As crianças precisam dos seus próprios ensaios clínicos para a vacina COVID-19

Os adolescentes estão neste momento a ser testados. As crianças mais novas são a seguir. Porque é que os fabricantes de vacinas esperaram para fazer ensaios com crianças?

Publicado 24/02/2021, 16:04
poliomielite

POLIOMIELITE
Na década de 1950, mais de 1.8 milhões de crianças participaram nos ensaios para uma vacina contra a poliomielite desenvolvida por Jonas Salk (na imagem).

Fotografia de PhotoQuest, Getty Images

Em janeiro, Megan Egbert viu uma publicação no Facebook a dizer que a Moderna, uma das fabricantes de vacinas COVID-19, estava a recrutar voluntários para um ensaio clínico em adolescentes. Megan pensou rapidamente nas suas duas filhas de 12 e 14 anos.

Como aconteceu com a maioria dos adolescentes, as filhas de Megan tinham passado por um ano difícil de ensino à distância e atividades perdidas. Megan, bibliotecária em Boise, Idaho, esperava que a participação no ensaio clínico fosse uma forma de as filhas terem acesso à vacina, que até agora foi apenas autorizada para uso em adultos. (A vacina da Moderna está autorizada para maiores de 18 anos; o limite de idade para a outra vacina autorizada nos EUA, a da Pfizer-BioNTech, é de 16 anos).

As filhas de Megan eram mais altas do que a maioria dos adultos, pelo que ela não pensou que pudessem correr riscos por tomarem a dose de tamanho normal que estava a ser testada. As raparigas concordaram rapidamente com a ideia; e algumas semanas depois, receberam a sua primeira injeção, com uma probabilidade de dois em três de poder ser a vacina real em vez de um placebo.

Uma estação de televisão local entrevistou as irmãs, que se tinham tornado “mini celebridades” na escola por participarem no ensaio, diz Megan. No dia seguinte, Megan verificou a reportagem no Facebook e encontrou centenas de comentários. Enquanto alguns aclamavam as irmãs como “jovens corajosas”, outros questionavam o julgamento dos pais.

“As pessoas diziam que estávamos a usar as nossas filhas como cobaias”, diz Megan. “Diziam que a vacina só era para adolescentes quando fosse testada.” Mas esta questão toca num dilema de longa data da medicina pediátrica: Como é que os cientistas podem saber se as vacinas são seguras para as crianças se não as testarem em crianças reais? E se as crianças podem beneficiar da vacina e desempenhar um papel importante no estabelecimento da imunidade de grupo, por que razão as empresas farmacêuticas esperam para as testar?

Sistemas imunitários diferentes

A agência Food and Drug Administration (FDA) dos EUA exige que as novas vacinas sejam estudadas de forma independente nas crianças. O sistema imunitário das crianças ainda está a amadurecer e é imprevisível, podendo reagir ao coronavírus de forma diferente ou ter efeitos colaterais que não acontecem nos adultos.

“Podem responder melhor ou pior”, diz James Campbell, professor de pediatria no Centro de Desenvolvimento de Vacinas e Saúde Global da Escola de Medicina da Universidade de Maryland. “Até fazermos um estudo com a vacina, não sabemos o que vai acontecer.”

Cientistas russos visitam os Estados Unidos e observam Jonas Salk a administrar uma injeção da sua vacina contra a poliomielite a Paul Anolik, de 9 anos, em Pittsburgh, em janeiro de 1956.

Fotografia de Bettmann, Getty Images

Apesar da ideia inicial de que a pandemia tinha em grande parte poupado as crianças nos EUA, os dados cumulativos revelam uma história diferente. Até ao dia 11 de fevereiro de 2021, cerca de 2.3% dos mais de três milhões de crianças com testes positivos para a COVID-19 tinham sido hospitalizadas e pelo menos 241 crianças faleceram.

Embora a vacinação possa proteger as crianças contra uma infeção – e disseminação – de COVID-19, os pediatras também esperam que possa prevenir uma doença rara e perigosa conhecida por Síndrome Inflamatória Multissistémica Pediátrica, que foi documentada em pacientes com coronavírus. Este distúrbio pode envolver a inflamação de várias partes vitais do corpo, incluindo o coração, pulmões e cérebro.

“Tenho visto estas condições inflamatórias constantemente no hospital e estou preocupado”, diz Joseph Domachowske, professor de pediatria no Hospital Universitário da Universidade Estadual de Nova Iorque, em Syracuse. “Se conseguirmos prevenir o início da infeção em si, conseguimos prevenir as consequências pós-infeção.”

No outono passado, a influente Academia Americana de Pediatras pediu para as crianças serem incluídas nos ensaios da vacina COVID-19, e muitos pais esperam ansiosamente para ver se as vacinas ficam disponíveis antes do início do próximo ano letivo.

