Há 400 Anos, os Visitantes Desta Caverna de Arte Rupestre Tomavam Alucinogénios

Na ‘Caverna Cata-vento’ da Califórnia, as pessoas deixaram literalmente evidências do seu estado alterado nas paredes – a primeira evidência física do consumo de alucinogénios num local de arte rupestre.

Publicado 25/11/2020, 16:55 WET
Jon Picciuolo, membro da equipa de investigação, documenta os pedaços de matéria vegetal mastigada que foram ...

Jon Picciuolo, membro da equipa de investigação, documenta os pedaços de matéria vegetal mastigada que foram colocados há séculos atrás nas fendas das paredes da ‘Caverna Cata-vento’, no sul da Califórnia. À esquerda na imagem, podemos ver o cata-vento pintado que dá o nome à caverna.

Fotografia de Devlin Gandy

Há décadas que os investigadores debatem a relação entre alucinogénios e arte rupestre. As culturas antigas do mundo inteiro deixaram um legado intrigante de imagens abstratas, até mesmo de aparência psicadélica, em penhascos e paredes de cavernas, mas os investigadores da atualidade debatem a motivação responsável pela criação destas obras de arte.

Até agora, não havia evidências físicas do uso de alucinogénios em locais de arte rupestre. Mas uma descoberta surpreendente no sul da Califórnia fornece agora provas de que, há vários séculos, pelo menos algumas pessoas passaram por este local num estado de consciência alterado.

Num estudo publicado no dia 23 de novembro na Proceedings of the National Academy of Sciences, uma equipa de investigação internacional informa que foram encontrados pedaços mastigados de datura com 400 anos, uma planta com fortes propriedades psicoativas, nas fendas do teto de uma caverna considerada sagrada. Localizada perto dos limites do território tradicional do povo Chumash, a caverna foi apelidada de “Caverna Cata-vento” em homenagem à pintura vermelha em forma de redemoinho que existe no seu teto curvo. Os investigadores acreditam que esta obra de arte pode representar uma flor de datura, que se desdobra em forma de cata-vento ao anoitecer, e que o local pode ter servido para cerimónias em grupo onde a datura era consumida.

A arte distinta da ‘Caverna Cata-vento’, que alguns investigadores argumentam representar uma flor de datura, foi criada com pigmento de ocre vermelho que desbotou com o passar do tempo. A pintura está mais detalhada na imagem à direita com a utilização de uma ferramenta chamada DStretch.

Fotografia de DEVLIN GANDY

“São as primeiras evidências da ingestão de um alucinogénio num local de arte rupestre – as evidências estão literalmente nas paredes”, diz Carolyn Boyd, arqueóloga da Universidade Estadual do Texas, que não participou na nova investigação, mas que se especializou em arte rupestre nativa americana.

Sagrada e perigosa

A Caverna Cata-vento é um de vários locais de arte rupestre da Reserva Wind Wolves, que abrange 37.000 hectares a sul de Bakersfield, e é propriedade da The Wildlands Conservancy, uma organização sem fins lucrativos fundada em 1995. Dentro da caverna existem algumas manchas vermelhas abstratas; a pintura do cata-vento, registada pela primeira vez por arqueólogos em 2002, é a obra de arte mais distinta. A imagem está localizada numa secção inclinada do teto baixo, a cerca de um metro do chão. Durante o solstício de verão, um feixe de luz solar atravessa esta pintura.

O arqueólogo David Robinson, líder do novo estudo, investiga e documenta arte rupestre na Califórnia há duas décadas; David e os seus colegas começaram a trabalhar na Caverna Cata-vento em 2007. Através de pequenas escavações e datação por radiocarbono, descobriram que o local tinha sido ocupado entre 1530 a.C. e 1890 d.C. Os arqueólogos descobriram que mais de 50 pequenas fendas no teto estavam cheias com pedaços de fibras vegetais mastigadas. Estes pedaços, geralmente de plantas como iúca e agave que eram mastigadas para extrair nutrição, são um achado comum nos sítios arqueológicos no sudoeste dos EUA.

Os investigadores recolheram inicialmente uma amostra na esperança de encontrar vestígios de ADN humano antigo. Embora essas análises não tenham conseguido fornecer evidências genéticas úteis, os testes subsequentes, feitos em 15 pedaços, revelaram que continham escopolamina e atropina, alcaloides alucinogénios que se encontram na datura. As imagens microscópicas captadas com um microscópio eletrónico de varredura confirmaram que a maioria dos pedaços continha matéria vegetal da espécie Datura wrightii. As análises tridimensionais feitas posteriormente mostraram que estas fibras tinham padrões consistentes com mastigação.

A datura, que pode ser mortal em dosagens elevadas e cuja potência é muitas vezes difícil de prever, é muito perigosa. Mas a planta também pode ser classificada como uma substância psicoativa que era usada para fins espirituais, na mesma categoria da ayahuasca e do peiote. Na cosmologia do povo Chumash, que historicamente consumia esta planta durante as cerimónias de iniciação e para visões xamãs, a datura estava numa categoria especial de plantas que eram encaradas como familiares; foi personificada como uma mulher idosa chamada Momoy, diz David Robinson.

A flor Datura wrightii abre-se num padrão em espiral durante a noite. Muitos investigadores suspeitam que o cata-vento retratado na caverna pode representar uma flor de datura a desabrochar.

