Fósseis de primatas de valor incalculável encontrados em lixeira

À medida que o aterro de Can Mata se expande na Catalunha, os paleontólogos estão a encontrar ossos de espécies antigas que são precursoras dos macacos – e dos humanos.

Publicado 4/03/2021, 12:25
Abocador de Can Mata

ATERRO DE CAN MATA
O aterro de Can Mata é um dos maiores aterros sanitários de Espanha. Desde 2002, uma equipa de paleontólogos do Instituto Catalão de Paleontologia Miquel Crusafont (ICP), em Barcelona, encontrou cerca de 70.000 fósseis de um período em que o clima neotropical da região se estava a tornar mais árido.

Fotografia de Paolo Verzone, National Geographic

BARCELONA, ESPANHA – Há poucos lugares menos acolhedores do que uma lixeira numa noite gelada. Mas era aí que o paleontólogo Josep Robles se encontrava em dezembro de 2019, à procura de pistas sobre a história evolutiva humana.

Durante grande parte dos meses anteriores, Josep tinha passado várias noites por semana no Aterro de Can Mata, o maior aterro sanitário da região da Catalunha, em Espanha. Durante sete dias por semana, 24 horas por dia, as escavadoras cravavam as suas garras de metal na terra para criar apressadamente outro poço profundo para conter o lixo de Barcelona e regiões circundantes. Josep Robles era um de três paleontólogos em rotação que estava atento às toneladas de terra amarelada deslocada pelas escavadoras.

Durante o dia, o aroma enjoativo a podre atraía bandos de gaivotas; a poeira, macia e fina como açúcar em pó, erguia-se em pequenas nuvens. À noite, Josep vestia roupas quentes e usava uma lanterna no capacete. Sempre que avistava uma massa com potencial, Josep acenava ao operador da escavadora para parar e investigava o objeto mais de perto. Se o objeto parecesse promissor, Josep cobria-o com papel de alumínio para assinalar um local de escavação, que começava assim que o sol nascesse. Depois, Josep recuava, dava autorização para as escavações continuarem, e o rugido mecânico da máquina recomeçava.

O solo em Can Mata contém uma enorme variedade de fósseis que abrangem mais de um milhão e meio de anos do Mioceno médio, entre há cerca de 12.5 milhões e 11 milhões de anos. Desde 2002, Josep e outros paleontólogos do Instituto Catalão de Paleontologia Miquel Crusafont (ICP), localizado na Universidade Autónoma de Barcelona, encontraram mais de 70.000 fósseis desse período, quando o clima neotropical da região se estava a tornar mais árido. A reconstrução da evolução ambiental deste local pode oferecer um novo entendimento sobre as alterações climáticas atualmente verificadas na região.

Entre os achados mais importantes estão os fósseis de espécies de primatas que nunca foram encontrados noutro lugar. São antepassados hominóides – os precursores de macacos como o gibão e o siamango, e dos grandes símios, incluindo orangotangos, gorilas, chimpanzés e os humanos. Estes ossos raros estão a ajudar a revelar um período profundo do nosso passado que, de muitas formas, permanece misterioso.

Mas embora os paleontólogos percebam o potencial do aterro, os habitantes locais já estão fartos de Can Mata – fartos do odor forte, da procissão interminável de camiões do lixo e da sua expansão contínua. Os municípios nas proximidades formaram comissões de acompanhamento e apresentaram queixas. No outono de 2019, enquanto Josep e os seus colegas monitorizavam as escavações, centenas de manifestantes reuniram-se à entrada do aterro com cartazes em catalão. Prou pudors. Tanquem l’abocador. Volem respirar en pau. “Chega de mau cheiro. Fechem o aterro. Queremos respirar em paz.”

A expansão do aterro está parada desde dezembro de 2020, mas a empresa de gestão de resíduos pretende retomar as escavações na primavera de 2021. Ainda não se sabe se o aterro vai acabar por encerrar. Se for encerrado, os paleontólogos também não o podem visitar – só têm permissão para aceder ao local quando o aterro está em expansão.

