Como a ciência resolveu o mistério dos pés que davam à costa no Pacífico Noroeste

As descobertas perturbadoras feitas ao longo do Mar Salish geraram conversas sobre assassinos em série, alienígenas e espíritos. Mas a verdade é ainda mais inesperada.

Publicado 18/03/2021, 16:32 WET
salish sea

Uma vista de Howe Sound, parte do Mar Salish a norte de Vancouver, mostra as montanhas da Ilha Gambier com a costa continental em silhueta.

Fotografia de John Zada, Alamy Stock Photo

Este artigo é um excerto do livro Gory Details: Adventures From the Dark Side of Science de Erika Engelhaupt.
 

No dia 20 de agosto de 2007, uma menina de 12 anos avistou um ténis de corrida azul e branco – tamanho 46 – numa praia da Ilha de Jedediah, na Colúmbia Britânica. A menina olhou para dentro do sapato e encontrou uma meia. Depois olhou para dentro da meia e encontrou um pé.

Seis dias depois, na vizinha Ilha Gabriola, um casal de Vancouver que estava a desfrutar de uma caminhada à beira-mar encontrou um ténis Reebok preto e branco. No seu interior estava outro pé em decomposição. Também era tamanho 46. Os dois pés claramente não pertenciam à mesma pessoa; não só os ténis em si eram diferentes, como ambos continham pés direitos.

A polícia estava atordoada. “Dois pés encontrados num curto espaço de tempo era bastante suspeito”, disse Garry Cox, da Polícia Real Montada do Canadá, ao jornal Vancouver Sun. “Encontrar um pé é como uma probabilidade em um milhão, mas encontrar dois é uma loucura. Já ouvi falar de bailarinos com dois pés esquerdos, mas isto é demais.”

No ano seguinte, apareceram mais cinco pés em praias canadianas nas proximidades. As descobertas aumentaram os receios do público, e a especulação da imprensa disparou. Estaria um assassino em série à solta? Será que este assassino tinha alguma coisa contra pés?

Ao longo dos 12 anos seguintes, deram à costa 15 pés na área em torno da Ilha de Vancouver, uma rede de canais denominada Mar Salish. Outros seis pés apareceram em Puget Sound, que fica do outro lado da fronteira com os EUA, no extremo sul deste mar. Com a exceção de um pé que usava uma velha bota de caminhada, todos tinham ténis calçados. Os pés com ténis tornaram-se famosos, conseguindo até a sua própria página na Wikipedia. E com a fama surgiram os embustes, com alguns brincalhões a encherem sapatos com ossos de galinha ou patas esqueléticas de cães e a espalharem-nos ao longo da costa canadiana.

Informadores ligavam para a polícia com todos os tipos de teorias sobre a origem dos pés. “Recebemos dicas muito interessantes sobre assassinos em série ou contentores cheios de migrantes que estavam no fundo do oceano. Alienígenas – também havia essa teoria”, diz Laura Yazedjian, antropóloga forense que trabalha como especialista em identificação humana para o Serviço de Médicos Legistas da Colúmbia Britânica. “E ocasionalmente tínhamos um médium. Na verdade, há quase sempre um médium que telefona para oferecer ajuda.”

Mas, ao que parece, este tipo de mistério requer uma investigação científica, em vez de uma investigação criminal (ou espírita). De facto, a ciência consegue responder a todas as questões óbvias – por exemplo, por que razão é que os pés, e não os corpos inteiros, estavam a chegar à praia? E porque é que estavam a aparecer neste trecho específico da costa da Colúmbia Britânica? Porém, a investigação que abordou estas questões era tudo menos óbvia. Para compreender como é que os pés chegaram onde chegaram, era necessário seguir algumas linhas inesperadas de investigação, envolvendo um pouco de tudo, desde ciência de afundamento até à decomposição de porcos e derrames de petróleo.

Afundar ou flutuar

Para começar, temos de compreender o que acontece a um corpo morto quando está na água. Portanto, vamos seguir as aventuras de um cadáver no mar.

