Sabia que as Cascas de Banana Purificam Água Contaminada?

Uma equipa de investigadores de uma universidade portuguesa desenvolveu um estudo sobre a utilização de cascas de banana na remoção de metais pesados presentes na água.

Publicado 14/12/2020, 11:49 WET
Preparação das cascas de banana para os estudos de remoção de metais no laboratório da Universidade ...

Preparação das cascas de banana para os estudos de remoção de metais no laboratório da Universidade de Aveiro.

Fotografia de Pedro Farias, Universidade de Aveiro

Uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro descobriu que a celulose, a lenhina e a hemicelulose, compostos da banana, se destacam de outros materiais biológicos com os mesmos compostos, ajudando a purificar as águas contaminadas com metais pesados.

Um dos metais que se pode encontrar em águas contaminadas é o perigoso mercúrio. As cascas de banana têm a capacidade de reter este metal, assim como acontece na retenção de chumbo ou cádmio.

Purificação de diferentes soluções aquosas

A investigação testou a remoção de mercúrio com cascas de banana de água da torneira, água do mar e de um efluente real. Foram avaliados o uso deste material biológico como biossorvente para sorção de mercúrio de diferentes soluções aquosas, bem como o impacto das condições operacionais, o tempo de contacto e a força iónica.

A dosagem do biossorvente e o tempo de contacto revelaram mais influência na remoção de mercúrio do que a força iónica e o seu aumento conduziu a uma melhoria na captação do metal pesado, atingindo as concentrações finais com a qualidade da água potável.

O processo de sorção de mercúrio

Os processos de sorção do mercúrio presente na água envolvem a retenção de um composto de uma fase fluída, na superfície de um sólido, sendo apenas necessário colocar as cascas em contacto com a água por um determinado período.

Elaine Fabre, cientista do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Instituto de Materiais de Aveiro (CICECO) responsável pelo estudo, em colaboração com outros investigadores da Universidade de Aveiro, explica que o "tempo que as cascas devem estar em contato com a água contaminada, depende das condições em que se encontram”. Vários foram os estudos realizados que vieram a demonstrar que para as diversas condições estudadas, simuladas como ocorrem na realidade, “72 horas é suficiente para se atingirem concentrações de Hg muito baixas, e em alguns casos características de águas consideradas próprias para o consumo humano, ou seja < 1µg/L”.

A equipa estudou também qual seria a melhor quantidade de casca de banana a utilizar, de forma a que no fim do processo, além de se obter água com qualidade superior, as quantidades de resíduos sejam as menores possíveis.

Relativamente à fase de maturação em que devem estar as bananas, Elaine indica que as cascas utilizadas no estudo eram de bananas maduras. "Queríamos que fossem mesmo representativas de resíduos, como por exemplo as cascas das bananas utilizadas para produção de compotas e sumos. Não chegámos a testar as cascas de bananas verdes”.

Em relação à preparação destas cascas, a investigadora explica que “as mesmas foram liofilizadas, ou seja, passaram por um processo de remoção de água, tendo sido moídas e depois passadas por um peneiro e, só depois, utilizadas. Este completo processo é realizado, de modo a facilitar a comparação destas cascas com os outros materiais biológicos que foram testados e com os da literatura [científica]". Para uma aplicação em escala maior, a investigadora sugere que as cascas passem somente por um processo de secagem, para retardar o seu apodrecimento, e se salte o processo de moagem para facilitar a sua remoção no final do processo.

A versatilidade das cascas de banana

A utilidade das cascas de banana vai desde a compostagem até aos cuidados simples de beleza, pois a sua constituição inclui tanino, de características adstringentes e antisséticas.

Por ser rica em nutrientes como potássio, magnésio e vitaminas B6 e B12, entre outros, a casca de banana pode tratar patologias dermatológicas, ou até ser transformada em farinha para usos culinários.

As cascas de banana são ainda indicadas para a recuperação da qualidade da terra e o crescimento saudável das plantações.

O trabalho de investigação

Além de Elaine Fabre, fizeram parte do projeto Bruno Henriques e Eduarda Pereira do REQUIMTE, Carlos SilvaCláudia Lopes e Paula Figueira do CICECO e Carlos Vale do CIIMAR - Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental.

Os resultados do estudo oferecem a possibilidade de aplicar esta descoberta em sistemas reais de tratamento de águas residuais e em efluentes industriais. 

Elaine Fabre adianta que com base nos conhecimentos adquiridos pelo grupo de investigação nos últimos anos, com a utilização de diversos resíduos para tratamentos de águas, os investigadores planeiam criar uma startup com o intuito de lançar produtos no mercado, recorrendo aos biossorventes para produzir biofiltros, personalizados com base no tipo de efluente que necessita de ser tratado. Elaine indica que “esses biofiltros utilizarão resíduos, tais como as cascas de bananas e serão facilmente aplicados e removidos, de forma a oferecer uma solução sustentável e de baixo custo para o tratamento de águas contaminadas”.

Tendo em conta que um dos grandes desafios do século XXI continua a ser o acesso a água potável em países subdesenvolvidos, a cientista acredita que “soluções tão simples como esta poderão ajudar a melhorar a qualidade de vida de milhares de pessoas, além de promover uma reciclagem e valorização de resíduos agrícolas de baixo ou nenhum valor associado”.

A investigadora refere que no futuro pretendem aplicar esta tecnologia em maior escala, através de “parcerias com estações de tratamento ou empresas que tenham efluentes contaminados com Hg, ou outros elementos inorgânicos, e que estejam dispostas a testar esta tecnologia e possivelmente implementá-la no seu processo produtivo".

"Sabemos que a grande dificuldade da ciência nos dias de hoje é fazer o conhecimento ultrapassar o ambiente laboratorial e chegar a uma aplicação industrial real. Estamos justamente nessa fase, e estamos ansiosos por conseguir transmitir esse conhecimento para fora da Universidade”.

Os investigadores estimam ainda que, para tratar 100 litros de água contaminada com 0,05 miligramas de mercúrio e, de forma a atingir-se a concentração permitida para águas próprias para consumo (0,001 miligramas de mercúrio por litro), seriam necessários apenas cerca de 290 gramas de cascas de banana.

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