da China.

Por que razão as amostras ambientais acusaram positivo e os animais testaram negativo? Em janeiro, Ian Lipkin, da Universidade de Columbia, visitou a China para ajudar com os seus conhecimentos, e teve uma reunião com George Gao, chefe do CDC chinês. De acordo com os emails trocados por Ian Lipkin com a National Geographic, George Gao disse naquela altura que o mercado de marisco de Huanan tinha sido limpo e que os animais tinham sido retirados antes da recolha de amostras.

“Isto impede a recolha de amostras de sangue que podiam ser usadas para testar a existência de anticorpos, que iriam persistir mesmo que o vírus já não estivesse presente”, diz Ian. “Os testes de anticorpos têm uma vantagem graças à sua capacidade de detetar evidências de exposição, independentemente de o vírus ter sido eliminado.”

Ian acrescenta que, embora a investigação possa começar em Wuhan, provavelmente vai expandir-se por toda a província de Hubei, e Ian “não ficaria surpreendido se descobríssemos que o vírus já estava nos humanos antes do surto de Wuhan ter sido detetado em 2019”.

Wang coloca outro objetivo acima de tudo e diz que a solução passa pelos cientistas e funcionários chineses terem uma conversa aberta com a equipa da OMS. Wang acrescenta que “as investigações sobre a origem do vírus é tão politizada que qualquer conversa sobre estas missões é simbólica até que a parte política esteja resolvida”.

“O melhor passo”, diz Wang, “seria discutir a origem num ambiente completamente apolítico e com uma mente aberta, reconhecendo que os vírus relacionados com o SARS-CoV-2 provavelmente existem em morcegos fora da China”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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