SpaceX lança os primeiros astronautas em foguetão reutilizado

Os quatro astronautas da missão Crew-2 da SpaceX estão a dirigir-se para a EEI depois de se tornarem nas primeiras pessoas a voar num foguetão que já tinha ido ao espaço.

Publicado 27/04/2021, 12:50
lançamento da missão Crew-2 da SpaceX

A missão Crew-2 da SpaceX descolou às 5:49 (hora local) para transportar quatro astronautas para a Estação Espacial Internacional.

Fotografia de MICHAEL SEELEY, NATIONAL GEOGRAPHIC

Nas primeiras horas da manhã, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, após um atraso de um dia provocado por ventos fortes, a SpaceX lançou humanos para o espaço a partir da costa dos EUA pela terceira vez em menos de um ano.

Mas, desta vez, os astronautas entraram em órbita com a ajuda de um foguetão Falcon 9 reutilizado – o mesmo que enviou a missão Crew-1 para a Estação Espacial Internacional em novembro do ano passado. Os astronautas também estão a viajar a bordo de uma nave usada: a mesma cápsula Dragon, chamada Endeavour, que os astronautas da NASA Bob Behnken e Doug Hurley voaram durante o seu voo de teste Demo-2 em maio do ano passado. Nessa missão, Bob e Doug tornaram-se nos primeiros humanos a serem lançados de Cabo Canaveral desde que os EUA terminaram a era dos vaivéns espaciais.

“É emocionante ver estas três missões naquele veículo”, disse Steve Stich, gestor do Programa de Tripulação Comercial da NASA, aos repórteres antes do lançamento.

A pluma do foguetão Falcon 9 da SpaceX é captada nesta exposição de 326 segundos enquanto o veículo se dirige para o espaço. A cor azul vem da luz do sol a iluminar a pluma do segundo estágio do foguetão.

Fotografia de Michael Seeley, National Geographic

Agora, os astronautas da missão Crew-2 – todos veteranos do espaço – estão a fazer um cruzeiro de cerca de 24 horas até à estação, onde irão viver durante seis meses. A tripulação de quatro pessoas é composta por Shane Kimbrough e Megan McArthur da NASA, o astronauta Thomas Pesquet da Agência Espacial Europeia (ESA) e Akihiko Hoshide da Agência Aeroespacial do Japão (JAXA). Mais de 200 experiências científicas também estão a bordo, incluindo várias que irão investigar a função das células imunitárias humanas.

No final da semana passada, quando a tripulação chegou de avião ao Centro Espacial Kennedy, os astronautas foram brindados com uma visão do seu foguetão.

 “Não há nada igual, quando olhamos pela janela e vemos uma nave a ser preparada e percebemos que dentro de poucos dias estaremos a viajar nela”, disse Megan McArthur aos repórteres quando chegou.

Aprovado para voar”

Tanto a NASA como a SpaceX alegam que as naves reutilizáveis são vitais para tornar as viagens espaciais mais acessíveis. O conceito não é novo; durante anos, a agência espacial norte-americana reutilizou a sua pequena frota de vaivéns espaciais, mas os foguetões reutilizáveis só se tornaram uma realidade quando a SpaceX entrou em cena.

Em dezembro de 2015, a empresa devolveu com sucesso um foguetão Falcon 9 à sua plataforma de aterragem pela primeira vez. Desde então, a SpaceX já fez 80 aterragens com foguetões, tanto em terra como em batelões no mar, embora os foguetões da empresa ainda errem ocasionalmente o alvo.

Entre os cerca de vinte foguetões reutilizados no inventário da empresa, o mais utilizado é o B1051, que até agora sobreviveu a nove lançamentos e recuperações sem tripulação. A SpaceX diz que as últimas iterações dos seus foguetões Falcon 9, conhecidas por Block 5, foram projetadas para sobreviver a pelo menos 10 lançamentos – e Benji Reed, diretor de programas de voo espacial humano da SpaceX, diz que a empresa quer aumentar esse limite para as missões não tripuladas.

O foguetão Falcon 9 da SpaceX, que lançou a missão Crew-1 em novembro de 2020, é levado para o porto após aterrar num batelão no mar. Este foguetão está a ser reutilizado na missão Crew-2, a primeira vez que o mesmo foguetão é usado para vários lançamentos tripulados.

Fotografia de Michael Seeley

Mas a equação muda quando há humanos envolvidos.

“O negócio dos voos espaciais humanos é implacável”, disse Norm Knight, vice-gestor de operações de voo da NASA, num evento feito para a imprensa antes do voo.

As cápsulas Dragon tripuladas da SpaceX são projetadas para voarem pelo menos cinco vezes, com algumas reparações entre as viagens. Mas antes de certificarem o foguetão e a nave para o voo da missão Crew-2, os engenheiros examinaram cada aspeto do hardware, procurando quaisquer defeitos ou surpresas. Durante este processo, souberam através das equipas nas instalações da SpaceX no Texas que a empresa carrega rotineiramente combustível de oxigénio líquido adicional nos foguetões Falcon 9 – o equivalente a 1.130 a 1.360 quilos de combustível, disse Steve Stich. Mas essa é uma pequena percentagem do peso total de lançamento, e a NASA e a SpaceX decidiram que este excesso não representava uma ameaça para os astronautas.

“Nós interrogamo-nos sempre, será que estaríamos dispostos a levar as nossas famílias nestes veículos?” diz Benji Reed. “Eu sei que há um rapaz algures e que a sua mãe está neste voo. Isto é algo ao qual prestamos muita atenção.”

