Vermes Gigantes Caçavam no Antigo Leito Marinho

Tocas preservadas encontradas em rochas antigas sugerem que, durante milhões de anos, estes vermes com ‘mandíbulas-armadilha’ irromperam da areia para capturar peixes.

Publicado 26/01/2021, 15:10 WET
Os vermes predadores da areia podem crescer até aos 3 metros de comprimento. Este foi fotografado ...

Os vermes predadores da areia podem crescer até aos 3 metros de comprimento. Este foi fotografado no Estreito de Lembeh, na Indonésia.

Fotografia de RYAN ROSSOTTO, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Escondidos no fundo do mar em torno de recifes de coral, vermes gigantes aguardam até que um peixe desafortunado nade perto o suficiente para eles se agarrarem com as suas mandíbulas ao peixe e recolherem nas tocas de areia. Estes ataques rápidos e mortais granjearam a estes vermes o nome de predadores da areia.

Agora, as tocas fossilizadas recém-descobertas, detalhadas na revista Scientific Reports, indicam que versões vorazes destes vermes marinhos provavelmente já comiam peixes há cerca de 20 milhões de anos, onde atualmente fica o norte de Taiwan.

Descobertas no Geoparque Yehliu e no promontório Badouzi da ilha, as tocas são o que se conhece por vestígios fósseis – marcas preservadas deixadas pelas atividades de animais antigos. Os vestígios fósseis são valiosos porque preservam pistas sobre o comportamento de uma criatura. Neste caso, os tubos pré-históricos, cada um com mais de um metro e oitenta de comprimento e cerca de 2.5 centímetros de largura, são vestígios fósseis provavelmente deixados por criaturas que viveram no período Cenozoico, quando esta região do mundo estava debaixo de água.

Embora os predadores da areia modernos sejam conhecidos dos cientistas desde  finais do século XVIII, só recentemente é que foram estudados em detalhe. Os fósseis recém-descobertos indicam que estes vermes marinhos provavelmente faziam parte dos ecossistemas oceânicos desde tempos imemoriais, reforçando as vantagens evolutivas das suas técnicas de caça.

Um modelo 3D mostra o comportamento alimentar dos vermes predadores da areia e a formação proposta dos vestígios fósseis, agora conhecidos por Pennichus formosae. Os predadores da areia esperam dentro das tocas em forma de L e usam as suas mandíbulas para apanhar os peixes que passam pelas aberturas das tocas.

Fotografia de LUDVIG LÖWEMARK

Tocas preservadas em rocha

Os predadores da areia modernos são vermes poliquetas, pertencendo ao mesmo grupo de animais das minhocas de praia, que fazem pequenas borbulhas quando a maré está baixa. Mas os predadores da areia conseguem ficar muito maiores do que qualquer outra coisa que possamos encontrar na costa.

Estes predadores de emboscadas variam de tamanho, entre apenas alguns centímetros e quase 3 metros de comprimento, e são extremamente furtivos. Em 2009, os funcionários do Aquário Blue Reef em Inglaterra ficaram intrigados quando os seus peixes começaram a desaparecer, até que encontraram um enorme predador da areia – apelidado de Barry – nos recantos do habitat recife.

Em 2013, o biólogo Masakazu Nara, da Universidade de Kochi, estava a investigar rochas com 20 milhões de anos em Taiwan, à procura de impressões fósseis de comportamentos alimentares de raias, quando reparou numa série de tocas estranhas. No início, parecia que as tocas em forma de L tinham sido feitas por camarões antigos, diz Ludvig Löwemark, paleontólogo da Universidade Nacional de Taiwan e coautor do estudo. Muitas criaturas enterram-se no fundo arenoso do mar, pelo que os vestígios fósseis não pareciam particularmente invulgares.

Só em 2017, quando uma conferência internacional de especialistas em vestígios fósseis se reuniu em Taipei, Taiwan, é que Ludvig e colegas conseguiram comparar notas. As tocas não correspondiam a algo previamente encontrado no registo fóssil.

“O facto de ninguém ter visto algo semelhante convenceu-nos de que se tratava de um novo vestígio de espécie fóssil”, diz Ludvig.

Mas conseguir determinar exatamente o que criou as tocas exigia mais trabalho de detetive. “Não foi uma só característica que nos convenceu de que esta toca tinha sido feita por um verme”, diz Ludvig, “mas sim a combinação de várias características”. O topo das tocas parecia ter desmoronado e deixado marcas semelhantes às de penas na rocha, sugerindo que tinham sido repetidamente usadas por um animal a entrar e a sair. “Os funis indicam um evento violento”, acrescenta Ludvig, como um verme a irromper da toca, em vez de um molusco a sair lentamente da areia.

Uma peça-chave de evidência geoquímica solidificou o caso. Os topos das tocas são muito ricos em ferro, sugerindo que o que quer que os tenha feito estava a deixar muco ao longo das paredes superiores para ajudar a manter a forma da estrutura. As bactérias alimentavam-se dessa gosma, produzindo sulfeto de ferro. Esta fortificação com muco é igual à encontrada nas tocas dos predadores da areia da atualidade. Para além disso, a areia antiga no topo das tocas parece ter sido regularmente remexida, indicando que provavelmente foi ocupada por um predador de emboscadas. Os predadores da areia encaixam no perfil deste fóssil.

O topo desta toca fossilizada em Taiwan forma uma estrutura colapsada em forma de pena, semelhante às estruturas das tocas dos predadores da areia da atualidade.

Fotografia de LUDVIG LÖWEMARK

“As tocas enormes com características de disrupção semelhantes a penas são vestígios convincentes para a presença destes vermes”, diz Jakob Vinther, paleontólogo da Universidade de Bristol, que não esteve envolvido no novo estudo. “O tamanho das tocas e a forma como a areia foi remexida pelo comportamento dos invertebrados também correspondem.”

Predadores da areia ao longo da história

Na maioria das vezes, os vestígios fósseis são descritos e recebem nomes sem que se identifique a criatura específica que os fez, diz Murray Gingras, paleontólogo da Universidade de Alberta. Isto acontece porque os vestígios fósseis e os fósseis de corpos raramente são encontrados juntos. “O novo estudo, que dá o nome de Pennichnus formosae às tocas fósseis, é um bom caso para uma interpretação de predador da areia, mas fósseis de corpos ajudariam a confirmar o que os vestígios implicam”, diz Murray.

“Como os vermes são quase inteiramente compostos de tecidos moles”, diz Ludvig, “as probabilidades de preservação são extremamente pequenas”. Ainda assim, as mandíbulas distintas dos predadores da areia são feitas de proteínas endurecidas e podem ser revestidas com zinco, pelo que têm mais possibilidades de aparecer no registo fóssil. “Estes tipos de mandíbulas, acredito eu, remontam ao período Ordoviciano”, diz Jakob Vinther, referindo-se a uma época há mais de 443 milhões de anos.

Existem alguns fósseis mais antigos atribuídos a estes tipos de vermes. Há rochas com cerca de 400 milhões de anos em Ontário, no Canadá, que contêm sinais de vermes com comportamentos semelhantes aos dos predadores da areia atuais. No entanto, é estranho que ainda não tenham sido encontrados mais fósseis como estes. Com base no quão distintas e grandes estas tocas podem ser, estes traços deviam ser relativamente comuns nas rochas dos últimos 20 milhões de anos, diz Murray Gingras.

Talvez os cientistas estejam apenas a aprender a reconhecer estas tocas e, com um pouco de sorte, os paleontólogos podem conseguir rastrear estes vermes até às suas tocas mais antigas – se tiverem coragem para o fazer.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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