Os Humanos Vivem no Espaço Há 20 Anos Consecutivos

Desde o ano 2000 que temos humanos a viver e a trabalhar na Estação Espacial Internacional – e esta longevidade pode estar apenas a começar.

Thursday, November 5, 2020
Por Michael Greshko
A pairar sobre a Terra e a sua fina atmosfera azul, a Estação Espacial Internacional destaca-se ...

A pairar sobre a Terra e a sua fina atmosfera azul, a Estação Espacial Internacional destaca-se nesta fotografia de outubro de 2018, uma imagem captada por três membros da tripulação que partiam da estação. Um triunfo tecnológico e diplomático, a EEI alberga pessoas que vivem e trabalham em órbita diariamente desde o dia 2 de novembro de 2000.

Fotografia de Roscosmos/NASA

Durante o Halloween do ano 2000, um foguetão russo Soyuz foi lançado do Cosmódromo Baikonur, no Cazaquistão, e entrou para os livros de história, levando um astronauta dos EUA e dois cosmonautas russos para a recém-nascida Estação Espacial Internacional (EEI).

A tripulação chegou dois dias depois, e desde então a estação espacial tem sido ocupada de forma continuada por humanos, 20 anos consecutivos de vida e trabalho na órbita baixa da Terra.


“Há crianças que agora estão na faculdade e que, durante toda a sua vida, vivemos fora do planeta”, diz Kenny Todd, vice-gerente de programa da NASA para a EEI. “Quando eu era criança, todas estas coisas não passavam de sonhos.”

Este laboratório orbital está entre os objetos mais dispendiosos e tecnologicamente complexos alguma vez construídos: um habitat pressurizado de 150 mil milhões de dólares do tamanho de um campo de futebol, orbitando a cerca de 410 quilómetros acima da superfície terrestre com uma velocidade de 27.600 quilómetros por hora. Ao longo de décadas, 241 mulheres e homens de todo o mundo chamaram temporariamente a estação espacial de casa, alguns durante quase um ano inteiro de cada vez.

Nesta imagem de dezembro de 2000, membros da tripulação da Expedição 1 – os primeiros habitantes a tempo inteiro da EEI – preparam-se para comer laranjas frescas. Esta tripulação incluía o cosmonauta russo Yuri Gidzenko (à esquerda), o astronauta americano William Shepherd (ao centro) e o cosmonauta russo Sergei Krikalev (à direita).

Fotografia de NASA

“É uma loucura – estou surpreendido por não termos, por exemplo, realmente magoado ninguém”, diz Scott Kelly, astronauta aposentado da NASA que passou quase um ano seguido na EEI. “É realmente uma prova da seriedade [com a qual] as pessoas assumem este trabalho, e a atenção ao detalhe.”

Mais de cem mil pessoas trabalharam em conjunto para projetar, construir, lançar e operar a enorme estação, diz David Nixon, que trabalhou com a NASA nos projetos da EEI em meados da década de 1980. “Quando comparamos a estação com as grandes estruturas e edifícios construídos pela humanidade desde o início da civilização, a estação está no topo ao lado das pirâmides, da Acrópole – de todas as grandes estruturas e edifícios”, diz David.

Triunfo global
Tal como as estruturas mais duradouras da Terra, a EEI demorou décadas a ser criada. Nascida do conceito americano de “Estação Espacial Liberdade” de 1984, o projeto evoluiu gradualmente para um pacto de 15 nações entre os EUA, Canadá, Japão, Rússia e os onze estados membros da Agência Espacial Europeia. As primeiras peças da EEI começaram a orbitar em 1998, e os membros da tripulação da Expedição 1 subiram a bordo da recém-nascida estação no dia 2 de novembro de 2000. A estação é agora o lar da Expedição 64.

Ao longo do caminho, o projeto enfrentou sérios desafios. Os acidentes do vaivém espacial em 1986 e 2003 não só resultaram em 14 mortes e nas perdas das Challenger e Columbia, como também abanaram os pilares do programa e atrasaram a construção da estação. Em 2007, uma fenda de 75 centímetros num dos painéis solares da estação exigiu uma reparação improvisada e uma caminhada espacial de alto risco por parte da tripulação – que flutuou sobre os painéis ligada a um cabo enquanto o painel era percorrido por eletricidade. As tripulações também tiveram de lidar com fugas de ar, bombas de refrigeração danificadas, reparações elaboradas de equipamentos científicos e missões de reabastecimento fracassadas.

