Por Enquanto as Vacinas Atuais Podem Ser Eficazes Contra as Novas Variantes de Coronavírus

As investigações iniciais sugerem que o SARS-CoV-2 não sofreu mutações suficientes para tornar as atuais vacinas irrelevantes, mas os cientistas dizem que é crucial monitorizar as futuras evoluções virais.

Publicado 18/01/2021, 14:52 WET
Ellen Prosser, de cem anos de idade, conhecida por Nell, recebe a vacina da Oxford-AstraZeneca na ...

Ellen Prosser, de cem anos de idade, conhecida por Nell, recebe a vacina da Oxford-AstraZeneca na Casa de Repouso Sunrise em Sidcup, no sudeste de Londres, no dia 7 de janeiro de 2021.

Fotografia de Kirsty O'Connor, POOL, AFP via Getty Images

Mais de um ano após o início da pandemia de COVID-19, as autoridades de saúde pública continuam a enfrentar uma ameaça emergente: Novas variantes do vírus SARS-CoV-2. Investigadores pelo mundo inteiro identificaram recentemente três variantes notáveis: a B.1.1.7, encontrada pela primeira vez em dezembro no Reino Unido; a 501Y.V2, encontrada na África do Sul em dezembro; e a P1, identificada no Brasil no dia 13 de janeiro.

Não há evidências de que qualquer uma destas variantes seja mais mortífera do que as versões anteriores do vírus. No entanto, algumas podem ser mais transmissíveis devido a mutações que alteram a proteína espigão do coronavírus – a parte do vírus que se liga às células humanas, e a parte que as vacinas têm como alvo. Se não forem monitorizadas, estas variantes podem propagar-se mais depressa e provocar ainda mais mortes.

Contudo, à medida que a distribuição de vacinas aumenta a nível mundial, os investigadores estão a identificar os primeiros sinais de que as vacinas existentes devem funcionar, juntamente com o sistema imunitário multifacetado do nosso corpo, para oferecer algum nível de proteção contra as versões mutantes do vírus.

“As variantes têm realmente alterações na proteína espigão [do vírus], mas não o suficiente para afetar a eficácia da vacina”, disse no dia 11 de janeiro Arnold Monto, presidente do Comité Consultivo de Vacinas e Produtos Biológicos da agência Food and Drug Administration dos EUA, em entrevista para a revista médica JAMA. “Parece que [as vacinas existentes] devem funcionar, mas saberemos definitivamente mais nas próximas semanas.”

Para abrandar a evolução do vírus em novas variantes, os especialistas dizem que é fundamental fazer as mesmas coisas que já sabemos que previnem a propagação do vírus – usar máscara, lavar as mãos, manter a distância social e ser vacinado o mais depressa possível.

“Ainda não observámos quaisquer evidências de que as novas variantes não serão cobertas pela vacina e, na verdade, a forma de impedir as novas variantes é conter o vírus”, diz Philip Dormitzer, diretor científico de vacinas virais na divisão de pesquisa de vacinas da Pfizer. “Quanto menos replicação do vírus houver no mundo, menos variantes serão geradas.”

Se surgisse uma variante do SARS-CoV-2 resistente à vacina, as vacinas atuais poderiam ser ajustadas para lidar com quaisquer novas mutações, acrescenta Philip.

Resposta imunitária diversificada à COVID-19

Os nossos corpos geram um vasto espectro de anticorpos em resposta a uma determinada vacina ou infeção natural. No caso da COVID-19, estes anticorpos têm como alvo múltiplas partes da proteína espigão do SARS-CoV-2, e não apenas uma única região que poderia mudar enquanto variante alterada do vírus. Em princípio, esta diversidade de anticorpos faz com que seja mais difícil para uma mutação viral inviabilizar uma vacina.

“Se houver uma mutação que destrua uma das regiões de ligação dos anticorpos, irá diminuir a atividade de ligação de um anticorpo específico, mas existem muitos outros anticorpos que não se estão a ligar a esse local”, diz Pei-Yong Shi, virologista e microbiologista da Universidade Medical Branch do Texas em Galveston.

