O que Aprendemos Sobre a Resposta do Sistema Imunitário à COVID-19

Um ano após o início da pandemia, a nossa compreensão sobre as respostas imunitárias ao coronavírus aumentou exponencialmente. Mas há questões – quanto tempo dura a imunidade, por exemplo – que ainda precisam de resposta.

Publicado 8/01/2021, 12:47 WET
Um médico recolhe uma amostra com zaragatoa para um teste COVID-19 no exterior da Clínica Ajwa ...

Um médico recolhe uma amostra com zaragatoa para um teste COVID-19 no exterior da Clínica Ajwa em Shah Alam, na Malásia, no dia 10 de dezembro de 2020.

Fotografia de Lim Huey Teng, Reuters

Em 2020, mais de 80 milhões de pessoas foram diagnosticadas com COVID-19 e mais de 1.7 milhões morreram. Apesar deste número avassalador, os cientistas fizeram progressos significativos na compreensão de um dos maiores mistérios da pandemia: por que razão algumas pessoas recuperam rapidamente enquanto que outras desenvolvem casos graves de coronavírus.

Doze meses de estudo mostraram que os nossos corpos desenvolvem, em muitos casos, uma resposta imunitária robusta e persistente ao SARS-CoV-2, mas para algumas pessoas com casos mais graves a resposta do corpo descontrola-se e faz mais mal do que bem.

A nossa compreensão sobre as respostas imunitárias ao coronavírus aumentou significativamente, mas há questões – como a longevidade da imunidade – que ainda precisam de resposta, sobretudo quando há mutações que podem ajudar o SARS-CoV-2 a iludir as nossas defesas imunitárias. Com a vacinação no horizonte para muitos dos indivíduos em risco, a compreensão das complexidades da resposta imunitária é ainda mais importante.

O bom

As respostas imunitárias enquadram-se num espectro. Por exemplo, os nossos corpos desenvolvem uma imunidade vitalícia a vírus como a hepatite A ou o sarampo, enquanto que o VIH, por outro lado, consegue escapar das nossas defesas.

“Felizmente, o SARS-CoV-2 está mais perto da extremidade do espectro da hepatite A”, diz Andrea Cox, imunologista viral da Universidade Johns Hopkins. “Não é o vírus mais fácil, mas está longe de ser o VIH.”

Num artigo importante publicado em junho, investigadores mostraram pela primeira vez que os pacientes recuperados não só produziam anticorpos específicos para o coronavírus – proteínas projetadas para aglutinar e frequentemente neutralizar um invasor – como também produziam níveis elevados de células T assassinas e células T auxiliares. As células T assassinas reconhecem e destroem as nossas próprias células infetadas, ou seja, são danos colaterais intencionais que se destinam a impedir a propagação de um vírus. Enquanto isso, as células T auxiliares ajudam nesse processo e coordenam a maturação de anticorpos.

“Se regressarmos atrás no tempo, havia muita apreensão sobre se o vírus iria realmente induzir uma boa resposta imunitária”, diz Alessandro Sette, coautor do referido estudo e imunologista do Instituto de Imunologia La Jolla. Através de uma parceria com Shane Crotty, outro imunologista do mesmo instituto, estes investigadores desenvolveram uma mistura crucial de químicos laboratoriais que consegue detetar os diferentes aspetos da resposta imunitária nas amostras biológicas recolhidas de pacientes recuperados de COVID-19.

Estes eram os resultados encorajadores, mas havia mais a caminho. Embora se tenha falado muito sobre a forma como os pacientes recuperados desenvolviam anticorpos, ninguém tinha realmente mostrado que a presença dessas proteínas protegia contra uma infecção, até que um virologista da Universidade de Washington, Alex Greninger, e colegas desenvolveram uma experiência natural.

Como parte do seu programa de testes COVID-19, estes investigadores fizeram uma triagem numa embarcação de pesca comercial, recolhendo amostras de sangue antes e depois da viagem para rastrear anticorpos. A maioria das 122 pessoas a bordo testou positivo para o coronavírus quando regressou à costa – mas nenhum dos três tripulantes cujo sangue tinha anticorpos contra o SARS-CoV-2 antes da partida ficou infetado na viagem. Graças a um pouco de sorte e a um design inteligente, este estudo foi o primeiro a mostrar que a presença de anticorpos provavelmente protegia contra a infeção.