Uma vez na água, o primeiro movimento de um cadáver é flutuar ou afundar. Esta é uma etapa surpreendentemente crucial, pois ajuda a determinar o que acontece a seguir. Um objeto flutuante é transportado pelos ventos e correntes de superfície e rapidamente poderá dar à costa. Em caso de afundamento, pode permanecer no mesmo lugar ou ser puxado numa direção diferente pelas correntes mais profundas. Para além disso, um corpo flutuante, quando exposto ao ar, decompõe-se de forma diferente da de um cadáver que se afunda, e as ramificações estendem-se ao destino final dos pés.

Podemos presumir que uma pessoa afogada se vai afundar porque os seus pulmões estão cheios de água, e que os pulmões cheios de ar de um cadáver agiriam de outra forma, como se fossem um dispositivo de flutuação. Mas a realidade não é assim tão simples. Usando dados recolhidos em 1942, E.R. Donoghue, do Instituto de Patologia das Forças Armadas dos EUA, decidiu resolver esta questão num artigo de 1977 intitulado “Flutuabilidade do Corpo Humano: Um Estudo de 98 Homens”. Os 98 homens em questão eram “homens saudáveis da Marinha dos EUA na faixa etária dos 20 a 40 anos”. Cada um foi suspenso debaixo de água e pesado tanto com os pulmões cheios de ar como depois de expelirem o máximo de ar possível. Não é uma tarefa fácil esperar debaixo de água para depois se ser pesado sem ar nos pulmões – mas, novamente, estes homens eram da Marinha.

Com os pulmões completamente cheios de ar, todos os homens flutuaram. Mas assim que esvaziaram os pulmões (como aconteceria no caso de um cadáver), a maioria dos homens afundou-se em água doce; apenas 7% flutuaram. Na água do mar, porém, as pessoas flutuam mais: Cerca de 69% dos homens da Marinha flutuariam se estivessem mortos e nus no oceano, estimou Donoghue. Mas era um resultado tangencial; bastava um pouco mais de peso, como roupas pesadas ou água nos pulmões, para fazer um corpo afundar. No final, os dados sugeriam que os cadáveres tinham em geral mais probabilidades de se afundar do que flutuar, e as pessoas que se afogam têm mais probabilidades de se afundar.

Para além disso, assim que um corpo se afunda, tende a ir diretamente para o fundo do mar. Por vezes, um cadáver debaixo de água pode eventualmente inchar, como acontece com um corpo em terra, fazendo com que este regresse à superfície. Mas isso nem sempre acontece, diz Laura Yazedjian, investigadora do Serviço de Médicos Legistas. Num lago ou oceano profundo, um cadáver pode nunca mais regressar à superfície. Não só o frio inibe a decomposição em águas profundas, como a pressão mais forte da água também impede que os gases se expandam e façam os corpos flutuar. Em vez disso, outros processos microbianos assumem o controlo e convertem os tecidos de um corpo afundado num tipo de tecido ceroso, semelhante a sabão, diz Laura. Este tipo de tecido pode persistir durante anos, até séculos, num ambiente de baixo oxigénio.

E foi exatamente isso que Laura observou nos pés que examinou no Mar Salish. Estavam cobertos desta cera, sugerindo que os cadáveres se afundaram e permaneceram debaixo de água enquanto se decompunham. Isto poderia explicar onde estavam os restos dos corpos: afundaram e permaneceram debaixo de água.

Mas porque é que os pés não se mantiveram afundados com os corpos?

Pés a navegar

Para compreender como é que os pés navegaram sem os corpos, precisamos de perceber como é que um corpo humano se decompõe debaixo de água e se os pés têm propensão para se soltar e flutuar para longe. Os cientistas costumam estudar o processo de decomposição de cadáveres humanos em vários locais de investigação forense nos EUA, mas são todos em terra; nenhum se aventurou a atirar um corpo para o oceano.

