COVID-19: “Uma pessoa vacinada pode ser infetada e transmitir a infeção a outros.”

Conversámos com o virologista Pedro Simas sobre questões que ainda levantam dúvidas e sobre o próximo verão.

Publicado 26/02/2021, 12:15 WET, Atualizado 1/03/2021, 14:21 WET
Pedro Simas tem analisado a evolução da pandemia de Coronavírus no mundo e conversou connosco recentemente, ...

Pedro Simas tem analisado a evolução da pandemia de Coronavírus no mundo e conversou connosco recentemente, esclarecendo algumas dúvidas sobre o vírus.

Fotografia de Filipa Coutinho

Não é fácil comunicar ciência, mas Pedro Simas tem a extraordinária capacidade de aproximar a virologia aos olhos e ouvidos da população portuguesa, através das suas entrevistas e comunicações. O investigador científico e docente universitário acumula 30 anos na área da virologia e muitas horas de investigação em laboratório. Atualmente conduz investigações no Instituto de Medicina Molecular (IMM), onde estuda os mecanismos moleculares usados por vírus herpes envolvidos na modulação do funcionamento celular. Além disso, leciona na Universidade Católica Portuguesa e na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Pedro Simas sentou-se connosco e focou-se na explicação da ciência, esclarecendo questões como a ligação genética à suscetibilidade ao coronavírus e a vacinação durante a gravidez. Clarificou também se é seguro pessoas vacinadas estarem perto umas das outras sem máscara – e a resposta pode surpreender.

Na opinião do virologista, Portugal já está a recuperar o exemplo da primeira vaga. O panorama que vemos da janela de sua casa é positivo.
 

Recorda-se o que pensou quando tomou conhecimento da origem do novo coronavírus na China em dezembro de 2019?

Recordo-me o que pensei. Primeiro pensei no SARS e pensei “pode ser que não seja complicado”, porque o SARS tinha uma especificidade clínica muito única. Depois quando vi a China a fazer hospitais de campanha começou-se a perceber que esta infeção causava um nível de assintomáticos muito maior e diferente – não se conseguia identificar tão bem a nível clínico como o SARS e também é diferente do MERS. Também me recordo de em janeiro, fevereiro quando começaram os problemas na Europa, falar com o meu colaborador Kenneth Kaye da Harvard Medical School. Temos uns colegas colaboradores chineses que estavam a determinar a estrutura de um complexo proteico por crio-microscopia eletrónica e que nos disseram “isto é mais grave do que se pensava, em termos de disseminação e de potencial pandémico; e temos de usar máscaras e esperar pela vacina”.

Para mim começou a ser óbvio que este vírus tinha potencialmente um comportamento muito mais parecido com os Coronavírus endémicos respiratórios humanos do que com um SARS ou um MERS. Isso significa que na grande maioria dos casos, as infeções são assintomáticas ou ligeiras e que só num grupo muito específico de pessoas as infeções são severas e que podem levar à morte – e é uma doença terrível nesses grupos de risco, porque é pulmonar.
 

A verdadeira taxa de mutação de um vírus é difícil de medir? Por exemplo, uma pessoa com uma doença autoimune oferece mais oportunidades de mutação?

Não necessariamente. A taxa de mutação não é difícil de medir e ela está estimada para os vírus de RNA, que não têm a capacidade de corrigir, entre um em cada 1000 nucleótidos ou 1 em cada 10.000 nucleótidos. O que significa que por exemplo que no HIV que tem quase 10.000 nucleótidos, para cada genoma que se replica, temos de uma a 10 mutações. Uma pessoa na fase subclínica da infeção, em que não está sob terapia retroviral, produz por dia talvez 10 mil milhões de vírus, ou seja, 10 biliões de partículas virais – isso são quase tantas estrelas como as que existem na nossa galáxia. Se pegarmos nestes mil milhões de vírus e se forem analisados um a um, eles são todos diferentes uns dos outros, mas em conjunto formam uma população que tem uma sequência consensual, em que só vemos as mutações predominantes – a isso chama-se quasispecies.

E, portanto, não é difícil medir a taxa e mutação de um vírus, basta sequenciar o vírus e ver qual é a taxa de mutação. Ela é mais ou menos constante para cada tipo de vírus. Mas a seleção das mutações é que é influenciável pelo ambiente. Para o coronavírus agora, a grande pressão seletiva, e tipicamente nos coronavírus é assim que acontece, não é tanto a pressão imunológica, mas sim a vantagem de se conseguirem disseminar mais eficientemente. E é assim que tem acontecido nos coronavírus, nomeadamente com um dos coronaviruses humanos respiratórios que é o HCoV-229E. Nos últimos 50 anos conseguiu evoluir mais ou menos seis vezes nesta proteína spike que tem três loops – como se fossem três pétalas que estão à volta dos aminoácidos que contactam com o recetor celular -  e cada vez que evoluía eram selecionadas mutações que conferiam uma maior capacidade de ligação ao recetor, chama-se avidade. Essa subclasse de coronavírus eliminava a outra e assim sucessivamente. Hoje em dia existe predominantemente a última subclasse.

