UTAD pioneira ao aplicar ozono para tratar infeções de pé diabético por bactérias multirresistentes

Grupo MicroART testou óleos ozonizados face a MRSA de úlceras com resultados muito positivos. A equipa foi a primeira em Portugal a realizar um estudo do ozono em biofilmes bacterianos.

Publicado 18/02/2021, 15:07
O grupo de investigação MicroART foi pioneiro no estudo do ozono aplicado no tratamento do pé ...

O grupo de investigação MicroART foi pioneiro no estudo do ozono aplicado no tratamento do pé diabético.

Fotografia de MicroART, UTAD

A diabetes é uma doença endócrina e metabólica que a médio e longo prazo conduz a relevantes lesões vasculares e neurológicas, complexas e multifocais. Essas lesões tornam-se clinicamente evidentes anos depois do início da doença e podem conduzir a isquémia dos membros dos inferiores, como as pernas e os pés, entre outros quadros clínicos. As complicações da diabetes podem afetar a irrigação dos membros inferiores, originando o "pé diabético" que é o resultado de um conjunto de alterações vasculares, neuropáticas e infeciosas.

O pé diabético é uma das complicações mais graves da diabetes mellitus, sendo responsável por 40 a 60% das amputações efetuadas por causas não traumáticas. Estima-se que nos países ocidentais cerca de 25% da população diabética venha a desenvolver uma úlcera no pé num momento qualquer da sua vida, e que a maioria destas úlceras virão a ficar infetadas. Mais de metade dos diabéticos que têm uma úlcera infetada num pé virão a ter outra dentro de algum tempo, e entre 25 a 50% dos pés de diabéticos com infeção virão a sofrer algum grau de amputação. Staphylococcus aureus é o agente mais, frequentemente, isolado nas infeções de pé em pacientes diabéticos e pode estar associado a mudança no tempo de cicatrização de feridas. Contudo, tem-se verificado um aumento na incidência de Staphylococcus aureus resistentes à meticilina - MRSA, especialmente em doentes previamente internados, ou que realizaram recentemente antibioterapia.

O aumento da prevalência de MRSA tem vindo a alterar a medicação empírica para antibióticos como trimetropim e sulfametoxazol (cotrimoxazol), doxiciclina, clindamicina e levofloxacina, substituindo o uso de cefalexina e amoxicilina e ácido clavulânico. Úlceras nos estádios muito avançados, em que existe ameaça de perda de membro, podem levar a um internamento para administração de antibiótico intravenoso e uma avaliação urgente para determinar a necessidade ou não de uma drenagem. O tempo médio da duração do tratamento varia de seis a 24 dias, e tem uma taxa de sucesso de 50 a 85% em infeções moderadas a severas. Contudo, o uso excessivo de antibióticos tem efeitos nocivos não só para o paciente, mas também para a sociedade e para o serviço nacional de saúde. Neste seguimento, novas alternativas de combate revelam-se uma prioridade. Nos últimos anos, o ozono foi introduzido como uma alternativa aos antibióticos convencionais devido à sua reconhecida atividade antibacteriana forte e eficaz. O ozono também melhora a função celular e promove a cicatrização de feridas.

O Grupo MicroArt - Microbiology and Antibiotic Resistance Team da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, liderado pela professora e investigadora Patrícia Poeta, do Departamento de Ciências Veterinárias, avaliou o efeito do óleo ozonizado face a bactérias resistentes aos antibióticos sendo a primeira em Portugal a realizar um estudo do efeito do ozono em bactérias multirresistentes produtoras de biofilmes. Óleos ozonizados (mistura de azeite e girassol) com diferentes concentrações foram testados face a MRSA isolados de lesões de úlceras de pé diabético, assim como contra biofilmes formados por essas estirpes. O artigo, da autoria desta equipa, intitulado “High Efficacy of Ozonated Oils on the Removal of Biofilms Produced by Methicillin-Resistant Staphylococcus aureus (MRSA) from Infected Diabetic Foot Ulcers” foi publicado na conceituada revista “Molecules” reportando resultados in vitro extremamente promissores.

Para além disso, o MicroART tem vários trabalhos já publicados sobre o assunto em congressos nacionais e internacionais. A equipa encontra-se, neste momento, a desenvolver um estudo pioneiro a nível mundial que permite determinar a eficácia dos óleos ozonizados na erradicação da infeção in vivo em modelo de rato por forma a mimetizar a ferida de pé diabético. Pretende-se concluir se, de facto, óleos ozonizados poderão vir a ser utilizados no tratamento de lesões de pé diabético infetadas por MRSA em humanos. Alcançar a cura de feridas de pé diabético infetado por MRSA tornou-se um desafio e é, portanto, essencial a procura de novas alternativas aos antibióticos para o tratamento deste tipo de lesões.


Patrícia Poeta, Professora Catedrática na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, é Diplomada Europeia em Microbiologia Veterinária pelo Colégio Europeu de Microbiologia Veterinária, Membro do Comité Executivo do European Study Group of Veterinary Microbiology da European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases e Membro do LAQV-REQUIMTE, Faculdade de Ciências e Tecnologia - Universidade Nova de Lisboa. Publicou mais de 500 trabalhos e recebeu 36 prémios.

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