Juntamente com os anticorpos, as vacinas também ativam as células T – células imunitárias que desempenham um papel importante na resposta inicial dada pelo corpo ao SARS-CoV-2, diz Philip Dormitzer. Os dados sobre os ensaios das vacinas sugerem que estas células imunitárias podem começar a proteger o corpo antes de serem produzidas enormes quantidades de anticorpos.

“Mesmo que sejamos infetados com uma estirpe que não corresponda exatamente à que está na vacina, ainda estamos protegidos até certo ponto.”

por HELEN CHU, UNIVERSIDADE DE WASHINGTON

Por exemplo, na fase três dos ensaios clínicos da Pfizer, os pacientes que receberam a primeira de duas doses da vacina começaram a mostrar sinais de proteção passados 10 a 14 dias, embora os ensaios de fase um da vacina tenham mostrado que muitos pacientes não tinham necessariamente níveis elevados de anticorpos no seu sangue naquele momento.

“É necessária apenas uma pequena quantidade de anticorpos neutralizantes para proteger contra este vírus, ou então há outra coisa, que não é [um] anticorpo neutralizante, que está a conferir proteção”, diz Philip, referindo-se ao possível papel desempenhado pelas células T na interrupção do vírus.

Dada a complexidade da nossa resposta imunitária ao SARS-CoV-2, Philip diz que, mesmo que os anticorpos estimulados pela vacina não se liguem tão bem às variantes atuais ou futuras, é possível que estas vacinas ainda consigam conferir proteção.

Este tipo de proteção parcial já é observado nas versões anuais das vacinas contra a gripe sazonal, diz Helen Chu, imunologista da Universidade de Washington em Seattle. “Mesmo que sejamos infetados com uma estirpe que não corresponda exatamente à que está na vacina, ainda estamos protegidos até certo ponto”, diz Helen. “E estas vacinas [COVID-19] são muito, muito melhores do que as vacinas contra a gripe; a eficácia de 95% é muito melhor do que os 50% a 60% que vemos nas vacinas da gripe.”

Helen, que estuda as respostas imunitárias de pacientes a vírus respiratórios, monitoriza a COVID-19 desde o início. Em fevereiro do ano passado, Helen ajudou a recolher sangue do primeiro paciente confirmado com COVID-19 nos EUA. Não há nada sobre a chegada de novas variantes que a surpreenda – ou que diminua a sua confiança na vasta eficácia das vacinas atuais.

“Eu já estou vacinada e basicamente todos os cientistas e médicos com quem trabalho estão a ser vacinados”, diz Helen. “Eu não iria definitivamente recuar com base no facto de existirem novas variantes emergentes.”

Acompanhar as mutações

Há meses que os investigadores examinam as versões mutantes do SARS-CoV-2 em laboratório com o objetivo de perceber quais são as mutações que representam o maior risco de aumentar a transmissibilidade do vírus, ou a sua capacidade em escapar ao sistema imunitário.

Os estudos estão a concentrar-se nas mutações dentro das três variantes emergentes principais. Cada variante contém o seu próprio conjunto de mutações, mas algumas mutações surgiram de forma independente nas três variantes – o que implica que estas mutações em específico ajudam na propagação do vírus.

Uma destas mutações é a N501Y, que altera um aminoácido dentro do domínio de ligação ao recetor da proteína espigão do SARS-CoV-2, que é a porção da proteína que se liga diretamente ao exterior de algumas células humanas. As investigações feitas anteriormente mostraram que esta mutação consegue permitir que o vírus se ligue de forma mais eficaz aos recetores ACE2 nas células humanas, tornando-o mais transmissível nos humanos e noutros animais. Em setembro, um estudo publicado na Science descobriu que esta mutação tornava o SARS-CoV-2 mais infeccioso nos ratos de laboratório.

Mas esta mutação por si só não parece tornar o vírus resistente às vacinas atuais. O laboratório de Pei-Yong Shi, em parceria com investigadores da Pfizer, incluindo Philip Dormitzer, usou uma técnica genética para fazer duas versões em laboratório do SARS-CoV-2 que eram idênticas, exceto pela presença ou ausência da mutação N501Y.

