Exclusivo: Crianças Contraem e Propagam Coronavírus Cerca de Metade das Vezes do que Acontece com Adultos

As grandes decisões em torno da COVID-19 têm-se focado mais na política e pouco na ciência. Mas os novos estudos em grande escala estão a mudar este paradigma.

Publicado 14/12/2020, 15:38
Alunos sentam-se nos seus lugares para o primeiro dia de aulas presenciais na Escola de Ensino ...

Alunos sentam-se nos seus lugares para o primeiro dia de aulas presenciais na Escola de Ensino Básico e Secundário Walter P. Carter em Baltimore, no dia 16 de novembro de 2020.

Fotografia de Rosem​ Morton, The New York Times

No meio da pior vaga de casos de COVID-19 nos Estados Unidos, muitas autoridades estaduais e locais estão novamente a enfrentar dificuldades para lidar com a questão controversa de encerrar as escolas. Agora, investigações emergentes confirmam que as escolas não são os principais focos de surto, embora os casos vindos das escolas se continuem a infiltrar e a contribuir para a disseminação da doença sempre que um país perde o controlo na contenção da pandemia.

A National Geographic teve acesso exclusivo aos resultados de um estudo islandês que fornece evidências definitivas para a forma como as crianças contribuem para a disseminação do coronavírus. Investigadores da Direção de Saúde da Islândia e da deCODE, uma empresa de genómica humana sediada em Reiquiavique, monitorizaram todos os adultos e crianças no país que foram colocados em quarentena após terem sido potencialmente expostos ao vírus nesta primavera, usando rastreio de contactos e sequenciamento genético para determinar as ligações entre os vários grupos de surtos. O estudo envolveu 40.000 pessoas e descobriu que as crianças com menos de 15 anos tinham cerca de metade da probabilidade dos adultos de serem infetadas, e apenas metade da probabilidade dos adultos de transmitirem o vírus a outras pessoas. Quase todas as transmissões de coronavírus passaram de adultos para crianças.

“As crianças podem ficar infetadas e propagar o vírus, mas com menos frequência do que acontece com os adultos”, diz Kári Stefánsson, diretor-executivo da deCODE.

Esta análise faz parte de uma recente série de estudos em grande escala que suportam a conclusão de que os adultos infetados representam um perigo maior para as crianças do que as crianças para os adultos. Estes estudos podem ajudar as autoridades que enfrentam dificuldades para decidir quando, ou se, encerram as escolas, sabendo que o encerramento das escolas prejudica as crianças. Para além das lições académicas vitais, as escolas fornecem muitos serviços que são essenciais para as comunidades, razão pela qual, na semana passada, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA recomendaram que as escolas deviam ser “os últimos serviços a encerrar” e “os primeiros a reabrir”.

Mas mesmo que as crianças sejam geralmente menos suscetíveis, quando os níveis de propagação aumentam numa comunidade, os riscos nas escolas também podem aumentar de forma dramática. Até ao dia 11 de dezembro, com os EUA a falharem na contenção do vírus a nível nacional, as escolas americanas de ensino básico e secundário relataram mais de 308.522 casos de COVID-19.

As crianças estão bem, a não ser que...

A propagação de uma doença infecciosa nas escolas depende de dois fatores: a frequência com que as crianças são infetadas com um vírus, e a facilidade com que transmitem a doença a outras pessoas. Se as crianças fossem ao mesmo tempo muito suscetíveis e altamente infecciosas, as escolas provavelmente iriam gerar novos surtos de COVID-19, como acontece com a gripe. Mas se as crianças são pouco suscetíveis a contrair o vírus e não o propagam muito, as escolas devem simplesmente refletir sobre o que está a acontecer na comunidade em geral.

Contudo, antes deste outono, os dados de coronavírus que envolviam crianças eram escassos, sobretudo porque as escolas nos EUA tinham encerrado no início da pandemia. Para além disso, as investigações que surgiram durante o verão tinham muitas vezes limitações.

As crianças desempenham um papel menor na transmissão de coronavírus, mas isso não justifica a reabertura instantânea das escolas sem que primeiro se tomem outras medidas para controlar a disseminação entre a comunidade.

