Lançamento da SpaceX Assinala Arranque de Voos Comerciais Regulares em Órbita

Com a missão Crew-1 a caminho da Estação Espacial Internacional, os EUA recuperam, após nove anos, a capacidade de enviar astronautas em missões de rotina para o espaço.

Wednesday, November 18, 2020
Por Nadia Drake
Esta imagem de longa exposição mostra o rasto deixado pelo foguetão Falcon 9, que transporta a ...

Esta imagem de longa exposição mostra o rasto deixado pelo foguetão Falcon 9, que transporta a missão Crew-1, no momento em que levanta voo da plataforma de lançamento no Centro Espacial Kennedy da NASA, na Flórida.

Fotografia de Michael Seeley, National Geographic

No dia 15 de novembro, pouco antes das 19:30 no horário da costa leste dos EUA (00:30 em Lisboa), um foguetão SpaceX Falcon 9 rasgou o céu noturno sobre Cabo Canaveral, na Flórida, transportando quatro astronautas para a Estação Espacial Internacional (EEI). O foguetão iluminou a escuridão e desapareceu de vista. Doze minutos depois, a cápsula Dragon desacoplou-se do nariz do foguetão e começou uma jornada de 27 horas e meia até à estação espacial.

“Foi uma viagem tremenda”, disse Mike Hopkins, comandante da missão, depois de a Dragon ter entrado em órbita.

Este lançamento marca a primeira viagem operacional em órbita para a nave Crew Dragon da SpaceX, nave que a NASA certificou para voar depois de uma missão de teste bem-sucedida ter transportado dois astronautas para a EEI em maio. Denominada Crew-1, a missão vai manter os astronautas a bordo da EEI durante seis meses. Em maio de 2021, a Crew Dragon irá regressar à Terra com uma amaragem de paraquedas ao largo da costa da Flórida.

Os membros da tripulação da missão Crew-1, o comandante Mike Hopkins (frente, centro), Victor Glover (esquerda), Shannon Walker (atrás, centro) e o astronauta japonês Soichi Noguchi (direita), partem para a plataforma de lançamento para a primeira missão operacional de uma tripulação comercial da NASA, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, no dia 15 de novembro de 2020.

Fotografia de Gregg Newton, AFP via Getty Images

“Este é outro momento histórico”, disse Jim Bridenstine, administrador da NASA, em conferência de imprensa antes do lançamento. “Estamos a lançar quatro astronautas... para fazer um trabalho bastante real e sério em nome do povo americano e em nome da humanidade em geral.”

A missão Crew-1 foi adiada durante várias semanas, depois de um problema nos motores ter obrigado ao cancelamento de uma tentativa de lançamento da Falcon 9 em outubro, uma missão que transportava um satélite de GPS da Força Espacial dos EUA. As equipas que analisaram o problema descobriram que as portas de ventilação dos motores do foguetão estavam entupidas, abortando automaticamente o lançamento ao último segundo, mas o satélite foi lançado com sucesso no início deste mês, após os motores afetados terem sido substituídos. Dois motores do foguetão Crew-1 que apresentavam o mesmo problema também foram substituídos.

Com este lançamento, a Crew-1 assinala uma série de eventos sem precedentes: é o primeiro voo espacial de longa duração lançado dos Estados Unidos em nove anos, e o primeiro voo humano operacional da NASA após quase uma década a depender da nave russa Soyuz para colocar astronautas em órbita. O piloto da missão, Victor Glover, é o primeiro astronauta negro a embarcar numa estadia prolongada em órbita, e a engenheira de voo, Shannon Walker, é a primeira mulher a voar para órbita a bordo de uma nave comercial.

“Espero ser a primeira de muitas”, diz Shannon sobre o seu voo. “E estou ansiosa pelo dia em que não teremos de assinalar estes eventos.”

“É algo que deve ser celebrado quando o alcançamos”, acrescenta Victor. “Estou honrado por estar nesta posição.”

Tripulação animada
A NASA escolheu Mike Hopkins para comandar a histórica missão Crew-1, um astronauta veterano que voou até à EEI numa nave russa Soyuz em 2013. Apesar de Victor Glover ser um piloto novato em voos espaciais, também é veterano de combate e piloto de testes da Marinha. “Este pode ser o seu primeiro voo, mas se alguém estivesse a observar de fora, nunca iria perceber”, diz Mike sobre Victor.

“É ótimo ser o novato, porque sei que lhes posso perguntar qualquer coisa e que vou receber três opiniões verdadeiramente excelentes”, diz Victor. Porém, de forma quase irónica, o apelido de Victor é Ike, ou IKE, uma sigla para “I Know Everything” – “Eu Sei Tudo”.

Um foguetão SpaceX Falcon 9 com a cápsula Crew Dragon, na instalação de integração horizontal do Complexo de Lançamento 39A, durante os preparativos para a missão Crew-1, na segunda-feira dia 9 de novembro de 2020 no Centro Espacial Kennedy da NASA, na Flórida.

Fotografia de Joel Kowsky, NASA

“É um lembrete para manter sempre a boca fechada, e vou começar agora”, disse Victor sobre o seu apelido durante uma conferência de imprensa feita em outubro.

A tripulação inclui a astronauta da NASA Shannon Walker, que voou numa missão Soyuz até à EEI em 2010, e Soichi Noguchi, da Agência de Exploração Aeroespacial Japonesa, que voou a bordo do vaivém espacial da NASA e da nave Soyuz.