Em relação a uma pessoa com uma doença autoimune ou imunodeficiente, a taxa de mutação é mais ou menos sempre igual. O que difere é a seleção das mutações.

Elaborando mais um pouco, os coronavírus são um caso especial. Este coronavírus tem vindo a acumular cerca de duas a quatro mutações por mês. Acumula poucas porque a taxa de mutação no coronavírus é menor do que noutros vírus RNA – porque é uma família de vírus com um genoma muito comprido. Tem uma proteína especial para corrigir os erros quando são introduzidos, da mesma forma do que acontece com o DNA. Quando duplicamos o nosso DNA queremos fazê-lo com uma grande fidelidade e, portanto, temos de ter mecanismos de correção. No entanto, a natureza criou deliberadamente, quando fazemos os nossos gametas, um método de introduzir diversidade para haver evolução. Nós somos 99,9 por cento idênticos, mas os 0.1 por cento de diferença equivale a dois milhões de nucleótidos diferentes, ou seja, SNPs (Single Nucleotide Polymorphisms). Eu sou em média diferente de si dois milhões de vezes, há dois milhões de nucleótidos que são diferentes e essa diferença é essencial para conferir robustez a uma espécie.
 

“A infeção grave dos grupos de risco é quase como um acidente da infeção.”


E o sangue tipo O? Existem de facto características comuns em pessoas que contactaram com o vírus e que não ficaram infetadas?

Existem alguns estudos que fazem a ligação genética e a suscetibilidade à infeção. Precisam de ser mais trabalhados, no entanto, não é um fenómeno generalista. Podem haver essas correlações, mas não afetam aquilo que é o comportamento do vírus, no sentido em que não é por aí que a pandemia é diferente e que esses grupos estão mais afetados ou não. Epidemiologicamente nada muda. Podem haver algumas associações, mas de facto este vírus afeta a maioria da população independentemente da etnia, localização geográfica, da cultura. Afeta maioritariamente as pessoas de uma forma assintomática ou leve e, independentemente desses fatores geográficos ou genéticos, afeta os grupos de risco porque estão mais debilitados.

Pode olhar para esta infeção como que ela não evoluiu para eliminar os grupos de risco, estas coisas evoluem e são selecionadas ao acaso por pressões seletivas, os vírus não são inteligentes. Pura e simplesmente aquelas pessoas [evoluem para quadros de] têm quase uma infeção anormal. O que é normal na infeção são as infeções das constipações; gerar pouca imunidade; nessa imunidade a imunidade celular ser muito protetora contra doença grave; o título de anticorpos protetor contra a infeção desaparecer em média ao fim de dois anos e permitir a reinfeção – é essa reinfeção intermitente ao longo da vida que vai permitir a imunidade de grupo e que nos protege. E, portanto, a infeção grave dos grupos de risco é quase como um acidente da infeção e que não tem significado biológico ou evolutivo para a persistência do vírus na população. Porque quando o vírus é endémico e já atingiu o equilíbrio há uma percentagem muito pequena dos grupos de risco que é afetada e que leva à morte – o que não impede que nós com a ciência não consigamos proteger essa minoria com as vacinas. Nunca houve a necessidade de fazer uma vacina como a da gripe para proteger esses grupos de risco, mas neste momento, até isso pode ser uma coisa positiva da pandemia. Podemos salvar ainda mais vidas no futuro com a vacina para os grupos de risco.
 

Já temos dados suficientes para saber se é seguro ser vacinado para a COVID-19 durante uma gravidez?

Não existem dados porque estão agora a ser feitos os estudos. Se não fosse seguro vacinar, também não seria seguro ser infetado durante a gravidez. Com mais de 100 milhões de pessoas infetadas, já se saberia se seria um problema, como algumas infeções como a rubéola. Não só há essa evidência epidemiológica que é tão forte que não precisa de um estudo para demonstrar isso, em termos de infeção natural, como se os outros coronavírus nunca causaram um problema e se a pessoa nunca ficou preocupada durante a gravidez de ter uma infeção viral, não era agora que ia ser um problema. Mas temos de perceber se sim ou não, porque apesar de tudo é um novo vírus.