Fotografia de Rosem Morton, The New York Times

A melhor maneira para compreender como é que a transmissão pode ocorrer entre crianças e adultos é através da monitorização constante de famílias saudáveis que têm crianças em idade escolar, para perceber se foram infetadas. Ao fazer testes frequentes, os cientistas podem assinalar as infeções à medida que ocorrem, evidenciando quem adoeceu primeiro.

A Islândia e a deCODE colocam isto em prática com testes e rastreios que abrangem mais de metade da população do país: qualquer pessoa potencialmente exposta é colocada em quarentena, isolando-a da comunidade, mas isso coloca frequentemente as suas famílias em risco. Ao observar a diferença entre adultos e crianças nestas quarentenas, a deCODE descobriu que as crianças desempenham um papel menor na transmissão.

A Islândia nunca chegou a encerrar as suas escolas primárias, embora tenha fechado as escolas secundárias no auge do seu primeiro pico. Os dados da vaga de setembro suportam a ideia de que as crianças mais novas têm menos probabilidades de adoecer ou de infetar outras pessoas. Kári Stefánsson está a publicar estes resultados numa revista com revisão por pares, mas diz que este conjunto de dados meticuloso só é conclusivo para os níveis de transmissão na Islândia – “acabamos por ser um modelo razoável para a população humana”.

Mas Kári alerta que, se encerrassem tudo, exceto as escolas e os infantários, as crianças tornar-se-iam numa das principais fontes de transmissão. Kári explica que, embora o risco individual seja reduzido entre os jovens, as escolas continuam a ter surtos.

Isto significa que a questão deixa de ser científica, ou seja, o foco está nos níveis de risco que uma sociedade está preparada para aceitar se quiser manter as crianças na escola: “Quais são os riscos com os quais estamos dispostos a viver?”

Não se deve tratar todas as idades de forma igual

Para além do estudo da Islândia, outra investigação já demonstrou que as crianças pré-adolescentes têm uma probabilidade significativamente menor de adoecer. Portanto, os funcionários escolares precisam de fazer uma distinção entre as crianças mais novas e os adolescentes.

Um dos estudos em grande escala feitos recentemente sobre a prevenção da disseminação viral confirma esta conclusão. Quando a epidemia de COVID-19 tinha apenas algumas semanas, milhares de pessoas viajaram no interior da China para celebrar o Ano Novo Lunar. Em Hunan – uma província adjacente ao local onde o coronavírus foi descoberto pela primeira vez – o governo monitorizou os viajantes e fez rastreio de contactos. Com os dados destes postos de controlo, os investigadores analisaram 1178 pessoas infetadas e os seus 15.648 contatos de proximidade.

“A nossa prioridade em manter o vírus longe das escolas serve para manter o vírus longe da comunidade.”

por FIONA RUSSELL, UNIVERSIDADE DE MELBOURNE

Os resultados desta monitorização, publicados na revista Science em finais de novembro, mostram que as crianças com menos de 12 anos, após uma exposição ao vírus, têm menos probabilidade de contrair a doença do que os adultos, diz Kaiyuan Sun, coautor do estudo e bolseiro de investigação no Centro Internacional Fogarty dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA. O estudo também descobriu que o risco de transmissão dentro das famílias, sobretudo durante o confinamento, era muito mais elevado do que entre os contactos mais casuais, como os que acontecem na escola. Quando os casos positivos foram isolados e os seus contactos colocados em quarentena, as correntes de transmissão foram quebradas. Isto sugere que uma intervenção inteligente pode ajudar a conter surtos mais amplos, inclusive nas escolas.

Muitos outros estudos concordam que a idade é importante. Entre abril e junho, uma pré-impressão rastreou 4524 pessoas de 2267 lares em Genebra, na Suíça. Os investigadores descobriram que as crianças entre os 5 e os 9 anos tinham cerca de 22.7% menos probabilidades de serem infetadas, e que o risco aumentava consoante a idade.

Estes resultados indicam que há uma alteração crítica algures entre os 10 e os 12 anos. Na idade da puberdade, o risco de adolescentes contraírem e transmitirem o vírus aumenta. O grupo COVID Monitor, um grupo que rastreia informações de mais de 7000 distritos escolares nos EUA, descobriu que as taxas de casos no ensino secundário eram quase três vezes superiores aos das escolas do ensino básico.

