Fóssil semelhante a tubarão com ‘asas’ de raia é diferente de tudo encontrado até agora

Com a descoberta deste fóssil com 95 milhões de anos, os paleontólogos questionam se outros tubarões antigos também poderiam ter formas corporais peculiares.

Publicado 29/03/2021, 16:21 WEST
Aquilolamna milarcae

Uma espécie marinha recém-descrita, descoberta em camadas rochosas com 95 milhões de anos em Vallecillo, no México, assemelha-se a um tubarão com barbatanas largas para deslizar na água como se fosse uma raia-manta.

Fotografia de OSCAR SANISIDRO (ILUSTRAÇÃO)

A ideia de um tubarão com características semelhantes às da uma raia-manta pode parecer algo adequado para um filme de ficção científica de baixo orçamento. No entanto, os paleontólogos relataram a descoberta de tal criatura em rochas do período Cretáceo no México. Este estranho tubarão combina um corpo aerodinâmico com barbatanas em forma de asas expansivas, uma criatura antiga diferente de tudo o que foi encontrado até agora no registo fóssil.

Em 2012, um trabalhador de uma pedreira encontrou um estranho conjunto de ossos em camadas rochosas com 95 milhões de anos perto de Vallecillo, no México, diz Romain Vullo, paleontólogo do Museu Estadual de Karlsruhe, na Alemanha. O fóssil chamou a atenção de Margarito González González, paleontólogo local que recolheu e preparou o esqueleto preservado. As fotografias deste tubarão começaram a gerar debates nas conferências de paleontologia, e o espécime foi descrito num estudo publicado no dia 19 de março na revista Science.

Com a designação de Aquilolamna milarcae, este fóssil com quase dois metros de comprimento representa um tipo de tubarão que se alimentava através de filtragem, e que era diferente de qualquer outro espécime conhecido anteriormente. “A minha primeira reação ao ver o fóssil foi pensar que esta morfologia única era completamente nova e desconhecida entre os tubarões”, diz Romain Vullo, autor principal do novo estudo. Na maioria das vezes, os tubarões fósseis são identificados pelos dentes e por um pedaço ocasional de coluna vertebral. Encontrar um esqueleto completo, e tão estranho, representa uma oportunidade rara para estudar a anatomia deste animal antigo.

Este fóssil de uma criatura marinha do período Cretáceo é um dos exemplos mais antigos de um animal que se movia através de “voo subaquático”, como acontece com as modernas raias-manta.

Fotografia de Wolfgang Stinnesbeck

Apesar de não terem sido encontrados dentes no fóssil de Aquilolamna, Romain e os seus colegas propõem que o animal pertence à mesma família dos tubarões, que inclui tubarões-brancos, anequim e frade. A cabeça larga e as barbatanas longas em forma de asa sugerem que não era um caçador. O Aquilolamna provavelmente alimentava-se através de filtragem, abrindo a boca para peneirar plâncton e outros pequenos organismos na água.

Curiosidade pré-histórica

O Aquilolamna parece combinar características de tubarões e raias-manta, sendo que estas últimas só evoluíram milhões de anos mais tarde. O seu corpo é longo e semelhante a um tubo, parecido com o de muitos tubarões que cruzam atualmente os oceanos. Mas as suas barbatanas peitorais expandidas são uma reminiscência de raias-manta, formando largas asas subaquáticas.

Isto pode fazer do Aquilolamna um dos animais mais antigos de que há conhecimento a mover-se através de “voo subaquático”, batendo lentamente as suas barbatanas como as raias-manta o fazem hoje em dia. “O Aquilolamna pode ter nadado relativamente devagar com ligeiros movimentos da sua barbatana caudal, enquanto que as suas longas barbatanas peitorais atuavam maioritariamente como estabilizadores”, diz Romain.

Este tipo de plano corporal é completamente inesperado para os tubarões, diz Kenshu Shimada, professor de paleobiologia na Universidade DePaul, em Chicago. Os tubarões mais antigos, antes da época dos dinossauros, tinham uma enorme variedade de formas corporais, mas acredita-se que, no período Cretáceo, já tinham evoluído para formas de aparência muito mais moderna.

O Aquilolamna pode ser evidência de que uma enorme e estranha variedade de tubarões continuou a existir durante muito mais tempo do que se pensava. “A forma do corpo e o estilo de vida com uma alimentação por filtragem propostos no novo estudo são bastante convincentes”, diz Kenshu Shimada.

Tubarão, ou algo completamente diferente?

Mas nem todos os especialistas estão convencidos de que esta nova criatura era um tubarão que se parecia com uma raia. “Existem muitas características invulgares descritas pelos autores, e tenho reservas sobre algumas das suas interpretações, pelo que gostaria de ver mais investigações sobre este novo e notável fóssil”, diz Allison Bronson, paleontóloga da Universidade Estadual Humboldt da Califórnia.

Embora o novo estudo mencione algumas impressões da pele do Aquilolamna, não as mostra com detalhes suficientes para que especialistas externos determinem se o tecido é realmente pele fossilizada ou outro material que se assemelhe a pele, como uma esteira bacteriana. E apesar de este peixe provavelmente se ter alimentado de plâncton ou de outros pequenos organismos na coluna de água, também podia ter dentes minúsculos e pontiagudos, semelhantes aos dos tubarões modernos que se alimentam através de filtragem, como o tubarão-frade ou o tubarão-boca-grande. Os dentes podiam ser usados para determinar as relações evolutivas entre estes tubarões, mas não foram encontrados quaisquer dentes no novo fóssil.

“É realmente lamentável que não tenham sido preservados dentes no espécime, porque podiam ter permitido aos investigadores determinar a afinidade taxonómica exata do novo tubarão”, diz Kenshu Shimada.

A ideia de que este animal era um tubarão e que se alimentava através de filtragem provavelmente precisa de confirmação com futuras descobertas e análises adicionais. Se esta interpretação estiver correta, o Aquilolamna já navegava pelos mares à procura de plâncton muito antes dos seus parentes modernos evoluírem para fazer o mesmo. Talvez este tubarão represente uma forma particular de alimentação por filtragem que evoluiu antes da extinção em massa no final do período Cretáceo, que matou cerca de 75% de todas as espécies marinhas. Outros animais que se alimentam através de filtragem, incluindo os antepassados do tubarão-boca-grande, tubarão-baleia e tubarão-frade, evoluíram depois de os oceanos mundiais terem recuperado.

Se o Aquilolamna era de facto um parente estranho do tubarão-frade, provavelmente existiam tubarões ainda mais estranhos ou criaturas marinhas que os paleontólogos ainda não descobriram. “O registo fóssil de tubarões e raias é bom em termos de períodos cobertos”, diz Romain Vullo, “mas a forma do corpo de muitas espécies extintas permanece enigmática”. Talvez alguns dentes que os paleontólogos já encontraram pertencessem a animais com formas bizarras.

O famoso tubarão gigante Otodus megalodon só foi descrito a partir de dentes e vértebras – megalodon significa “dente grande” em grego – levando a variadas interpretações sobre a aparência desse animal. Os fósseis excepcionais, como o do Aquilolamna, sugerem que muitos tubarões podem ter sido ainda mais estranhos do que os cientistas pensam.

“Quando tivermos a oportunidade de descobrir esqueletos completos em localidades como Vellecillo”, diz Romain, “poderemos vir a ter algumas surpresas”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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