Uma vacina mRNA que expressa um antigénio, e para a qual fazemos uma resposta biológica, como é que isso afetaria e seria prejudicial a uma gestação porque durante a gravidez estamos a fazer isso constantemente. O que não quer dizer que não poderia haver um determinado antigénio para o qual vacinássemos e que solicitasse um tipo de resposta de anticorpos ou celular que não fosse prejudicial ao feto. Mas eu acho que isso é ficção científica. O que eu conheço são determinadas vacinas atenuadas, e isto vem muito do passado, como por exemplo a rubéola, podem ser perigosas para o feto, e por isso não são recomendadas durante a gravidez. Para essas vacinas há indicações muito específicas, se as grávidas podem ser vacinadas ou não. Para SARS-CoV-2 não antecipo para este tipo de vacinas adenovírus recombinantes que só se conseguem replicar uma vez, ou vacinas de RNA que têm uma duração de vida média muito curta, que possa ser um problema em grávidas.
 

“A grande incógnita é, se ao desconfinar, vamos ter uma quarta vaga.”


É seguro as pessoas vacinadas estarem perto umas das outras sem máscara?

Não. Pois uma pessoa vacinada pode ser infetada e deste modo transmitir a infeção a outros. Nesta fase temos de agir como se não estivéssemos vacinados, agir como se o risco de uma quarta vaga seja gigantesco, que o é pois pelo menos 70% da população ainda não tem imunidade, até termos a segurança que temos os grupos de risco cobertos pela vacinação e 100 por cento cobertos.

Nunca houve um perigo tão grande de uma quarta vaga. A grande incógnita é, se ao desconfinar, vamos ter uma quarta vaga. Está toda a gente com receio disso numa altura em que já vemos luz ao fundo do túnel e em que temos de vacinar. Mas, infelizmente, ainda não temos vacinas para ter 100 por cento de imunidade nos grupos de risco e isso é o que se pretende agora, mais do que os tais 60 ou 70 por cento de imunidade populacional. E porquê? Porque as vacinas se revelaram muito eficientes na proteção contra a morte e não tão eficientes na proteção contra a infeção. Mas isso é o que nos interessa, proteger vidas. Com essas vacinas já se consegue proteger quase 100 por cento os grupos de risco e, portanto, nesta altura não podemos relaxar de maneira nenhuma. Como as vacinas não são muito eficientes a prevenir a reinfeção ou infeção da pessoa, as pessoas podem potencialmente ser portadoras do vírus. Uma pessoa vacinada pode, nem que seja durante um período muito curto de tempo, contaminar outra e essa outra pode pertencer a um grupo de risco. Portanto, não queremos correr esse risco.
 

Neste momento, como está Portugal no quadro global? Vamos recuperar o exemplo positivo da primeira vaga?

Acho que já estamos a recuperar ou já recuperámos. Nós somos um dos países que mais rapidamente recuperou de uma vaga catastrófica. Liderámos o topo dos países que mais infeções per capita e mais mortes per capita teve e confinámos de uma forma muito eficiente e consequentemente recuperámos muito rápido. Repare no que aconteceu nas últimas semanas. E isso tem uma explicação muito simples: o vírus só se transmite de pessoa para pessoa por contacto próximo, porque só se transmite por gotículas respiratórias.

Tive a oportunidade de dizer isto muitas vezes nos meios de comunicação social, que estava nas nossas mãos evitar uma segunda vaga, que estava nas nossas mãos evitar uma terceira vaga e antes do pico da terceira vaga, em que se faziam projeções matemáticas e modelos epidemiológicas para quando se ia atingir o pico. E atenção, a Matemática e os modelos são muito importantes, mas como virologista queria deixar uma mensagem à população de que a biologia é factual. Se as pessoas aderissem ao confinamento, numa semana ou menos atingíamos o pico e se continuassem com esse comportamento muito rapidamente e abruptamente controlávamos o número de infeções e controlámos esta terceira vaga. Felizmente foi isso que aconteceu, o confinamento foi muito eficiente – talvez por um fator de medo das pessoas – e para isso contribuiu muito as escolas terem fechado, porque não só diminuiu o movimento de adultos e crianças como também preveniu que as crianças nas escolas fossem um fator de disseminação de mais famílias, como também enviou uma mensagem muito clara ao povo português. Se estamos a fechar as escolas é porque algo de verdadeiramente sério está a acontecer e nesta fase para salvar vidas não podemos correr riscos nenhuns. Isso funcionou muito bem. É um motivo de otimismo, não se pode dizer de orgulho porque neste processo morreu muita gente. Ainda estamos com muitas pessoas internadas e muitas pessoas em unidades de cuidados intensivos que só vamos ver resolvidas se calhar daqui a duas semanas.

