Alterações nas Doses de Vacinas Para Compensar Atraso na Distribuição Preocupa Especialistas

Para acelerar o processo de vacinação, Joe Biden quer libertar as vacinas já disponíveis, em vez de aguardar pela segunda dose. Outros especialistas sugerem que se ignore as doses recomendadas ou que se retarde intencionalmente as vacinas de reforço.

Publicado 12/01/2021, 16:49 WET
Simon Stevens (à direita), chefe-executivo do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, observa uma enfermeira ...

Simon Stevens (à direita), chefe-executivo do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, observa uma enfermeira a administrar uma dose da vacina Pfizer-BioNTech a Frank Naderer (à esquerda) no Guy's Hospital em Londres, no dia 8 de dezembro de 2020. O Reino Unido informou os seus profissionais de saúde que podiam adiar a segunda dose das vacinas aprovadas contra a COVID-19 para ajudar a distribuir a primeira dose mais depressa a mais pessoas.

Fotografia de Victoria Jones, POOL, AFP via Getty Images

À medida que os casos de COVID-19 aumentam nos EUA, as autoridades estão a enfrentar uma pressão crescente para distribuir as doses das vacinas o mais depressa possível.

No dia 8 de janeiro, um porta-voz da equipa de transição do presidente eleito Joe Biden disse que o novo governo planeava libertar as doses adicionais da vacina para priorizar as primeiras vacinações. Estas informações surgem no meio de propostas que querem alterar a forma como as vacinas são administradas para enfrentar a crise urgente – mesmo que isso desrespeite os regimes comprovados pelos fabricantes de vacinas e as recomendações dos principais especialistas em doenças infecciosas.

À data de publicação deste artigo, cerca de 21 milhões de doses das duas vacinas autorizadas nos EUA tinham sido distribuídas por todo o país – mas menos de seis milhões tinham sido administradas aos pacientes. A maioria dos especialistas entrevistados para este artigo concorda que os EUA não enfrentam uma escassez de vacinas. Em vez disso, a nação está a lidar com uma combinação de fatores que vão desde uma distribuição mais lenta do que o previsto, um aumento de casos de COVID-19 e a chegada de uma nova variante mais transmissível do vírus.

No início da semana passada, Moncef Slaoui, conselheiro-chefe da Operação Warp Speed, levantou a hipótese de se dividir as dosagens da vacina criada pela empresa de biotecnologia Moderna. Em resposta, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA anunciaram que iriam trabalhar com a Moderna para examinar a eficácia da administração de doses mais baixas da vacina, que mostrou 95% de eficácia nos testes da sua dosagem total. Em teoria, esta abordagem poderia duplicar as quantidades disponíveis da vacina no país e permitir que as pessoas vacinadas recebessem duas doses.

Alterar a dosagem, em vez de se desenvolverem formas mais eficazes para usar as reservas existentes, “é a resposta certa para a pergunta errada”, diz Anthony Fauci, diretor de longa data do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA. “O problema não se trata de que querermos esticar as doses, mas sim de querermos ser mais eficientes a levar a vacina às pessoas. Se chegar um momento em que não temos vacinas suficientes, então devemos considerar seriamente a abordagem de meia dose.”

Por enquanto, a agência FDA dos EUA rejeitou a ideia de divisão das doses pela metade. Num comunicado divulgado na semana passada, a agência disse que, embora a alteração de dosagem valha a pena numa exploração clínica futura, “neste momento, sugerir alterações nas dosagens autorizadas pela FDA para essas vacinas é prematuro e não tem bases sólidas nas evidências disponíveis”.

A FDA também rejeitou as abordagens governamentais de outros países, que estão a tentar esticar as reservas das suas vacinas: adiando as segundas doses.

