É seguro levar a vacina COVID-19 durante a gravidez?

As grávidas podem hesitar em ser vacinadas porque não existem dados conclusivos. Os especialistas expõem o que se sabe e como cada pessoa pode avaliar os seus próprios riscos e benefícios.

Published 9/02/2021, 14:22 WET
Historicamente excluídas dos ensaios clínicos, as grávidas têm muitas vezes de decidir se vão ser vacinadas ...

Historicamente excluídas dos ensaios clínicos, as grávidas têm muitas vezes de decidir se vão ser vacinadas ou se tomam determinados medicamentos na ausência de dados sobre a sua segurança. Mas os cientistas já recolheram evidências claras sobre a segurança de vacinas anteriores – algo que pode ajudar na tomada de decisão com a chegada das vacinas COVID-19.

Fotografia de GETTY IMAGES

Para as mulheres que estão grávidas, a chegada das vacinas COVID-19 está a levantar questões agonizantes sobre se é mais seguro tomar a vacina ou lidar com os riscos de uma infeção. Apesar das evidências emergentes de que as vacinas são geralmente seguras e eficazes, não há praticamente dados sobre se isso é válido para as mulheres que estão grávidas, embora estas tenham maiores riscos de complicações com a doença.

Os órgãos reguladores a nível mundial já chegaram a emitir conselhos contraditórios sobre gravidez e vacinas COVID-19. Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA disseram que as vacinas deviam estar disponíveis para as grávidas, mas que a decisão final recaía sobre os futuros pais e respetivos médicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) não as recomenda, a menos que a gestante corra perigo elevado.

Portanto, na ausência de quaisquer dados de confiança, como é que uma pessoa toma uma decisão informada sobre se é seguro tomar a vacina? “Tudo gira em torno das características da sua vida”, diz Ruth Faden, fundadora do Instituto de Bioética Johns Hopkins Berman em Maryland. Cada pessoa tem de pesar o que se conhece sobre a vacina com o que sabe sobre o seu próprio risco de contrair o vírus.

Os especialistas sugerem que estas decisões devem ser debatidas com um médico, no entanto, segue-se um olhar sobre os factos disponíveis, o que ainda está a ser descortinado e as razões para estarmos otimistas.

O que sabemos sobre as vacinas anteriores

Os cientistas têm conhecimentos aprofundados sobre vacinas e gravidez – embora historicamente tenham demorado mais a obter essas evidências do que os dados gerais sobre segurança. Devido às complexidades éticas relacionadas com a gravidez – onde mães e fetos enfrentam riscos interligados – e receios de responsabilidade legal, as grávidas são normalmente excluídas dos ensaios clínicos randomizados necessários para obter a aprovação de um medicamento ou vacina.

“Temos protegido as mulheres grávidas ao máximo.”

por RUTH FADEN, FUNDADORA DO INSTITUTO DE BIOÉTICA JOHNS HOPKINS BERMAN EM MARYLAND

Por norma são necessários vários anos para reunir dados suficientes que mostrem como é que as vacinas aprovadas para uso geral atuam durante a gravidez. Muitos destes estudos subsequentes são observacionais e envolvem menos participantes. Assim, as mulheres grávidas podem hesitar em tomar uma vacina e os médicos também podem adiar a sua recomendação.

“O resultado disto foram décadas de injustiça para com as mulheres grávidas”, diz Ruth, que também lidera o projeto PREVENT. “Embora por vezes faça sentido não incluir gestantes nos ensaios iniciais, temos protegido as mulheres grávidas ao máximo.”

Mas os cientistas já acumularam evidências incontestáveis de que determinadas vacinas são seguras, eficazes e, em alguns casos, extremamente necessárias. Atualmente, os CDC incentivam fortemente as grávidas a tomarem vacinas contra a gripe, que se sabe poder provocar complicações graves durante a gravidez. Os especialistas também aconselham tomar a vacina contra a tosse convulsa, que pode ser fatal para os recém-nascidos. As mulheres grávidas também podem receber imunizações contra outras doenças, incluindo hepatite e meningite.

As lições aprendidas com essas vacinas mostram que não há motivos de preocupação com os tipos de vacinas que usam um vírus inativado para provocar uma resposta imunitária, dado não conseguem infetar a mãe ou o bebé, diz Geeta Swamy, professora associada de obstetrícia e ginecologia na Escola de Medicina da Universidade Duke, na Carolina do Norte, e líder na investigação mundial de imunização materna.

Por outro lado, as vacinas que usam uma pequena quantidade de vírus vivo – como a vacina do sarampo, papeira e rubéola e a vacina da varicela – podem provocar infeções de baixo nível que alguns cientistas receiam poder afetar o feto. Mas, de acordo com Geeta, “até isso se baseia em preocupações teóricas de risco”, não em evidências de que acontece realmente.

O que há de diferente nas vacinas COVID-19

As vacinas da Moderna e da Pfizer-BioNTech representam um novo desafio. Até agora, a plataforma de RNA mensageiro que estas vacinas usam não tinha sido licenciada para uso humano. Assim, os únicos dados disponíveis relacionados com a gravidez vêm de ensaios pré-clínicos feitos com animais em laboratório e de algumas participantes nos ensaios clínicos que mais tarde descobriram que estavam grávidas.

Mas sabe-se bastante sobre a forma como funciona a tecnologia mRNA. Em vez de usar uma versão viva ou inativada do vírus, estas vacinas contêm fragmentos de código genético envoltos em lípidos, ou glóbulos gordos, que protegem o código da degradação. Uma vez injetado, o mRNA ensina as células a produzirem a proteína espigão do SARS-CoV-2, que desencadeia a resposta imunitária do corpo.

Teoricamente, tudo isto é promissor porque, tal como algumas vacinas já referidas, não envolve um vírus vivo. “Tudo o que se considera biologicamente nas vacinas mRNA é incrivelmente tranquilizador”, diz Ruth Faden. “Não deve ter quaisquer impactos sobre a gravidez.”

Anthony Fauci, consultor médico da Casa Branca, também disse que, “até agora, os dados não levantaram sinais de alerta para as grávidas”.

Ainda assim, os cientistas têm levantado questões sobre a forma como as vacinas mRNA irão funcionar na realidade. A maior preocupação reside em saber se o mRNA consegue atravessar a placenta e gerar a proteína espigão no feto. Não seria necessariamente prejudicial se o fizesse – e não provocaria defeitos de nascença – mas o feto poderia sentir efeitos colaterais, incluindo dor, inchaço e febre. Geeta Swamy diz que os estudos em animais não mostraram sinais de efeitos colaterais físicos, mas é algo que ainda não foi testado em humanos.

Os efeitos colaterais na mãe também podem ser um problema. Christina Chambers, epidemiologista perinatal da Universidade da Califórnia, em San Diego, está a conduzir um estudo com mulheres grávidas vacinadas contra a COVID-19. Christina diz que pode ser prejudicial para o bebé quando uma mulher grávida tem febre alta. “Se for um efeito colateral, deve prestar atenção e conversar com o seu médico para tomar algo para reduzir a febre.”

“É urgente conseguir os dados sobre as pessoas que estão a ser vacinadas.”

por CHRISTINA CHAMBERS, EPIDEMIOLOGISTA PERINATAL DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, EM SAN DIEGO

Existem ensaios clínicos em andamento para investigar os efeitos das vacinas nas mulheres grávidas. Ruth Faden gostaria que estes testes tivessem começado assim que as vacinas receberam a aprovação da agência FDA dos EUA, mas Ruth salienta que este processo está a acontecer mais depressa do que no passado.

“Antigamente, parecia que éramos um ou dois tambores solitários a tocar num vasto silêncio”, diz Ruth. “Agora, temos uma secção inteira de percussão a pedir mais dados e a exigir a inclusão de mulheres grávidas no lançamento das vacinas. E isso é realmente bom.”

Os riscos de infeção

Por outro lado, sabemos muito sobre os riscos que a COVID-19 apresenta para as futuras mães. “Não há dúvida de que as mulheres grávidas são mais afetadas do que as outras”, diz Geeta Swamy.

Os estudos têm demonstrado que as grávidas com COVID-19 apresentam riscos mais elevados de hospitalização, admissões nas UCI e necessidade de ventilação mecânica. Em janeiro, um estudo publicado na revista JAMA Internal Medicine revelou que a COVID-19 estava associada a probabilidades mais elevadas de problemas de pressão arterial e nascimentos prematuros, embora não houvesse maiores probabilidades de nados-mortos. Um estudo realizado em outubro descobriu que uma em cada quatro mulheres grávidas podia ter COVID-19 “de longa duração”, cujos sintomas podem persistir durante semanas ou até meses.

Mas o risco de doença grave é menor para uma mulher grávida do que para as pessoas nos grupos de alto risco, como idosos ou pessoas com doenças cardíacas. Portanto, é fundamental observar os fatores individuais que aumentam os riscos de cada pessoa – incluindo o número de contactos diários, o acesso a testes e a material de proteção individual de alta qualidade e comorbidades como asma ou obesidade – e se há algo que pode ser feito para as reduzir.

O tempo também deve ser levado em consideração. Geeta diz que não há evidências de que uma vacina pode causar problemas de desenvolvimento ou aborto espontâneo no primeiro trimestre de gravidez. Mas as mulheres com menor risco de infeção podem optar por não se vacinar durante este período, que é vital para o desenvolvimento do órgão fetal e é quando os abortos espontâneos costumam ocorrer. (A vacina contra a gripe é segura em todos os estágios da gravidez.)

Para as mulheres grávidas com risco elevado de exposição e que não têm a opção de reduzir esse risco, pode fazer sentido considerar tomar a vacina assim que forem elegíveis. Christina Chambers diz que é urgente conseguir os dados sobre as pessoas que estão a ser vacinadas.

O que falta descobrir

Há motivos para crer que os cientistas irão em breve ter uma compreensão mais aprofundada sobre a forma como as vacinas COVID-19 funcionam durante a gravidez. A curto prazo, os cientistas aguardam com ansiedade pelos dados das profissionais de saúde grávidas que começaram a ser vacinadas em dezembro nos EUA. Ruth Faden diz que estes dados podem ser robustos, dado que constavam mais de 15.000 grávidas nos dados enviados aos CDC no dia 20 de janeiro.

Para além das vacinas mRNA, existem algumas opções diferentes no horizonte. A Johnson & Johnson submeteu a sua vacina para aprovação da agência FDA no dia 4 de fevereiro, enquanto que a AstraZeneca e a Novavax divulgaram recentemente dados críticos sobre os seus ensaios de fase três. Estas três vacinas dependem de tecnologias que foram estudadas em mulheres grávidas no passado, algo que Geeta Swamy diz poder fornecer mais garantias. (Devemos tomar mais do que um tipo de vacina contra a COVID-19?)

Os estudos mais recentes também sugerem que podem existir benefícios extra na vacinação durante a gravidez. Um estudo publicado na revista JAMA Pediatrics revela que as mulheres infetadas com COVID-19 transferem de forma eficiente anticorpos protetores para os seus bebés – particularmente se forem infetadas no início da gravidez. O estudo não refere se esta transferência acontece após a vacinação, diz Karen Puopolo, coatora do estudo e pediatra neonatal no Hospital da Pensilvânia. Mas Geeta Swamy diz que é positivo os anticorpos cruzarem regularmente a placenta em infeções naturais e espera que a vacinação obtenha uma resposta semelhante.

“Isto diz-nos que vacinar as mulheres grávidas poderia ter um efeito do género dois em um”, diz Geeta. “Ou seja, quando vacinamos as mulheres também estamos a proporcionar algum benefício durante a primeira infância.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler