A COVID-19 Provavelmente Ficará Connosco Para Sempre. Eis Como Iremos Conviver com a Doença.

Eventualmente, o vírus pode transformar-se numa doença muito mais ligeira – mas, por enquanto, a vacinação e a vigilância são essenciais para terminar a fase pandémica.

Publicado 26/01/2021, 15:37
Uma enfermeira reza nos corredores da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Universitário Rafik Hariri, no ...

Uma enfermeira reza nos corredores da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Universitário Rafik Hariri, no dia 15 de janeiro de 2021, no sul de Beirute, no Líbano. Enquanto a pandemia continua a devastar comunidades pelo mundo inteiro, as campanhas de vacinação podem eventualmente tornar a COVID-19 mais parecida com uma constipação comum.

Fotografia de Diego Ibarra Sanchez, Getty Images

À medida que a COVID-19 continua, o resultado mais provável a longo prazo é o vírus SARS-CoV-2 tornar-se endémico em grandes zonas do globo, circulando constantemente entre a população humana, mas provocando menos casos de doenças graves. Eventualmente – daqui a alguns anos ou até mesmo décadas – a COVID-19 pode fazer a transição para uma doença ligeira, como os quatro coronavírus humanos endémicos que contribuem para uma constipação comum.

“O meu palpite é o de que um número suficiente de pessoas vai adoecer com isto e um número suficiente de pessoas vai levar a vacina, reduzindo assim a transmissão de pessoa para pessoa”, diz Paul Duprex, diretor do Centro de Pesquisa de Vacinas da Universidade de Pittsburgh. “Haverá grupos de pessoas que não irão levar [as vacinas], teremos surtos localizados, mas eventualmente isto vai tornar-se num dos coronavírus habituais.”

Mas essa transição não vai acontecer do dia para a noite. Os especialistas dizem que a trajetória pós-pandémica do SARS-CoV-2 vai depender de três fatores essenciais: durante quanto tempo os humanos retêm a imunidade ao vírus, a rapidez com que o vírus evolui e o quão amplamente as populações mais velhas se tornam imunes durante a própria pandemia.

Dependendo dos resultados destes três fatores, o mundo pode vir a enfrentar vários anos de uma lenta transição pós-pandémica – uma transição marcada por uma evolução viral contínua, surtos localizados e possivelmente várias dosagens de vacinações atualizadas.

“As pessoas precisam de compreender que isto não vai passar”, diz Roy Anderson, epidemiologista de doenças infecciosas do Imperial College de Londres. “Vamos conseguir gerir isto devido à medicina moderna e às vacinas, mas não é algo que vá simplesmente desaparecer.”

O longo trajeto até à constipação comum

Um dos fatores essenciais em relação ao futuro da COVID-19 reside na nossa imunidade à doença. A imunidade a qualquer patógeno, incluindo o SARS-CoV-2, não é binária como um interruptor de luz. Em vez disso, é mais como um interruptor de oscilação gradual: o sistema imunitário humano consegue conferir vários graus de proteção parcial a um patógeno, algo que pode evitar doenças graves sem prevenir necessariamente a infeção ou transmissão.

Em geral, o efeito de proteção parcial é uma das razões pelas quais os quatro coronavírus humanos endémicos conhecidos – os que provocam uma constipação comum – têm sintomas muito ligeiros. Um estudo publicado em 2013 na BMC Infectious Diseases mostra que, em média, os humanos são expostos pela primeira vez a todos estes quatro coronavírus entre os três e os cinco anos de idade – parte da primeira vaga de infeções nas crianças.

Estas infeções iniciais estabelecem a base para a futura resposta imunitária do corpo. À medida que novas variantes dos coronavírus endémicos evoluem naturalmente, o sistema imunitário tem uma vantagem nessa luta – não o suficiente para erradicar instantaneamente os vírus, mas o suficiente para garantir que os sintomas não progridem muito para além de uma obstrução nasal.

“O vírus também é o seu próprio inimigo. Sempre que um vírus nos infeta, aumenta a nossa imunidade”, afirma Marc Veldhoen, imunologista da Universidade de Lisboa.

Estudos feitos anteriormente deixaram claro que a imunidade parcial consegue impedir que as pessoas adoeçam gravemente, mesmo que os coronavírus entrem com sucesso nos seus sistemas. A longo prazo, pode acontecer o mesmo com o novo coronavírus. Jennie Lavine, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Emory, modelou a trajetória pós-pandémica do SARS-CoV-2 com base nos dados do estudo de 2013 e os seus resultados – publicados na Science no dia 12 de janeiro – sugerem que, se o SARS-CoV-2 se comportar como os outros coronavírus, provavelmente se poderá transformar num ligeiro incómodo daqui a alguns anos ou décadas.