É uma lição muito importante para o povo português: agora por experiência própria, o povo português viu o que acontece se relaxarmos as medidas. O povo português já sabe que tem de usar máscara e como é que deve usar a máscara. Não é usar oito horas por dia e depois tirar a máscara para passar meia hora socialmente com os amigos. Sabe respeitar as regras de distanciamento físico, como limitar o número de contactos ao máximo, aos coabitantes e às pessoas com quem tem de trabalhar. Depois é muito importante a parte do estado, haver um apoio na parte da testagem e rastreio. Isso é fundamental.
 

“O que determina o desconfinamento em termos de tempo é: chegar a um planalto em que não vamos conseguir baixar mais o número de infeções.”


Como espera que seja o próximo verão se o confinamento durar mais dois meses?

Espero que não tenhamos que ficar dois meses confinados. O que vai determinar a extensão do confinamento vão ser os números epidemiológicos e estarmos preparados para desconfinar. Existem duas formas. Queremos chegar ao tal planalto em que seja possível maximizar a proteção dos grupos de risco e desconfinar, voltar às escolas gradualmente e manter o nível que é seguro. Se me perguntar assim: esse nível nunca vamos conseguir chegar lá e vamos ter de ficar confinados? Aí, sim, se calhar vamos ficar confinados até termos as populações de risco vacinadas.

Acho que é possível desconfinar com o uso das regras de distanciamento, com o uso da máscara, com a testagem, com o rastreio. Acho porque são muito eficientes, porque o CDC (Centro de Controlo e Prevenção de Doenças) fez vários estudos em que mostravam que se houvesse esse tipo de estratégia que equivaleria a um confinamento bastante severo, é possível. O que determina o desconfinamento em termos de tempo é: chegar a um planalto em que não vamos conseguir baixar mais o número de infeções. Isso aconteceu no primeiro confinamento, que para mim foi talvez um pouco prolongado de mais no tempo. Portanto, vai chegar a uma altura em que estabilizamos a média de novas infeções por dia. Vamos ter que desconfinar com os cuidados que são requeridos e depois ajustar, à medida que vamos vendo os parâmetros epidemiológicos. E cada país vai ter os seus parâmetros, porque todos os países são diferentes. Temos as ferramentas para isso, esse conhecimento já o tínhamos antes de acontecer a segunda e a terceira vaga. 
 

Qual a importância da preservação e do respeito pelos habitats naturais para evitar futuras pandemias?

Muito grande. Não só para evitar futuras pandemias, como para evitar o colapso da natureza e do bem-estar humano. Os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios, não aparecem numa espécie por geração espontânea. Nem aparecem novos vírus a partir de vírus já existentes nessa espécie, isso nunca aconteceu - vírus mais virulentos e que se tornem pandémicos de repente. A origem de um vírus novo na espécie humana tem de ter sempre como base uma outra espécie animal e assim tem acontecido ao longo da evolução das espécies na Terra, em que os vírus saltam de umas espécies para outras e vão-se adaptando. 

Nós como espécie humana evoluímos ao longo destes anos com determinados vírus. Quando, por exemplo, começámos a domesticar animais e começámos a crescer em termos de número, começámos a introduzir vírus na espécie humana. Mas é um processo longo e que foi evoluindo ao longo do tempo. Neste momento há determinadas espécies animais com as quais nunca tivemos contacto e estamos a ter contacto porque estamos a invadir os nichos delas.

Por exemplo, o HIV começou a haver com muita intensidade nos anos 30 – sempre houve. Foi num evento entre um contacto com um chimpanzé e um ser humano que houve uma dessas quasispecies que infetou um humano e que tinha a constelação de mutações necessárias para se adaptar ao ser humano e infetou o ser humano. E, como está sempre a mutar, rapidamente se adaptou ao novo ambiente. Do ponto de vista evolutivo é um vírus que estava em vias de extinção porque o seu hospedeiro, aquele tipo de chimpanzé, tinha cerca de 30 mil indivíduos espalhados em vários agrupamentos e passou de uma espécie de 30 mil hospedeiros para quase 8 mil milhões de hospedeiros e muito rapidamente preencheu esse nicho. Chegámos a ter 50 milhões de pessoas infetadas. Veja o salto evolutivo. Cada vez a pressão é maior nos habitats e temos de respeitar esses habitats se não vamos ter problemas no futuro. Não me revejo na posição de que um aumento da frequência de pandemias seja inevitável. Mais facilmente vamos ter uma pandemia de gripe, do que uma pandemia por outro vírus. E para uma pandemia de gripe estaremos mais bem preparados se acontecer.
 

Oxalá.

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