“Foi uma descoberta espetacular”, diz Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale e investigadora do Instituto Médico Howard Hughes. Akiko também destaca as notícias positivas da pré-impressão publicada no dia 16 de novembro pela parceria Shane Crotty e Alessandro Sette, que mostrou respostas imunitárias contínuas e multifacetadas ao SARS-CoV-2 mais de seis meses após a infeção.

“São notícias realmente boas. Provavelmente teremos proteção contra uma reinfeção durante muito mais tempo do que pensávamos, talvez um ano”, diz Akiko. “Mas existe uma variabilidade na resposta de cada pessoa a essa infeção.”

O mau

Nem todas as pessoas têm casos ligeiros de COVID-19 com uma resposta imunitária duradoura – como se pode perceber pelos números terríveis de hospitalizações e mortes pelo mundo inteiro. Os Estados Unidos enfrentam agora o dobro das hospitalizações do que em qualquer outro momento da pandemia. Nos casos mais graves, o sistema imunitário descontrola-se e cria mais problemas do que soluções.

De acordo com Shane Crotty, qualquer vírus que consiga provocar uma doença em humanos precisa de ter pelo menos um bom mecanismo de evasão imunitária. Shane acredita que uma das táticas importantes que o SARS-CoV-2 usa é evitar a resposta imunitária inata, a primeira linha de defesa antes de se desenvolver uma imunidade específica – anticorpos e células T. Este coronavírus é particularmente bom a evitar interferões do tipo I, porque identifica as proteínas que promovem a atividade antiviral nas células que melhoram o sistema imunitário inato. Este processo está geralmente associado aos casos graves.

Mas os cientistas também observam variabilidade nas respostas imunitárias de pessoa para pessoa, pelo que propõem modelos diferentes para os casos mais graves e difíceis de explicar de COVID-19.

Por exemplo, Shiv Pillai, imunologista da Faculdade de Medicina de Harvard, estuda os gânglios linfáticos e respetivos centros germinais, onde as células B refinam os anticorpos para um patógeno em específico. Em agosto, o laboratório de Shiv descobriu que estes centros estavam ausentes nos pacientes com COVID-19 autopsiados pela sua equipa.

“Isto está a acontecer porque o vírus afeta o sistema de interferões tipo I.”

por SHIV PILLAI, FACULDADE DE MEDICINA DE HARVARD

“Isto está a acontecer porque o vírus afeta o sistema de interferões tipo I”, diz Shiv. “Portanto, não conseguimos ter centros germinais adequados, e as pessoas que os têm, são uma espécie de centros germinais fracos. Resumindo, não obtemos a resposta mais duradoura dos anticorpos.”

(Relacionado: Por que razão algumas pessoas são super-propagadores e como o corpo emite coronavírus.)

Qualquer que seja o método usado pelo coronavírus para evitar a imunidade inata, quando o sistema imunitário finalmente desperta para o invasor, o corpo pode reagir de forma exagerada e provocar danos – como criar uma tempestade de citocinas. Andrea Cox compara esse processo a chamarmos mil carros de bombeiros para apagar um incêndio na nossa casa.

“O problema é que, em alguns casos, estas campainhas de alarme são ativadas, mas depois não se desligam de forma adequada”, diz Andrea. “Ficamos basicamente com demasiados danos na propriedade porque temos mil bombeiros dentro de casa e o fogo foi extinto há seis horas.”

Se os centros germinais não se formarem, as células B podem usar uma resposta excessiva e desadequada para o problema, em vez de selecionarem o melhor tipo de anticorpo contra um determinado invasor.

“Ficamos com uma proteção a curto prazo, mas também pode ser às custas de alguma autoimunidade a curto prazo, porque não há muita regulação, vale tudo”, diz Iñaki Sanz, imunologista da Universidade Emory, que estuda doenças autoimunes. Iñaki demonstrou num estudo que alguns casos graves têm exatamente este tipo de resposta, onde o sistema imunitário é usado contra o próprio corpo, semelhante ao que acontece com doenças autoimunes como o lúpus.

Os relatórios de pacientes com COVID de longa duração – pacientes que apresentam problemas prolongados mesmo após a eliminação do coronavírus – também são preocupantes e podem estar ligados a uma resposta imunitária descontrolada em adultos e num pequeno número de crianças.