Neste momento já estão a decorrer vários ensaios de vacinas COVID-19 com adolescentes. A Pfizer-BioNTech está a testar a sua vacina contra o coronavírus em 2.259 crianças com idades entre os 12 e os 15 anos. A Moderna está a inscrever 3.000 participantes com idades entre os 12 e os 17 anos, e a Johnson & Johnson afirmou que ia lançar um ensaio semelhante caso a sua vacina candidata recebesse uma autorização de emergência da FDA.

Os dados iniciais da vacina para os grupos de adolescentes podem surgir já no verão. Os dados para as crianças mais novas podem estar apenas disponíveis em 2022. Assim que estes dados estejam disponíveis, as empresas vão fazer ensaios adicionais em crianças com pelo menos seis meses.

Trabalhar com base nos resultados dos adultos

Apesar do sentido de urgência, James Campbell diz que esta abordagem escalonada é a mais prudente para as vacinas COVID-19, porque as crianças não estão no grupo de maior risco. Um estudo feito recentemente na Islândia com 40.000 pessoas descobriu que as crianças com menos de 15 anos de idade tinham cerca de metade da probabilidade de contrair o coronavírus em relação aos adultos, e metade da probabilidade de o propagar.

De acordo com James, o chamado “descalonamento” da idade é uma estratégia comum no desenvolvimento de medicamentos, sobretudo quando uma doença é mais grave nos adultos. Por exemplo, James está a estudar uma vacina universal contra a gripe que foi testada primeiro em adultos e produziu resultados promissores. Agora, James está a iniciar os ensaios em crianças de três faixas etárias escalonadas para conseguir comparar os efeitos colaterais, os níveis de dosagem e as respostas imunitárias.

Uma das vantagens em estudar os adolescentes imediatamente a seguir aos adultos reside no facto de os investigadores poderem trabalhar sobre o histórico dos voluntários adultos. Em dezembro, durante o processo de revisão da FDA para a vacina da Pfizer-BioNTech, a agência analisou dados de 21.720 pessoas que levaram a vacina como parte da fase três do ensaio. Esses dados mostravam claramente que a vacina tinha 94% de eficácia na prevenção de COVID-19.

“Não precisamos de mais dados sobre eficácia”, diz Robert Frenck, diretor do Centro de Pesquisa de Vacinas do Hospital Infantil de Cincinnati, que também é o investigador principal do ensaio da vacina da Pfizer-BioNTech neste centro. “Sabemos que tem uma eficácia de 94%. Achamos que a resposta imunitária se irá traduzir nesses valores.”

É por esta razão que os investigadores estão a estudar um número muito mais pequeno de adolescentes, para avaliar a segurança da vacina e validar os resultados dos adultos. Este conceito é conhecido como ponte imunitária: assim que se conhece a eficácia da vacina a partir dos ensaios em adultos, só é necessário avaliar se os adolescentes que receberam a vacina também produzem os anticorpos para evitar futuras infeções por COVID-19.

Também faz sentido visar primeiro os adolescentes, uma vez que têm mais probabilidades de contrair o vírus do que as crianças mais novas. Numa revisão dos casos pediátricos de COVID-19, as crianças entre os 12 e os 17 anos representavam 63% dos casos, enquanto que as crianças dos 5 aos 11 anos representavam apenas 37%.

Como o sistema imunitário das crianças se desenvolve ao longo do tempo, avaliar as vacinas COVID-19 nas crianças mais novas exige outra estratégia para ver se precisam de uma formulação ou dosagem diferente, diz Joseph Domachowske, que está a supervisionar os ensaios pediátricos da Pfizer-BioNTech.

“As crianças não são apenas pequenos adultos”, diz Joseph. Embora as crianças atinjam níveis de imunidade semelhantes aos dos adultos aos seis anos de idade, esse ritmo difere de criança para criança com base na sua genética e no ambiente.

No ensaio da Pfizer-BioNTech com crianças entre os 5 e os 11 anos, que pode começar já em março, os participantes começam com uma dosagem menor do que a atualmente administrada aos adultos e adolescentes. “Serve apenas para ver os efeitos colaterais e demonstrar que as crianças têm uma resposta imunitária protetora”, diz Joseph. “Depois, se for necessário, tentamos a dose seguinte para ver se é aceitável e para determinar se a vacina tem um perfil de segurança e eficácia semelhante ao verificado nos adultos.”

As fases seguintes vão incluir crianças de até dois anos e, de seguida, bebés com pelo menos seis meses. Dependendo dos resultados, os fabricantes de vacinas podem acabar por produzir uma dose diferente para as crianças mais novas.

Joseph diz que os pediatras costumam dar metade da dosagem da vacina contra a gripe às crianças entre os seis meses e três anos devido a um excesso de cautela, mas recentemente começaram a dar a dosagem completa, quando os novos dados mostraram que a quantidade total era tão bem tolerada que até produzia uma resposta de anticorpos igual ou melhor que a dos adultos.

Avaliação das investigações

Esta abordagem cuidadosa à investigação pediátrica é um contraste bem-vindo para o que aconteceu durante o período de 1900 até 1970, quando algumas crianças foram submetidas a abusos em nome do progresso da medicina, diz Douglas Diekema, diretor do Centro Treuman Katz de Bioética Pediátrica do Hospital Infantil de Seattle.

