Paleontólogo descobre fóssil com mais de 300 milhões de anos na Bacia Carbonífera do Douro

O paleontólogo Pedro Correia descobriu recentemente um fóssil de um novo grupo de plantas com 300 milhões de anos na Bacia Carbonífera do Douro.

Publicado 19/02/2021, 11:36
Iberisetum wegeneri (holótipo).

Iberisetum wegeneri (holótipo).

Fotografia de Pedro Correia

O paleontólogo e investigador do Instituto de Ciências da Terra da Universidade do Porto descobriu, na Bacia Carbonífera do Douro, em Gondomar, um fóssil de um novo grupo de plantas em rochas com 300 milhões de anos. Esta região foi também onde o mesmo paleontólogo descobriu uma espécie de cavalinha também com cerca de 300 milhões de anos, uma espécie de esfenopsídeos denominada Annularia noronhai, e um fóssil raro de uma barata primitiva.

O novo fóssil batizado Iberisetum wegeneri, em homenagem ao geólogo e meteorologista alemão Alfred Wegener autor da famosa teoria "Deriva Continental", representa um novo género e uma nova espécie de um grupo extinto de plantas esfenopsídeas (articuladas) primitivas, um grupo ancestral distante do atual Equisetum. O estudo foi publicado na revista Historical Biology com o contributo de outros dois investigadores, Artur Sá da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e Zbynĕk Šimůnek do Instituto Czech Geological Survey.

Uma das características peculiares do Iberisetum wegeneri é possuir grandes bainhas foliares com uma organização heliotrópica, que representam uma novidade evolutiva (autapomorfia) para os Equisetales. Essas bainhas funcionavam basicamente como "painéis solares" onde as folhas estavam orientadas para o sol com a finalidade de maximizar a captura de luz para a fotossíntese da planta primitiva. Esta morfologia funcional é o resultado de uma adaptação evolutiva das plantas residentes às condições climáticas e ecológicas restritas aos ambientes intramontanos da Bacia do Douro. Conversámos com Pedro Correia sobre o achado e o sítio de escavação onde descobriu vários registos fósseis.

É possível que estas plantas ocorram em outras partes do país? Em que ambientes?

A Iberisetum wegeneri viveu em ambientes muito restritivos como os ambientes intramontanhosos da bacia do Douro. É provável que este tipo de flora tenha ocorrido em outras regiões do país com o mesmo tipo de ambiente e da mesma época, como a bacia do Bussaco. 

Sítio de escavação da Iberisetum wegeneri em São Pedro da Cova.

Fotografia de Pedro Correia

O que explica a descoberta de tantos registos fósseis neste local?

A bacia do Douro era parte integrante da primitiva Ibéria que estava localizada em latitudes equatoriais (tropicais) no Carbonífero superior, há cerca de 300 milhões de anos, e albergou uma riquíssima diversidade florística. Um ambiente deposicional intramontanhoso como a bacia do Douro favoreceu a deposição e a preservação de muitos restos de flora (e alguns elementos faunísticos) no registo fóssil na região. 

É possível estimar que animais habitavam esta zona?

Nos últimos 10 anos da nossa investigação em paleobotânica na bacia do Douro temos descoberto essencialmente fósseis vegetais. Ocasionalmente descobrimos nas nossas escavações alguns fósseis de insetos, com a descrição de dois novos táxons para a ciência (Lusitaneura covensis e Stenodyctia lusitanica), e reportámos o primeiro registo de aranha fóssil (Aphantomartus pustulatus) no Carbonífero português. Este último representa um registo raríssimo que foi descoberto na região de São Pedro da Cova. Esta região é uma das mais ricas em fósseis do Carbonífero da bacia do Douro, e lá já identificamos cerca de 12 novas espécies para a ciência. A fauna fóssil identificada compreende também uma diversidade de bivalves fluviais (não marinhos). Em breve iremos submeter um novo trabalho com a descrição de um novo táxon. 

“O Carbonífero português é ainda pouco estudado, o que poderá abrir novas oportunidades para muitos jovens investigadores.”

A pandemia veio alterar alguma coisa no vosso trabalho de campo?

A pandemia veio apenas limitar a nossa disponibilidade de trabalho de campo, em 2020 não fizemos qualquer expedição e trabalhos de escavação. Em contrapartida, tivemos mais disponíveis para a escrita e elaboração de manuscritos científicos, que requerem muitos meses de pura investigação, leitura de muita literatura e troca de opiniões com colegas. 

Quais os próximos passos da equipa?

Muito em breve iremos submeter um novo projeto à Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT) para obter financiamento para estudar a flora e fauna fóssil das bacias do Bussaco e da Santa Susana, duas regiões que não são investigadas desde as décadas de 1940 e 1950. No geral, o Carbonífero português é ainda pouco estudado, o que poderá abrir novas oportunidades para muitos jovens investigadores que queiram fazer uma carreira em paleontologia em Portugal.

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