O que pode fazer em segurança depois de levar a vacina COVID-19?

À medida que mais pessoas são vacinadas, algumas atividades podem tornar-se menos arriscadas, mas os especialistas continuam a recomendar precauções.

Published 12/02/2021, 12:09 WET
À medida que mais pessoas são vacinadas, a forma como regressamos à sociedade em segurança é uma ...

À medida que mais pessoas são vacinadas, a forma como regressamos à sociedade em segurança é uma questão importante.

Fotografia de MICHAEL CIAGLO, GETTY IMAGES

Cerca de um ano após o início da pandemia global, com o número de mortes em todo o mundo a ultrapassar uns impressionantes 2.3 milhões – quase meio milhão só nos Estados Unidos – a esperança chegou na forma de várias vacinas criadas em tempo recorde que mostraram um sucesso impressionante na prevenção da COVID -19.

“Todas as vacinas têm sido altamente protetoras contra doenças graves, hospitalização e morte”, diz William Moss, diretor executivo do Centro Internacional de Acesso a Vacinas da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg. Essa, diz William, é a história de sucesso mais importante das vacinas COVID-19, e vai ajudar a controlar esta pandemia brutal.

Com o número de vacinados a crescer diariamente, muitas pessoas interrogam-se: Quais são as atividades que eram arriscadas, como estar em espaços fechados com amigos ou fazer compras sem máscara, que agora são mais seguras com a vacina? Eis o que os especialistas dizem sobre como se pode calcular os riscos de algumas das atividades mais comuns depois de termos sido vacinados.

Depois de sermos vacinados, quanto tempo demora a atingir a imunidade ‘total’?

As duas vacinas mRNA atualmente aprovadas para utilização nos EUA, a vacina da Moderna e da Pfizer-BioNTech, envolvem duas doses com um intervalo de três a quatro semanas. A segunda injeção demora entre uma a duas semanas a atingir o nível máximo de proteção contra a COVID-19. Nos ensaios clínicos, estas vacinas são cerca de 95% eficazes na prevenção de casos de COVID-19.

Para já, ainda não se sabe quanto tempo dura a imunidade depois de uma pessoa estar completamente vacinada, e só o tempo irá revelar a resposta. A vacina COVID-19 pode vir a tornar-se numa vacina anual, semelhante à vacina contra a gripe; e os seus benefícios podem durar menos ou mais tempo.

As pessoas vacinadas podem ser assintomáticas e propagar o vírus?

Esta questão é crítica, mas ainda não foi rigorosamente estudada. Os dados disponíveis até agora indicam que a vacinação reduz significativamente a infeção por parte de pessoas que não apresentem sintomas. No ensaio clínico de fase três da Moderna, um teste de diagnóstico antes da segunda dose da vacina mostrou que 89.6% dos casos assintomáticos e sintomáticos eram evitados com a primeira dose.

Os resultados preliminares dos ensaios de fase três da vacina de Oxford-AstraZeneca mostraram uma redução de 67% nos testes positivos com zaragatoas após uma vacinação.

“Este resultado é verdadeiramente encorajador”, diz John Swartzberg, professor clínico emérito da Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Para mim, enquanto pessoa responsável, faz-me sentir que posso estar com mais segurança perto de outras pessoas.”

É seguro as pessoas vacinadas estarem perto umas das outras?

A decisão de as pessoas vacinadas se encontrarem envolve um “cálculo mental”, diz John Swartzberg, que deve ter em consideração a probabilidade de alguém estar exposto ao vírus SARS-CoV-2, vacinado ou não, porque ainda há uma pequena probabilidade de uma pessoa vacinada poder ser infetada.

William Moss diz que, conforme o tempo passa, mais pessoas são vacinadas e o número de indivíduos infetados continua a descer, pelo que um encontro entre pessoas vacinadas “irá eventualmente ser seguro” e continuará a ficar mais seguro.

“Para jogar pelo seguro”, diz Cynthia Leifer, professora associada de imunologia na Universidade Cornell, “devemos continuar a praticar as medidas de distanciamento social com o máximo rigor que conseguimos até obtermos uma distribuição mais ampla da vacina”. Cynthia recomenda as pessoas a continuarem a seguir as diretrizes e a evitar grupos grandes, a usar máscara e a ficar a pelo menos dois metros de distância de outras pessoas.

“Quando levamos a vacina, não ficamos de repente com um escudo do Capitão América à nossa volta.”

por CYNTHIA LEIFER, PROFESSORA ASSOCIADA DE IMUNOLOGIA NA UNIVERSIDADE CORNELL

Também existem incógnitas em torno da eficácia das vacinas contra novas variantes que ainda não foram descobertas.

