Devemos Tomar Mais do que Um Tipo de Vacina Contra a COVID-19?

Todas as autorizações recentes de vacinas prenunciam um mundo onde se pode optar por mais do que uma vacina. Eis o que as investigações dizem sobre se quantidade oferece mais imunidade.

Publicado 28/12/2020, 11:35 WET
Uma enfermeira prepara a vacina Gam-COVID-Vac (Sputnik V) contra a COVID-19 na Clínica Ambulatória Nº 7 ...

Uma enfermeira prepara a vacina Gam-COVID-Vac (Sputnik V) contra a COVID-19 na Clínica Ambulatória Nº 7 da Cidade em Simferpol, na Crimeia. A Rússia iniciou uma campanha de vacinação para profissionais de saúde, profissionais de ensino e funcionários dos serviços sociais e municipais.

Fotografia de Sergei Malgavko, TASS/ Getty Images

Vai chegar o dia em que qualquer pessoa que queira uma vacina contra a COVID-19 pode ter acesso à mesma. Nesse momento, as pessoas podem interrogar-se sobre uma questão que até há pouco tempo parecia rebuscada: Devo tomar uma segunda vacina só por precaução?

À medida que a pandemia avança, esta pode ser uma opção, dado que mais vacinas serão aprovadas nos próximos meses. No dia 18 de dezembro, a agência Food and Drug Administration dos EUA autorizou o uso de emergência de uma vacina da Moderna – apenas uma semana depois de conceder uma autorização semelhante para uma vacina da Pfizer e BioNTech.

Neste momento estão em desenvolvimento pelo mundo inteiro mais de 200 vacinas contra a COVID-19, vacinas que envolvem oito plataformas de tecnologia diferentes, desde as mais inovadoras com material genético, como ADN ou o mensageiro RNA, até às variedades clássicas desenvolvidas a partir de versões inativadas do coronavírus. A questão passa por saber se tomar mais do que um tipo de vacina melhora a nossa imunidade e oferece uma proteção mais duradoura.

Até agora, a vacinação dupla com vacinas diferentes é maioritariamente um exercício teórico. O atual fornecimento limitado faz com que o acesso a duas vacinas COVID-19 diferentes seja pouco provável, a não ser que uma pessoa se consiga envolver em vários ensaios clínicos ou consiga enganar os fornecedores autorizados. E não se sabe se as seguradoras estão dispostas a pagar mais do que uma vacina. Mas alguns cientistas estão intrigados com esta possibilidade.

“Esta questão não é de todo ridícula”, diz Florian Krammer, professor de vacinologia na Escola de Medicina Icahn em Mount Sinai, na cidade de Nova Iorque. “Estamos sempre a fazer isto no processo de investigação. Usamos plataformas diferentes de vacinas porque, por vezes, obtemos resultados interessantes.”

Maximizar a resposta imunitária

Em teoria, uma proteção dupla de vacinas COVID-19 funcionaria da seguinte forma: Quando somos vacinados, partes do vírus que não são suficientes para nos adoecer são introduzidas no nosso corpo, mas são suficientes para ativar uma resposta imunitária.

Muitas das vacinas infantis tradicionais requerem o chamado reforço; outra injeção, meses ou anos depois, que atua como um fortalecimento para garantir que o corpo recebeu a primeira mensagem e que tem instruções claras para atacar uma futura invasão de um germe específico. É uma forma de criar outra camada protetora e fortalecer a memória imunitária.

“Nos casos em que receamos que uma vacina esteja a perder a sua eficácia, a medida mais direta que podemos tomar é receber um reforço”, diz Alessandro Sette, professor do Centro de Pesquisa em Doenças Infecciosas e Vacinas do Instituto de Imunologia La Jolla da Califórnia. No entanto, como já recebemos a primeira injeção, o nosso corpo já tem um avanço. “Um reforço induz uma resposta de memória. Já começamos com uma memória imunitária. É essa a beleza deste processo”, diz Alessandro.