Na EEI, a tripulação reúne-se com a astronauta da NASA Kate Rubins e com os cosmonautas russos Sergei Ryzhikov e Sergei Kud-Sverchkov, que chegaram à estação espacial em outubro.

Com tantas pessoas em órbita, o habitáculo vai ser apertado – a estação espacial só tem dormitórios para seis membros da tripulação, pelo que Mike Hopkins se ofereceu para dormir num local improvisado. Isto pode significar dormitar na cápsula Dragon, que está acoplada à EEI, cápsula que a tripulação batizou de Resiliência em homenagem às equipas da SpaceX e da NASA que conseguiram preparar a missão para o lançamento enquanto enfrentam a pandemia de COVID-19.

“Muitas vezes, nos tempos do vaivém espacial, o comandante costumava dormir na cabine do piloto”, diz Mike. “Se algum de nós tinha de dormir lá, eu sentia que devia ser eu.”

Soichi Noguchi é o astronauta mais experiente da Crew-1, tendo registado 177 dias no espaço em duas missões, incluindo o primeiro voo da NASA após o acidente de 2003 do vaivém Columbia. Soichi tem um sentido de humor seco e diz que aquilo que mais o aborrece são “as pessoas que não usam o pisca a conduzir”, e também admite que “adormece durante as reuniões”. Soichi adora tanto sushi que até chegou a fazer um rolo de salmão no espaço.

Por seu lado, Shannon Walker diz que está ansiosa sobretudo para regressar à vida em órbita, tendo já passado seis meses na estação espacial em 2010.

“É um lugar fantástico para se estar”, diz Shannon, acrescentando que aquilo que mais quer fazer é revisitar a cúpula – uma cúpula envidraçada anexada ao módulo Tranquility da estação. “Ter a oportunidade de observar esta vista maravilhosa de 360 graus da Terra – e do resto do universo – é muito especial”, diz Shannon, que é doutorada em física espacial.

Quando Shannon falou com a National Geographic antes do lançamento, disse que não estava particularmente preocupada com qualquer parte da missão Crew-1. “Não tenho grandes preocupações”, disse Shannon. “Quero dizer, tenho de me certificar de que os meus impostos são pagos enquanto estou lá em cima. Isso vai ser um bocado desafiante.”

Um foguetão SpaceX Falcon 9 com a nave Crew Dragon na plataforma de lançamento, enquanto os preparativos continuavam para a missão Crew-1, na terça-feira dia 10 de novembro de 2020 no Centro Espacial Kennedy da NASA, na Flórida.

Fotografia de Joel Kowsky, NASA

Para se prepararem para esta viagem orbital, Mike Hopkins e Victor Glover treinaram juntos nas instalações da NASA e da SpaceX, registando centenas de horas a pilotar a Dragon em simuladores de voo. “De certa forma, sabemos o que a outra pessoa está a pensar – as preocupações, os pensamentos, conseguimos ler a linguagem corporal”, diz Mike.

Mas, ao início, Mike ficou surpreendido com a irreverência de Victor – nomeadamente a tendência para usar meias coloridas. “O Ike tirou os sapatos e tinha umas meias bastante coloridas”, lembra Mike. “Isto fez com que eu diversificasse o meu leque de meias.”

Agora, toda a tripulação leva meias coloridas para órbita, onde os astronautas geralmente só usam meias enquanto flutuam pela estação. “Acho que todos nós, toda a tripulação, deu alguma importância às meias e não se limita a combinar pólos e trajes de tripulação”, diz Victor, que está particularmente animado para desfrutar das maravilhas do voo espacial pela primeira vez.

“Tudo o que vou fazer nesta missão vai ser inédito para mim, e quero realmente saborear cada momento”, diz Victor. Isto inclui atravessar a linha von Kármán, o limite a uma altitude de 100 quilómetros que marca o fim da atmosfera da Terra e o início do espaço sideral. Victor diz que fica arrepiado quando cruza esta fronteira para o espaço nos simuladores. “Sou a única pessoa na cápsula a atingir aquela linha pela primeira vez.”

A tripulação chega ao Centro Espacial Kennedy da NASA, no dia 8 de novembro de 2020, composta pelos astronautas da NASA Shannon Walker (esquerda), Victor Glover (centro, esquerda), Mike Hopkins (centro, direita) e o astronauta da Agência de Exploração Aeroespacial Japonesa (JAXA), Soichi Noguchi (direita).

Fotografia de Michael Seeley, National Geographic

Seis meses a viver em órbita
Na estação espacial, a tripulação vai ajudar nos trabalhos de manutenção, nas caminhadas espaciais no exterior da EEI e na realização de experiências científicas. Estas investigações incluem a observação de como o cérebro e o coração dos astronautas respondem ao ambiente espacial, o cultivo de rabanetes em órbita, testar um fato espacial com novas tecnologias de isolamento e estudar como as diferentes dietas afetam a saúde dos astronautas.

Ao final de seis meses, os astronautas da Crew-1 vão deixar a estação, quando a missão Crew-2 da NASA lá chegar. Não se sabe como estará a situação na Terra nesse ponto, dada a agitação civil nos EUA, as alterações na liderança mundial e a pandemia viral. Mas Mike Hopkins espera que este lançamento sirva como uma notícia animadora para as pessoas que atravessam tempos difíceis.

“Penso que isto é algo que as pessoas podem usar para procurarem inspiração e talvez para se distraírem um pouco”, diz Mike.

“Concordo plenamente com o Mike”, diz Victor Glover. “As boas notícias – são sempre bem-vindas neste momento.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler