Novos medicamentos identificados como possíveis ferramentas para combater a COVID-19

Provavelmente nunca teremos um tratamento perfeito para curar a COVID-19, mas determinados medicamentos em determinados pacientes podem salvar vidas.

Publicado 26/02/2021, 11:17
Um profissional de saúde cuida de um paciente com coronavírus na unidade de cuidados intensivos de ...

Um profissional de saúde cuida de um paciente com coronavírus na unidade de cuidados intensivos de um centro de isolamento e tratamento para pessoas com COVID-19 em Machakos, no Quénia, no dia 3 de novembro de 2020.

Fotografia de Brian Inganga, AP

Depois de lutarem contra o vírus SARS-CoV-2 durante mais de um ano, os profissionais de saúde continuam a lidar com a mesma realidade que enfrentavam há meses atrás: não existem soluções rápidas e fáceis para o tratamento da COVID-19.

“Não estou surpreendido por não termos uma bala mágica”, diz Adarsh Bhimraj, da Cleveland Clinic, um dos autores principais das diretrizes de tratamento para a COVID-19 da Sociedade de Doenças Infecciosas da América (IDSA). “Nenhuma das infeções respiratórias virais que conhecemos durante todas estas décadas e séculos tem uma bala mágica.”

Os avanços no tratamento da COVID-19 têm sido graduais, com uma combinação entre medicamentos originalmente desenvolvidos para combater outros vírus e tratamentos comprovadamente seguros e eficazes para o tratamento dos sintomas em estágio avançado da doença, como os esteroides que são usados para atenuar a resposta imunitária excessiva.

Mas, nos últimos meses, os ensaios clínicos salientaram vários medicamentos adicionais que se podem vir a juntar ao kit de ferramentas COVID-19. Cada um destes tratamentos confere individualmente um benefício modesto. O seu verdadeiro poder vem da junção com vários tratamentos – um tipo de abordagem aditiva que, após anos de investigação, tem apresentado resultados muito favoráveis para outras doenças.

“Pense na forma como as pessoas com ataques cardíacos são tratadas: temos endopróteses expansíveis, aspirinas, agentes para tornar o sangue menos espesso, tratamentos para a pressão arterial, estatinas – cada um dos quais está apenas a eliminar pequenos fatores no risco de morte”, diz Martin Landray, cardiologista de Oxford e um dos investigadores principais do ensaio RECOVERY do Reino Unido, o maior ensaio do mundo sobre medicamentos para a COVID-19.

Expandir o kit de ferramentas COVID-19

Por enquanto, só há dois medicamentos amplamente aceites como eficazes contra a COVID-19. O primeiro é o dispendioso medicamento antiviral remdesivir, que diminui o tempo de hospitalização ao interromper a capacidade de replicação do vírus – mas que aparentemente não reduz o risco de morte por COVID-19. O outro, mais barato, é o esteroide dexametasona, o único medicamento confirmado pelos ensaios clínicos a reduzir o risco de morte entre pacientes com casos graves de COVID-19. “As pessoas acreditam definitivamente que os esteroides são úteis”, diz Adarsh Bhimraj.

Mas os investigadores podem estar perto de encontrar tratamentos adicionais que sejam seguros e eficazes. Entre as dezenas de medicamentos que Adarsh e os seus colegas da IDSA estão a examinar, existem alguns possíveis candidatos a tratamentos. Um deles é o medicamento imunomodulador tocilizumab, um anticorpo que atualmente é usado para tratar a artrite reumatoide.

À semelhança da dexametasona, o tocilizumab atenua a resposta imunitária excessiva que, em casos graves de COVID-19, pode provocar inflamações perigosas. Contudo, ambos funcionam de maneiras diferentes. A dexametasona reduz os inchaços e diminui a resposta inflamatória do corpo. O tocilizumab suprime um recetor celular que pode desempenhar um papel nas frenéticas “tempestades de citocinas”, que podem provocar inflamações.

O tocilizumab já tinha sido observado em ensaios anteriores, mas os estudos não encontraram benefícios dignos de nota. Porém, nas últimas semanas, dois enormes ensaios randomizados descobriram que este medicamento reduz o risco de morte entre pacientes hospitalizados com COVID-19.

Em janeiro, o ensaio REMAP-CAP feito em 19 países anunciou os resultados de um teste em 803 pessoas com tocilizumab e sarilumab, um medicamento relacionado. Os resultados mostraram que os pacientes gravemente doentes com COVID-19 que receberam estes medicamentos tinham menos propensão para precisar de um ventilador, e sobreviveram com mais frequência do que os pacientes gravemente doentes que não receberam estes medicamentos.

No ensaio RECOVERY, que recruta voluntários de 180 locais diferentes de todo o Reino Unido, os investigadores identificaram um grupo de 4.116 pacientes hospitalizados com COVID-19 e administraram aleatoriamente tocilizumab a metade dessas pessoas, e um placebo à outra metade. Para os pacientes a quem tinha sido administrado tocilizumab, em comparação com os pacientes que não receberam o medicamento, o risco relativo de morte por COVID-19 foi reduzido em cerca de 14%, e as probabilidades de terem alta hospitalar aumentaram em cerca de 20%.

Adarsh diz que, embora estes resultados sejam promissores, precisam de ser completamente examinados: “Ainda são pré-impressões, não foram revistas por pares, certo? Temos de encarar isto com algumas reservas.”

