Flechas com Até 6000 Anos Estão a Emergir do Degelo na Noruega

Esta descoberta recorde de 68 projéteis de períodos que vão desde o Neolítico até à era Viking, também muda a nossa perceção de como o gelo preserva e destrói achados arqueológicos.

Publicado 27/11/2020, 12:58
Um investigador examina a haste de madeira de uma flecha que emergiu na mancha de gelo ...

Um investigador examina a haste de madeira de uma flecha que emergiu na mancha de gelo Langfonne da Noruega. A datação por radiocarbono consegue determinar a idade de muitos dos objetos presos no gelo que agora está a derreter.

Fotografia de Glacier Archaeology Program, Innlandet County Council

Arqueólogos na Noruega descobriram dezenas de flechas – algumas remontando até há 6000 anos – numa mancha de gelo de 24 hectares que está a derreter nas montanhas altas do país.

As expedições para investigar a mancha de gelo Langfonne aconteceram em 2014 e 2016, anos com verões particularmente quentes, e também revelaram uma abundância de ossos e chifres de rena, sugerindo que os caçadores usaram esta mancha de gelo ao longo de milénios. A técnica de caça permaneceu a mesma, embora as armas que usavam tenham evoluído de pontas de flechas feitas de pedras e conchas de moluscos para pontas de ferro.

Agora, a equipa de investigação revelou as suas descobertas num artigo publicado no dia 25 de novembro na revista The Holocene. Na zona de gelo derretido, a equipa descobriu um recorde total de 68 flechas (completas, parciais e cinco pontas de flecha) – mais do que as recuperadas por arqueólogos em qualquer outro local congelado no mundo. Alguns dos projéteis datam do período Neolítico, enquanto que os achados “mais recentes” são do século XIV.

Uma vista de helicóptero da parte superior da mancha de gelo derretido de Langfonne. Os investigadores estimam que Langfonne tenha hoje metade do tamanho que tinha no final da década de 1990 – e um décimo da extensão que tinha durante a Pequena Idade do Gelo, época com uma descida nas temperaturas globais que durou entre o século XIV e meados do século XIX.

Fotografia de Glacier Archaeology Program, Innlandet County Council

O número de projéteis encontrados é impressionante, mas as descobertas de Langfonne também estão a questionar as teorias previamente aceites pela vertente relativamente recente da arqueologia de manchas de gelo, ao mesmo tempo que oferece novas pistas sobre o potencial que o gelo tem para preservar ou destruir evidências do passado ao longo de milhares de anos.

Máquina do tempo gelada?

Desde há cerca de 15 anos, quando os arqueólogos começaram a pesquisar sistematicamente locais de gelo derretido, as manchas de gelo desde a Noruega até à América do Norte têm produzido artefactos preservados quase na perfeição. Isoladamente, as descobertas individuais contêm informações sobre o artesanato e as antigas tradições de caça.

De facto, Langfonne foi uma das primeiras manchas de gelo a receber a atenção dos arqueólogos, depois de um caminhante local ter descoberto um sapato de couro com 3300 anos, perto da extremidade desta camada de gelo, no verão de 2006, e ter relatado o achado ao arqueólogo Lars Pilø, agora investigador do Departamento de Património Cultural do Condado de Innlandet e coautor do novo estudo.

Desde que esta descoberta despertou o interesse de Lars para a possibilidade de existirem artefactos preservados em manchas de gelo nas montanhas, investigadores na Noruega e noutros países – existem locais semelhantes em Yukon no Canadá, nas Montanhas Rochosas dos EUA e nos Alpes da Europa – interrogam-se sobre a forma como a distribuição dos objetos no gelo, e em torno do mesmo, lhes pode informar sobre quando e como é que as manchas de gelo foram usadas e como cresceram ao longo do tempo.

Ao contrário dos glaciares, que essencialmente são rios congelados em movimento lento, as manchas de gelo são depósitos fixos de neve e gelo que podem aumentar e diminuir com o tempo. Os investigadores presumiam que os locais como Langfonne se assemelhavam um pedaço de neve no final do inverno: conforme as temperaturas subiam, os artefactos presos no gelo derretiam nos locais onde tinham sido depositados.

Esquerda: A haste de uma flecha da era Viking encontrada em Langfonne apresenta uma ponta de ferro preservada com amarrações de casca de bétula.
Direita: Outra flecha da era Viking encontrada em Langfonne também apresenta uma ponta de ferro com amarrações de casca de bétula.

Fotografia de MUSEU DE HISTÓRIA CULTURAL /UNIVERSIDADE DE OSLO

“A ideia era a de que o gelo funcionava como uma máquina do tempo. Tudo o que ficava lá preso, não saía de lá e estava protegido”, diz Lars.

Isto significava que os itens mais antigos seriam encontrados nos núcleos mais profundos das manchas de gelo, da mesma forma que os arqueólogos que trabalham com artefactos enterrados no solo presumem que as camadas inferiores de terra contêm os artefactos mais antigos. Como se pensava que as manchas de gelo cresciam de forma constante com a queda de neve a cada inverno, as descobertas mais recentes estariam mais perto da superfície da mancha.

Os arqueólogos presumiam que, se as manchas de gelo congelavam os artefactos exatamente onde tinham ficado, estes itens poderiam ajudar a reconstruir o que as pessoas faziam antigamente nestas regiões, o tamanho das manchas de gelo em pontos específicos da pré-história e a rapidez com que cresceram e diminuíram ao longo do tempo.