Num estudo preliminar, publicado no dia 7 de janeiro no servidor da bioRxiv, a equipa de Pei-Yong e Philip analisou a forma como os anticorpos de 20 participantes do ensaio da vacina da Pfizer-BioNTech responderam aos dois tipos de vírus. Os anticorpos ligaram-se da mesma forma às variantes N501Y do vírus, com e sem a  mutação. “Estamos muito felizes por ver que os resultados não comprometem a vacina”, diz Pei-Yong.

Ainda assim, Pei-Yong reconhece uma limitação essencial no estudo: As novas variantes não têm apenas mutações únicas. Por exemplo, a variante B.1.1.7 tem oito mutações diferentes que afetam a sua proteína espigão. Pei-Yong diz que, nas próximas duas a três semanas, o seu laboratório vai examinar diferentes combinações de mutações para testar a vacina da Pfizer-BioNTech.

A variante 501Y.V2 tem outra mutação preocupante: a E484K, que também afeta o domínio de ligação ao recetor da proteína espigão. Numa pré-impressão publicada no dia 4 de janeiro no servidor da bioRxiv, investigadores do Centro de Pesquisa do Cancro Fred Hutchinson de Seattle descobriram que esta mutação desempenha um papel enorme na forma como os anticorpos se ligam à proteína espigão do vírus.

Quando os vírus de laboratório com a E484K e mutações semelhantes foram monitorizados contra anticorpos de pacientes recuperados de COVID-19, os anticorpos de alguns pacientes foram visivelmente menos eficazes na ligação aos vírus com a mutação. Mas, crucialmente, as vacinas atuais criam fortes respostas imunitárias, e atualmente não há evidências de que as variantes com a mutação E484K resistam por completo à imunidade induzida pela vacina.

Através de várias publicações no Twitter, Jesse Bloom, autor sénior da referida pré-impressão, deixou claro que uma proteção reduzida está muito distante da inexistência de proteção. “Será que nos devemos preocupar com a E484K e com outras mutações? Sim! É por isso que muitos de nós estamos a trabalhar arduamente para as estudar. Mas precisamos de manter as coisas em perspetiva”, escreveu Jesse. “Uma neutralização reduzida não significa ausência de imunidade, e é necessário um estudo cuidadoso para determinar as implicações na proteção em humanos.”

E se for necessário modificar as vacinas?

Caso uma futura variante do SARS-CoV-2 não responda às vacinas existentes, os fabricantes de vacinas já estão a preparar o terreno para agir depressa. Philip Dormitzer, o investigador da Pfizer, diz que qualquer mudança nas vacinas terá de seguir sólidas observações clínicas de que uma nova variante se está a propagar entre as pessoas já imunizadas contra a COVID-19.

Um dos benefícios das vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna reside no facto de poderem ser atualizadas rapidamente. Mas Philip alerta que as investigações e o fabrico laboratorial são apenas duas etapas na longa jornada de uma vacina. Se uma vacina for atualizada, os reguladores governamentais precisam de verificar se esta ainda é segura e eficaz. Os investigadores dizem que as políticas que regem as atualizações regulares das vacinas contra a gripe sazonal podem fornecer uma boa estrutura de base.

“Todos querem usar a gripe como modelo, e eu concordo plenamente, a gripe é o nosso modelo”, diz Philip. “Mas precisamos de descobrir como é que conseguimos alterar as vias regulatórias – as regras gerais – usadas para a gripe e alterá-las para este novo vírus.”

Mas é importante que os investigadores saibam quando surgem novas variantes. Todos os especialistas entrevistados pela National Geographic pediram aos governos mundiais para aumentarem exponencialmente o sequenciamento de genómica do SARS-CoV-2 e a partilharem os seus dados.

“Nós precisamos de monitorizar de perto as sequências dos vírus nos pacientes”, diz Pei-Yong Shi. “São eles os olhos e os ouvidos da nossa saúde pública.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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