Contudo, esta transição de pandemia para doença ligeira depende da forma como a nossa resposta imunitária ao SARS-CoV-2 se mantém ao longo do tempo. Os investigadores estão a examinar ativamente a “memória imunitária” do corpo ao vírus. Um estudo publicado na Science no dia 6 de janeiro rastreou a resposta imunitária de 188 pacientes com COVID-19 durante cinco a oito meses após a infeção e, embora as respostas variassem, cerca de 95% dos pacientes tinham níveis mensuráveis de imunidade.

“A imunidade diminui, mas certamente não desaparece, e penso que isso é fundamental”, diz Jennie Lavine.

Na verdade, é até possível que um dos coronavírus que provoca constipações tenha desencadeado um surto no século XIX, antes de se transformar numa série de patógenos comuns e ligeiros. Em 2005, com base na disseminação da sua árvore genealógica, os investigadores estimaram que o coronavírus endémico OC43 entrou nos humanos algures em finais do século XIX, provavelmente no início da década de 1890. Esta data levou alguns investigadores a especular que a versão original do OC43 pode ter causado a pandemia da “gripe russa” de 1890, que foi destacada pela sua taxa invulgarmente elevada de sintomas neurológicos – um dos efeitos da COVID-19.

“Não há provas concretas, mas há muitos indícios de que não se tratava de uma pandemia de influenza, mas sim de uma pandemia corona”, diz Marc Veldhoen.

Cerne da evolução

Embora a carnificina dos coronavírus anteriores tenha desaparecido com o tempo, o caminho para uma coexistência relativamente indolor entre humanos e o SARS-CoV-2 provavelmente será acidentado. No futuro a médio prazo, o impacto do vírus dependerá muito da forma como este evolui.

O SARS-CoV-2 está a propagar-se descontroladamente pelo mundo inteiro e, com cada nova replicação, há a probabilidade de mutações que podem ajudar o vírus a infetar hospedeiros humanos de forma mais eficaz.

O sistema imunitário humano, ao mesmo tempo que protege muitos de nós de doenças graves, também atua como um cerne evolutivo, pressionando o vírus na seleção de mutações que o tornam mais eficaz na ligação com as células humanas. Os próximos meses e anos irão revelar o quão bem o nosso sistema imunitário consegue acompanhar essas alterações.

As novas variantes do SARS-CoV-2 também tornam a vacinação generalizada e as outras medidas de combate à transmissão, como o uso de máscara e o distanciamento social, mais cruciais do que nunca. Quanto menos o vírus se propagar, menos oportunidades tem para evoluir.

“Vamos conseguir gerir isto devido à medicina moderna e às vacinas, mas não é algo que vá simplesmente desaparecer.”

por ROY ANDERSON, IMPERIAL COLLEGE DE LONDRES

Por enquanto, as vacinas atuais devem conseguir funcionar contra as variantes emergentes, como a linhagem B.1.1.7 encontrada pela primeira vez no Reino Unido, para prevenir muitos casos de doenças graves. As vacinas e infeções naturais criam diversos grupos de anticorpos que se aglomeram em muitas partes diferentes da proteína espigão do SARS-CoV-2, o que significa que uma só mutação não consegue tornar o vírus invisível para o nosso sistema imunitário.

Contudo, as mutações podem produzir futuras variantes do SARS-CoV-2 que resistam parcialmente às vacinas atuais. Numa pré-impressão publicada no dia 19 de novembro e atualizada a 19 de janeiro, Paul Duprex e colegas revelam que as mutações que apagam partes da região da proteína espigão do genoma do SARS-CoV-2 evitam a ligação de determinados anticorpos.

“O que aprendi com o nosso próprio trabalho é o quão monstruosamente bela é a evolução”, diz Paul.

Outros laboratórios descobriram que as mutações na 501Y.V2 - a variante encontrada pela primeira vez na África do Sul - são particularmente eficazes a ajudar o vírus a eludir os anticorpos. De acordo com outra pré-impressão publicada no dia 19 de janeiro, entre os 44 pacientes recuperados de COVID-19 na África do Sul, 21 não neutralizaram efetivamente a variante 501Y.V2. Mas estas 21 pessoas tiveram casos ligeiros a moderados de COVID- 19, pelo que os seus níveis de anticorpos eram inicialmente mais baixos, podendo explicar por que razão o seu sangue não neutralizou a variante 501Y.V2.

Até agora, as vacinas atualmente autorizadas – que estimulam a produção de elevados níveis de anticorpos – parecem ser eficazes contra as variantes mais preocupantes. Numa terceira pré-impressão, publicada no dia 19 de janeiro, os investigadores mostram que os anticorpos de 20 pessoas que receberam as vacinas da Pfizer-BioNTech ou da Moderna não se ligaram tão bem aos vírus com as novas mutações quanto as variantes anteriores – mas que ainda se ligaram, sugerindo que as vacinas ainda protegem contra uma doença grave.