O que não se sabe é se podemos induzir uma resposta ainda mais forte com uma forma diferente de vacina contra o coronavírus. Em imunologia, este conceito  chama-se “dose-reforço heteróloga”, e alguns estudos sugerem que pode ser uma forma mais eficaz para se projetar regimes de vacinas, sobretudo para doenças mais complicadas como a malária, tuberculose e HIV.

“Se levarmos duas vacinas diferentes que usem partes diferentes do vírus, teremos duas respostas imunitárias diferentes, em vez de obtermos um reforço para a primeira.”

por BRIANNE BARKER, UNIVERSIDADE DREW

Este conceito especula que podemos beneficiar do melhor de duas plataformas de vacinas, despertando subconjuntos diferentes de células T, agentes do sistema imunitário que têm uma forma “matadora” e outra “auxiliar”, que desempenham um papel crítico no ataque contra um vírus indesejado. Estas respostas divergentes poderiam trabalhar em harmonia para fornecer uma imunidade mais sólida.

Ainda não se sabe quais são as melhores combinações entre categorias de vacinas ou a ordem com que devem ser administradas. Mas este método duplo tem sido cada vez mais explorado nas últimas duas décadas, à medida que os cientistas descobrem novos tipos de métodos de administração de vacinas.

Menu de vacinas

Esta ciência de mistura e combinação de vacinas está prestes a dar mais um passo, porque a miríade de inovações alcançadas este ano oferece novas oportunidades para estudar a interação entre os diferentes tipos de vacinas COVID-19.

Por exemplo, as vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna injetam pedaços do mensageiro RNA, uma plataforma de vacinas que nunca tinha sido autorizada para uso humano até este mês. Outra das candidatas que está em testes na Universidade de Oxford e na empresa farmacêutica AstraZeneca usa a tecnologia de vetor viral. Esta tecnologia envolve a transferência do código genético da proteína espigão do SARS-CoV-2 – a parte que permite ao coronavírus invadir as nossas células – para um adenovírus enfraquecido. Todos estes regimes são administrados em duas doses separadas por várias semanas.

Há um motivo pelo qual se deveria usar vários tipos: Alguns investigadores estão preocupados com as plataformas de vetores virais devido à possibilidade de um corpo desenvolver imunidade ao próprio adenovírus. Por exemplo, o vetor usado pela AstraZeneca e Universidade de Oxford é um adenovírus que infeta chimpanzés. “Não temos imunidade contra isto, mas podemos desenvolver imunidade após a primeira vacina”, diz Florian Krammer, e uma segunda dose pode vir a ser menos eficaz.

Por outro lado, a Rússia, a Johnson & Johnson e a empresa de biotecnologia chinesa CanSino Biologics estão a desenvolver vacinas que usam adenovírus humanos, que costumam provocar constipações comuns. É possível que as pessoas que tiveram muitas constipações ao longo da vida já tenham imunidade antes de receberem a vacina.

Em todos estes casos, pode ser sensato fazer um acompanhamento com uma segunda vacina, como a desenvolvida pela Novavax, uma empresa de biotecnologia de Maryland, que administra proteínas espigão de bioengenharia através de nanopartículas, e que pode fornecer um impulso poderoso, diz Florian.

Mas a segurança de quaisquer combinações ainda não foi determinada e os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA alertaram recentemente contra a mistura da vacina da Pfizer-BioNTech com “outras vacinas COVID-19”.

“Precisamos de determinar quais são as respostas imunitárias responsáveis pela proteção.”

por DAN H. BAROUCH, CENTRO MÉDICO BETH ISRAEL DEACONESS

Brianne Barker, professora-associada de biologia que estuda imunidade e vírus na Universidade Drew em Madison, Nova Jersey, está entre os cientistas que reconhecem que pode ser impossível para as autoridades de saúde evitar a mistura acidental de marcas de vacinas.

“Se uma pessoa for ao médico e receber uma vacina, talvez essa pessoa não saiba que recebeu a vacina da Pfizer”, diz Brianne. Se essa pessoa for a um local diferente para receber uma segunda dose, pode inadvertidamente receber a vacina da Moderna.