Mas a nossa investigação não morre na praia. No verão de 2007, a cientista forense Gail Anderson, da Universidade Simon Fraser, estava a conduzir um estudo para o Centro de Investigação da Polícia Canadiana para compreender a rapidez com que uma vítima de homicídio se decompõe no oceano. Como as regras de ética impedem a utilização de um corpo humano, Gail usou o cadáver de um porco. Os porcos costumam ser usados em investigações forenses como substitutos para o corpo humano; são aproximadamente comparáveis em tamanho, e biologicamente também são bastante semelhantes.

“Era como se o menu da cadeia de restaurantes Red Lobster se tivesse erguido para se vingar.”

Melhor ainda, Gail conduziu o seu estudo no Mar Salish, não muito longe de onde o terceiro pé humano seria encontrado seis meses mais tarde. A equipa de Gail atirou o porco morto à água, que se afundou imediatamente 94 metros até ao fundo do mar. O que aconteceu a seguir não foi agradável. A carcaça do porco foi rapidamente devorada por uma imensidão de camarões, lagostas e caranguejos, começando com as “áreas expectáveis, a região do ânus e os orifícios faciais”, relatou Gail. Era como se o menu da cadeia de restaurantes Red Lobster se tivesse erguido para se vingar.

Desde então, Gail atirou mais porcos para profundidades ainda maiores no Estreito da Geórgia, um dos canais principais do Mar Salish, e descobriu que, em alguns casos, os animais necrófagos podiam devorar uma carcaça em menos de quatro dias.

E em relação aos pés? Acontece que os necrófagos subaquáticos, como os crustáceos, trabalham em torno dos ossos e de outros obstáculos difíceis, preferindo comer os tecidos mais macios. E, ao contrário das articulações ósseas que unem as nossas pernas às ancas, os nossos tornozelos são compostos maioritariamente por material macio – ligamentos e outros tecidos conjuntivos. Portanto, um cadáver afundado e calçado no Mar Salish provavelmente será despedaçado pelos animais necrófagos e os seus pés serão separados do resto do corpo em pouco tempo.

Laura Yazedjian diz que todos os pés no Mar Salish pareciam ter sido separados dos seus corpos através de processos naturais, como decomposição ou alimentação de necrófagos. “Por favor, não diga que são ‘pés decepados’”, alerta Laura. Decepado significa que alguém os cortou, e o Serviço de Médicos Legistas nunca encontrou marcas de cortes em nenhum dos ossos que sugerisse isso.

E também é praticamente certo que pés com ténis feitos na última década flutuariam. Não só as bolsas cheias de gás se tornaram comuns nas solas dos ténis (e são visíveis em alguns dos ténis encontrados no Mar Salish), como por volta dessa época as espumas usadas nas solas dos ténis começaram a ser notavelmente mais leves, com mais ar misturado Por outras palavras, tornaram-se flutuantes.

Soprados ao vento

Portanto, agora temos pés com ténis flutuantes que estão prontos para navegar. Mas porquê o Mar Salish? Se é provável que os pés flutuem para longe dos cadáveres, porque é que as praias do mundo inteiro não estão cheias de pés?

O homem que provavelmente sabe mais sobre como e onde é que as coisas vão parar no Mar Salish é Parker MacCready, professor de oceanografia na Universidade de Washington, em Seattle. Parker construiu uma simulação tridimensional em computador do oceano costeiro do Pacífico Noroeste, incluindo o Mar Salish. “É tudo realista”, diz Parker, “ou seja, tem marés, ventos, rios e condições realistas do oceano”. Este simulador chama-se Live Ocean e, enquanto conversamos pelo telefone, ambos assistimos à simulação a correr no seu site: Água de cores vivas espalha-se em torno de um mapa de acordo com o clima e as marés daquele dia.

Parker usa este modelo para prever para onde é que um derrame de petróleo pode viajar ao longo de três dias. Enquanto observamos, manchas negras aparecem perto de Seattle e Tacoma, simulando o hipotético derrame de petróleo, e começam imediatamente a fluir para norte em Puget Sound, navegando em redemoinhos com as cores do arco-íris que representam águas de várias salinidades em movimento. As manchas rapidamente se desfazem em pequenos pontos, separando-se em todas as direções conforme as marés e as correntes as empurram.

