Cérebros maiores influenciam tomada de decisões sociais complexas

Será que o tamanho do cérebro importa? Esta é a questão sob a qual se debruçou um estudo em peixes-limpadores.

Publicado 30/03/2021, 15:14 WEST
Este estudo focou-se em populações de peixes-limpadores (Labroides dimidiatus) em ambiente selvagem.

Este estudo focou-se em populações de peixes-limpadores (Labroides dimidiatus) em ambiente selvagem.

Fotografia de Redouan Bshary

A equipa de cientistas, co-liderada pelo investigador principal do Instituto Gulbenkian de Ciência, Rui Oliveira, procurava perceber de que forma o ambiente poderia impactar a capacidade cognitiva dos peixes-limpadores, ou seja, se a capacidade de resposta e aprendizagem dos mesmos poderia ser afetada. Esta pesquisa centrou-se em populações selvagens desta espécie de peixes, presente na Austrália (Labroides dimidatus).

Esta capacidade de adaptação ao ambiente local, perante mudanças ou pressões, é designada “plasticidade fenotípica”. Este é um mecanismo alternativo ao de seleção natural, que funciona a muito menor prazo. Ou seja, as respostas evolucionárias via seleção natural, geralmente, não produzem mudanças significativas num intervalo de tempo tão curto como, por exemplo, uma maior resistência às alterações climáticas que afetam os peixes-limpadores.

De facto, com cérebros maiores ou menores, o bodião-limpador já tinha sido identificado como um animal com uma inteligência surpreendente, já que foi o primeiro peixe que se reconheceu ao espelho. Aliás, o próprio comportamento que dá o nome a estes pequenos peixes, o de “limpar” os seus “clientes”, alimentando-se de parasitas e células mortas, já é um sinal de alguma capacidade cognitiva. 

O tamanho importa mesmo

E como é fácil observar, os tamanhos dos cérebros nos vertebrados variam imenso. Este é resultado de milénios de seleção natural – e de outras pressões seletivas. No entanto, dentro da mesma espécie há também variações menores: alguns elementos têm cérebros maiores, comparativamente com os restantes. Vários estudos apontam para a possibilidade destes “cérebros maiores”, dentro da mesma espécie e até dentro da mesma comunidade, terem uma relação com o habitat ou com as condições locais.

Pois bem, nestes peixes-limpadores, o tamanho do cérebro parece estar correlacionado com a capacidade de tomar decisões complexas. Ou seja, bodiões-limpadores com cérebros maiores parecem ter maiores capacidades cognitivas, do que aqueles com cérebros menores nas mesmas condições.

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Mas como é que os serviços de limpeza destes bodiões mostram inteligência? Os bodiões-limpadores têm os seus “clientes”, peixes maiores que acumulam tecidos mortos e parasitas, e são capazes de lhes seguir o rasto e manter as relações de mutualismo que desenvolvem com cada um deles. Além disso, um outro estudo recente sugere que os bodiões-limpadores mais novos têm a capacidade de aprender que existem consequências quando tentam “enganar” os seus “clientes”.

E se num determinado ambiente houver grande densidade de limpadores, estes vão, sem dúvida, competir pelos clientes com os seus pares. Mas também os clientes são capazes de fazer escolhas: estes tendem a optar pelo serviço de quem os fizer esperar menos – soa-lhe familiar?

Escolhas e recompensas

A equipa de investigadores decidiu fazer um teste comportamental de recompensa efémera. Assim, cada um dos peixes teria de escolher entre duas placas com comida: uma delas, devidamente identificada com cores distintivas, seria retirada se não fosse escolhida primeiro (efémera), enquanto a outra opção estaria sempre disponível e acessível até a comida se acabar (residente).

A solução mais inteligente seria aquela em que os peixes escolhessem a opção efémera, antes que esta fosse retirada, já que a outra não o seria. Os bodiões-limpadores sob teste tinham de “aprender” que uma das placas se mantinha, independentemente da escolha, e a outra não. Portanto, deveriam fazer a escolha mais adequada à garantia do consumo do alimento disponibilizado. Neste estudo, que durou dez dias, de todas as fêmeas de bodião-limpador submetidas ao teste foram escolhidas apenas 20 - sendo que 10 passaram no teste, e as outras 10 falharam. Posteriormente, os seus cérebros foram analisados.

Cérebro de portas abertas?

A análise, publicada na revista Nature Communications, teve em conta não só o tamanho, mas também o número de células neurais em certas áreas do cérebro. O resultado mostrou que os peixes que “passaram” o teste tinham cérebros maiores, nomeadamente a parte frontal do cérebro, o prosencéfalo, do que os que “chumbaram”. O ambiente em que se encontram parece ter mesmo influência na “aprendizagem” dos bodiões-limpadores, até mais do que se pensava.

Apesar de muito útil para o estudo desta espécie, esta descoberta genial sobre os cérebros dos bodiões-limpadores, infelizmente, não nos diz nada sobre o cérebro humano… ainda! Mas pode ser o salto que se precisava para lançar o estudo da relação entre as características plásticas do cérebro e a competência social nos vertebrados. Será que um pequenino cérebro de bodião-limpador pode ser o bilhete para os mistérios do cérebro e comportamento?

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