“Se eles pararem de escavar, não podemos continuar a monitorizar as atividades de escavação”, diz David Alba, diretor do ICP. “Embora pudéssemos continuar a prospetar a área de vez em quando, nunca recuperaríamos tantos fósseis como acontece quando eles estão a abrir poços para o lixo. Eu compreendo que ninguém gosta de ter uma lixeira por perto, mas do ponto de vista do património paleontológico, esta lixeira está a dar um enorme contributo para a ciência.”

De lixeira a mina de ouro

Localizada a cerca de 50 quilómetros a norte de Barcelona, a região de Can Mata surgiu no mapa fóssil no início da década de 1940, quando Miquel Crusafont, que dá nome ao ICP, descobriu no local o maxilar e os dentes de um grande símio da época do Mioceno. As descobertas subsequentes ajudaram a estabelecer Can Mata enquanto sítio paleontológico documentado – e, mais tarde, local protegido. Apesar deste estatuto, o local também opera legalmente como aterro sanitário desde meados da década de 1980. (Os habitantes começaram a usá-lo como lixeira informal na década de 1970).

No início dos anos 2000, quando a Cespa Waste Management, operadora do local, queria escavar novos lotes de retenção de lixo com pelo menos 50 metros de profundidade, a empresa foi obrigada pela Lei do Património Histórico de Espanha a garantir que as suas máquinas não destruíam fósseis ou os enterravam debaixo de montes de lixo. A Cespa Waste Management contratou paleontólogos do ICP para supervisionar as escavações, e os cientistas aproveitaram a oportunidade para aceder às profundezas do local.

“Do ponto de vista do património paleontológico, a lixeira está a dar um enorme contributo para a ciência.”

por DAVID ALBA, INSTITUTO CATALÃO DE PALEONTOLOGIA MIQUEL CRUSAFONT

Em 2002, os paleontólogos do ICP Isaac Casanovas-Vilar, Jordi Galindo e David Alba – que na altura era aluno de doutoramento – começaram a monitorizar as escavações em Can Mata. Após três semanas de trabalho, desenterraram o dente de um Deinotheriidae, um enorme parente dos elefantes com presas viradas para baixo. Depois de investigarem o local mais de perto, os investigadores também encontraram um fragmento de um osso de um dedo.

“Eu fiquei do género, isto parece de um primata”, recorda David.

David correu para o seu carro para ir buscar um molde da mão do extinto macaco Hispanopithecus, que tinha sido descoberta num vale próximo. Os paleontólogos comparam ambos, mas ainda não sabiam ao certo o que tinham encontrado. Depois, encontraram três fragmentos de um dente canino, que David colou, e uma série de fragmentos de ossos frágeis e minúsculos espalhados perto de um bloco de sedimentos. De câmara na mão, David deitou-se no chão para ver melhor a parte de baixo do bloco.

E ficou em choque quando se deparou com um rosto antigo.

“Nós os três, muito nervosos – mal conseguíamos falar – virámos o bloco ao contrário”, diz David. “E lá estava o rosto de um Pierolapithecus a olhar para nós. Foi um dos maiores momentos da minha vida.”

Pierolapithecus catalaunicus, apelidado de Pau, é o que a equipa iria eventualmente chamar a esta nova espécie de grande símio. Com cerca de 12 milhões de anos, é um dos esqueletos mais completos de primatas do Mioceno alguma vez encontrados. Este fóssil transformou a lixeira de Can Mata numa mina de ouro.

Pandas-gigantes e esquilos-voadores

Nos 13 anos em que os paleontólogos do ICP trabalharam ativamente no local, foram descobertas mais de 75 espécies de mamíferos, incluindo cavalos, rinocerontes, veados, proboscídeos (parentes dos elefantes), um antepassado dos pandas-gigantes e o esquilo-voador mais antigo do mundo. Também há uma enorme variedade de roedores, aves, anfíbios e répteis. Até agora, os paleontólogos documentaram mais de 70.000 fósseis em 260 zonas.

