Meteorito recém-descoberto pode ajudar a desvendar os segredos do sistema solar

Esta rocha espacial incrivelmente rara foi recuperada no Reino Unido e pode ajudar os cientistas a responder a questões sobre como a Terra obteve a sua água, e talvez até fornecer pistas sobre como a vida começou no nosso planeta.

Publicado 15/03/2021, 12:07 WET
pedaço do meteorito

Um pedaço do meteorito recuperado recentemente numa garagem em Winchcombe, Inglaterra. Este meteorito é um tipo raro e antigo conhecido por condrito carbonáceo, e a sua composição pode ajudar os cientistas a reconstruir os primórdios do sistema solar.

Fotografia de curadores do Museu de História Natural de Londres

Na noite de 28 de fevereiro, um fragmento rochoso caiu do céu e iluminou a atmosfera por cima de Inglaterra. A impressionante bola de fogo foi captada por uma rede internacional de câmaras de rastreio de meteoritos, e foram enviados cientistas para a pacata cidade de Winchcombe. Um pedaço do meteorito foi encontrado numa garagem, enquanto que outro foi descoberto num campo repleto de excrementos de ovelhas.

Até agora foram encontrados cerca de 500 gramas de rocha espacial que foram prontamente entregues a algumas instituições científicas – principalmente o Museu de História Natural de Londres – para uma análise preliminar. O transporte rápido das amostras para os laboratórios foi crucial para garantir que o ambiente da Terra não alterava significativamente a química destes materiais espaciais quase imaculados.

O meteorito – o primeiro encontrado no Reino Unido em 30 anos – é um tipo bastante raro conhecido por condrito carbonáceo. Estes fragmentos antigos contêm não só os blocos de construção dos planetas, mas também compostos que podem ajudar a explicar como é que a Terra obteve a sua água ou até mesmo fornecer pistas sobre como a própria vida começou.

“Este é o tipo de meteorito mágico pelo qual muitas pessoas ficam completamente fascinadas”, diz Katherine Joy, especialista em meteoritos da Universidade de Manchester.

Contudo, à primeira vista, a química, minerais e textura do meteorito não parecem pertencer a um tipo de condrito carbonáceo. Cada um dos fragmentos estudados até agora parece ser um pouco diferente dos outros.

“Será que é um novo tipo de meteorito ou uma nova classe de meteorito, algo que nunca vimos antes?” pergunta Luke Daly, especialista em meteoritos da Universidade de Glasgow. É uma possibilidade intrigante, mas são necessárias mais investigações para se descobrir.

O trabalho científico sobre o que provavelmente ficará conhecido como meteorito de Winchcombe está apenas no início. Mas a raridade do meteorito, juntamente com a rapidez com que foi recuperado, fez com que a comunidade de meteoritos rejubilasse.

“Ficámos completamente loucos”, diz Sara Russell, cientista planetária do Museu de História Natural de Londres. “Eu diria até que, para o nosso departamento de meteoritos, é a aquisição mais importante de todos os tempos.”

Cápsulas temporais dos céus

A Terra é constantemente bombardeada com meteoritos, mas a maioria não é grande o suficiente para se evidenciar em forma de bola de fogo. Mas mesmo quando isso acontece, muitos caem nos oceanos. A grande maioria dos meteoritos recolhidos são encontrados em desertos, particularmente no deserto gelado da Antártida, uma enorme extensão onde fluxos de gelo semelhantes a correias transportadoras depositam detritos espaciais em áreas específicas, e os tons esbranquiçados do continente permitem que os meteoritos negros se destaquem facilmente.

O Reino Unido é pequeno, pelo que os meteoritos não atingem as suas ilhas com muita frequência, e mesmo quando isso acontece, a região está cheia de cidades e vegetação, dificultando a descoberta de meteoritos. Mas, ocasionalmente, as rochas espaciais caem mesmo à frente das pessoas. Na véspera de Natal de 1964, um meteorito “ricocheteou numa garagem, entrou pela janela de uma pessoa e aterrou debaixo da sua árvore de Natal”, diz Matthew Genge, especialista em meteoritos do Imperial College de Londres.

