Espetáculo Raro: Júpiter e Saturno Vão Quase ‘Tocar’ Um no Outro Durante o Solstício de Inverno

Na noite de 21 de dezembro, os observadores estelares vão ter um presente antecipado, dado que os dois planetas brilhantes vão ter a maior aproximação dos últimos 400 anos.

Publicado 17/12/2020, 17:11 WET
Júpiter e Saturno brilham numa noite limpa de julho sobre um campo de lavanda perto da ...

Júpiter e Saturno brilham numa noite limpa de julho sobre um campo de lavanda perto da vila de Brihuega, em Espanha. Em dezembro de 2020, vistos a partir da Terra, os dois planetas vão parecer mais próximos do que nunca. A última vez em que isto aconteceu foi em 1623.

Fotografia de CMARCOS DEL MAZO, ALAMY LIVE NEWS

Os observadores estelares vão ter um presente raro nos dias que antecedem o Natal, quando dois dos planetas mais brilhantes do sistema solar, Júpiter e Saturno, se envolverem numa dança celestial que os irá colocar a uma distância planetária de um beijo no céu noturno.

O momento de maior aproximação vai acontecer no dia 21 de dezembro – o solstício de inverno para quem vive no hemisfério norte e o início do verão para quem vive no hemisfério sul. Há 400 anos que os dois planetas não pareciam estar tão próximos um do outro, num evento conhecido por grande conjunção.

O melhor de tudo é que este espetáculo, que pode ser observado no mundo inteiro, pode ser apreciado sem qualquer equipamento especial – assim que o céu escurecer, basta olhar para sudoeste. As pessoas que têm acesso a um telescópio vão ter um presente raro extra: com um instrumento amador ajustado para baixa potência, os dois planetas gigantes vão caber num único campo de visão. Júpiter, com as suas quatro luas brilhantes, e Saturno, com os seus anéis distintos, serão visíveis ao mesmo tempo.

Mas não é preciso esperar para começar a observar. “Será infinitamente mais divertido assistir ao longo do mês, em vez de esperar por dia 21 de dezembro”, diz Laura Danly, curadora do Observatório Griffith em Los Angeles. “Podemos ver aquelas duas luzes, Júpiter e Saturno, a ficarem cada vez mais perto, até que, no dia 21, ficam apenas a um décimo de grau uma da outra” – cerca de um quinto da largura da lua cheia.

É uma distância muito curta, considerando que conseguirmos facilmente cobrir todo o disco lunar com um polegar estendido. Ainda assim, a maioria dos observadores deve ser capaz de distinguir os dois planetas. “Para quem tem uma visão boa o suficiente para conduzir, consegue ver que [Júpiter e Saturno] são dois objetos separados”, mesmo na sua abordagem mais próxima no céu, diz Laura.

Tão perto e tão longe

Conjunção é o nome dado pelos astrónomos a esta aproximação planetária. As aproximações entre Júpiter e Saturno acontecem cerca de uma vez a cada 20 anos e, devido à sua raridade, chamam-se “grandes conjunções”. Em comparação, as conjunções que envolvem os planetas interiores, Mercúrio e Vénus – entre si ou com um dos planetas exteriores – são muito mais comuns e acontecem diversas vezes por década.

Quanto mais longe um planeta está do sol, mais devagar se move pelo nosso céu – e Júpiter e Saturno são os planetas mais distantes que podem ser facilmente vistos a olho nu. (Saturno, mais distante do que Júpiter, e fisicamente mais pequeno, é o mais ténue dos dois.) Júpiter completa uma revolução à volta do sol a cada 12 anos, enquanto que Saturno demora cerca de 30 anos – uma realidade celestial que resulta no seu encontro no céu a cada duas décadas.

Contudo, nem todas as conjunções de Júpiter e Saturno são iguais. As suas órbitas não estão exatamente no mesmo plano. (Se estivessem, Júpiter bloquearia literalmente a nossa visão de Saturno a cada 20 anos.) Normalmente, os planetas passam por cima ou por baixo uns dos outros no céu, separados por alguns graus. Este ano, embora os dois planetas gigantes pareçam estar ao lado um do outro a partir da nossa perspetiva na Terra, na verdade estão a várias centenas de milhões de quilómetros de distância.

A última vez em que Júpiter e Saturno se alinharam desta forma foi em 1623, cerca de 12 anos depois de Galileu ter apontado um telescópio para o céu noturno e descobrir as quatro maiores luas de Júpiter. Mas havia um problema: “Aquela conjunção não teria sido fácil de observar, porque os dois planetas estariam muito perto do sol no céu”, diz Kevin Schindler, do Observatório Lowell em Flagstaff, no Arizona. (No ano 2000, durante a última grande conjunção, aconteceu o mesmo).

“Temos de recuar até ao ano de 1226 para encontrar uma conjunção visível e com esta aproximação.” A próxima conjunção comparativamente perto será em 2080.

Sistema solar em movimento

Ao longo da história, as pessoas aperceberam-se das conjunções planetárias, atribuindo muitas vezes significados astrológicos a estes fenómenos. Por exemplo, Geoffrey Chaucer, no seu poema épico Troilus and Criseyde, descreveu uma grande conjunção que aconteceu em 1385, escrevendo que “Saturno e Jove, na [constelação de] Caranguejo, se uniram onde uma chuva caiu dos céus”. E alguns astrólogos até previram um cataclismo mundial – algo que, como é óbvio, não aconteceu.

Hoje sabemos que, embora estes planetas exerçam um pequeno puxão gravitacional um sobre o outro, o seu efeito no nosso planeta é insignificante, pelo que podemos relaxar e desfrutar do espetáculo – ou tentar fotografá-lo.

Para conseguir uma fotografia realmente boa, “é preciso muita prática, para além de um equipamento razoavelmente bom”, diz Bradley Schaefer, astrónomo da Universidade Estadual do Louisiana. Embora as câmaras dos nossos telemóveis consigam mostrar dois pontos no céu, as câmaras reflex de monobjetiva digital, ou pelo menos uma câmara com uma lente zoom e um tripé, provavelmente conseguem obter os melhores resultados.

“Vamos querer definitivamente usar um tripé e devemos planear com antecedência onde vamos fotografar”, diz Bradley. Basta certificarmo-nos de que temos uma visão desobstruída a sudoeste.

Se o céu estiver nublado, não há motivos para preocupações – há vários observatórios, incluindo o Observatório Lowell no Arizona, que vão transmitir o evento ao vivo.

Sabemos que os planetas estão sempre em movimento, mas uma conjunção coloca esse movimento no centro das atenções. A grande conjunção de 2020 é uma oportunidade para ver o sistema solar enquanto estágio em constante mudança, no qual os planetas se pavoneiam. “Quando observamos isto todas as noites”, diz Laura Danly, “ficamos realmente com uma ideia do quão dinâmico é o sistema solar”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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