Esta mistura não seria necessariamente perigosa, dado que os nossos corpos costumam encontrar o mesmo vírus várias vezes ao longo das nossas vidas. No entanto, Brianne alerta que as pessoas não devem deixar de tomar a segunda injeção da sua série original de vacinas. “Se levarmos duas vacinas diferentes que usem partes diferentes do vírus, teremos duas respostas imunitárias diferentes, em vez de obtermos um reforço para a primeira.”

Brianne também está curiosa para saber se existe algum benefício no uso de dois regimes diferentes. “Pode aumentar ainda mais a nossa resposta imunitária, mas ainda não se sabe se esse reforço é importante. Mais não significa necessariamente que dura mais tempo no nosso corpo. A determinada altura já obtivemos uma resposta suficiente, pelo que mais não acrescenta nada.”

A duração de qualquer umas destas vacinas contra a COVID-19 ainda é uma peça crítica em falta no puzzle das vacinas. Até que os dados comecem a chegar, ninguém sabe se tomar um segundo tipo de vacina pode ser uma perda de tempo e dinheiro, ou se as seguradoras irão sequer cobrir estas solicitações. Nos EUA, embora o governo se tenha comprometido a disponibilizar gratuitamente a vacina inicial para todos os habitantes do país, ainda é muito cedo para se saber se isso irá incluir doses futuras de marcas adicionais, diz Karyn Schwartz, investigadora sénior da Fundação da Família Kaiser em Washington D.C. que estuda a atuação das seguradoras em relação à COVID-19.

Como é que sabemos se precisamos de outra vacina

Entretanto, se alguém for vacinado, não será imediatamente percetível se a sua imunidade à COVID-19 está a diminuir. As pessoas que estão a participar nos ensaios clínicos das vacinas estão a ter os seus níveis de anticorpos monitorizados ao longo do tempo. Por outro lado, qualquer pessoa pode fazer um teste comercial de anticorpos para detetar quando é que estas proteínas são geradas em resposta a uma vacina ou infeção.

Contudo, o maior desafio é que a presença destes anticorpos não significa necessariamente que uma pessoa está protegida contra a COVID-19, diz Dan H. Barouch, do Centro de Pesquisa de Virologia e Vacinas do Centro Médico Beth Israel Deaconess em Boston. Outra investigação sugere que a presença persistente de células B, que produzem anticorpos, e células T também desempenha um papel essencial. A forma como os anticorpos são atualmente medidos nos ensaios clínicos padrão pode não ser uma boa indicação de imunidade, diz Dan, acrescentando: “Precisamos de determinar quais são as respostas imunitárias responsáveis pela proteção”.

Talvez a proteção de uma vacina contra a COVID-19 dure para o resto da vida, como acontece com a vacina do sarampo. Ou talvez uma segunda dose de uma vacina possa servir como uma injeção de reforço daqui a uma década – semelhante à forma como a vacina contra a poliomielite é atualmente administrada.

“Não creio que tenhamos informações suficientes para as pessoas começarem a misturar vacinas COVID-19 diferentes.”

por ANGELA RASMUSSEN, UNIVERSIDADE GEORGETOWN

Quando Angela Rasmussen, virologista do Centro de Ciência e Segurança de Saúde Global da Universidade Georgetown em Washington D.C., era criança, recebeu uma versão oral da vacina contra a poliomielite, uma versão com o vírus inativado desenvolvida por Jonas Salk no início dos anos 1950.

Na idade adulta, quando Angela teve de receber outra dose para poder trabalhar num laboratório de doenças infecciosas, foi vacinada com uma versão viva atenuada que se baseava na investigação iniciada por Albert Sabin. Esta é a versão administrada nos Estados Unidos desde 2000. “As pessoas receberem reforços conforme as vacinas mudam não uma coisa sem precedentes”, diz Angela.

Mas a grande diferença é a de que, quando Angela foi vacinada pela segunda vez contra a poliomielite, a fórmula de Albert Sabin já tinha mais de meio século de dados fiáveis que a suportavam.

“Não creio que tenhamos informações suficientes para as pessoas começarem a misturar vacinas COVID-19 diferentes”, diz Angela. “É um vírus novo que tem uma nova vacina. Devemos fazer as coisas com calma.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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