As flechas de Langfonne pareciam uma boa forma para testar esta teoria da máquina do tempo.

As flechas e os ossos de rena confirmaram as suspeitas iniciais de que as manchas de gelo nas montanhas altas da Noruega eram pontos importantes para a caça de renas: quando estas criaturas se retiravam para o gelo durante os meses de verão, para evitarem picadas de insetos, os caçadores perseguiam-nas com arcos, flechas e facas de caça.

Mas depois de fazerem a datação por radiocarbono de todas as flechas e de dezenas de outros restos mortais de renas que encontraram no gelo, os investigadores perceberam que, pelo menos em Langfonne, a teoria da máquina do tempo não era fidedigna. Os investigadores esperavam que os itens mais antigos ficassem presos e preservados no mesmo sítio onde tinham caído, assim como os artefactos enterrados no gelo nos séculos seguintes. Mas em Langfonne, os artefactos mais antigos, que datam do Neolítico, estavam fragmentados e fortemente desgastados pelo tempo, como se tivessem sido queimados pelo gelo, ou expostos ao sol e ao vento durante anos.

As flechas de períodos posteriores, como uma flecha com 1500 anos que tinha uma ponta feita de uma concha afiada de mexilhão, concha que foi apanhada num rio a pelo menos 80 quilómetros de distância, pareciam ter sido disparadas ontem. “Isto levantou a suspeita de que algo tinha acontecido dentro do gelo” que expôs e congelou novamente os itens mais antigos, diz Lars.

As flechas nem sequer pareciam estar a emergir com uma ordem em particular, como seria de esperar caso o gelo formasse camadas perfeitas ao longo do tempo. Flechas com milhares de anos de diferença não estavam muito longe umas das outras ao longo da extremidade do gelo. “A ideia de que encontramos as evidências mais antigas quando a mancha de gelo está mais pequena – isso não é verdade”, diz  Rachel Reckin, arqueóloga dos Parques Estaduais do Montana, que não integrou a equipa de investigação. “Parece que a gravidade e a água estão a fazer com que os artefactos desçam bastante.”

Atle Nesje, coautor do artigo e glaciologista da Universidade de Bergen, diz que há milhares de anos atrás, os verões quentes provavelmente expuseram os artefactos mais antigos, que foram levados para a extremidade da mancha de gelo por fluxos de água derretida, antes de congelarem novamente. O peso do gelo a pressionar contra as camadas inferiores pode ter feito com que os objetos se movessem, carregando consigo o conteúdo congelado. Ou as hastes leves de madeira das flechas podem ter sido sopradas ao longo da superfície por ventos fortes, antes de se alojarem nas rochas ou serem novamente cobertas pela neve. Enquanto isso, as flechas perdidas mais recentemente na neve podem ter permanecido no mesmo lugar.

Como as flechas antigas podem ser arrastadas pela água do degelo e depois congelar novamente, o local onde foram encontradas pode estar muito longe de onde estavam originalmente. Isto significava que usar as flechas datadas por radiocarbono para mapear o tamanho da mancha de gelo no passado não era um processo adequado. “Os glaciologistas e arqueólogos de manchas de gelo esperavam que os artefactos nos pudessem dar uma ideia do tamanho das manchas ao longo do tempo, mas não é esse o caso”, diz Rachel Reckin.

Carcajus e Vikings

Os investigadores ficaram agradavelmente surpreendidos porque as flechas de Langfonne, depois de datadas, podiam oferecer pistas úteis sobre a forma como as pessoas usaram a mancha de gelo ao longo do tempo. Por exemplo, a equipa descobriu muitos ossos de rena de determinados períodos, mas muito poucas flechas desses períodos. Isto sugere que as pessoas não estavam a caçar no gelo; em vez disso, as renas provavelmente estavam a ser mortas por carcajus, que costumam enterrar as carcaças das suas vítimas na neve para comerem mais tarde.

Entre os anos 600 e 1300 – aproximadamente a era Viking – a datação por radiocarbono revelou um tipo diferente de atividade na área de Langfonne. “Há muitos achados de flechas, mas quase não há restos mortais de renas”, diz Lars Pilø. “Isto não é uma coincidência.” Os humanos trabalhavam arduamente para remover as renas mortas do gelo, colhendo as suas peles e chifres para vender como mercadoria.

A rápida alteração na compreensão do gelo e dos segredos que encerra corresponde à velocidade com que o gelo está a desaparecer. “Tenho estudado os glaciares noruegueses nos últimos 40 anos. É muita mudança”, diz Atle Nesje. “É bastante assustador ver o quão depressa as manchas de gelo podem derreter de um dia para o outro.”

Com base no crescimento de líquen nas rochas em torno da mancha de gelo, Atle Nesje estima que Langfonne tenha hoje metade do tamanho que tinha no final da década de 1990 – e um décimo da extensão que tinha durante a Pequena Idade do Gelo, época com uma descida nas temperaturas globais que durou entre o século XIV e meados do século XIX.

O degelo constante significa que os arqueólogos precisam de agir rapidamente, preservando o máximo de informações possível. “O tempo é crucial, e estamos a tentar fazer um bom trabalho científico enquanto fazemos o melhor possível com os dados que temos”, diz Rachel Reckin. “Cada peça deste quebra-cabeças que nos possa ajudar a compreender a complexidade destes processos é muito útil.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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