“Não sabemos exatamente o que está a provocar isto, mas o meu palpite é o de que está a ocorrer algum tipo de doença autoimune, auto-inflamatória, ou pode haver uma infeção numa parte crítica do cérebro que está a induzir isto”, diz Akiko Iwasaki. Nas crianças, esta inflamação generalizada tem sido associada a infeções intestinais.

Decifrar o desconhecido

As incógnitas em torno da duração da imunidade – juntamente com as preocupações com o número crescente de reinfecções – provavelmente irão persistir, sobretudo dada a variabilidade nas respostas imunitárias. Embora o estudo recente de Alessandro Sette e Shane Crotty tenha mostrado que cerca de 90% dos pacientes tiveram respostas positivas até seis meses após a infecção, Alessandro diz que ainda há preocupações.

“Por outro lado, não vemos [imunidade persistente] em 10% das pessoas. Portanto, as pessoas não devem presumir que, como já foram infetadas, agora estão protegidas e invencíveis”, diz Alessandro.

“O lado positivo: as vacinas criam uma resposta imunitária em geral mais restrita do que as infeções naturais por coronavírus, que produzem respostas imunitárias mais variadas”, diz Akiko. À medida que mais pessoas são imunizadas com a vacina, isso pode limitar as taxas de reinfeção.

“As pessoas vão desenvolver anticorpos mais fortes e duradouros”, diz Akiko. “É por isso que eu acredito que, em relação a conferir mais resistência no futuro, as vacinas são superiores à infeção natural.”

(Relacionado: Crianças contraem e propagam coronavírus cerca de metade das vezes do que acontece com adultos.)

As vacinas produzem melhores respostas porque focam a atenção do corpo, acrescenta Shiv Pillai. Em vez de avaliar o SARS-CoV-2 e as suas 26 proteínas separadas, o sistema imunitário de uma pessoa vacinada pode concentrar-se apenas numa, a proteína espigão que o coronavírus usa para se ligar e entrar nas células. A questão em aberto centra-se agora na durabilidade.

Neste momento, o número de pessoas vacinadas é pequeno, mas vai aumentar – assim como as informações sobre as respostas imunitárias. Felizmente, a vacinação aplana a transmissão com velocidade suficiente para o vírus não ter tantas probabilidades de sofrer uma mutação, algo que pode afetar a proteção a longo prazo. Os cientistas não esperam que as duas novas variantes relatadas no Reino Unido e na África do Sul afetem as vacinas, e Alessandro diz que é pouco provável que uma mutação consiga afetar todas as defesas imunitárias observadas pelos investigadores.

“Nunca conseguimos antecipar a evolução tão bem como agora.”

por ALEX GRENINGER, UNIVERSIDADE DE WASHINGTON

“Nunca conseguimos antecipar a evolução tão bem como agora”, diz Alex Greninger. “Conseguimos ver as mutações que escapam da imunidade e conseguimos monitorizá-las, porque nunca sequenciámos tanto na história.”

Quer sejam mutações, reinfeções ou durabilidade a longo prazo, as respostas provavelmente serão diferentes para a imunidade derivada da vacina, em comparação com a forma como o corpo responde após uma infeção natural.

“Em relação à imunidade natural, até certo ponto, estamos na mesma posição em que estávamos em março, onde vimos boas respostas e dissemos que precisávamos de esperar entre seis a oito meses para perceber se era duradoura”, diz Alessandro. “Neste momento, vemos bons resultados com as vacinas. Mas será que isso nos dará uma boa proteção imunitária e duradoura? Temos de obter os dados.”

Para ajudar nas investigações sobre a resposta imunitária ao coronavírus, o Instituto Nacional do Cancro dos EUA está a liderar uma iniciativa governamental de mais de 300 milhões de dólares chamada SeroNet. Este projeto inclui o financiamento de uma rede de oito Centros de Excelência em Ciências Serológicas; Andrea Cox e Iñaki Sanz participam nesta iniciativa.

A SeroNet também vai fornecer reagentes e controlos padronizados para avaliar as respostas imunitárias, algo que, de acordo com Andrea Cox, é o mesmo que colocar todos os grupos científicos a seguir o mesmo padrão.

“Isto permite-nos comparar o que estamos a observar nos nossos ensaios”, diz Andrea. “E permite-nos ter realmente uma noção de como a imunidade se está a desenvolver na população.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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