Uma das descobertas recentes é um Chalicotherium, um ungulado alto que parece uma mistura bizarra entre preguiça-gigante, cavalo, urso e gorila. Outra das descobertas é um felino dentes-de-sabre falso, assim chamado porque não é verdadeiramente um felino, a família de animais que inclui tigres e leões; pertencia a uma família de carnívoros que divergiu dos antepassados dos felinos há talvez 40 milhões de anos. Este animal morreu jovem, dado que os seus dentes de adulto estavam apenas a começar a empurrar os dentes de leite para fora.

Factos sobre Fósseis
Os fósseis são ecos de um passado antigo. Descubra as duas principais categorias de fósseis, como ocorre a fossilização e como os fósseis podem ajudar a pintar um quadro da história do planeta.

Estes fósseis remontam a uma importante época de transição entre o período médio e final do Mioceno, quando as florestas subtropicais da região estavam a tornar-se mais áridas e as pastagens começavam a dominar pela primeira vez. Os cientistas estão a usar estas descobertas para reconstruir as alterações ambientais de Can Mata ao longo de cerca de um milhão de anos, em fatias temporais de 100.000 anos. Esta resolução é possível porque Can Mata possui um longo e contínuo registo geológico. “Tem várias centenas de metros de sedimentos, todos com fósseis”, diz Isaac Casanovas-Vilar.

Um dos métodos simples de análise envolve a contagem da abundância de animais ao longo do tempo. Outro dos métodos passa pela observação dos isótopos de carbono e oxigénio encontrados nos fósseis. O carbono indica o que os animais comeram, incluindo os carnívoros, que retêm o carbono da alimentação das suas presas. O oxigénio mostra o que beberam ou, para os animais mais pequenos, o que havia na água que absorveram ao comer plantas. Ambos os elementos também ajudam a reconstruir as antigas temperaturas e níveis de precipitação em Can Mata.

Embora este trabalho esteja apenas a começar, os investigadores esperam conseguir revelar o impacto local das alterações climáticas globais – tanto no passado como no presente.

“Com esta resolução, conseguimos dizer se as perturbações climáticas começaram antes de o ecossistema começar a mudar ou a falhar”, diz Isaac. “Os ecossistemas conseguem tolerar mudanças durante algum tempo, mas durante quanto tempo? Essa é uma questão que iremos tentar responder para este ambiente e época em particular... algo que pode ter implicações para as atuais alterações climáticas, conservação de espécies e políticas de conservação.”

À procura das nossas origens

As revelações mais promissoras vêm indiscutivelmente dos inúmeros fósseis de primatas encontrados no local. Cada nova pista fóssil ajuda-nos a desvendar alguns dos mistérios mais profundos sobre a nossa espécie: O que somos? De onde viemos? E quando é que nós começamos a ser?

“Compreender a origem e evolução dos grandes símios é importante para perceber como é que os hominídeos evoluíram”, diz David Alba. Os hominídeos são um táxon que surgiu depois de os humanos se separarem dos chimpanzés, há cerca de seis ou sete milhões de anos. “Os símios não apareceram do nada. Portanto, precisamos de descobrir de onde evoluíram.”

No Mioceno médio, havia dezenas de hominóides, os precursores dos macacos, e viviam principalmente em África. Mas há cerca de 12.5 milhões de anos, também surgiram na Ásia e, em menor número, na Europa.

Foi por isso que a equipa em Can Mata ficou entusiasmada quando encontrou um novo hominóide em 2004, ao qual chamaram Anoiapithecus brevirostris, datado de há cerca de 12 milhões de anos.

Enquanto que a maioria dos rostos de primatas são salientes, o rosto deste fóssil macho, apelidado de Lluc (“aquele que ilumina”), era curiosamente plano – era tão plano que parecia mais semelhante aos rostos do nosso próprio género, o Homo. Os investigadores propuseram que era o resultado de evolução convergente, onde características semelhantes evoluem em organismos não relacionados ou remotamente relacionados.