Ainda não se sabe porque é que isto acontece. Uma das teorias diz que as crianças estão expostas com mais frequência aos coronavírus, ganhando assim alguma proteção. Outra das hipóteses diz que as crianças têm menos recetores ACE2, um dos alvos do coronavírus, nas suas vias aéreas superiores. Há ainda outra teoria que diz que os pulmões mais pequenos das crianças não projetam tantas gotículas ou aerossóis.

Apesar de existir esta distinção, as crianças e os adolescentes costumam ser agrupados nos relatórios sobre doenças, “e isto é extremamente problemático”, diz Alasdair Munro, bolseiro de investigação clínica em doenças pediátricas infecciosas do Hospital Universitário de Southampton, na Grã-Bretanha.

A transmissão não se baseia apenas na biologia. Os comportamentos também desempenham um papel. Em novembro, um estudo feito na Índia com meio milhão de pessoas encontrou “padrões de risco aumentado de transmissão” em crianças com menos de 14 anos, incluindo muitos casos em que as crianças foram infetadas por outras crianças.

“Se uma escola abre, as crianças estão em contacto com muito mais frequência do que os adultos”, diz Kaiyuan Sun, cuja análise também confirmou a estimativa dos CDC de que a transmissão pré-sintomática é responsável por cerca de 50% das infeções – o que significa que nem sempre é possível isolar as pessoas antes de propagarem a doença a outras. É por isso que as escolas apresentam sempre alguns níveis de risco.

Quando é que as escolas devem encerrar?

Como os países adotaram abordagens diferentes para as escolas, o mundo acabou inadvertidamente por fazer uma experiência natural sobre o papel que as escolas desempenham na transmissão de COVID-19.

No Reino Unido, um novo artigo publicado no The Lancet descobriu que as reaberturas parciais das escolas durante o verão estavam associadas a um baixo risco de casos; em mais de 57.000 escolas e infantários, o estudo encontrou apenas 113 casos associados a 55 surtos. Estes casos foram fortemente correlacionados com as taxas de infeção locais, mostrando a importância de se reduzir a transmissão na comunidade para manter as escolas seguras. “A transmissão vai acontecer nas escolas, assim como em qualquer lugar onde as pessoas convivam”, diz Alasdair Munro. “Mas as crianças não são os catalisadores da doença.” Em vez disso, é cada vez mais evidente que, em muitos países, são as pessoas na casa dos 20 e 30 anos que desencadeiam os surtos que posteriormente atingem as pessoas mais velhas e as crianças.

Uma escola pública deserta em Nova Iorque, no dia 19 de novembro de 2020. Os erros do governo norte-americano e as mensagens confusas sobre a pandemia aumentaram as disparidades raciais na educação.

Fotografia de Wang Ying, Xinhua/Alamy Live News

Os dados recolhidos na Alemanha suportam estas conclusões. Os testes feitos recentemente a milhares de crianças na Baviera, para procurar anticorpos, descobriram que o número de crianças com anticorpos era seis vezes superior ao esperado, sugerindo que muitos dos casos infantis não estão a ser acompanhados. Mas foram poucos os casos em que as crianças provocaram surtos mais amplos. A Alemanha também recolheu dados das suas 53.000 escolas e infantários; e mesmo durante o outono, com o aumento de casos na comunidade, havia uma média de pouco mais de dois casos positivos por semana em 32 escolas. Susanne Kuger, diretora do Centro de Monitorização Social do Instituto Alemão da Juventude, diz que “muitas vezes são os adultos que transmitem a doença, incluindo nos infantários”, quando os pais vão deixar as crianças ou os funcionários convivem nas instalações.

(Relacionado: Millennials e Geração Z estão a propagar coronavírus – mas não em festas ou bares.)

A Alemanha também adotou várias medidas adicionais para apoiar os pais, como por exemplo aumentar o número de dias de baixa para os pais poderem ficar em casa mais tempo caso os filhos adoeçam. “Estas etapas são essenciais”, diz Susanne Kuger, “porque os pais transmitem os seus receios e preocupações aos filhos. Quanto mais stressados os pais estiverem, mais stressadas as crianças ficam”.