Nos últimos anos, os caçadores de meteoritos no Reino Unido melhoraram as suas probabilidades com a instalação de câmaras projetadas para detetar bolas de fogo, e que são usadas para descobrir onde é que os fragmentos caem. Na última década, seis redes diferentes de câmaras, operadas por investigadores amadores e profissionais, foram integradas no grupo U.K. Fireball Alliance.

“Estas câmaras estão sempre apontadas para o céu, sempre a gravar, à procura de quaisquer clarões ou objetos notáveis que cruzem o céu”, diz Jim Rowe, o organizador do grupo. Durante a pandemia, Jim escreveu um código de programação que garante que as redes individuais conseguem comunicar umas com as outras para rastrear qualquer objeto que caia do céu.

Este sistema já captou bolas de fogo ocasionais nos últimos cinco anos, mas os locais de impacto não eram convenientes para a recolha. “Há alguns anos, houve uma bola de fogo que lançou um meteorito diretamente no Mar do Norte”, diz Luke Daly, “mas se tivesse caído no Reino Unido, no norte da Europa ou na Noruega, podia ter sido recuperado”.

Bem-vindo a Winchcombe

No final de fevereiro, após anos de observação e espera, uma bola de fogo foi captada durante seis segundos a lançar fragmentos de meteorito em Gloucestershire, um condado no sudoeste de Inglaterra. A trajetória foi imediatamente analisada por uma equipa de investigadores internacionais que colaboram com a U.K. Fireball Alliance. A zona provável de impacto foi determinada e especialistas de toda a Inglaterra deslocaram-se para a cidade de Winchcombe e  arredores.

Depois de alguns dias a procurar, os cientistas notificaram a imprensa local e pediram ao público para os ajudar a encontrar qualquer fragmento de rocha de aparência estranha. Pessoas de todo o país enviaram aos especialistas inúmeras fotografias de possíveis fragmentos.

Uma família encontrou fragmentos de rocha negra e salpicos semelhantes a fuligem na sua garagem. Depois de ouvirem falar sobre uma bola de fogo, rapidamente descobriram que os destroços pertenciam a um meteorito e contactaram a Rede de Observação de Meteoros do Reino Unido. Apenas 12 horas após o impacto, um enorme pedaço do meteorito já tinha sido embalado e estava pronto para ser recolhido pelos especialistas.

“Que coisa mais generosa, reconhecer a importância que isto tem para a ciência e querer contribuir para isso”, diz Katherine Joy.

Luke Daly e a sua namorada, Mira Ihasz, juntaram-se a um grupo que procurava num campo nas proximidades e que estava coberto com excrementos de ovelha. À medida que uma rocha atravessa a atmosfera da Terra, o material derrete e depois endurece com uma crosta negra, e os tons escuros dos excrementos de ovelha são infelizmente muito semelhantes aos da crosta queimada dos meteoritos.

“Mais um excremento promissor, como os chamávamos”, diz Luke. Mas depois de cinco dias de buscas, Mira tropeçou numa peça genuína.

Este pedaço foi encontrado a 400 metros de onde os modelos previam que os fragmentos podiam ter caído – um grau notável de precisão, mas não preciso o suficiente para os modeladores que, de acordo com Luke, expressaram alguma desilusão por a sua previsão não ter sido mais exata.

‘Uma bola de lama dos primórdios’

Os trabalhos preliminares determinam que o meteorito é um condrito carbonáceo: objetos rochosos tão antigos quanto o próprio sistema solar e que têm este nome devido às suas composições ricas em carbono. Estas rochas espaciais são raras. Entre os 65.209 meteoritos catalogados, apenas 2.639 são condritos carbonáceos.

As origens exatas da maioria dos meteoritos permanecem um mistério. Mas, graças à trajetória bem documentada do meteorito de Winchcombe em direção à Terra, a sua origem foi rastreada até à orla externa do cinturão de asteroides, entre Marte e Júpiter.

“Saber de onde é que isto veio, e o que é, é muito especial”, diz Katherine Joy. Este tipo de conhecimento faz com que seja mais fácil descobrir qual era o tipo de asteroide de onde o meteorito se separou e também ajuda os cientistas a compreender melhor as perturbações no espaço que podem enviar rochas na nossa direção.