O modelo Live Ocean revela uma chave importante para o mistério – por que razão é que tantos pés aparecem nesta região em particular. A resposta? O Mar Salish tem a tempestade perfeita de propriedades para aprisionar pés.

As razões fazem sentido. Primeiro, é um corpo de água interior extraordinariamente grande e complexo, que atua como uma armadilha. De acordo com o modelo de Parker MacCready, assim que alguma coisa entra na água, pode dar à costa em vários lugares, mas ainda está dentro do Mar Salish. Em segundo lugar, os ventos predominantes são de leste, trazendo coisas do oceano, em vez de as empurrar para o mar. Finalmente, há algo que o modelo não mostra, mas que Parker faz questão de referir. Vemos muitas pessoas a usarem ténis nas praias do Pacífico Noroeste, onde muitos optam por caminhar entre pedras escorregadias. Juntos, todos estes fatores – mais as águas profundas e frias e as populações saudáveis de necrófagos – tornam o Mar Salish num íman ideal para pés.

Mas afinal de quem eram os pés no Mar Salish? Os investigadores começaram por procurar relatórios de pessoas desaparecidas. O Serviço de Médicos Legistas já comparou o ADN de cada pé com um banco de dados de mais de 500 pessoas desaparecidas na Colúmbia Britânica, incluindo no novo Programa Nacional de ADN de Pessoas Desaparecidas do Canadá, que foi lançado em 2018.

Através do ADN, a equipa ligou nove pés a sete pessoas desaparecidas. (Para duas destas pessoas, ambos os pés tinham sido encontrados; a maioria estava desaparecida há um ano ou mais.) A pessoa desaparecida há mais tempo tinha desaparecido em 1985; o seu pé estava numa bota de caminhada e foi encontrado em 2011. No caso mais recente, o pé de um jovem que desapareceu em 2016 foi documentado como tendo dado à costa numa ilha de Puget Sound em 2019.

O Serviço de Médicos Legistas da Colúmbia Britânica informa que nenhum dos casos canadianos foi até agora identificado como resultado de um homicídio. Em alguns casos, ficou claro que a pessoa tinha morrido por acidente ou suicídio, como no caso de uma mulher que saltou de uma ponte. Noutras situações, as circunstâncias são menos evidentes. No caso de um jovem cujo pé foi encontrado em Puget Sound em 2019, a polícia dos EUA disse que não podia descartar homicídio ou suicídio. E para os casos em que as pessoas desapareceram sem testemunhas, é quase impossível determinar a causa da morte a partir de apenas um pé.

Neste momento, cinco dos pés na Colúmbia Britânica permanecem por identificar.

Algumas pessoas irão sem dúvida ficar desapontadas quando souberem que um assassino em série não está a percorrer as costas rochosas do Pacífico Noroeste. Embora O Mistério dos Pés Flutuantes seja um ótimo título, provavelmente não se irá tornar num documentário original da Netflix – sobretudo depois de os produtores descobrirem que a maioria das filmagens apresentaria caranguejos a arrastarem entranhas de porco pelo fundo do oceano, em vez de imagens prolongadas de uma série de fotografias do assassino quando este frequentava a escola secundária.

É essa a diferença entre os fãs de sofá de CSI e os verdadeiros cientistas forenses: um cientista quer saber a resposta correta, mesmo que seja mundana. Mas se pensarmos sobre isto, é realmente muito interessante que a natureza nos dê pistas sobre coisas que, de outra forma, seriam apenas casos por encerrar. Mesmo passados vários anos, uma pessoa desaparecida pode ser encontrada e a sua morte investigada, e tudo graças a uma combinação peculiar entre fisiologia do pé, comportamento de necrófagos e tecnologia de calçado.

Por vezes, estas pistas inesperadas levam-nos a lugares que nunca tínhamos equacionado, mas é necessário ter disposição, paciência e coragem suficiente para as seguir. E por vezes estas pistas também usam ténis.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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