Precisamos todos de usar máscara ao ar livre? Eis a opinião dos peritos.

Existem vários fatores que podem afetar se devemos manter o rosto coberto ao caminhar, andar de bicicleta ou a correr ao ar livre.

Publicado 15/04/2021, 14:55 WEST
máscara

Crianças com máscaras brincam com bolas de sabão num parque em março de 2021, em Kuala Lumpur, na Malásia. As pessoas têm aproveitado o levantamento de algumas restrições relacionadas com a COVID-19 para se reunirem ao ar livre pela primeira vez em meses.

Fotografia de Annice Lyn, Getty Images

Os dias estão a ficar mais longos, as temperaturas estão a subir e as plantas estão em pleno florescimento. Depois de um longo e escuro inverno passado dentro de casa com a ameaça da COVID-19 por todo o lado, a primavera parece oferecer uma oportunidade para finalmente nos libertarmos do confinamento das nossas casas. Mas será que temos de respirar profundamente atrás de uma máscara?

Um ano depois de as cidades terem encerrado parques infantis e jardins públicos, receando a disseminação do vírus em espaços partilhados ao ar livre, há várias evidências que mostram que a transmissão ao ar livre é rara. Isto significa que as recomendações sobre a utilização de máscara no exterior também não precisam de ser assim tão rígidas.

“Uma das descobertas mais consistentes da literatura é a de que a transmissão é reduzida nos ambientes exteriores em relação aos interiores”, diz Jonathan Proctor, pós-doutorado na Iniciativa de Dados Científicos de Harvard e Centro para o Ambiente. O motivo é bastante intuitivo: o vírus tem muitos lugares para ir para além do nosso nariz.

“Há uma enorme quantidade de ar onde as gotículas e as partículas virais se podem dispersar”, diz Lisa Lee, especialista em saúde pública do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia e ex-funcionária dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA.

Uma revisão sistemática publicada em fevereiro descobriu que as infeções relatadas de SARS-CoV-2 que aconteceram ao ar livre eram inferiores a 10%. Por outro lado, a transmissão em espaços fechados era 18 vezes superior. As infeções que ocorreram ao ar livre geralmente envolviam outros riscos, como pessoas envolvidas em atividades em espaços abertos e fechados.

Distância, duração e intensidade são os fatores mais importantes

Ainda assim, o risco não é zero, diz Saskia Popescu, epidemiologista da Universidade do Arizona em Phoenix.

“O exterior oferece alguma proteção, mas não elimina o risco por completo”, diz Saskia. “Quando falamos de transmissão ao ar livre, estamos a falar de pessoas que estão próximas umas das outras, a falar cara a cara.”

“Os três fatores principais a levar em consideração são distância, duração e intensidade.” Quanto mais próximas as pessoas estão, mais gotículas uma atividade gera, e quanto mais tempo as pessoas ficam perto umas das outras, mais o risco aumenta, tornando também mais importante o uso de máscara. Tal como acontece com muitos outros fatores nesta pandemia, o risco de infeção – e a necessidade do uso de máscara – depende do contexto.

“Depende muito de uma série de coisas, incluindo a quantidade de pessoas envolvidas numa atividade ao ar livre, a quantidade de movimento, se estão todas viradas para a mesma direção em relação às outras e o quão vigorosamente estão a respirar”, diz Lisa Lee. “Se todos estiverem a respirar de uma forma ofegante, as suas gotículas irão viajar distâncias maiores, pelo que vamos querer uma distância superior a dois metros.”

Saskia dá alguns exemplos de situações ao ar livre em que usa sempre uma máscara, em comparação com situações em que simplesmente mantém uma à mão, caso seja necessária.

“Se eu estiver num mercado de frutas e legumes, uso uma máscara porque estou perto de outras pessoas. Mesmo que eu me consiga distanciar periodicamente, vou usar sempre a máscara. Se eu estiver a passear com o meu marido na praia ou a andar pela rua com o meu cão, levo a máscara comigo e coloco-a quando vejo alguém a aproximar-se.”

Basicamente, se Saskia estiver perto de pessoas ao ar livre, coloca a máscara. Mas se conseguir ficar a dois metros de distância – no mínimo, enfatiza Saskia – a máscara não é necessária.

O clima parece ter pouco impacto

Conforme o hemisfério norte se dirige para o verão, os riscos de transmissão ao ar livre podem descer ainda mais, de acordo com algumas investigações preliminares sobre o impacto do clima na transmissão de SARS-CoV-2. O fator mais forte, embora com evidências ainda fracas em geral, parece ser a luz ultravioleta.

“As nossas descobertas sugerem que a radiação ultravioleta pode estar a desativar o vírus e, portanto, a dificultar a sua propagação”, diz Jonathan Proctor, coautor de um estudo que revela a associação entre níveis mais elevados de luz ultravioleta e níveis mais baixos de transmissão de COVID-19. As razões para esta associação são difíceis de determinar, diz Jonathan.

“Em relação aos estudos empíricos sobre fatores climatológicos, luz solar, temperatura, humidade, velocidade do vento e etc., parece que, quando há dias de maior luz solar, a transmissão de COVID diminui nas duas semanas seguintes”, diz Jonathan. “Este intervalo de duas semanas é consistente com o tempo que os sintomas demoram a aparecer e são feitos os testes.”