“Poucas pessoas sabem das crianças que ficaram em instituições depois de estarem envolvidas em investigações escandalosas”, diz Douglas.

Por exemplo, em 1949, dezenas de rapazes na agora encerrada Escola Estadual de Fernald, em Massachusetts, foram alimentados com aveia misturada com marcadores radioativos numa experiência para ver como é que os nutrientes viajavam pelo corpo. Outro destes estudos foi feito ao longo de 14 anos e começou em 1956 na Escola Estadual de Willowbrook, um lar para crianças com deficiências cognitivas em Staten Island, Nova Iorque. Nesta escola, crianças saudáveis eram propositadamente alimentadas com o vírus vivo da hepatite, retirado de amostras fecais de crianças doentes, para ver se adoeciam.

Após várias reformas generalizadas na década de 1970, todas as investigações com humanos devem agora passar pelo conselho institucional de revisão de um hospital. As crianças também estão agora especificamente protegidas pela legislação criada em 1983, diz Liza-Marie Johnson, presidente do Comité de Ética Hospitalar do Hospital de Investigação Pediátrica St. Jude em Memphis, no Tennessee.

“Algumas pessoas interrogam-se porque é que as crianças não foram incluídas nos ensaios COVID-19 mais cedo, mas o objetivo destes regulamentos é proteger as crianças de riscos desnecessários”, diz Liza-Marie. Por exemplo, as crianças só participam quando há dados suficientes sobre a segurança das vacinas nos adultos. “A investigação só abrange menores quando um teste é de baixo risco e oferece um potencial benefício.”

Ainda assim, os investigadores têm geralmente dificuldades em convencer os pais a inscreverem os seus filhos nos ensaios pediátricos. Não é de surpreender que um recrutamento bem-sucedido esteja diretamente relacionado com o grau de doença de uma criança. “Os pais ficam extremamente motivados para participar se o seu filho tiver uma doença rara”, diz Erica Denhoff, gerente do programa educacional dos Centros Institucionais de Pesquisa Clínica do Hospital Infantil de Boston. “Muitas vezes, determinado medicamento pode ser a única esperança para uma criança sobreviver ou ter a oportunidade de ter uma vida normal.”

Colocar as crianças nos ensaios clínicos torna-se muito mais difícil se elas não estiverem em perigo imediato, e a participação requer consultas ou monitorização frequentes. Os pais têm mais propensão para não deixar os seus filhos participar se um estudo tiver horários rígidos, ou se estiverem a lidar com questões de cuidados infantis ou problemas de transporte, diz Erica.

A própria participação nos ensaios da vacina COVID-19 requer um compromisso significativo. Megan Egbert diz que, para o ensaio da Moderna, as suas filhas tiveram de concordar em registar diariamente os sintomas durante uma semana após as duas injeções, participar em consultas regulares de telemedicina e submeter-se a quatro testes de coronavírus e quatro recolhas de sangue ao longo de 13 meses. “Eu digo-lhes que é como um trabalho”, diz Megan, acrescentando que cada uma das filhas vai receber 1.600 dólares da Moderna, pagos em parcelas, desde que as crianças permaneçam no ensaio.

Sentido de propósito

A maneira mais eficaz de inscrever e reter participantes num estudo é ajudá-los a formar uma ligação emocional com o propósito desse mesmo ensaio, diz Tricia Barrett, vice-presidente e diretora administrativa da Praxis Communications, uma empresa que faz recrutamento de voluntários para ensaios clínicos.

“Existe uma noção enorme de altruísmo. Os pais percebem que não estão apenas a ajudar o seu filho, mas também os outros ”, diz Tricia. “Para as crianças, fazemos com que percebam que fazem parte de algo importante.”

Bob McDonnell é um dos quase dois milhões de “pioneiros da poliomielite”, cuja participação nos ensaios de Jonas Salk ajudaram a impedir a disseminação desta doença paralisante. Aos nove anos, Bob não tinha muito para dizer sobre a sua participação. Mas agora, enquanto reformado de 76 anos em Loveland, no Colorado, Bob está mais grato pelo seu papel. “Agora estou feliz por ter feito parte de algo para o bem da humanidade”, diz Bob.

Charles e Lara Mashek, de Oklahoma City, também consideraram as implicações práticas e generosas quando inscreveram as suas filhas de 12 e 14 anos no ensaio da Moderna, no Instituto Lynn de Ciências de Saúde. Charles e Lara, ambos médicos, já tinham sido imunizados contra COVID-19 e estavam ansiosos para que as suas filhas tivessem a possibilidade de levar a vacina. “Acreditamos fortemente nas vacinas e percebemos o valor dos testes e dos ensaios”, diz Charles Mashek.

A sua filha Elizabeth Mashek, de catorze anos, concorda. “Estou orgulhosa por participar nisto. Acho que é ótimo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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