A nave Crew Dragon Endeavour da SpaceX é içada para o navio de recuperação SpaceX GO Navigator pouco depois de ter caído no Golfo do México com os astronautas da NASA Bob Behnken e Doug Hurley a bordo, no domingo, dia 2 de agosto de 2020. A nave Endeavour voou novamente para o espaço no dia 23 de abril, desta vez com os quatro astronautas da missão Crew-2.

Fotografia de Bill Ingalls/NASA

O foguetão da missão Crew-2, que as equipas dizem estar “aprovado para voar”, voou pela última vez em novembro, e a sua estrutura tem as marcas da viagem feita anteriormente ao espaço. Isto também ofereceu aos astronautas da missão Crew-2 uma oportunidade para assinalar o seu voo.

“Tivemos a sorte de desenhar as nossas iniciais na fuligem lateral do foguetão”, disse Thomas Pesquet. “Não sei se vão aguentar, mas é muito entusiasmante.”

Vida na estação

Para a missão Crew-2, a vida em órbita vai incluir a realização de experiências científicas e a manutenção da estação espacial – e, nos primeiros dias, vão ter pouco espaço de manobra. Os quatro astronautas da missão Crew-1 ainda estão a bordo da estação, assim como os três astronautas que chegaram no dia 12 de abril numa cápsula russa Soyuz.

Para acomodar estes 11 habitantes, a capacidade dos sistemas de suporte de vida da estação foi aumentada, bem como a capacidade dos sistemas que removem dióxido de carbono do ar, e as tripulações estão a criar dormitórios temporários. Os aposentos devem ficar um pouco mais espaçosos depois do dia 28 de abril, quando a tripulação da missão Crew-1 está agendada para partir.

Com um foguetão de primeiro estágio ainda manchado e a nave espacial Crew Dragon reutilizada, o foguetão Falcon 9 da SpaceX está pronto na plataforma de lançamento do Centro Espacial Kennedy da NASA, antes do lançamento da missão Crew-2.

Fotografia de Michael Seeley

Megan McArthur, que vai pilotar a mesma nave que o seu marido, Bob Behnken, pilotou durante o voo Demo-2 no ano passado, disse que aprendeu algumas coisas com ele sobre voar na cápsula Dragon – e ainda mais sobre viver na estação durante um período prolongado, sobretudo quando se trata de refeições.

“Ele realmente disse-me que a variedade era a chave – disse para eu levar molhos picantes e sabores diferentes e coisas que pudesse partilhar com os colegas de tripulação”, disse Megan. Da mesma forma, tanto Thomas Pesquet como Akihiko Hoshide prometem levar refeições especiais para a estação para que a tripulação possa desfrutar de alguns pratos da culinária francesa e japonesa, embora Akihiko lamente a ausência de sushi.

“Acho que algum do queijo francês não é legal na EEI”, brincou Thomas. “Tive alguma pressão nacional para trazer coisas boas, e também dos meus companheiros de tripulação – eles disseram, OK, estamos a voar com um francês, é melhor que seja bom.”

A tripulação da missão Crew-2 da SpaceX e da NASA é fotografada durante uma sessão de treinos na instalação de treinos da SpaceX em Hawthorne, na Califórnia. Da esquerda para a direita temos o Especialista de Missão, Thomas Pesquet, da Agência Espacial Europeia (ESA); o Piloto Megan McArthur, da NASA; o Comandante Shane Kimbrough, da NASA; e o Especialista de Missão, Akihiko Hoshide, da Agência de Exploração Aeroespacial do Japão.

Fotografia de SpaceX

Entre as refeições, os astronautas da missão Crew-2 irão trabalhar em mais de 200 experiências de pesquisa – uma lista de tarefas científicas que só é possível devido ao aumento do número de astronautas em órbita.

“Não queríamos que o tempo da tripulação continuasse a ser o nosso fator limitante”, disse David Brady, cientista associado para o programa da EEI, aos repórteres durante uma conferência de imprensa. Agora, diz David, o número de experiências é mais limitado pela quantidade de massa e volume que pode ser levado para a estação.

Entre estas experiências estão os testes de materiais comestíveis para embalagens para reduzir o desperdício, uma atualização dos painéis solares da estação, uma análise à forma como os algodoeiros respondem à disponibilidade limitada de água e testes à biologia humana. A microgravidade da estação espacial fornece um ambiente ideal para estudar a forma como as células humanas crescem, comunicam e se adaptam.

“Não compreendemos completamente porquê, mas na microgravidade a comunicação de célula para célula funciona de maneira diferente do que num frasco de cultura de células bidimensional aqui na Terra”, disse Liz Warren, diretora de programa do Laboratório Nacional EEI dos EUA. “As células agregam-se ou agrupam-se de forma diferente na microgravidade. Reúnem-se de uma forma mais 3D. Comportam-se mais como quando estão no interior do corpo.”

Os investigadores vão focar as suas atenções nos tecidos pulmonares, implantes de retina, músculos esqueléticos, pedras nos rins e no sistema imunitário – que tem sido uma prioridade de investigação internacional desde o início da pandemia de coronavírus.

Também está planeada uma série de experiências de observação da Terra, incluindo a documentação fotográfica contínua do nosso mundo nublado e aquoso. Até agora, os astronautas tiraram mais de 1.5 milhões de fotografias da Terra, e os novos ocupantes da estação espacial irão adicionar as suas próprias imagens a esse total.

“Temos muitas investigações a bordo da nave que está a olhar para a Terra”, disse antes do lançamento Kirt Costello, cientista-chefe da EEI. “Também temos a tripulação, que tem o melhor lugar da casa.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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