Em 2007, os astronautas da NASA Scott Parazynski e Doug Wheelock (que está fora da imagem) fizeram uma caminhada espacial de sete horas e 19 minutos para reparar uma fenda de 75 centímetros num dos painéis solares da EEI. Os astronautas tiveram de usar um conjunto improvisado de estabilizadores para reparar os danos.

Fotografia de NASA

Para manter a estação em funcionamento e os seus habitantes vivos, os membros da tripulação e as equipas de suporte global têm de se envolver numa colaboração técnica que Kenny Todd compara a “uma espécie de mini-Nações Unidas”.

“Os nossos astronautas e cosmonautas estão no fio da navalha, vivem em pequenas latas que montámos em órbita”, diz Kenny. “É incrível como a reunião de todas estas culturas [tem] sido uma grande experiência de aprendizagem.”

Até as rotinas diárias apresentam desafios, em parte devido ao ambiente singular da EEI. A luz do sol e as sombras aquecem e arrefecem a estação sempre que esta circula a Terra, a cada 90 minutos, fazendo com que as estruturas metálicas se dobrem e se expandam. Alguns astronautas dormem com protetores nos ouvidos para conseguirem descansar.

Este ambiente não é fácil para o corpo humano. Os fluidos que normalmente são atraídos para os pés pela gravidade permanecem na cabeça, provocando desconforto e possivelmente contribuem para as deficiências visuais que os astronautas sentem quando chegam a terra firme. Os níveis de CO2 na EEI costumam ser 10 vezes mais elevados do que na Terra, o suficiente para provocar dores de cabeça aos tripulantes. E atividades básicas como usar a casa de banho – algo que os humanos evoluíram para fazer com a força da gravidade – tornam-se tarefas complexas.

“Não é como ir de férias”, diz Scott Kelly, que passou 499 dias a bordo da EEI em duas expedições, incluindo “um ano” de 340 dias no espaço com o cosmonauta Mikhail Kornienko em 2015 e 2016. “Há muito desconforto.”

Apesar do desconforto físico, a experiência de viver a bordo da estação espacial altera as pessoas de outra maneira. A partir da sua posição acima da Terra, Scott Kelly contemplou o azul eletrizante das Bahamas e a vastidão do Saara – e a atmosfera assustadoramente fina da Terra, que o fez lembrar uma lente de contacto presa a um enorme globo ocular.

“Ficamos com a sensação de que somos todos cidadãos não de um determinado país, mas do planeta”, diz Scott. “Estamos todos juntos nesta coisa chamada humanidade.”

Esquerda: Antes de regressar à Terra em abril de 2020, Jessica Meir, astronauta da NASA e engenheira de voo da Expedição 61/62, tocou saxofone na cúpula repleta de janelas da EEI.
Direita: O astronauta Koichi Wakata, da Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA), engenheiro de voo da Expedição 38, faz um treino no Dispositivo de Exercício Resistivo (aRED) da EEI.

Fotografia de NASA

Ciência no espaço
Para além de manterem o seu lar orbital em ordem, os membros da tripulação também estabeleceram um laboratório espacial na EEI. Configurar a estação para a ciência não foi fácil, dado que até o equipamento de laboratório mais básico teve de ser testado, e muitas vezes redesenhado, para funcionar em microgravidade. Mas, até agora, já foram conduzidas quase 3000 experiências neste ambiente exclusivo de microgravidade da estação. (Como a EEI orbita a Terra, está essencialmente num estado constante de queda livre, juntamente com todos a bordo. Isto cria uma sensação constante de ausência de peso dentro da estação, como se a gravidade da Terra fosse reduzida em cerca de 99.999%.)

As pesquisas abrangem coisas que vão desde o sequenciamento de ADN no espaço ao estudo de partículas de alta energia de fenómenos cósmicos distantes. Mas uma das áreas mais produtivas de investigação na EEI tem sido sobre os próprios membros da tripulação.

