Alga Vermelha de Peniche é Benéfica Para Tratamento do Cancro

Estudo recente de uma equipa de investigadores portugueses indica que a alga vermelha, existente na costa de Peniche, possui compostos eficazes no combate ao cancro.

Publicado 23/11/2020, 18:59 WET, Atualizado 24/11/2020, 12:21 WET
alga vermelha (Sphaerococcus coronopifolius)

Para o desenvolvimento desta investigação, os cientistas extraíram e isolaram os compostos de algas vermelhas do tipo Sphaerococcus coronopifolius, recolhidas na Reserva Natural das Berlengas e na costa de Peniche.

Fotografia de Joana Alves

De acordo com dados da OMS, o cancro é uma das dez principais ameaças à saúde humana e, apesar dos avanços biológicos e terapêuticos alcançados, continua a ser uma das principais causas de morte no mundo. É esperado que a sua incidência aumente nas próximas décadas, conduzindo à necessidade urgente do desenvolvimento de novos fármacos para o seu tratamento.

Graças ao sucesso de produtos naturais e dos seus derivados no tratamento do cancro, bem como à sua capacidade de mediar várias vias de sinalização e causar menos efeitos colaterais, existe um crescente interesse em entender o seu potencial como agente anticancerígeno.

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O potencial da alga vermelha

Uma equipa de investigadores composta por biólogos, bioquímicos, químicos e farmacêuticos, publicou um estudo, liderado pelo investigador Celso Alves, sobre uma alga vermelha (Sphaerococcus coronopifolius) existente na Reserva Natural das Berlengas, perto de Peniche. A alga não é exclusiva desta zona, pode ser encontrada ao longo de toda a costa portuguesa e tem uma vasta distribuição ao longo da costa Atlântica, desde a Irlanda até às Ilhas Canárias, assim como no Mediterrâneo e no Mar Negro.

Celso Alves explica que a investigação “surge na sequência de um trabalho inicial que consistiu na caracterização do potencial biotecnológico de 27 macroalgas existentes na costa de Peniche e na Reserva Natural das Berlengas. Entre todas as macroalgas testadas, a Sphaerococcus coronopifolius foi a que demonstrou maior atividade citotóxica em células tumorais”. A partir deste resultado, a equipa focou-se “em isolar os compostos responsáveis pelas atividades observadas, tendo sido possível isolar sete compostos, incluindo dois compostos novos descritos pela primeira vez, a partir do ambiente marinho". Numa segunda fase, foi avaliado o potencial antitumoral destes compostos em diferentes linhas celulares tumorais, de modo a compreender se teriam seletividade para algum tipo de tumor. Foi verificado que induziam uma atividade semelhante nos vários modelos celulares testados.

Os avanços na biologia do cancro mostraram que esta doença é mais complexa do que a simples proliferação contínua e descontrolada de células cancerosas, que é sustentada por vários fatores que contribuem para a resistência e recaída. Os resultados remetem para a importância do microambiente tumoral na modulação da resposta terapêutica, sendo este um estudo pioneiro na avaliação da capacidade dos compostos da alga vermelha em impactar a dinâmica das células-tronco de cancro do pulmão.

Celso Alves afirma que “um dos grandes desafios associados ao tratamento do cancro é o desenvolvimento de resistências, por parte das células tumorais, aos medicamentos utilizados. Esta realidade está diretamente relacionada com o facto de os tumores serem constituídos por diferentes tipos de células que podem responder de forma diferente ao regime terapêutico aplicado". Acrescenta ainda que "mais recentemente, os investigadores compreenderam que na estrutura dos tumores existe um grupo de células especiais, intituladas 'células estaminais cancerígenas', que possuem uma grande capacidade de resistir à quimioterapia”.

Segundo o investigador, estas células "aguardam" que as condições sejam favoráveis para que possam crescer novamente, tendo um perfil mais agressivo e a capacidade de originar diferentes tipos de células na estrutura do tumor. Devido a este comportamento, é recorrente observar uma total remissão do tumor em pacientes (numa primeira fase do tratamento). Contudo, passado algum tempo, este reaparece - geralmente "mais agressivo e resistente à terapêutica anteriormente utilizada”.

Tendo por base estas evidências, Celso Alves reconhece que ele e a sua equipa conseguiram “compreender que dois dos sete compostos estudados têm capacidade de afetar o crescimento deste tipo de células tumorais, com um perfil mais agressivo e capacidade de formar esferas, a concentrações que não são tóxicas para as células normais”.

Estes resultados abrem novas oportunidades de investigação para compreender detalhadamente o potencial dos compostos desta alga vermelha, amplamente distribuída na costa portuguesa, em afetar o crescimento deste grupo de células tumorais, contribuindo para o desenvolvimento de novos fármacos para tratamento de doenças oncológicas.

Os próximos passos

Agora a equipa de cientistas voltou a candidatar o projeto a novas fontes de financiamento, com o objetivo de “validar o potencial terapêutico destes compostos, em modelos celulares mais complexos, constituídos por diferentes tipos de células e que se aproximem mais dos sistemas biológicos, como o organismo do ser humano". Se os resultados obtidos forem promissores, poderá ser considerada a realização de ensaios in vivo em animais, de modo a realizar a prova de conceito. Além disso, também será avaliada "a capacidade destes compostos potenciarem a atividade de fármacos já utilizados na terapêutica do cancro”, afirma Celso Alves.

Os outros autores do estudo são Eurico Serrano, Carlos Rodrigues e Maria Alpoim, da Universidade de Coimbra, Luís Botana, da Universidade de Santiago de Compostela, Susete PinteusJoana Silva e Rui Pedrosa, do Instituto Politécnico de Leiria, e Helena Gaspar, da Universidade de Lisboa.

O estudo de investigação foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia através do projeto Red2Discovery, e pelo programa COMPETE 2020 através do projeto POINT4PAC.

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