Podemos precisar de doses de reforço contra variantes para ajudar a acabar com a pandemia

À medida que as novas variantes se propagam, os cientistas tentam reagir. Mas há boas notícias: a COVID-19 pode ter um número limitado de mutações perigosas.

Por Linda Marsa
Publicado 16/04/2021, 14:03 WEST
South African variant

Uma profissional de saúde examina os visitantes à procura de sintomas de COVID-19 no Hospital de Tembisa, na África do Sul.

Fotografia de Guillem Sartorio, AFP via Getty Images

Assim como o coronavírus continua a sofrer mutações e a evoluir, o mesmo acontece com as armas usadas para o combater. Com esse objetivo, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA começaram a testar vacinas de reforço projetadas para combater uma nova variante do vírus que provoca a COVID-19. Detetada pela primeira vez na África do Sul, a estirpe conhecida por B.1.351 é particularmente preocupante porque parece propagar-se, como acontece com algumas das outras variantes, mais facilmente do que a original. Investigações recentes também indicam que esta estirpe pode iludir as proteções imunitárias geradas pelas vacinas ou pelas reações naturais dos nossos corpos.

Na tentativa de se antecipar ao vírus, o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) dos EUA está a colaborar com a Moderna, empresa sediada em Massachusetts, para testar uma versão melhorada da sua vacina. A vacina está a ser adaptada com instruções genéticas que ativam o sistema imunitário para reconhecer e atacar a variante sul-africana. Este novo ensaio de fase 1, que envolve 210 adultos saudáveis, irá mostrar se esta dose de reforço é segura e eficaz.

“As mutações estão numa zona da superfície da proteína viral que faz com que alguns anticorpos não a consigam detetar”, diz John Mascola, diretor do centro de pesquisa de vacinas do NIAID. “Estes estudos estão a ser realizados para percebermos se uma vacina de reforço consegue induzir uma resposta imunitária mais ampla.”

A candidata a vacina de variante da Moderna difere da sua vacina atualmente autorizada. Em vez de fornecer instruções para fazer a proteína espigão que estava presente na estirpe original do SARS-CoV-2, fornece instruções para a produção de uma proteína espigão incorporando as mutações presentes na B.1.351. Isto confere ao sistema imunitário uma antevisão da variante sul-africana.

Tal como a Moderna e o NIH, a Pfizer e a BioNTech também estão a explorar a possibilidade de vacinas específicas para as variantes. Mas também têm uma segunda estratégia em mente: simplesmente dar às pessoas uma terceira dose da sua vacina original, já autorizada pela agência FDA dos Estados Unidos. A teoria é a de que uma injeção adicional pode gerar uma explosão ainda maior de anticorpos capazes de desarmar estas novas estirpes.

As doses de reforço fazem parte de uma estratégia mais abrangente que visa diminuir o impacto das estirpes mutantes. Em fevereiro, a administração Biden alocou 200 milhões de dólares para aumentar a vigilância e para desenvolver um sistema de alerta precoce que irá sequenciar as amostras de SARS-CoV-2 por todo o país, para identificar e rastrear melhor as variantes emergentes. Este esforço será coordenado por um grupo de várias agências dentro do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA. O objetivo do projeto é monitorizar e catalogar as “variantes preocupantes” emergentes, as que representam maiores ameaças porque são mais contagiosas, mortíferas ou capazes de escapar aos mecanismos de proteção do nosso corpo.

Observar a evolução em tempo real

A enorme escala da pandemia, que em grande parte ainda está descontrolada, significa que o vírus tem milhares de milhões de hospedeiros e, portanto, biliões de oportunidades para se replicar e sofrer mutações.

Em teoria, isto poderia traduzir-se numa variedade infinita de variantes, algumas das quais podendo conferir ao vírus uma vantagem seletiva, tornando-se virtualmente impossível de neutralizar. E aparentemente já surgiram mais de uma dezena de variantes diferentes, não só no Reino Unido, África do Sul, Brasil e Índia, mas também ao nível local, como por exemplo na Califórnia, Oregon e Nova Iorque.

