Fóssil de "Dinossauros em Duelo", Escondido da Ciência por 14 Anos, Pode Finalmente Revelar os Seus Segredos

Um espécime preservado de forma primorosa de um T. rex e um Triceratops, emaranhados como se tivessem morrido em combate, foi adquirido por um museu na Carolina do Norte depois de ter passado mais de uma década em mãos privadas.

Publicado 23/11/2020, 16:53 WET
Em 2006, caçadores comerciais de fósseis encontraram o fóssil notável de um tiranossauro quase completo, juntamente ...

Em 2006, caçadores comerciais de fósseis encontraram o fóssil notável de um tiranossauro quase completo, juntamente com os ossos de um Triceratops. Agora, um museu na Carolina do Norte adquiriu este exemplar pré-histórico, permitindo aos cientistas começar a estudar o fóssil pela primeira vez.

Fotografia de Matt Zeher

Durante mais de uma década, os paleontólogos especularam sobre um fóssil único que preserva os esqueletos de dois dos dinossauros mais famosos do mundo, o Tyrannosaurus rex e o Triceratops. Não só os ossos estão dispostos como eram em vida, como os dinossauros estão praticamente entrelaçados.

Cada espécime está entre os melhores do seu tipo alguma vez encontrados. Juntos – apelidados de “Dinossauros em Duelo” – representam um mistério paleontológico: Será que os animais foram sepultados juntos por acaso, como se as suas carcaças tivessem sido apanhadas no mesmo banco de areia no rio? Ou será que estavam envolvidos num combate mortal? Ninguém conseguiu estudar o fóssil para descobrir.

O fóssil “Dinossauros em Duelo” pode representar um combate mortal entre um Triceratops e um T. rex juvenil, mostrado nesta reconstrução artística da região de Montana na pré-história.

Fotografia de ANTHONY HUTCHINGS (ILUSTRAÇÃO)

Mas isso está prestes a mudar. Depois de anos de batalhas legais que deixaram o fóssil trancado em laboratórios e armazéns, a famosa descoberta está a caminho do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte (NCMNS), em Raleigh. Graças ao financiamento de doadores, incluindo o apoio de fundações privadas e de governos municipais e estaduais, a organização sem fins lucrativos Amigos do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte vai comprar os “Dinossauros em Duelo” em nome do museu por uma quantia não revelada.

O fóssil vai ficar numa secção nova do museu, que inclui um laboratório de paleontologia de última geração, que será inaugurada em 2022. “Os ‘Dinossauros em Duelo’ são realmente uma joia que está escondida há mais de uma década”, diz Lindsay Zanno, paleontóloga da Universidade Estadual da Carolina do Norte e diretora de paleontologia do NCMNS.

Os paleontólogos receberam com alegria a notícia de que o fóssil tinha encontrado um lar permanente. “Haverá literalmente milhares de estudos feitos sobre estes fósseis”, diz Tyler Lyson, paleontólogo do Museu de Ciências Naturais de Denver.

“Vai ser um espécime muito icónico”, acrescenta o paleontólogo Kirk Johnson, diretor do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian.

14 anos nas sombras

A história da descoberta dos “Dinossauros em Duelo” e da sua longa jornada até ao NCMNS é tão dramática quanto o próprio fóssil.

Enquanto o sol se punha no Condado de Garfield, no Montana, no verão de 2006, um caçador de fósseis chamado Clayton Phipps fez a descoberta da sua vida. Clayton e a sua equipa estavam a pesquisar um rancho no Montana, propriedade de Lige e Mary Ann Murray, quando o primo de Clayton, Chad O'Connor, encontrou um rasto de pedaços de ossos que levava até à pélvis de um Triceratops numa encosta. Meses de escavações intermitentes acabaram por revelar que o fóssil de tons acastanhados consistia num Triceratops em grande parte completo – e um tiranossauro.

Depois de a equipa de Clayton ter protegido o fóssil com gesso e serapilheira e o retirar do rancho da família Murray, o fóssil passou anos armazenado num laboratório particular em Fort Peck, no Montana. Clayton e a família Murray tentaram convencer um museu a comprar o fóssil, mas não conseguiram encontrar compradores. Clayton diz que alguns paleontólogos questionaram a forma como ele tinha escavado e catalogado o local.

Nos EUA, os fósseis encontrados em terras federais devem ficar em repositórios licenciados, como por exemplo em museus credenciados. Mas os fósseis encontrados em terras privadas, como os “Dinossauros em Duelo”, podem ser legalmente vendidos e comprados.