As novas variantes também acarretam outras ameaças. Algumas, como a B.1.1.7, parecem ser mais transmissíveis do que as formas anteriores de SARS-CoV-2 e, se tiverem uma propagação descontrolada, estas variantes podem adoecer as pessoas de forma muito mais grave, o que pode sobrecarregar os sistemas de saúde pelo mundo inteiro e provocar um número bastante maior de mortes. Marc Veldhoen acrescenta que as novas variantes também podem representar um risco maior de reinfeção para os pacientes recuperados de COVID-19.

Os investigadores estão a monitorizar de perto as novas variantes. Roy Anderson diz que, se as vacinas precisarem de ser atualizadas no futuro, isso poderá ser feito rapidamente – em cerca de seis semanas para as vacinas mRNA atualmente autorizadas, como as produzidas pela Pfizer-BioNTech e Moderna. Porém, este cronograma não leva em consideração as aprovações regulatórias que as vacinas atualizadas teriam de passar.

Roy Anderson acrescenta que, dependendo da forma como a evolução do vírus progride, podem surgir linhagens de SARS-CoV-2 distintas o suficiente para que as vacinas precisem de ser adaptadas, semelhante ao que acontece com as vacinas da pneumococo. Daqui para a frente, para nos protegermos contra o SARS-CoV-2, precisamos de uma rede de monitorização global semelhante à dos laboratórios de referência mundial que são usados para recolher, sequenciar e estudar as variantes da gripe.

“Vamos ter de conviver com isto, vamos precisar de vacinação constante, e vamos precisar de um programa de vigilância molecular muito sofisticado para acompanhar a evolução do vírus”, diz Roy.

A promessa e os desafios de uma vacinação generalizada

Os especialistas concordam que a transição para um período de pós-pandemia depende da prevalência da imunidade, sobretudo entre as populações mais velhas e vulneráveis. As pessoas mais jovens, nomeadamente as crianças, irão desenvolver imunidade ao SARS-CoV-2 ao longo de uma vida de exposição ao vírus. Os adultos da atualidade não tiveram esse luxo e os seus sistemas imunitários estão expostos.

A fronteira exata para se alcançar uma imunidade que retarde a propagação do vírus entre toda a população vai depender do quão contagiosas serão as futuras variantes. Até agora, as investigações sobre as variantes iniciais do SARS-CoV-2 sugerem que pelo menos 60 a 70 por cento da população humana precisa de alcançar a imunidade para encerrar a fase pandémica.

Esta imunidade pode ser alcançada de duas formas: vacinação em grande escala ou recuperação de infeções naturais. Mas alcançar uma imunidade generalizada através de uma disseminação descontrolada tem um custo terrível: centenas de milhares de mortes e hospitalizações em todo o mundo. “Se não quisermos promover e defender as vacinas, teremos de decidir coletivamente quantos idosos queremos que morram – e não quero ser a pessoa que toma essa decisão”, diz Paul Duprex.

Jeffrey Shaman, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Colúmbia, refere que a exigência global pelas vacinas também expõe as desigualdades existentes na saúde a nível mundial. Num mapa de dezembro que foi amplamente partilhado, o The Economist Intelligence Unit estimava que os países ricos como os EUA terão vacinas amplamente acessíveis no início de 2022, ao passo que nos países mais pobres de África e Ásia isso só deverá acontecer em 2023.

Os esforços de vacinação nos países em desenvolvimento dependem, em parte, de as vacinas poderem ser armazenadas com refrigeração padrão, como as vacinas em desenvolvimento pela Oxford/AstraZeneca e Johnson & Johnson.

Na semana de 18 de janeiro, de acordo com uma estimativa da Organização Mundial de Saúde, cerca de 40 milhões de doses da vacina contra COVID-19 tinham sido administradas no mundo inteiro, sobretudo nos países mais ricos. Em África, apenas dois países, as Seychelles e Guiné, tinham começado a administrar vacinas. E na Guiné, um país pobre, apenas 25 pessoas tinham sido vacinadas.

“A acumulação de vacinas [nos países ricos] só vai prolongar os problemas e atrasar a recuperação de África”, disse em comunicado Matshidiso Moeti, diretor regional da OMS em África. “É profundamente injusto que os africanos mais vulneráveis sejam forçados a esperar pelas vacinas enquanto os grupos de menor risco nos países ricos são protegidos.”

À medida que as vacinas são lentamente distribuídas pelo mundo inteiro, os países provavelmente irão emitir mandatos de vacinação e requisitos de certificação para os viajantes internacionais. Se o vírus se tornar endémico e propagar de forma semelhante às constipações comuns, as vacinas podem não ser necessárias para sempre, diz Jennie Lavine

Contudo, até as melhores previsões dos investigadores esbarram na incerteza que separa o presente do futuro. Questões em torno de reinfeção, transmissão, o fardo da saúde pós-pandemia e a evolução viral irão permanecer durante anos ou até mesmo décadas.

“Infelizmente, vai levar tempo”, diz Jeffrey Shaman. “E só o tempo é que nos poderá dizer o que vai acontecer.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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