Os parasitas estão a ficar extintos. Descubra porque temos de os salvar.

“São repugnantes, viscosos, flácidos e ondulantes.” Mas os parasitas podem ser tão importantes quanto os animais mais carismáticos – e muitos podem estar prestes a desaparecer.

Publicado 21/04/2021, 13:46
parasitas

As larvas do verme-crina-de-cavalo infiltram-se nos grilos e crescem no seu interior. Estes vermes precisam de água para acasalar, por isso influenciam os grilos para saltarem para dentro de riachos, onde se tornam numa importante fonte de alimento para os peixes.

Fotografia de Anand Varma, Nat Geo Image Collection

Quando era criança, Chelsea Wood sonhava em ser bióloga marinha e queria estudar tubarões ou golfinhos – os tipos de animais que os biólogos chamam megafauna carismática. Em vez disso, durante um estágio na faculdade, Chelsea deu por si a examinar as entranhas de um caracol marinho ao microscópio.

O caracol pertencia a uma espécie que ela conhecia bem. Na sua infância, Chelsea costumava apanhar moluscos Littorina littorea nas rochas ao longo da costa de Long Island e colocava-os em baldes para os ver rastejar. Mas Chelsea nunca tinha visto o interior de um destes caracóis. Foi então que ela abriu um caracol, retirou as suas partes moles e, com um olhar mais aproximado, viu “milhares de pequenas coisas brancas em forma de salsicha a sair do corpo do caracol”, diz Chelsea.

O verme trematode Ribeiroia tem sido associado a deformações de membros em sapos, como nesta rã-touro-americana. Este verme parasita vive em vários tipos de hospedeiros animais durante o seu ciclo de vida, incluindo em girinos de rãs.

Fotografia de Anand Varma, Nat Geo Image Collection

As “salsichas” eram as larvas do verme Cryptocotyle lingua, um parasita comum de peixes. Vistas ao microscópio, cada uma tinha duas manchas escuras, o que as tornava surpreendentemente engraçadas e charmosas. “Eu nem conseguia acreditar que observava os caracóis há tanto tempo e que nunca tinha visto todas as coisas interessantes que estavam a acontecer no seu interior”, diz Chelsea, agora ecologista de parasitas na Universidade de Washington. “Fiquei completamente apaixonada por eles. Gosto de dizer que me fascinaram.”

Desde então, Chelsea Wood tornou-se líder de um novo movimento de conservação que visa salvar a mini-fauna pouco carismática do planeta.

Quase metade de todos os animais conhecidos na Terra são parasitas, diz Chelsea, e de acordo com um estudo, um décimo dos parasitas pode já estar condenado à extinção nos próximos 50 anos devido às alterações climáticas, perda dos seus hospedeiros e a tentativas deliberadas de erradicação. Mas, aparentemente, há poucas pessoas que se importam – ou que sequer se apercebem da situação. Entre as mais de 37.000 espécies assinaladas como estando em perigo crítico de extinção na lista vermelha da UICN, apenas um piolho e alguns mexilhões de água doce são parasitas.

Por definição, os parasitas vivem dentro ou sobre um hospedeiro e retiram algo desse hospedeiro – tornando-os párias do mundo animal. Mas nem todos os parasitas provocam danos percetíveis aos seus hospedeiros, e só uma pequena percentagem é que afeta os humanos. Os cientistas alertam para as potenciais consequências terríveis se não lhes dermos a devida atenção. Não só podemos aprender muito sobre parasitas e formas de os usar para as nossas próprias necessidades (como sanguessugas medicinais, ainda usadas em algumas cirurgias), como também estamos apenas a começar a compreender que os parasitas desempenham papéis cruciais nos ecossistemas, mantendo algumas populações sob controlo enquanto ajudam a alimentar outras.

Alguns especialistas também alegam que há um argumento estético para os salvar. Se superarmos o fator desagradável e os conhecermos, podemos achar que a sua valentia é assustadoramente encantadora. Os parasitas desenvolveram meios engenhosos de sobrevivência, desde o crustáceo que se transforma na língua de um peixe até à vespa-esmeralda que paralisa parte do cérebro de uma barata e a conduz até um ninho através das antenas, como um cão levado pela trela.

Um tipo minúsculo de crustáceo aquático, chamado anfípode, que foi invadido pela larva de um verme de cabeça espinhosa. O objetivo final do verme é entrar nas aves marinhas, pelo que provoca mudanças no cérebro do anfípode que o conduzem em direção à luz e a espaços abertos, tornando-o numa presa fácil para as aves.

Fotografia de Anand Varma, Nat Geo Image Collection

“As pessoas pensam que os parasitas são nojentos, viscosos, flácidos e ondulantes, e isso até pode ser verdade em alguns casos”, diz Chelsea. “Mas se os observarmos ao microscópio, são incrivelmente belos.”

Como é óbvio, o movimento conservacionista moderno não se deve preocupar com  a aparência ou o carisma, diz Kevin Lafferty, ecologista da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Existem muitas plantas indefinidas e invertebrados rastejantes que são protegidos. “Nenhuma destas coisas é engraçada ou fofinha”, diz Kevin. “O público não quer saber delas para nada. Mas a biologia moderna de conservação considera-as partes importantes da biodiversidade.”

Um mundo de parasitas

Quando nós, humanos, olhamos para uma paisagem, seja uma savana africana ou um recife de coral australiano, vemos outras espécies hospedeiras, tal como nós. Os leões, zebras e peixes são o lar de grande parte da vida que está escondida à nossa frente.

Ao todo, 40% dos animais conhecidos são parasitas, e esses são apenas os que foram descritos até agora. Os cientistas acreditam que este número reflete apenas 10% de todos os parasitas, deixando potencialmente milhões por descobrir. Só as vespas-parasitas provavelmente superam em número qualquer outro grupo de animais, até mesmo os besouros.

A maioria das espécies, ao que parece, é parasitada por muitas outras. Os humanos, por exemplo, apesar de todos os nossos esforços para sermos um ambiente hostil, continuamos a ser excelentes hospedeiros. Mais de cem parasitas diferentes evoluíram para viver no nosso corpo, muitos deles dependem agora de nós para a sobrevivência das suas espécies.

Os parasitas proliferam porque cada ser vivo é uma miscelânea de nutrientes e energia, e ser um predador de topo não é a única forma de obter uma dentada dessa abundância. Os parasitas optam por sair completamente da corrida entre predador e presa, escolhendo um caminho mais fácil. É uma decisão inteligente, quando pensamos sobre isso, e é exatamente por isso que o parasitismo é tão comum. “A natureza abomina o vácuo. Se houver uma oportunidade, alguém vai evoluir para a preencher”, diz Chelsea.

O parasitismo tem evoluído repetidamente enquanto modo de vida ao longo de milhares de milhões de anos, desde os micróbios mais pequenos e simples aos vertebrados mais complexos. Existem plantas parasitas, pássaros parasitas, uma variedade desconcertante de vermes e insetos parasitas e até mesmo um mamífero parasita – o morcego-vampiro, que sobrevive a beber o sangue de vacas e de outros mamíferos. Entre os 42 ramos principais da árvore da vida, os chamados filos, 31 são maioritariamente parasitas.

Ainda assim, mal começámos a identificar todos os parasitas, muito menos a compreender os seus estilos de vida ou a monitorizar as suas populações. “Simplesmente não é algo que consideremos uma prioridade”, diz Skylar Hopkins, ecologista da Universidade Estadual da Carolina do Norte. Há alguns anos, Skylar reuniu um grupo de cientistas interessados na conservação de parasitas e, em conjunto, começaram a partilhar o que sabiam. Em 2018, esta equipa apresentou as suas investigações na conferência da Sociedade Ecológica da América. Em outubro de 2020, os cientistas publicaram o primeiro plano global para salvar parasitas numa edição especial da revista Biological Conservation.

“Devem existir, potencialmente, milhões de espécies de parasitas que estão ameaçadas, e provavelmente muitas que já foram extintas.”

Skylar e os seus colegas repararam em algo a que chamam paradoxo de co-extinção. E como os parasitas, por definição, precisam de outras espécies, são particularmente vulneráveis a este fenómeno – como por exemplo o piolho Haematopinus oliveri, que está em perigo de extinção. Estes piolhos só vivem noutra espécie que também está em perigo crítico de extinção, o porco-pigmeu, que está a desaparecer das pastagens onde vive no sopé dos Himalaias.

“Devem existir, potencialmente, milhões de espécies de parasitas que estão ameaçadas, e provavelmente muitas que já foram extintas”, diz Skylar. “Mas o mais estranho é que mal documentámos quaisquer extinções de parasitas.”

Chelsea Wood diz que procura dados históricos sobre a abundância de parasitas há mais de uma década, dados sobre qualquer parasita – terrestre ou aquático. “Eu tenho estado sempre atenta”, diz Chelsea, mas até agora só encontrou um total de dois conjuntos de dados úteis: um de um cruzeiro de investigação feito no final dos anos 1940, e o outro num caderno de anotações de laboratório mantido por um dos seus orientadores.

“Com tão poucas informações, não fazemos ideia se os parasitas estão a desempenhar o mesmo papel agora que desempenhavam no passado”, diz Chelsea. “Creio que é uma farsa.”

O caso mais conhecido de conservação de parasitas, se é que existe, é o do piolho do condor-da-califórnia, uma vítima irónica do próprio movimento conservacionista. Na década de 1970, desesperados para salvar o condor-da-califórnia, os biólogos começaram a criar as aves em cativeiro. Parte do protocolo passava pela eliminação de piolhos de todas as aves com pesticidas, supondo que os parasitas eram prejudiciais para os condores, embora não se soubesse se realmente o eram. O piolho do condor-da-califórnia nunca mais foi visto desde então.

Da mesma forma, a sanguessuga medicinal de Nova Inglaterra não é vista há mais de uma década, e a pesca em excesso provavelmente dizimou o verme marinho Stichocotyle nephropis, que dependia das ameaçadas raias para completar o seu ciclo de vida. Presume-se que outros incontáveis vermes, protozoários e insetos parasitas se tenham afundado com o navio, por assim dizer, quando os seus hospedeiros desapareceram.

Um mundo sem parasitas

Embora o fim dos parasitas não pareça grande coisa, ou algo com o qual nos devemos preocupar, os ecologistas alertam que a sua extinção pode significar um problema para o planeta. Sem o controlo feito pelos parasitas, as populações de alguns animais podem explodir, como acontece com as espécies invasoras quando são levadas para longe dos seus predadores naturais. E outras espécies podem desaparecer no meio do caos resultante.

Os predadores grandes e carismáticos também seriam afetados. Muitos parasitas evoluíram para passar para o hospedeiro seguinte, manipulando o hospedeiro onde estão e conduzindo esse hospedeiro até à boca de um predador. Os vermes nematomorfos, por exemplo, amadurecem dentro de grilos, mas precisam de estar dentro de água para acasalar. Assim, influenciam o cérebro dos grilos, levando os insetos a saltar para riachos, onde se tornam numa importante fonte de alimento para as trutas. Fenómenos semelhantes alimentam aves, peixes, felinos e outros predadores pelo mundo inteiro.

A própria saúde humana não iria beneficiar inteiramente com a eliminação dos parasitas. Em países como os Estados Unidos, onde a maioria dos parasitas intestinais foi eliminada, há doenças autoimunes que são praticamente desconhecidas em lugares onde as pessoas têm esses parasitas. De acordo com uma determinada linha de pensamento, o sistema imunitário humano evoluiu com um círculo de vermes e protozoários parasitas e, quando os matámos, o nosso sistema imunitário começou a atacar-nos. Algumas pessoas que têm a doença de Crohn até se infetaram propositadamente com vermes intestinais para tentar restaurar o equilíbrio ecológico dos seus intestinos, com resultados contraditórios.

Ainda assim, os cientistas não estão ansiosos para salvar todos os parasitas. Por exemplo, o Dracunculus medinensis, ou verme da Guiné, é colocado de parte até mesmo pelos conservacionistas mais radicais. Este verme atinge a idade adulta dentro da perna de uma pessoa, muitas vezes atingindo mais de um metro de comprimento, e emerge dolorosamente pelo pé. A fundação do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter propôs-se a extinguir este verme, e poucos sentirão a sua falta quando desaparecer.

Se há alguém que gostaria de se livrar de todos os parasitas, essa pessoa é Bobbi Pritt. Enquanto diretora médica do laboratório de parasitologia humana da Clínica Mayo, Bobbi identifica parasitas encontrados em todas as partes do corpo. Num dia normal poderíamos vê-la a trabalhar com amostras de sangue com parasitas da malária, tecidos cerebrais com Toxoplasma gondii, ou pulgas em aparas de unhas de alguém que andou descalço na praia.

Contudo, até a própria Bobbi Pritt tem uma queda por parasitas. Bobbi tem um blog chamado “Creepy Dreadful Wonderful Parasites” e passa os fins de semana a estudar carraças perto da sua cabana de férias. Enquanto médica, Bobbi apoia a ideia de erradicação de parasitas em lugares onde estes provocam doenças e sofrimento. “Mas, enquanto bióloga, a ideia de se extinguir algo intencionalmente simplesmente não se coaduna comigo”, diz Bobbi.

Em última análise, o objetivo de promover a conservação de parasitas não é fazer com que todas as pessoas se apaixonem por eles. Em vez disso, é para terminar com a guerra que travamos contra todos eles, porque ainda há muito que não sabemos sobre o seu valor para os ecossistemas, e talvez até mesmo para as pessoas. E quem não se sentir influenciado pela utilidade dos parasitas deve considerar a opinião de Kevin Lafferty:

“Se fossemos uma pessoa religiosa, diríamos que todos somos criaturas de Deus; que nos devemos preocupar com todos da mesma forma”, argumenta Kevin. “E esse é o tipo de abordagem que a biologia de conservação está a adotar, com uma grande exceção, que são os parasitas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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