Em 2013, a casa de leilões Bonhams, sediada em Londres, convenceu Clayton e a família Murray a tentar leiloar o fóssil. Apesar dos sentimentos contraditórios em abdicar do controlo sobre a identidade do comprador, Clayton e os Murray tinham prejuízos significativos para recuperar e concordaram. Mas a venda fracassou, com os lances a falharem o preço mínimo de 6 milhões de dólares. Os “Dinossauros em Duelo” deixaram a casa de leilões em Nova Iorque e ficaram num armazém em Long Island.

Anos mais tarde, Lindsay Zanno entrou em contacto com Clayton através do seu amigo de confiança, Pete Larson, presidente do Instituto Black Hills, uma empresa comercial de paleontologia de Dakota do Sul, para perguntar sobre uma possível venda dos “Dinossauros em Duelo” ao NCMNS. Em fevereiro de 2016, Lindsay e uma equipa de funcionários do museu visitaram o armazém em Long Island, um momento que Lindsay descreve como inspirador.

“É impossível olhar para estes espécimes sem os imaginar vivos ao pé de nós”, diz Lindsay. “Conseguimos vê-los facilmente como eram em vida.”

As negociações correram bem, mas antes de os dinossauros poderem ir para o museu, tiveram de ultrapassar vários anos de batalhas árduas nos tribunais dos EUA.

No leilão de 2013, os Murray ouviram dizer que os irmãos Jerry e Robert Severson, seus antigos sócios de negócios no rancho, estavam a pensar abrir um processo judicial contra eles, diz Mary Ann Murray. Quando os Murray compraram a participação dos terrenos aos Severson em 2005, os irmãos Severson mantiveram dois terços dos direitos minerais subjacentes à terra. Os Severson argumentaram que os seus direitos minerais lhes conferiam uma participação sobre os “Dinossauros em Duelo” – dois dos melhores espécimes alguma vez encontrados no Montana – e sobre quaisquer lucros resultantes da sua venda.

Durante mais de um século, existiu sempre o pressuposto de que os fósseis encontrados no Montana pertenciam aos proprietários dos terrenos, e não a quem detinha os direitos sobre os minerais. Portanto, os Murray foram antecipadamente a um tribunal no estado do Montana para obter a validação de que os fósseis não eram minerais.

Os Severson, que viviam fora do estado, moveram o caso para um tribunal distrital federal, que decidiu a favor dos Murray em 2016. Os Severson apelaram. Para surpresa de Clayton Phipps, Pete Larson e dos Murray, o Nono Circuito do Tribunal de Recurso dos EUA decidiu a favor dos Severson em 2018, dando-lhes a propriedade maioritária dos “Dinossauros em Duelo”.

Os paleontólogos encararam esta decisão como uma catástrofe. Equiparar os fósseis a minerais não só ameaçava acabar com as reivindicações seculares sobre a propriedade de fósseis, como os direitos minerais de uma determinada propriedade costumam ser tão fragmentados que obter permissão para futuras escavações em terras privadas seria praticamente impossível. Numa aliança de conveniência, a Sociedade de Paleontologia de Vertebrados, com 2000 membros, e um consórcio de museus juntaram-se a um grupo de proprietários de terras no Montana para apresentar uma petição em nome dos Murray.

Estes grupos nem sempre concordam sobre o comércio privado de fósseis nos Estados Unidos, pelo que esta mobilização em torno de um processo judicial “foi uma aliança rara”, diz David Evans, responsável pelo departamento de paleontologia de vertebrados do Museu Real de Ontário.

Clayton Phipps e os Murray também instaram as autoridades estaduais do Montana a aprovar uma lei que confirmasse que os direitos sobre os fósseis pertenciam aos proprietários dos terrenos. O projeto de lei foi aprovado por unanimidade em 2019, mas a nova lei não se aplicava aos “Dinossauros em Duelo” devido ao litígio federal que ainda estava decorrer.

Em 2019, o Nono Circuito concordou em ouvir novamente o caso em recurso e pediu ao Supremo Tribunal do Montana para avaliar se os fósseis eram minerais. Em maio de 2020, o tribunal estadual decidiu que não eram minerais. Em junho, o Nono Circuito concordou, afirmando que os Murray eram os proprietários dos “Dinossauros em Duelo” e que tinham o direito de os vender, abrindo caminho para a aquisição do NCMNS.

“Parece que esperei uma eternidade por isto”, diz Clayton Phipps, que agora participa em Dino Hunters, um reality show do Discovery Channel. “Eu não podia estar mais feliz com o lugar para onde os fósseis vão.”