“Quanto mais COVID estiver a circular, mais potencial existe para o aparecimento de novas variantes”, diz Cynthia. “Não conseguimos prever quando é que poderá surgir uma nova variante que talvez não esteja coberta pela vacina.”

A vacina da Novavax, que não foi aprovada para utilização, mostrou uma queda considerável na sua eficácia – de 89.3% para 49.4% – contra a variante que surgiu na África do Sul, mas que desde então se propagou internacionalmente. A Pfizer e a Moderna ainda estão a testar o funcionamento das suas vacinas contra a variante mais contagiosa do Reino Unido.

As pessoas vacinadas devem continuar a usar máscara nos lugares públicos?

Os especialistas concordam que todas as pessoas devem usar máscara, pelo menos por enquanto. Para além de não se saber quem foi vacinado ou não, algo que pode levar a situações embaraçosas e confusas, cada pessoa pode ter uma reação imunitária diferente a uma vacina.

“Por exemplo, imunizamos 100 pessoas e todas vão ter níveis diferentes de resposta à vacina; algumas podem não obter uma resposta boa o suficiente para as proteger”, diz Cynthia. Não há realmente forma de saber qual é o tipo de resposta que o nosso corpo tem à vacina, pelo que usar máscara adiciona uma camada extra de proteção. Saber a quantidade de pessoas vacinadas que continuam a transmitir o vírus também é uma questão em aberto.

“Eu encaro as vacinas como se fossem um penso enorme, mas existem outros pensos que podemos usar para nos protegermos”, diz John Swartzberg. “A vacina é provavelmente o maior de todos os pensos.” A máscara é outro tipo de penso, e John diz que ninguém devia parar de a usar.

É seguro viajar depois de sermos vacinados?

Para muitas pessoas, já se passaram meses ou anos desde que se encontraram com a família ou os amigos cara a cara, mas levar a vacina não significa automaticamente que é completamente seguro viajar pelo mundo.

“Penso que tudo se resume à forma como as pessoas se sentem confortáveis, mas devemos estar cientes de que, neste momento, não conseguimos prever quando é poderão surgir novas variantes, onde podem surgir e se estaremos protegidos”, diz Cynthia. “Quando levamos a vacina, não ficamos de repente com um escudo do Capitão América à nossa volta.”

John Swartzberg diz que, embora ele próprio se possa em breve vir a sentir seguro a socializar em pequenos grupos com outros indivíduos vacinados, as viagens aéreas são uma história diferente: “Não sei quem está no aeroporto, quem está no avião... por isso vou precisar de muito mais tempo até ter a certeza de que não há muitas pessoas não vacinadas naquele avião ou aeroporto.”

Quantas pessoas precisam de ser vacinadas para ‘regressarmos ao normal’?

O mundo tranquilo de 2019 pode agora ser uma memória distante, mas com a chegada das vacinas, existe uma sensação cautelosa de normalidade – comer num restaurante, ir à escola, uma noite de karaoke com os amigos – que parece estar ao nosso alcance.

Até agora, já foram vacinados no mundo inteiro mais de 107 milhões de pessoas. Nos Estados Unidos, cerca de 3% da população foi completamente vacinada. As estimativas sugerem que, ao ritmo atual, 70% da população dos EUA estará pelo menos parcialmente vacinada em meados de setembro; os investigadores dizem que entre 75% e 80% da população precisa de estar vacinada para o país alcançar a imunidade de grupo.

Neste trajeto para a imunidade de grupo poderão existir sinais de normalidade. John Swartzberg diz que se sentirá mais tranquilo à medida que o número de novos casos diminuir, diminuindo assim as probabilidades de exposição ao vírus.

“A forma como eu vejo isto a acontecer é uma espécie de fase de transição de regresso aos tempos pré-pandemia”, diz William Moss. O primeiro passo é reduzir casos, hospitalizações e mortes através da vacinação, para que o rastreio completo de contactos possa ser implementado de maneira eficaz. “Apesar de se ter falado muito sobre o rastreio, o que aconteceu foi que o número de casos era tão elevado que sobrecarregou o sistema”, diz William.

Cynthia Leifer está esperançosa de que a distribuição da vacina pode ser acelerada com planos criativos de distribuição e fabrico. “Na minha visão, chegaríamos a esse ponto lá para o final do verão, para que os alunos pudessem regressar às aulas.”

Uma vacina não é um remédio para todos os males, mas oferece às pessoas uma forma de reduzir o risco para que possam voltar a estar com os seus entes queridos mais cedo.

“Não abraço os meus filhos e netos há 10 meses”, diz John Swartzberg. “Vai chegar um momento em que preciso mesmo de os abraçar.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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