Depois, em 2011, surgiu o fóssil de uma fêmea Pliobates cataloniae, apelidada de Laia. Esta espécie recém-descoberta viveu há cerca de 11.6 milhões de anos – cerca de meio milhão de anos depois de Pau. Embora fosse pequena, pesando quase o mesmo que um gato doméstico, Laia surpreendeu os paleontólogos com as suas características de grande símio.

“Can Mata permitiu-nos mostrar que os primatas naquele período eram muito mais diversos do que se pensava”, diz David. Essa diversidade foi reforçada pelas recentes descobertas de hominóides noutras partes da Europa, incluindo um Danuvius guggenmosi com 11.6 milhões de anos descoberto na Alemanha em 2015 e a pélvis de um Rudapithecus hungaricus com 10 milhões de anos (espécie descoberta na Hungria em 1967).

“Can Mata é uma das regiões-chave da Europa”, diz a paleontóloga Madelaine Böhme, da Universidade de Tübingen, que liderou a equipa que descobriu os fósseis na Alemanha. “Era a única área-chave antes de o Danuvius guggenmosi ser descoberto.”

Últimos antepassados comuns

Curiosamente, alguns dos fósseis de primatas encontrados em Can Mata mostram evidências muito precoces de uma característica que é única entre os macacos: uma zona vertical do corpo sobre a qual um animal segura o seu torso verticalmente.

“Isto não deve ser confundido com bípede”, salienta David. “Algumas pessoas usam a palavra vertical para indicar bípede. Isso está completamente errado.” Em vez disso, esta parte do corpo permite uma escalada vertical, a suspensão em ramos de árvores, balançar de árvore em árvore e, por vezes, caminhar sobre dois pés. Embora alguns destes comportamentos tenham evoluído várias vezes de forma independente, este plano corporal pode ter evoluído apenas uma, ou talvez duas vezes.

É isso que torna o Pierolapithecus, o rosto descoberto em 2002, tão importante, diz David. “É o primeiro fóssil que mostra inequivocamente um plano corporal vertical. É a indicação mais antiga de que este plano corporal já tinha evoluído há 12 milhões de anos.”

Como este plano corporal é exclusivo dos símios, e o Pierolapithecus é o seu exemplo mais antigo, o último antepassado comum de todos os hominídeos pode ter tido uma postura vertical, diz David. Assim sendo, isso podia oferecer uma pista sobre o que conferiu a determinados primatas uma vantagem evolutiva. Contudo, o “último antepassado comum” é uma figura que continua a escapar à paleoantropologia. Já foram especuladas muitas teorias, incluindo teorias que incluíam o fóssil de Danuvius encontrado na Alemanha e um bebé primata com 13 milhões de anos encontrado no Quénia em 2014.

“Os antepassados são sempre hipotéticos, ou seja, através do uso de métodos de reconstrução filogenética é muito difícil conseguir mostrar que uma determinada espécie fóssil em particular era realmente um antepassado”, diz David. “O que importa aqui não é qual é o primeiro membro deste grupo, mas qual está mais próximo do último antepassado comum antes da separação [dos grandes símios].”

A grande questão agora é saber se as escavações irão continuar nas próximas décadas, considerando os atuais protestos contra a expansão do aterro.

De qualquer forma, os cientistas ainda têm muito trabalho pela frente para analisar os fósseis que já desenterraram. Só cerca 20% dos seus achados foram preparados, limpos de sedimentos e preservados quimicamente. Graças ao pessoal adicional, o ritmo de preparação acelerou no ano passado, pelo que novas descobertas podem estar num horizonte próximo. Outros milhares de fósseis estão encapsulados em papel e película de plástico em depósitos subterrâneos arrefecidos. Todos os pacotes, numerados e etiquetados, aguardam que um investigador curioso os desembrulhe. Alguns estão à espera há quase 20 anos.

“Isto é algo para as próximas três ou quatro gerações de paleontólogos”, diz David. “Tenho a certeza de que existem fósseis interessantes escondidos aqui.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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