Crânios de dinossauros revelam pistas sobre voo – e comunicação

As imagens de raios-x estão a revelar como é que estes animais ancestrais se moviam pelo mundo, o que conseguiam ver e ouvir, e até mesmo como as suas crias provavelmente chilreavam.

Publicado 11/05/2021, 12:49
Um dinossauro do género Shuvuuia, que viveu durante o período Cretáceo onde atualmente fica a Mongólia, ...

Um dinossauro do género Shuvuuia, que viveu durante o período Cretáceo onde atualmente fica a Mongólia, tinha olhos e ouvidos que sugerem que caçava durante a noite.

Fotografia de VIKTOR RADERMAKER (ILUSTRAÇÃO)

É uma era dourada para a paleontologia: nos últimos anos, os cientistas reuniram todos os tipos de pistas sobre a aparência e vida dos dinossauros, desde reconstruções fósseis inspiradoras a pegadas preservadas e marcas de dentadas em ossos. Agora, os paleontólogos estão a revelar que as pistas para a forma como estes animais extintos se comportavam estão nos seus crânios.

Dois estudos publicados no início de maio na revista Science detalham uma técnica que usa imagens de raios-x para estudar os ouvidos internos preservados e as órbitas oculares de dinossauros e outros répteis pré-históricos. Estas técnicas de imagiologia estão a permitir ao paleontólogos aprender sobre aspetos da vida dos dinossauros que, de outra forma, se poderiam ter perdido no tempo.

“O formato do ouvido interno tem estado sempre relacionado com estilo de vida e o comportamento de um animal”, diz a paleontóloga Julia Schwab, da Universidade de Edimburgo, que não esteve envolvida na investigação. Por exemplo, o ouvido interno humano permite-nos ouvir sons dentro de uma faixa específica de frequências, desde uma a folha cair no passeio ao som de um trovão, e o formato do nosso ouvido interno está ligado ao equilíbrio da nossa espécie bípede.

Os crânios dos dinossauros evoluíram para serem espessos e protegerem o cérebro e estruturas associadas, como os canais tubulares do ouvido interno, mantendo estas preciosas pistas intactas durante dezenas de milhões de anos. Mas estes ossos dificultam a observação das estruturas no seu interior. Assim, num dos estudos, liderado por Michael Hanson, estudante da Universidade de Yale, e pelo seu orientador Bhart-Anjan Bhullar, a equipa criou um conjunto de imagens de 124 arcossauros – um grupo que inclui dinossauros, outros répteis da antiguidade, crocodilianos e aves contemporâneas – abrangendo 252 milhões de anos.

Os resultados ofereceram mais detalhes do que os paleontólogos esperavam. Ao identificar padrões nas estruturas dos olhos e ouvidos internos dos animais, os investigadores conseguiram recolher novas informações sobre o que os dinossauros conseguiam ver e para que tipo de movimento os seus ouvidos internos estavam sintonizados. Isto fornece outra forma de acompanhar a evolução do voo nos dinossauros e, consequentemente, nos seus descendentes modernos: as aves.

Para além disso, os resultados de ambos os estudos oferecem pistas extremamente raras de como os dinossauros podem ter soado. A vocalização dos dinossauros é notoriamente difícil de reconstruir. Os órgãos que produziam som nos seus corpos geralmente deterioraram-se logo após a morte, e havia relativamente poucas espécies com características ósseas relacionadas com som. Mas a anatomia do ouvido interno de um dinossauro oferece alguns detalhes sobre o que os animais conseguiam ouvir e, portanto, os sons que conseguiam produzir.

“Sinceramente, nunca pensei que iríamos tentar chegar aos ruídos dos dinossauros”, diz Bhart-Anjan.

Crânio projetado para voar

Para a investigação, Bhart-Anjan e a sua equipa examinaram digitalizações de uma vasta gama de espécies, incluindo terópodes como o Velociraptor e um animal com braços pequenos chamado Shuvuuia; e répteis não-dinossauros como pterossauros; aves dentadas extintas como a Hesperornis; e pássaros e crocodilos vivos para fins de comparação.

Quando os paleontólogos analisaram as imagens de dinossauros com garras em forma de foice, chamados Troodontidae, que prosperaram durante o período Cretáceo, entre há 145 e 66 milhões de anos, descobriram que estes dinossauros tinham ouvidos internos semelhantes aos das primeiras aves voadoras do período Jurássico anterior, que começou há 201 milhões de anos. Foi uma surpresa, dado que a maioria dos Troodontidae de que há conhecimento eram dinossauros terrestres que não voavam.

Mas as semelhanças no ouvido interno revelaram uma característica evolutiva que era necessária para as criaturas que voam, levantando novas questões sobre a forma como o voo evoluiu.

Bhart-Anjan especula que os Troodontidae, que eram aproximadamente do tamanho de perus, herdaram ouvidos adequados para voar de um antepassado comum com os pássaros – talvez um dinossauro voador, semelhante às espécies emplumadas como a Anchiornis, que viveram há 165 milhões de anos. Um ouvido interno adaptado para os movimentos complexos de voo, que ajudava os animais a equilibrarem-se no ar, podia ter outros usos no solo.

“Eu acredito realmente que os próprios dinossauros que não voavam e que eram intimamente relacionados com os pássaros estavam a mover-se de formas complexas”, diz Bhart-Anjan, como subir às árvores ou escalar encostas mais íngremes. Nos dinossauros intimamente relacionados com aves, estes comportamentos podem ter ajudado o ouvido interno a desenvolver-se de uma forma que permitisse o voo – uma atividade que requer movimentos e um controlo complexo dos membros.

Predadores noturnos

Contudo, nem todos os dinossauros parecidos com aves se moviam como os seus parentes aviários. Os investigadores descobriram que alguns dinossauros moviam-se e provavelmente caçavam de formas que colidem com as expetativas paleontológicas.

Por exemplo, o Shuvuuia, o referido dinossauro do tamanho de um peru, é um mistério de longa data para os paleontólogos. Conhecido pelos seus braços curtos com garras enormes e maxilares desdentados ou quase sem dentes, este género pertence a um grupo de terópodes bípedes chamados Alvarezsauroidea. Bhart-Anjan e os seus colegas ficaram surpreendidos quando descobriram que o Shuvuuia tinha um ouvido interno semelhante ao de animais de quatro patas de locomoção relativamente simples.

O segundo estudo publicado na Science pode oferecer uma visão mais aprofundada sobre o estranho ouvido interno do Shuvuuia. Este estudo observou os ouvidos internos e os olhos dos dinossauros para obter uma noção sobre o comportamento destes animais extintos.

“Os estudos complementam-se”, diz Lars Schmitz, autor do segundo estudo e biólogo do Museu de História Natural do Condado de Los Angeles – “e juntos indicam que o Shuvuuia era realmente um dinossauro estranho.”

O Shuvuuia tinha longos canais auditivos internos, que ampliavam o alcance da audição do dinossauro. Lars e os seus colegas propõem que este dinossauro tinha uma excelente audição, comparável à capacidade auditiva das corujas da atualidade. Esta audição apurada, combinada com os olhos grandes do Shuvuuia, sugere que era um dinossauro ativo durante a noite.

Não se sabe exatamente o que o Shuvuuia caçava – talvez pequenos mamíferos ou insetos sociais como formigas. Mas Lars sublinha que há muitos motivos pelos quais um dinossauro pode ter evoluído para preferir a noite. “O tamanho do corpo, estilo de alimentação, clima, competição, tudo isso importa”, diz Lars.

Dinossauro canoro

As novas análises também oferecem uma compreensão mais aprofundada sobre a forma como estes animais podem ter comunicado uns com os outros. Os investigadores descobriram que os antepassados e os primeiros parentes dos dinossauros desenvolveram uma região mais longa do ouvido interno chamada cóclea, que está associada à audição de sons de alta frequência.

A razão mais provável, de acordo com os paleontólogos, é a de que esta adaptação permitiu aos animais adultos ouvirem os chilrear das suas crias, semelhante aos comportamentos dos jacarés e crocodilos da atualidade. As aves canoras de hoje, portanto, conseguem rastrear as suas aptidões vocais aos sons que os répteis minúsculos fizeram quando eclodiram há mais de 200 milhões de anos.

“Nós sugerimos cautelosamente que o canto das aves modernas, em toda a sua glória, é uma retenção nos adultos do agudo chilrear juvenil”, diz Bhart-Anjan.

Esta riqueza de informações sobre o comportamento dos dinossauros, recolhida através do exame de crânios fossilizados, representa as tecnologias de rápido progresso que estão a ser usadas para estudar o passado pré-histórico.

“Penso que a disponibilidade de técnicas modernas de imagem e visualização é um grande fator”, diz Lars, acrescentando que as descobertas sobre os sistemas sensoriais dos animais modernos também podem ajudar os paleontólogos a examinar e a compreender melhor a anatomia e o comportamento de espécies extintas há muito tempo, o que significa que, ao mesmo tempo que os animais vivos nos ensinam sobre os dinossauros, os dinossauros também estão a mudar a forma como olhamos para as criaturas que nos rodeiam.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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