A maioria das variantes não apresenta motivos de preocupação porque as suas mutações são simplesmente pontuais e desaparecem, não dando ao vírus qualquer tipo de vantagem. Mas quando a estirpe é mais contagiosa, provocando uma doença mais grave ou permitindo que o vírus iluda as nossas respostas imunitárias, as autoridades de saúde pública ficam mais preocupadas. Infelizmente, todos estes fatores descrevem variantes que agora circulam pelo mundo inteiro.

“O que estamos a ver em tempo real é a evolução de um vírus a alta velocidade”, diz Gregory Poland, especialista em doenças infecciosas e chefe do Grupo de Investigação de Vacinas da Mayo Clinic em Rochester, no Minnesota. “A maioria das mutações afeta a sobrevivência e capacidades de infeção do vírus. Mas a seleção natural vai favorecer as mutações que são benéficas para o vírus.”

A estirpe B.1.1.7, por exemplo, que foi detetada pela primeira vez em dezembro de 2020 no Reino Unido, é muito mais contagiosa e letal do que o vírus original. Agora, esta estirpe propaga-se rapidamente pela Europa continental e pode tornar-se na estirpe predominante nos Estados Unidos. A estirpe sul-africana, que surgiu pela primeira vez em outubro e já foi detetada em pelo menos 25 estados norte-americanos, e a P.1, a variante que dizimou o Brasil e chegou aos Estados Unidos em janeiro de 2021, podem potencialmente infetar novamente pessoas que já tiveram COVID-19 ou que já estão vacinadas, pois estas variantes contêm uma mutação que as permite enganar os anticorpos que o nosso sistema imunitário produz para eliminar invasores estranhos.

Os cientistas chamam “mutações de escape” às mudanças que permitem aos vírus escapar do alcance dos anticorpos. Isto acontece quando os vírus enfrentam pressões de seleção natural. Os vírus capazes de continuar a infetar células e a reproduzir-se são os que contêm as características que lhes permitem escapar dos anticorpos. Neste momento, a mutação com a qual os cientistas estão mais preocupados chama-se E484K, que os investigadores acreditam ser a principal responsável pelas manobras evasivas do vírus.

Esta mutação altera a forma da proteína espigão na superfície do coronavírus; este vírus normalmente usa o espigão para se ligar aos recetores na superfície das células humanas e assim entrar nas células. O atual arsenal de vacinas estimula a produção de anticorpos que se prendem à proteína espigão original e bloqueiam a sua entrada numa célula humana – um pouco como colocar pastilha elástica numa chave, impedindo-a de girar uma fechadura e entrar numa casa.

Mas ainda há muitas incógnitas. Por exemplo, os cientistas ainda não sabem com que velocidade é que o SARS-CoV-2 sofre mutações. Isto é importante porque sempre que há uma mutação, a eficácia das vacinas autorizadas que combatem efetivamente o vírus COVID-19 original pode ficar reduzida.

Por exemplo, é uma situação muito diferente da que acontece com o vírus do sarampo que, quando sofre uma mutação, a nova estirpe não consegue escapar dos anticorpos neutralizantes estimulados pelas vacinas. É por isso que não precisamos de uma dose de reforço todos os anos ou de mudar a formulação da vacina. “A vacina do sarampo foi introduzida em 1963 e estamos a usar praticamente a mesma vacina atualmente”, diz Cody Meissner, chefe do departamento de doenças pediátricas infecciosas do Hospital Infantil Tufts em Boston. “Mas se olharmos para a gripe, temos novas estirpes que precisam de novas vacinas anualmente. Não sabemos onde fica a COVID-19 entre estes dois extremos. É por isso que os investigadores estão a explorar todas estas abordagens diferentes. Nós simplesmente não sabemos.”