Com base nos resultados dos ensaios clínicos feitos até agora, a maioria das vacinas autorizadas em vários países requer duas injeções, com um intervalo de semanas, para atingirem a proteção máxima comprovada. No dia 30 de dezembro, o Reino Unido anunciou que iria aumentar o tempo entre a primeira e a segunda dose de ambas as vacinas aprovadas. Esta medida pode permitir, em teoria, que o país dê a mais pessoas as vacinas iniciais, na esperança de oferecer pelo menos alguma proteção a um maior número de pessoas em risco durante um período menor. Da mesma forma, a Dinamarca também vai adiar as segundas doses da sua vacina aprovada.

Sob a administração de Trump, os EUA têm retido parte das suas vacinas para garantir que há o suficiente para as pessoas receberem a sua segunda dose. Mas a equipa de transição de Biden diz que o novo presidente planeia libertar essas doses “para garantir que os americanos que mais necessitam as recebem o mais depressa possível”. A FDA ainda não respondeu a este comunicado.

“À medida que os países se esforçam para travar a propagação, cada nação terá de levar em consideração a seguinte questão: Com que rapidez conseguem vacinar a sua população?” diz Ruth Karron, professora de saúde internacional e diretora do Centro de Pesquisa para Imunização e da Johns Hopkins Vaccine Initiative. Mas com dados limitados, cientistas e profissionais de saúde permanecem divididos sobre se devem alterar as recomendações dos fabricantes de vacinas.

Metade da dose, o dobro da proteção?

Numa entrevista dada ao programa “Face the Nation” da CBS, Moncef Slaoui, da Operação Warp Speed, rejeitou a ideia de aumentar o tempo entre a primeira e a segunda dose das vacinas Pfizer-BioNTech e Moderna, que nos ensaios clínicos foram respetivamente administradas com 21 e 28 dias de intervalo.

“O problema não se trata de querermos esticar as doses, mas sim de querermos ser mais eficientes a levar a vacina às pessoas.”

por ANTHONY FAUCI, INSTITUTO NACIONAL DE ALERGIA E DOENÇAS INFECCIOSAS

Moncef Slaoui sugeriu a ideia de se reduzir pela metade a dosagem da Moderna – mantendo o seu regime de vacinação de duas doses com um intervalo de 28 dias, mas reduzindo a quantidade administrada em cada dose – como uma alternativa que poderia permitir que mais pessoas fossem inoculadas. Moncef fez referência ao ensaio clínico de fase dois da Moderna, que testou doses de 50 microgramas e 100 microgramas da sua vacina. Os especialistas dizem que este ensaio encontrou uma resposta imunitária promissora com a dosagem mais baixa nos adultos entre os 18 e os 55 anos.

Barney Graham, subdiretor do Centro de Pesquisa de Vacinas do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas do NIH, disse à National Geographic que os investigadores estão a explorar diversas formas de imunizar porções maiores da população mais depressa. “Mas, por enquanto, a recomendação é usar a vacina como foi testada, em duas doses de 100 microgramas”, diz Barney.

Quando se considera uma dosagem reduzida, um dos problemas é o de que uma resposta imunitária não é o mesmo que uma proteção comprovada contra uma doença, alerta Paul Offit, diretor do Centro de Educação de Vacinas do Hospital Infantil de Filadélfia e conselheiro do governo norte-americano sobre políticas de vacinas. Embora a presença de anticorpos signifique muitas vezes que um paciente desenvolveu alguma proteção imunitária, isso não é um dado adquirido. Por exemplo, as pessoas podem ter anticorpos contra o VIH sem estarem protegidas contra a doença. “Dizer que a resposta imunitária significa proteção é ignorar a história”, diz Paul.

Por outro lado, alguns especialistas argumentam que os tempos drásticos em que vivemos podem de facto exigir medidas drásticas. Robert Wachter, chefe do departamento de medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco, diz que, até recentemente, não teria apoiado a redução das dosagens. Mas, à medida que os casos aumentam, há uma nova variante e o país está aquém do esperado em termos de vacinação, Robert começa a pensar de maneira diferente.

“Parece que chegou o momento de sermos um pouco mais criativos e de aceitarmos a possibilidade de que precisamos de fazer algo com menos evidências”, diz Robert Wachter.