Embora o meteorito de Winchcombe revele características de vários tipos de condritos carbonáceos, o que significa que pode ser uma coisa completamente nova, a análise química preliminar identificou-o como sendo do tipo-CM. Estes meteoritos contêm (entre outras coisas) minerais abundantes com água.

“É uma bola de lama dos primórdios”, diz Matthew Genge, do Imperial College de Londres. Só foram encontrados 652 meteoritos destes.

Em comparação com a maioria dos outros tipos de meteoritos, os condritos CM são incrivelmente delicados, diz Luke Daly. “Os seus minerais degradam-se rapidamente na atmosfera húmida da Terra, portanto, se ficarem expostos aos elementos durante muito tempo, transformam-se em pó.”

“O facto de ser tão frágil e delicado, e o facto de ter sido recolhido tão depressa foi crítico”, diz Katherine. “Este meteorito foi embalado e devolvido ao museu dentro de 36 a 48 horas depois de cair, algo que não acontece com muita frequência.” A sua rápida recuperação significa que os ingredientes foram preservados quase na perfeição – e têm muito para revelar sobre os primórdios do sistema solar e sobre o planeta exuberante onde vivemos hoje.

Segredos da Terra e do espaço

Um dos segredos escondidos em rochas como o meteorito de Winchcombe tem que ver com a forma como a Terra obteve tamanha quantidade de água. O impacto gigante com o nosso planeta que levou à formação da lua, há cerca de 4.5 mil milhões de anos, provavelmente retirou grande parte da água da Terra primitiva.

Saber se a água de superfície que temos hoje veio principalmente do interior do planeta e escapou através de erupções vulcânicas, ou se foi fornecida principalmente por asteroides com água, é uma questão em aberto. “Ao estudar os minerais hidratados nos condritos carbonáceos, podemos descobrir qual foi o processo que encheu os oceanos do nosso mundo moderno”, diz Sara Russell.

Os condritos CM também contêm geralmente muitas moléculas orgânicas diferentes, incluindo aminoácidos e açúcares, e espera-se que este meteorito não seja diferente. Os asteroides que bombardearam a Terra primitiva podem ter trazido consigo essa matéria orgânica, talvez depositando os materiais necessários para a formação dos primeiros organismos vivos.

“Essa química orgânica pode muito bem ter acelerado as origens da vida na Terra”, diz Matthew.

Os meteoritos também nos podem informar sobre o tempo antes da formação da Terra. O meteorito de Winchcombe contém características conhecidas por inclusões ricas em cálcio e alumínio, ou CAIs. “São os sólidos mais antigos do sistema solar, o que, como é óbvio, é uma coisa incrivelmente impressionante”, diz Katherine.

A química dos CAIs sugere que todos se formaram à mesma hora e no mesmo local, há 4.56 mil milhões de anos, mesmo ao lado do sol, antes de se transformarem num material rochoso que se aglomerou nos recessos gelados do sistema solar externo. A jornada dramática deste material não é fácil de explicar, mas reunir mais CAIs vai ajudar a desvendar como é que a matéria se movia e misturava à medida que os planetas se formavam e o sistema solar evoluía para a sua forma atual.

Os condritos CM também costumam conter substâncias como grafite e grãos de diamante que são notavelmente mais antigos do que o próprio sistema solar. A sua química é tão distinta de qualquer outra coisa encontrada no nosso sistema solar que os cientistas acreditam que vieram da atmosfera de estrelas gigantes ou se formaram em explosões de supernovas antes de acabarem na nossa vizinhança cósmica ainda em formação.

“Estes grãos foram soprados para o universo, flutuaram durante centenas de milhões de anos e colapsaram sobre si para formar o nosso sistema solar”, diz Matthew. Embora esses tesouros primordiais ainda não tenham sido identificados no meteorito de Winchcombe, os cientistas esperam que, tal como acontece com outros condritos CM, este meteorito contenha grãos mais antigos do que o sistema solar.

Portanto, o meteorito de Winchcombe pode conter não só pistas sobre a história da nossa vizinhança em torno do sol, mas também dos fantasmas de outros sistemas planetários perdidos no tempo – e o esforço internacional para descodificar os seus inúmeros segredos está apenas no início.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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