Para Susan Bailey, bióloga de radiação da Universidade Estadual do Colorado, a EEI tem fornecido dados valiosos sobre a forma como o espaço afeta a saúde dos astronautas. O maior avanço: o “Estudo dos Gémeos da NASA”, examinou Scott Kelly e o seu irmão gémeo idêntico, o astronauta Mark Kelly, enquanto Scott passou praticamente um ano no espaço.

Susan Bailey examinou as amostras de sangue dos irmãos para estudar os seus cromossomas, nomeadamente os seus telómeros, que são sequências de ADN protetoras nas extremidades dos cromossomas que agem um pouco como as pontas dos atacadores de sapatos. O estudo do ADN dos irmãos Kelly permitiu a Susan e aos colegas compreenderem melhor a forma como o corpo humano responde à microgravidade e à radiação espacial. Os primeiros resultados mostram uma vasta gama de alterações genéticas em resposta aos voos espaciais, incluindo alguns sinais de encurtamento nos telómeros, sinais que estão associados ao envelhecimento e a doenças cardíacas.

Em julho de 2009, o vaivém espacial Endeavour acoplou na EEI, levando à presença do maior número de tripulantes na estação até então: 13 pessoas partilharam o laboratório orbital, oito das quais aparecem nesta fotografia captada durante a hora de refeição.

Fotografia de NASA

“Se de facto o envelhecimento e o risco de doenças aumentarem devido aos voos espaciais, o que podemos fazer a esse respeito?”, pergunta Susan Bailey. “À medida que desvendamos esta situação, isso também vai beneficiar os que estão na Terra.”

O futuro da estação espacial
Com mais de 120.000 órbitas e 5.3 mil milhões de quilómetros percorridos acima da superfície terrestre, a EEI ainda está operacional – e é agora um esforço mais global do que nunca. Astronautas e cosmonautas de 19 países já visitaram a estação. À medida que a NASA tenta aumentar a utilização comercial da estação e, possivelmente, começar a atrair turistas para a visitarem, mais pessoas de origens diferentes provavelmente voarão ao espaço, desde investigadores comerciais a estrelas de cinema.

“À medida que a estação se torna mais rotineira, vamos ver pessoas que definitivamente não são ‘Os Eleitos’ – que não são antigos pilotos de teste ou pilotos militares, mas sim pessoas que têm formação científica ou em engenharia”, diz David Nixon. “É assim que deve ser.”

Mas conforme o acesso à órbita baixa da Terra se torna mais abrangente, a EEI e os seus sucessores também se devem tornar mais habitáveis e fáceis de operar, diz David. A estação dos seus sonhos seria menos barulhenta, forneceria às tripulações mais conforto e acomodações mais espaçosas, incluindo um chuveiro em condições.

“Seria maravilhoso se alguém entregasse um módulo na estação que estivesse completamente almofadado, e pudéssemos simplesmente saltar lá dentro”, diz David. “Para nos livrarmos do stress do dia, certo? Por que não?”

Não se sabe se a própria EEI estará operacional para testemunhar os dias de uma “casa de saltos” espacial. A estação está programada para funcionar até pelo menos 2024, e muito do seu hardware está certificado para operar em segurança até pelo menos 2028, mas os seus componentes mais novos podem prolongar esta longevidade.

Quatro meses e alguns dias na Expedição 44 – no seu “ano no espaço” – o astronauta da NASA Scott Kelly tirou esta fotografia do Japão à noite, no dia 25 de julho de 2015.

Fotografia de Scott Kelly, NASA

Mas enquanto a NASA tenta coordenar uma crescente coligação internacional para ir à lua – que por enquanto conta com apenas alguns dos países parceiros na EEI – o futuro do laboratório orbital da Terra permanece incerto. Será que a EEI vai ser desmontada e reaproveitada em órbita para se construir uma futura estação espacial? À medida que as nações se aventuram mais longe no espaço, será que vai ser entregue a empresas privadas? Será que toda a estrutura vai desaparecer numa gloriosa explosão final, ou será conduzida para uma amaragem forçada no Pacífico como aconteceu com a estação espacial russa Mir?

Independentemente do destino final da EEI, Scott Kelly acredita que o seu legado – e espírito de exploração – deve perdurar.

“Devemos dedicar-nos ao objetivo de não ter os humanos todos na Terra”, diz Scott. “Temos esta sequência de 20 anos consecutivos, e eu detestaria vê-la interrompida.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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