Atrasar as doses de reforço

No Reino Unido, 1.3 milhões de pessoas – ou cerca de dois em cada cem habitantes – receberam a primeira dose das vacinas Pfizer-BioNTech ou Oxford-AstraZeneca, que foram aprovadas para uso de emergência. Ambas as vacinas requerem duas injeções: a principal e uma de reforço que é administrada 21 dias depois. Mas face à nova variante mais transmissível, que foi descoberta no Reino Unido, os casos de COVID-19 dispararam. Para combater o vírus, as autoridades decidiram priorizar a aplicação das injeções iniciais e estender o tempo entre as vacinas até três meses.

“O que temos na Grã-Bretanha é uma crise”, diz Calum Semple, professor de saúde infantil e medicina de surtos na Universidade de Liverpool. Na segunda-feira da semana passada, os hospitais britânicos estavam a tratar mais de 26.000 pacientes com COVID-19. Muitos hospitais estão a adiar as cirurgias sem caráter de urgência, relata a Associated Press; alguns hospitais estão a adiar as cirurgias de cancro ou os tratamentos intensivos devido aos tratamentos COVID-19.

Na fase três dos ensaios clínicos, ambas as vacinas autorizadas no Reino Unido mostraram uma eficácia elevada após a primeira injeção. Mas nenhum dos testes avaliou quanto tempo é que essa eficácia duraria, porque todos os voluntários que receberam a primeira dose da vacina levaram uma segunda injeção.

Calum Semple argumenta que faz sentido, no contexto da crise, “dar a primeira dose a mais pessoas”, mesmo que isso signifique atrasar uma segunda dose. “Embora não tenhamos dados suficientes para saber absolutamente o que estamos a fazer, há dados suficientes para fazer um julgamento forçosamente rápido sobre as circunstâncias que podem salvar vidas e aliviar a pressão sobre o nosso serviço de saúde”, diz Calum.

Mas outros cientistas alertam que as duas doses e os tempos recomendados entre as doses iniciais e as de reforço não foram escolhidos aleatoriamente. A Pfizer forneceu à National Geographic uma declaração que diz “não existirem dados que demonstrem que a proteção após a primeira dose é mantida após 21 dias”. Esta declaração também diz que “é fundamental as autoridades de saúde... garantirem que cada recetor recebe a máxima proteção possível, o que significa uma imunização com duas doses da vacina”.

“As investigações feitas ao longo do tempo demonstram que duas doses de uma vacina costumam ser a melhor forma de ensinar o sistema imunitário a montar defesas de longa duração”, diz Galit Alter, professora de medicina na Escola de Medicina de Harvard e líder de grupo no Instituto Ragon. Galit compara ensinar o sistema imunitário a ensinar a crianças: se lerem algo uma vez, conseguem reter essa informação, mas é a repetição que cria uma verdadeira memória. Acontece basicamente o mesmo com as defesas imunitárias, e muitas das vacinas estabelecidas, desde a varicela à hepatite B, requerem doses de reforço.

Os ensaios com as vacinas COVID-19 mostraram não só uma resposta imunitária impressionante após uma segunda dose, como também a presença de células T, agentes importantes do sistema imunitário que se vinculam a vírus específicos. Paul Offit diz que este tipo de resposta “sugere a presença de memória imunitária” após um reforço.

O tempo entre as vacinas também pode ser crucial. Galit Alter diz que existe um momento ideal entre a vacina principal e a de reforço: tempo suficiente para criar a referida repetição, mas também depressa o suficiente para que as pessoas não se esqueçam ou se tornem complacentes. Por exemplo, a vacina contra o papilomavírus humano (HPV) requer pelo menos duas injeções, administradas com pelo menos seis meses de intervalo, para ser mais eficaz. As investigações mostram que muitas pessoas nunca recebem a segunda dose desta vacina porque se esquecem ou ficam confusas sobre o agendamento. Os investigadores também descobriram que o momento ideal é geralmente três a quatro semanas entre as doses.