Ao contrário dos ensaios anteriores, que podiam incluir dezenas ou centenas de participantes, o ensaio RECOVERY recrutou mais de 37.000 pacientes para testar vários tratamentos. A enorme abrangência deste ensaio confere aos seus estudos – que incluem a primeira evidência clara sobre a eficácia da dexametasona – um peso estatístico suficiente para perceber se um determinado medicamento ajuda ou prejudica os pacientes com COVID-19. “Se juntássemos todos os testes [de tocilizumab] feitos anteriormente, seriam substancialmente mais pequenos”, diz Martin Landray.

Por enquanto, os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) e a IDSA ainda não recomendaram o tocilizumab como tratamento para a COVID-19 fora dos ensaios clínicos.

Outro dos medicamentos que recentemente se mostrou promissor é o baricitinib, um medicamento normalmente usado para tratar a artrite reumatoide. O NIH recomenda a administração de baricitinib com remdesivir nos casos em que os pacientes com casos graves de COVID-19 não podem receber esteroides – como a dexametasona – devido a alergias ou a outras condições médicas. De acordo com um ensaio publicado em dezembro na revista New England Journal of Medicine, a adição deste medicamento ao remdesivir reduz em cerca de um dia o tempo de recuperação de um paciente, porque reduz a resposta descontrolada do sistema imunitário, em comparação com o uso apenas de remdesivir.

As diretrizes sobre tratamentos também se estão a alterar para o plasma convalescente, que é o plasma sanguíneo rico em anticorpos retirado de sobreviventes de COVID-19 e administrado a pacientes. No dia 4 de fevereiro, a agência do medicamento dos EUA limitou as autorizações sobre os tratamentos com plasma que contém elevados níveis de anticorpos, citando evidências de que o plasma com baixo teor de anticorpos não ajuda. As diretrizes atualizadas também limitam os tratamentos com plasma convalescente para os pacientes hospitalizados com COVID-19 que estejam nos estágios iniciais da doença.

Outros tratamentos no horizonte?

Os ensaios clínicos que estão a decorrer continuam a monitorizar medicamentos já conhecidos e outros novos para observar a sua eficácia contra a COVID-19. Ainda é muito cedo para se saber se estes tratamentos funcionam.

Um dos tratamentos promissores envolve anticoagulantes, como a heparina, que pode ajudar a reduzir o risco de coágulos sanguíneos relacionados com a COVID-19 e evitar que a condição dos pacientes se agrave. Num comunicado feito no dia 22 de janeiro, o Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue dos Estados Unidos anunciou que, entre os 1.000 pacientes moderadamente doentes em três ensaios clínicos, os anticoagulantes diminuíram a necessidade de ventilação mecânica. Contudo, o instituto enfatiza que os anticoagulantes não parecem ajudar – e podem até prejudicar – os pacientes gravemente doentes com COVID-19, ecoando as descobertas divulgadas em dezembro.

“Este é um exemplo convincente de como é fundamental estratificar os pacientes nos ensaios clínicos consoante a gravidade da sua situação – porque um tratamento que ajuda um subgrupo pode não ter quaisquer benefícios, ou até ser prejudicial, para outro”, escreveu no dia 2 de fevereiro o diretor do NIH, Francis Collins, sobre os resultados dos anticoagulantes.

Enquanto alguns investigadores observam as diferentes gravidades nos casos de COVID-19, outros estão a concentrar-se em evitar que os casos ligeiros cheguem sequer ao hospital. Por exemplo, o estudo COLCORONA do Instituto do Coração de Montreal está a examinar o medicamento anti-inflamatório colchicina, que é amplamente utilizado no tratamento de gota e de algumas doenças cardíacas.

Através de um comunicado de imprensa e de uma pré-impressão de acompanhamento publicada no final de janeiro, os investigadores do estudo COLCORONA afirmaram que, entre os 4.488 participantes que estavam em casa com casos ligeiros de COVID-19, a colchicina ajudou a reduzir o risco combinado de hospitalização e morte em cerca de 21%, quando comparada com pacientes que não receberam o medicamento.

Contudo, os médicos ainda encaram a colchicina com um ceticismo saudável, uma vez que a estatística-chave do estudo – a redução de 21% – tem por base um pequeno grupo de pessoas. Em geral, o estudo teve uma baixa taxa de mortalidade e hospitalização, o que significa que qualquer morte ou hospitalização poderia ter um efeito exagerado nos resultados. Entre os 4.488 pacientes inscritos, apenas 235 foram hospitalizados ou faleceram, incluindo 104 que estavam a tomar colchicina e 131 que não receberam o medicamento.

Também não se sabe se este medicamento reduz o risco de morte. Entre os 4.159 pacientes no estudo com casos confirmados de COVID-19, cinco dos que receberam colchicina morreram, e nove dos que não receberam também faleceram.

De acordo com a CBC, em fevereiro, o instituto de pesquisa clínica do Québec (INESSS) disse que “era prematuro apoiar o uso de colchicina em pessoas com um diagnóstico de COVID-19 não hospitalizadas”.

Entretanto, outros investigadores estão a começar a estudar se a colchicina pode ajudar pacientes hospitalizados com casos graves de COVID-19. Martin Landray diz que o ensaio RECOVERY está a expandir-se para testar a colchicina, bem como a aspirina, baricitinib e a mistura de anticorpos usada para tratar o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, no final de 2020.

Porém, os especialistas enfatizam que, a curto prazo, o maior benefício para a redução da taxa de mortalidade da COVID-19 não irá surgir através de terapias, mas sim da vacinação, que está a aumentar nos EUA e pelo mundo inteiro. Todas as vacinas atualmente autorizadas são altamente eficazes na prevenção de casos graves de COVID-19.

“O vírus está a adaptar-se a nós, mas felizmente nós também nos estamos a adaptar tecnologicamente a ele com os nossos cérebros – e conseguimos adaptar-nos rapidamente”, diz Adarsh Bhimraj.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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