Evolução convergente é um bom sinal

Embora possa parecer, a partir dos estudos preliminares, que o mundo irá estar sempre um passo atrás do vírus, as investigações mais recentes sugerem que as notícias não são assim tão más. Há evidências crescentes que indicam que as variantes mais preocupantes contêm determinadas características ou mutações comuns. Por exemplo, a variante sul-africana, a estirpe P.1 do Brasil e a estirpe B.1.1.7 do Reino Unido, que atualmente está a dominar a Europa, todas contêm a mutação E484K.

São bons indícios. Esta chamada evolução convergente é um fenómeno que acontece quando a mesma mutação surge de forma independente ao longo do tempo e em diferentes partes do mundo, porque é uma adaptação que ajuda na transmissão e reprodução viral. “Se olharmos para a mutação que dá mais capacidade ao vírus, vemos a mesma mutação na variante sul-africana e brasileira”, diz Alessandro Sette, imunologista do Instituto de Imunologia La Jolla. “Isto é importante porque em dois momentos diferentes, em dois continentes diferentes, esta variante tem a mesma mutação. Por outras palavras, o vírus tem um repertório limitado.”

Estas limitações sugerem que a adaptação das vacinas com novas instruções genéticas para mutações específicas pode efetivamente atingir em simultâneo diversas variantes preocupantes.

Mesmo que os anticorpos produzidos por uma vacina não consigam neutralizar por completo a variante sul-africana, as vacinas não são uma perda total. Nos ensaios clínicos feitos na África do Sul, onde a variante é mais prevalente, as vacinas não foram mais eficazes a travar a infeção, mas foram 100% eficazes na prevenção de doenças graves, hospitalizações e mortes. Isto acontece porque o enorme número de anticorpos neutralizantes estimulados pelas vacinas é suficiente para compensar as suas perdas de eficácia. “A parede ainda está lá”, diz Alessandro Sette. “Simplesmente não é tão eficaz a manter o vírus afastado.”

Células T assassinas para o resgate?

À medida que as preocupações com as variantes aumentam, é fundamental recordar que as vacinas e os anticorpos não são as nossas únicas defesas. Os indivíduos que já foram infetados ou completamente vacinados têm outro aliado caso sejam novamente infetados com o vírus ou por uma nova variante. As chamadas células T “assassinas” do sistema imunitário podem entrar em ação caso o vírus domine os anticorpos. As células T ajudam a reconhecer e a destruir as células infetadas. “Se a parede for derrubada e o vírus entrar na célula”, diz Alessandro, “as células T assassinas são importantes para controlar e eliminar a infeção”.

Num estudo publicado em finais de março, investigadores do NIH analisaram amostras de células sanguíneas de 30 pessoas recuperadas de COVID-19, antes do aparecimento das variantes. Quando um tipo de célula T destas amostras foi exposto às variantes, os investigadores descobriram que as células T CD8 + reconheciam todas as variantes, até mesmo a variante da África do Sul. “As áreas que as células T visam não são em grande parte afetadas pelas mutações das novas variantes”, diz Andrew Redd, cientista da equipa laboratorial de imunorregulação do NIAID. Na grande maioria dos casos, diz Andrew, a resposta das células T deve prevenir a doença, mesmo que o vírus se consiga esquivar dos anticorpos neutralizantes.

O NIH espera concluir a inscrição para os ensaios das doses de reforço até finais de abril. A FDA sinalizou que irá conceder uma aprovação de emergência para as vacinas concebidas para combater as variantes, e as novas doses poderão ser implementadas em breve. No entanto, apesar de todos estes desenvolvimentos positivos, devemos permanecer vigilantes. “Ainda estamos num estágio inicial e, se as pessoas ficarem ‘cansadas’ da COVID por razões económicas ou políticas, é como atirar gasolina para uma fogueira adormecida”, diz Gerald Poland, da Mayo Clinic. “Estamos potencialmente no início de uma vaga exponencial de uma variante altamente transmissível. Ninguém consegue prever o que vai acontecer daqui a uma semana.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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