Consequências desiguais

Depois de meses de aulas à distância, é perfeitamente evidente para pais e professores que o encerramento das escolas é prejudicial. Houve muitos relatos sobre o aumento de problemas do foro mental, aumento de casos de violência doméstica e, possivelmente, anos de vida perdidos devido ao decréscimo na aprendizagem. É por isso que Fiona Russell, diretora do Programa de Doutoramento do Departamento de Saúde de Crianças e Adolescentes da Universidade de Melbourne, na Austrália, diz: “As escolas devem ser as primeiras coisas a abrir e as últimas a fechar. As escolas precisam de ter prioridade.”

Isto não significa necessariamente que as escolas devem reabrir instantaneamente sem que primeiro se tomem outras medidas para controlar a disseminação na comunidade. Por exemplo, na Austrália, o estado de Vitória adotou uma abordagem muito conservadora em relação aos confinamentos. Lar de 6.5 milhões de pessoas, este estado só reabriu quando se registavam menos de 10 infeções por COVID-19 no total. Fiona Russell diz que os encerramentos das escolas não se deveram ao perigo que representavam, mas sim para impedir o movimento de pessoas.

Brett Sutton, Diretor de Saúde do estado de Vitória, também disse que, em retrospetiva, o estado não devia ter encerrado as escolas. Na Irlanda, em parte devido aos comentários de Brett Sutton, as escolas ficaram abertas durante o confinamento mais recente, mas os ginásios, igrejas, restaurantes e serviços não essenciais foram encerrados. Ainda assim, as infeções na comunidade diminuíram 80% em seis semanas.

“A nossa prioridade em manter o vírus longe das escolas serve para manter o vírus longe da comunidade”, diz Fiona Russel

Nos EUA, o presidente eleito Joe Biden disse que a reabertura das escolas vai ser uma prioridade nos seus primeiros cem dias no cargo, mas saber comunicar de forma percetível os factos científicos – levando em consideração as desigualdades do vírus em termos de raça e nível de vida – vai ser importante para fomentar a confiança nos pais enquanto as escolas tentam reabrir.

Kaliris Salas-Ramirez, neurocientista da Universidade da Cidade de Nova Iorque, é uma mãe solteira que decidiu manter o seu filho de nove anos em casa. “Há muitas outras coisas que já colocam o meu filho negro em risco”, diz Kaliris, citando os perigos existenciais do racismo institucionalizado. “As famílias negras e hispânicas não se podem dar ao luxo de colocar a vida dos seus filhos em risco.”

Os erros do governo norte-americano e as mensagens confusas sobre a pandemia já aumentaram as disparidades raciais na educação. Uma investigação feita recentemente em Massachusetts descobriu que as famílias negras, hispânicas e com níveis de vida mais baixos têm muito mais probabilidades de ter um filho no ensino à distância, uma tendência observada por todo o país. Estas escolhas são intencionais e refletem uma consideração lógica do risco desproporcional: nos EUA, a maioria das crianças infetadas e mortas pelo coronavírus enquadram-se nestes grupos raciais e étnicos. Enquanto isso, as escolas particulares têm mais propensão para estarem abertas com aulas presenciais.

“Não me quero colocar a mim, os meus filhos ou os seus professores em perigo”, diz Naomi Pena, uma mulher negra que é membro do Conselho de Educação Comunitária do Distrito 1 da cidade de Nova Iorque. Naomi viu vários dos seus amigos morrerem de COVID-19, pelo que decidiu manter os seus filhos adolescentes em casa, embora um dos seus filhos tenha dificuldades de aprendizagem. Semelhante ao caso de Naomi, cerca de 60% das famílias no Distrito 1 decidiram que os seus filhos iam ter ensino à distância.

À medida que os cientistas começam finalmente a chegar a um consenso sobre a segurança nas escolas, os conselhos diretivos precisam não só de fazer planos com base nas evidências, mas também de comunicar melhor quais são as medidas implementadas para manter as crianças e as comunidades em segurança.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados