Beber água reduz os efeitos secundários da vacina COVID-19?

Uma boa hidratação pode ajudar a evitar a infeção de COVID-19. Mas a ciência não sabe exatamente se beber água antes de uma injeção pode alterar a nossa reação imunitária.

Publicado 13/05/2021, 15:15 WEST
vacina

Profissionais de saúde carregam seringas com vacinas COVID-19 da Pfizer e da Moderna antes de as administrarem no primeiro dia em que as pessoas com 16 anos ou mais podem receber a vacina nos EUA.

Fotografia de Allen J. Schaben, Los Angeles Times via Getty Images

Este é um conselho dos vizinhos, dos artigos de revistas, dos sites de clínicas e até de enfermeiros: beba muita água antes e depois de ser vacinado contra COVID-19 para ajudar a prevenir os efeitos secundários.

O problema: não há evidências de que beber mais água ajuda a evitar braços inflamados, dores no corpo e a febre que algumas pessoas sentem depois de levarem a vacina contra a COVID-19.

Beber água desmesuradamente também não reduz as probabilidades de desmaiar para as pessoas que têm propensão para tonturas perto de agulhas.

Eis o que se sabe, com base nas evidências disponíveis, sobre a forma como a água pode influenciar a nossa resposta à vacina e a saúde em geral.

Vacinação e água

Os cientistas não realizaram ensaios randomizados para observar se beber – ou não beber – água antes da vacinação pode afetar os níveis de anticorpos ou outras respostas imunitárias. É uma questão complicada de apurar, em parte porque a resposta imunitária segue duas vias principais: a longo prazo, ajuda o corpo a montar defesas duradouras contra vírus. Numa escala temporal mais curta, a vacina também provoca a resposta imunitária “inata”, que é responsável pelos efeitos secundários que algumas pessoas sentem após a vacinação. Os investigadores têm opiniões divergentes sobre o papel que a água desempenha em tudo isto.

Os estudos feitos com sapos (parentes distantes dos humanos) sugerem que a desidratação extrema pode suprimir o sistema imunitário, dificultando a comunicação entre células, diz Sonia Sharma, imunologista do Instituto de Imunologia La Jolla, na Califórnia. Nos humanos, a desidratação pode ser um dos vários fatores de stress que atrasam a produção de anticorpos, acrescenta Sonia. E algumas investigações sugerem que as pessoas sentem mais dores quando estão desidratadas, diz Jodi Stookey, epidemiologista nutricional do Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil de Oakland, na Califórnia.

Mas os estudos também demonstram que beber demasiada água tem riscos para a saúde, fazendo com que os níveis de sódio baixem e dando origem a dores de cabeça, fadiga, convulsões e até morte. E muitos especialistas argumentam que, fora de um contexto de calor excessivo ou de exercícios de resistência, os adultos saudáveis obtêm facilmente líquidos suficientes através da comida e bebida – mesmo que se sintam indispostos durante um ou dois dias após a vacinação.

E apesar de a água poder desempenhar um papel na prevenção de cálculos renais e infeções recorrentes do trato urinário, para as pessoas que tentam maximizar a sua resposta imunitária enquanto minimizam os efeitos secundários é pouco provável que a água por si só consiga resolver o problema. “A água não é a solução mágica que nos vai dar aquela resposta imunitária ideal”, diz Sonia. “Faz parte de um conjunto de comportamentos saudáveis que promovem um sistema imunitário saudável.”

As investigações feitas com atletas de resistência levantam dúvidas sobre o potencial da água em influenciar o sistema imunitário. Os exercícios prolongados, como a corrida de maratona, são conhecidos por provocarem um aumento nas hormonas do stress que podem reduzir a função dos glóbulos brancos durante várias horas e tornar os atletas mais suscetíveis a adoecer logo após um longo esforço, diz Michael Gleeson, professor emérito de bioquímica na Universidade Loughborough, no Reino Unido, que estuda nutrição e a resposta imunitária ao exercício.

Os glóbulos brancos incluem as células T e B que detetam agentes infecciosos, formulam uma defesa e desenvolvem anticorpos que os reconhecem. Contudo, quando os investigadores pediram aos atletas para beberem mais água e se manterem hidratados durante as corridas, o seu sistema imunitário mostrou o mesmo nível de supressão em comparação com os atletas desidratados.

“A noção de que beber muita água pode ajudar a evitar os efeitos secundários da vacina COVID parece ridícula”, diz Michael Gleeson. “A água não influencia a função imunitária.”

Também é pouco provável que beber água possa ajudar com os desmaios. Em cerca de uma em cada mil doses de vacinas administradas, as injeções desencadeiam uma reação vasovagal que provoca tonturas, dores de cabeça e, por vezes, desmaios nos primeiros 15 minutos após a vacinação. Com base nas evidências de que as pessoas têm menos probabilidades de desmaiar se beberem água antes de doar sangue, Alex Kemper, chefe da divisão de pediatria do Hospital Infantil Nationwide, em Columbus, no Ohio, acompanhou centenas de pessoas com idades entre os 11 e os 21 anos e disse-lhes para beberem até dois copos de água uma hora antes da vacinação, ou para agirem normalmente. Beber mais água, descobriu Alex, não alterava a probabilidade de tonturas ou a sensação de desmaio. “Resumindo, não fez diferença”, diz Alex.

Reforço de vacina

As interrogações em torno da hidratação e resposta à vacina encaixam-se num corpo maior de perguntas sobre a quantidade de água que necessitamos, como se deve medir a desidratação e se precisamos de intencionalidade para beber água em geral. Os dados sugerem que os adultos mais velhos são mais vulneráveis à desidratação crónica, mas não se sabe em concreto qual é a prevalência deste fator.

A forma como devemos avaliar o nosso próprio estado de hidratação também está em aberto. Pode ser suficiente termos sede, de acordo com Alex Kemper. “Milhões de anos de evolução fizeram com que, quando realmente precisamos, bebemos água. Num dia normal, podemos deixar que a nossa vontade inata de beber água quando temos sede faça esse trabalho por nós. E provavelmente acontece o mesmo no dia da vacinação.”

Dadas as incertezas, o conselho para beber água pode influenciar o desejo que as pessoas têm por uma sensação de controlo. É simples e fácil de fazer, e alguns especialistas consideram o conselho de hidratação pré-vacinação inofensivo e possivelmente até benéfico se ajudar a motivar as pessoas a serem vacinadas. “Quanto mais pessoas conseguirmos vacinar, melhor, e se as pessoas quiserem beber água, certamente não vai fazer mal”, diz Alex. “As pessoas depositam muita fé na água, e se isso fizer as pessoas sentirem-se melhor, qual é o problema?”

Mas há quem receie que, se a água não ajuda, encorajar o que pode ser essencialmente um placebo pode cultivar a desconfiança no sistema médico e sugerir que os efeitos secundários normais são algo com que nos devemos preocupar. Ceder aos caprichos não científicos pode afetar a credibilidade dos profissionais de saúde, acrescenta Christopher Labos, cardiologista e epidemiologista do Complexo de Saúde Queen Elizabeth, em Montreal.

Na opinião de Christopher, que escreveu sobre os mitos da água, dizer às pessoas para beberem água é mais contraproducente do que dizer que vão apenas ficar com um braço dorido e que isso vai passar. “Embora seja mais difícil a curto prazo, provavelmente é melhor a longo prazo se formos simplesmente honestos com as pessoas e dizer-lhes que esse não é um problema de saúde significativo.”

Christopher diz que na sua profissão ouve muitas perguntas de pacientes sobre o que devem consumir ou evitar quando levam a vacina. “O que comem, o que bebem, os medicamentos que tomam não vão afetar a vacina”, diz Christopher. “Quando chegar a sua vez de se vacinar, vá simplesmente vacinar-se.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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