Fotografia de Elliot Schultz, Alamy Stock Photo

“A datura é muito mais do que um alucinogénio”, acrescenta Devlin Gandy, coautor do estudo que recebeu uma bolsa Jovens Exploradores da National Geographic em 2014 para estudar arte rupestre Chumash. “É um ser sagrado que faz parte das orações, utilizado tanto para purificar como para curar.”

As cerimónias com datura, tal como muitas das tradições religiosas nativas americanas, foram suprimidas devido às décadas de políticas dos EUA de assimilação forçada e de deslocamento de terras ancestrais. Muitas das práticas rituais indígenas foram explicitamente proibidas até ao século XX.

“Historicamente, perdemos muito”, diz Sandra Hernandez, porta-voz da tribo Tejon, que tem ligações com o povo Chumash e foi consultada durante as investigações na caverna. A tribo só recuperou o reconhecimento federal em 2012 e, embora a datura ainda seja considerada uma planta culturalmente importante, os membros vivos da tribo descontinuaram o seu uso em rituais.

Sandra Hernandez salienta que os arquivos da tribo contêm registos que descrevem uma cerimónia em que a datura era consumida três vezes ao longo de alguns dias. Sandra diz que, quando reflete sobre este caso, fica sempre impressionada com o conhecimento e a experiência necessários para conseguir ingerir tanta quantidade em segurança e num curto espaço de tempo.

“Às vezes, fico sem palavras para conseguir definir a sensação de saber como os nossos antepassados eram inteligentes”, diz Sandra. “Não consigo contornar isso. Conhecíamos as coisas porque comunicávamos com os criadores e com a natureza.”

Arco-íris durante uma tempestade, no final da primavera, nas montanhas de San Emigdio, na Califórnia, uma região de ecologia e geologia diversa onde está localizada a Caverna Cata-vento.

Fotografia de Devlin Gandy

O que significa a arte?

Pode ser impossível determinar por que razão e em que condições a pintura do cata-vento foi criada. Mas os autores do novo estudo acreditam que as evidências arqueológicas dentro da caverna podem oferecer pistas sobre o contexto em que esta arte foi vivenciada.

“Existe uma teoria de que a arte rupestre na Califórnia era frequentemente feita por xamãs em retiros privados”, diz David Robinson. As pinturas representavam assim as visões psicadélicas que estes xamãs, que tipicamente eram homens, recebiam durante o seu transe e, como resultado, estes locais de arte rupestre tornaram-se lugares sobrenaturalmente poderosos que deviam ser evitados pelo resto da tribo.

Esta teoria costuma derivar do facto de a arte “parecer tão surrealista que deve ter sido feita por alguém que estava alterado”, diz Devlin Gandy. “Enquanto nativo e arqueólogo, acho que é possível que alguma da arte rupestre seja fruto de alucinogénios, mas acho que essa teoria é demasiado exagerada.”

Os investigadores não acham que as evidências deste local sugiram que foi consumida datura para criar as pinturas. Em vez disso, interpretam a pintura da Caverna Cata-vento como uma representação de uma planta datura, servindo como um sinal que diz: “Este é o local para se tomar datura”. Os investigadores interpretam uma figura vermelha, que está perto desta imagem, como sendo um inseto – possivelmente uma traça-falcão, conhecida por ficar intoxicada com o néctar de datura – talvez representada na caverna como um substituto simbólico para quem ingeria datura.

David Robinson acredita que a densidade dos pedaços de datura mastigados, bem como o número de outras ferramentas e artefactos encontrados no chão da caverna diretamente por baixo da pintura, sugerem que este lugar era usado comunitariamente, e não apenas por um só xamã. As fontes etnográficas indicam que um chá chamado toloache, feito da raiz de datura amassada, era consumido durante os rituais de iniciação de adolescentes por grupos indígenas da região, pelo que os pedaços de datura podem representar uma forma não registada de tomar a substância durante uma iniciação, ou numa cerimónia de grupo separada, em preparação para uma atividade como uma expedição de caça.

Carolyn Boyd, a investigadora de arte rupestre que não participou no estudo, concorda que a imagem do cata-vento representa uma flor de datura real. “Posto isto, suspeito que a imagem corresponde simultaneamente a fenómenos visuais sentidos durante um estado alterado de consciência, o que reforçou ainda mais a importância do desenho para quem visitou o local e ingeriu a poderosa planta”, acrescenta Carolyn.

Para Sandra Hernandez, visitar atualmente a caverna e olhar para as pinturas é “uma experiência completamente individual”. Sandra diz que, quando olha para o cata-vento, vê uma flor de datura, mas salienta que os membros da sua família nem sempre concordam com esta interpretação. Sandra está aberta a várias interpretações que sugerem que o local era um lugar para indivíduos que procuravam orientação espiritual, ou para grupos que participavam numa cerimónia comunitária. Independentemente disso, a caverna serve como uma forma para a tribo aprender sobre o seu passado.

“Existem índios por todo o estado da Califórnia que têm lugares como este, lugares com muito para oferecer em termos de conhecimento ecológico”, diz Sandra. “Ainda está tudo à nossa volta, esperando que nós, enquanto tribos, aprendamos estas coisas sobre os nossos antepassados.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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