Socos no Oceano? Sim, de polvos.

Uma equipa de investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente relata (e mostra) cenários de diferentes polvos a deslocarem peixes com um “soco”.

Published 21/01/2021, 17:48 WET
Exemplo de um grupo de caça multiespecífico composto por um polvo azul (Octopus cyanea), um Parupeneus ...

Exemplo de um grupo de caça multiespecífico composto por um polvo azul (Octopus cyanea), um Parupeneus cyclostomus, um Fistularia commersonii e uma garoupa-de-ponta-negra (Epinephelus fasciatus).

Fotografia de Eduardo Sampaio

Tem três corações e sangue azul. É capaz de mudar de formato e de cor. Manuseia objetos e até consegue desenroscar tampas de frascos - uma habilidade por vezes difícil para os donos e donas de casa, especialmente quando se trata de uma superfície rígida ou húmida.

A inteligência do polvo não é questionada, mas continua a surpreender-nos. Alguns espécimes foram observados a estender um dos seus braços para dar um “soco” a um peixe. O estudo foi liderado por Eduardo Sampaio, explorador da National Geographic e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e apresentado recentemente na revista Ecology.

A descoberta surgiu durante um trabalho de campo sobre interações entre polvos e peixes em caça cooperativa, realizado no âmbito de um projeto financiado pela National Geographic e pela PADI. O grupo de cientistas envolvidos na pesquisa trouxe uma nova realidade para a história natural do polvo – que, apesar de ser um animal solitário, consegue adaptar-se a contextos sociais e retirar benefícios disso.

Conversámos com Eduardo Sampaio sobre a plasticidade cognitiva do polvo e a relevância do comportamento recentemente documentado.

O que distingue o comportamento do polvo na captura de presas?
Normalmente nestes grupos de caça, o polvo procura presas entre rochas e nos corais, enquanto os peixes rondam o território à sua volta e a coluna de água, devido às diferentes características morfológicas e flexibilidade anatómica entre o polvo e os peixes. Isto torna estes grupos eficientes no sentido em que, se a presa (por exemplo um peixe mais pequeno ou crustáceo) fugir do polvo, os peixes estarão à espera, e se a presa fugir dos peixes para dentro de corais ou frechas na rocha, o polvo poderá apanhá-la. 
Normalmente os polvos caçam sozinhos, mas nesta espécie (Octopus cyanea), existem ocorrências de caça colaborativa em várias zonas do mundo, desde o Mar Vermelho à Austrália.

Quando e em que local fizeram a descoberta deste comportamento?
Ao fazer filmagens sobre como a caça colaborativa entre polvos e peixes, testemunhámos várias vezes algo inesperado que era o polvo afastar violentamente um dos parceiros de caça utilizando um movimento rápido de um braço. Este movimento é altamente dirigido a um peixe específico, indicando que não é aleatório. A este comportamento chamamos um "soco" ou "murro", porque o movimento é extremamente similar a essa ação. Filmámos "murros" executados por vários polvos diferentes, em sítios diferentes do Mar Vermelho (em Israel no ano de 2018 durante um mês, e no Egipto durante o ano de 2019 durante dois meses), e em grupos com composições diferentes de peixes, o que indica que os "murros" têm um papel nestes grupos interespecíficos.

VEJA UM POLVO A DAR UM "SOCO" A UM PEIXE


Em que espécies marinhas foi possível observar polvos a darem “socos”?
As espécies envolvidas são: o polvo azul (Octopus cyeana), peixes-esquilo (Sargocentron caudimaculatum), garoupas-vermelhas (Epinephelus fasciatus), garoupas-papagaio (Variola louti), Parupeneus cyclostomus, Parupeneus forsskali, e Cephalopholis hemistiktos.

Estes “socos” são eficazes na captura de presas?
Existem situações em que o polvo usa o "murro" para ter acesso a uma presa, retirando essa oportunidade ao peixe, e nestes casos o mecanismo ecológico onde assenta a ação pode ser uma simples competição (principalmente com peixes que normalmente não fazem parte destes grupos interespecíficos), ou um mecanismo de “sanção”, em que o polvo impõe um custo a um parceiro que tenta retirar uma presa ao polvo, enquanto colhe benefícios para ele mesmo (obtém a presa).
Existem também outros eventos em que o polvo dá "murros" sem ter acesso imediato a uma presa, ou seja, sem obter benefícios imediatos. Nestes casos, o polvo pode estar a expressar uma resposta imediata ao facto de o peixe ter obtido uma presa que seria para ele (ou seja, está a impor um custo, apesar de ele próprio pagar um preço por isso), ou então poderá estar a "castigar" esse peixe, de forma a que este tenha ações colaborativas nas interações seguintes. No entanto, estes cenários teóricos são especulativos e necessitam ainda de estudos quantitativos de forma a perceber como é que o comportamento do peixe é alterado por "levar um murro" do polvo.

O que acontece habitualmente a seguir ao “soco” ser infligido?
Depois de o polvo executar o “soco”, para o peixe podem existir as seguintes consequências: a) é subtraída uma oportunidade imediata de captura de presa, b) é afastada para uma posição mais exterior e menos vantajosa do grupo, ou c) é efetivamente expulso do grupo de caça. É fácil perceber que, apesar do custo que o polvo pode ter em executar o comportamento em si, os custos para o peixe são maiores.

O que falta descobrir? Quais os próximos passos da investigação?
Muita coisa! Estamos a falar de um animal que é solitário durante toda a sua vida (exceto quando acasalam, e logo a seguir morrem) que parece ter desenvolvido ferramentas para lidar com situações sociais interespecíficas que podem ser altamente complexas, visto ter que lidar com peixes com múltiplas estratégias de caça (uns mais oportunistas e outros mais colaborativos) e lidar com isso. Uma pergunta que surge imediatamente, por exemplo, é como é que o polvo descrimina quem “soquear”, e se existem espécies de peixes que são mais atingidas. Se olharmos para o grupo interespecífico em si, nós chegamos a ver grupos compostos por 12 peixes e um polvo. Cada peixe tem uma estratégia de caça diferente consoante pelo menos a espécie, e, para além de interagir com o polvo, também interagem entre si. Portanto isto cria uma teia de interações bastante complexa, e estamos a tentar perceber como é que o próprio movimento coletivo destes grupos se organiza, quem lidera e quem segue, e como todos os animais influenciam as decisões de movimentação do grupo. 
 

De todos os invertebrados, os polvos são os que mais se parecem com os humanos. Descubra por que razão os polvos nos lembram tanto de nós próprios.

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