A controvérsia em torno das vendas privadas de fósseis

Nem todos os fósseis privados, como os “Dinossauros em Duelo”, acabam em museus públicos. Para muitos cientistas, a notícia da compra do NCMNS foi bem-vinda por contrastar com a venda de Stan em outubro, um T. rex famoso e cientificamente importante que foi desenterrado por Pete Larson e pelo Instituto Black Hills. Uma ordem judicial forçou o instituto a leiloar o fóssil para liquidar os ativos de um acionista da empresa, e um comprador anónimo – muito provavelmente um colecionador privado – comprou o dinossauro por 31.8 milhões de dólares.

Os paleontólogos ficaram indignados com o montante exorbitante, preocupados que a relação dos cientistas com os proprietários de terrenos nos EUA pudesse azedar e que a procura ilegal de fósseis aumentasse a nível global. Por outro lado, David Evans diz que o que aconteceu com os “Dinossauros em Duelo” são notícias verdadeiramente fantásticas para a paleontologia, sobretudo devido ao que aconteceu recentemente com o leilão de Stan.

Mas nem todos os cientistas estão satisfeitos. Thomas Carr, especialista em tiranossauros e paleontólogo da Faculdade Carthage em Kenosha, no Wisconsin, defende acerrimamente a proibição da venda comercial de fósseis nos EUA. Thomas está preocupado porque a compra dos “Dinossauros em Duelo” pode legitimar e apoiar o que ele diz ser um comércio sem ética de fósseis insubstituíveis.

“É bom que estes espécimes tenham acabado nas mãos de um museu verdadeiro e que não tenham desaparecido como aconteceu com Stan, mas por outro lado, qual foi o preço?”, pergunta Thomas Carr. “Esta [venda] abre a questão de saber se os cientistas e os museus se tornaram escravos do comércio de fósseis.”

Thomas estima que mais de 40 fósseis de T. rex – cerca de metade de todos os fósseis conhecidos – estão em mãos privadas ou comerciais e permanecem fora do alcance da ciência.

Duelo pré-histórico?

Agora que Lindsay Zanno e a sua equipa podem estudar os “Dinossauros em Duelo”, os anos de trabalho científico podem começar – incluindo uma análise para saber se os animais morreram realmente durante um confronto mortal.

Já foram encontrados outros fósseis que capturam um momento de luta entre predador e presa. Em 1971, paleontólogos polacos e mongóis encontraram um Velociraptor e um Protoceratops, um dos parentes primordiais do Triceratops, que ficaram sepultados após o colapso de uma duna de areia. Para determinar o que aconteceu aos dinossauros de Montana, os investigadores precisam de descobrir exatamente como – e quando – é que cada dinossauro foi sepultado, e se cada um tem os sinais inconfundíveis de lesões infligidas pelo outro, como marcas de dentadas.

Lindsay e a sua equipa obtiveram permissão para visitar o local original da escavação, algo que pode ajudar a perceber como é que o fóssil se formou. “Se não pudéssemos ir ao local onde os espécimes foram descobertos e recolhermos por nós próprios os dados, os espécimes seriam muito menos valiosos do ponto de vista científico”, diz Lindsay.

Independentemente de os dinossauros terem lutado ou não em vida, o fóssil apresenta uma oportunidade única para se estudar os espécimes espetacularmente bem preservados de ambos os animais.

O tiranossauro, por exemplo, vai ajudar a perceber como é que o T. rex passava de cria a predador gigantesco. A maioria dos especialistas acredita que este tiranossauro é um T. rex juvenil, podendo ser um dos poucos fósseis deste tipo, e de longe o mais completo. Por outro lado, Clayton afirma que o fóssil é na realidade um Nanotyrannus, uma espécie controversa de tiranossauro pigmeu que a maioria dos especialistas acredita ser um jovem T. rex.

“Para mim, a grande questão subjacente é conhecer a diversidade de dinossauros até ao momento da sua extinção – creio que isso é o mais importante”, diz Tyler Lyson, do Museu de Ciências Naturais de Denver. “Será que existia um grande tiranossauro, ou será que existiam dois?”

Há mais segredos escondidos dentro da rocha em torno dos ossos, que contém impressões da pele dos dinossauros e halos de resíduos que se podem ter formado consoante os tecidos moles dos animais se degradaram. Graças aos avanços feitos recentemente na paleontologia, os futuros cientistas também podem encontrar conteúdos estomacais, ou até mesmo vestígios das proteínas originais dos dinossauros na rocha. “Expor os ossos sem destruir a pele vai ser um trabalho muito complexo”, diz Kirk Johnson.

Clayton Phipps, por seu lado, está aliviado porque os cientistas vão finalmente ter a oportunidade de ver o fóssil – e já mal pode esperar por uma futura viagem à Carolina do Norte.

“Quero levar os meus netos lá um dia e dizer que foi o avô que encontrou aqueles dinossauros”, diz Clayton. “As pessoas vão poder vê-los para sempre. Isto é o que eu sempre desejei.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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