Vários estudos também descobriram que os casos diminuem com a subida da temperatura.

“Em geral, os vírus respiratórios gostam de frio e temperaturas secas, nomeadamente o SARS-CoV-2”, diz Luca Cegolon, epidemiologista do departamento de saúde pública em Treviso, Itália, e autor sénior de um comentário sobre a justificação para o uso de máscara ao ar livre. “A máscara não está apenas a fornecer uma barreira física, também ajuda a manter a humidade relativa e a temperatura na boca, sobretudo no nariz”, diz Luca. “Isso interfere na resolução [capacidade do vírus em se firmar] e replicação do vírus, e mantém o sistema imunitário das vias aéreas superiores mais forte.”

Mas estas descobertas são mais relevantes para o inverno e, novamente, é nessa estação do ano que as pessoas se reúnem durante mais tempo. No geral, as evidências sobre a sazonalidade do vírus permanecem confusas, diz Gaige Kerr, cientista de saúde ambiental da Universidade George Washington, que liderou recentemente uma revisão de investigação nesta área.

“Neste ponto, ainda não temos uma boa compreensão sobre o impacto exato que as diversas variáveis meteorológicas têm sobre a doença”, diz Gaige. “A gripe e outros coronavírus têm sazonalidade, e as experiências feitas em laboratório revelam que o vírus SARS-CoV-2 sobrevive mais tempo em condições frias, secas e com baixa radiação ultravioleta. Mas esses resultados não têm sido realmente refletidos nos dados do mundo real. Apesar das dezenas ou centenas de estudos, os resultados são confusos e não existe consenso. Usar a meteorologia como base para mudar ou relaxar as intervenções governamentais não é realmente algo que a ciência possa suportar.”

Passar tempo ao ar livre, mesmo sem máscara, tem benefícios para a saúde

O maior impacto do clima é provavelmente sobre o comportamento humano. Embora as descobertas de Jonathan Proctor, por exemplo, sugiram que a luz ultravioleta possa estar a desativar o vírus, há outras razões que podem explicar esta associação.

“Pode ser porque, quando está sol, as pessoas saem à rua”, diz Jonathan.

As pessoas reúnem-se em espaços fechados quando a temperatura sobe demasiado ou quando desce demasiado, diz Lisa Lee, e isso leva a mais transmissão. “Na verdade, essa é a razão pela qual é importante os decisores políticos não exigirem o uso de máscara ao ar livre”, diz Muge Cevik, médica infeciologista e professora clínica na Universidade de St. Andrews, na Escócia.

“Durante mais de um ano, as pessoas obedeceram a algum tipo de restrição, as nossas vidas mudaram significativamente e estamos todos muito cansados”, diz Muge. “Se pedirmos às pessoas para usarem regularmente máscara ao ar livre e em todas as circunstâncias, isso vai agravar o cansaço mental. Portanto, chegamos a um ponto em que não há um lugar onde as pessoas se podem divertir sem quaisquer restrições.”

“A obrigatoriedade do uso de máscara ao ar livre também empurra as pessoas para os espaços fechados, onde se podem reunir longe da vista de todos, mas também onde o risco é muito maior”, diz Muge. Estar ao livre também tem outros benefícios para a saúde pública.

“Não podemos realmente olhar para a saúde pública apenas da perspetiva de controlo da infeção. Permitir que o exterior seja um lugar onde as pessoas recarregam as suas energias com ar puro, alegria, atividade física e ligação social também é importante do ponto de vista de saúde pública.”

Use máscara se a situação assim o exigir

Portanto, saber se as pessoas devem optar pelo uso de máscara ao ar livre, mais uma vez, depende da atividade. Saskia Popescu não vê muitas razões para os ciclistas que andam sozinhos usarem uma máscara, embora os ciclistas que viajam em grupos ou perto de muitos pedestres devam usar uma. Da mesma forma, os corredores só precisam de colocar a máscara quando passam por alguém.

“Se estivermos a correr atrás de alguém que também está a correr, estamos a correr pelas partículas que essa pessoa exala”, diz Lisa Lee, pelo que devemos usar máscara até passarmos por essa pessoa.

“Para nadar, as máscaras não são obviamente práticas, mas também são desnecessárias se as pessoas de diferentes agregados familiares permanecerem a pelo menos dois metros de distância e ninguém gritar diretamente na cara de alguém.”

Quem estiver a fazer uma caminhada com pessoas a mais de dois metros de distância, pode fazê-lo sem máscara. As máscaras não são assim tão necessárias para os encontros breves ou passageiros, a não ser que os caminhantes estejam a respirar de forma ofegante. Dito isto, usar máscara também tem um valor simbólico.

“Acho que é uma expressão importante de solidariedade”, diz Lisa. “É uma mensagem importante, e não custa muito colocar a máscara durante alguns segundos enquanto passamos por alguém.”

Saskia Popescu concorda. “É uma mistura entre respeito e o reconhecimento de que, mesmo que seja por breves momentos e o risco seja muito baixo, é a coisa correta a fazer.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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