Em retrospetiva, é fácil olhar para trás e questionar por que razão os ensaios de vacinas não estudaram as dosagens mais baixas ou as injeções únicas, diz Ruth Karron. Mas no início da pandemia, os fabricantes de vacinas esperavam que as suas vacinas tivessem pelo menos 50% de eficácia – e ficaram surpreendidos e encantados quando descobriram que os seus regimes de duas doses revelavam uma eficácia de até 95%.

“Se eles soubessem que as vacinas iriam ser tão boas, poderiam ter feito estudos adicionais”, diz Ruth. “Mas eles queriam lançar as vacinas o mais depressa possível e os estudos adicionais poderiam ter prolongado as coisas.”

Risco e recompensa

O conceito de economia nas dosagens, seja através da redução das dosagens ou aumentando o tempo entre cada vacina, acarreta outros riscos – incluindo um fenómeno laboratorial chamado mutantes de escape.

Investigações anteriores mostraram que, quando são administrados níveis de anticorpos abaixo do ideal contra vírus em pratos de cultura ou tubos de ensaio, esses vírus podem criar uma variante que escapa das defesas do sistema imunitário, diz Erica Ollmann Saphire, professora de imunologia molecular do Instituto de Imunologia La Jolla. A maioria desses mutantes é menos potente, mas por vezes também podem ser mais potentes ou mais transmissíveis.

Embora seja teoricamente possível que um fenómeno de mutante de escape tenha dado origem à nova variante de COVID-19 no Reino Unido, é impossível determinar se foi isso que aconteceu porque os estudos sobre mutantes de escape têm sido limitados a experiências de laboratório. Ainda assim, diz Erica Saphire, essa possibilidade deve ser considerada. “O problema é o de que, se deixarmos as pessoas com uma imunidade inadequada, será que estamos a criar uma situação onde encorajamos mais mutantes de escape?”

Para além disso, e apesar da confiança nas vacinas COVID-19 aparentemente estar a aumentar, a desconfiança continua elevada. Uma sondagem feita recente pelo Centro Pew Research mostra que 40% dos americanos não querem ou provavelmente não vão ser vacinados. Existe a preocupação de que, se a forma como as vacinas são fornecidas for alterada sem evidências concretas, isso possa aumentar a hesitação.

“Para a comunidade, é confuso estarmos a tentar encorajar esta vacina”, diz Barney Graham. “Se começarmos a usá-la de maneiras que não foram testadas, acho que a mensagem se torna ainda mais complicada para as pessoas.”

O foco na forma como as vacinas são administradas também ignora outro problema: Independentemente da quantidade de doses disponíveis, é necessária uma infraestrutura sólida para as distribuir. E uma infraestrutura sólida é algo que, de acordo com Paul Offit, os EUA não têm, pelo menos para já.

“Precisamos de uma estratégia de vacinação em massa, porque estamos a tentar vacinar todas as pessoas o mais depressa possível”, diz Paul. “Estamos a falar sobre filas de pessoas em estádios, igrejas ou auditórios e vaciná-las em massa. E simplesmente não preparámos isso.”

Anthony Fauci concorda. “Explorar alternativas de dosagem de forma mais agressiva faria sentido se tivéssemos mais pessoas que desejassem ser vacinadas do que vacinas. Mas, neste momento, não é esse o nosso problema. Não estamos sequer a vacinar as pessoas com a maior eficácia possível.”

Portanto, apesar de parecer evidente que é necessário vacinar mais pessoas contra a COVID-19, fazer com isso aconteça requer decisões muito difíceis. “Cientistas diferentes de países diferentes irão fazer escolhas diferentes, dependendo do que acreditam ser a melhor solução numa situação em que não temos uma escolha óbvia, fácil e boa”, diz Ruth Karron. “Se o melhor caminho fosse evidente, estariam todos a dizer exatamente a mesma coisa.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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