Crianças nascidas de sobreviventes de Chernobyl não têm mais mutações genéticas

O maior e mais avançado estudo deste tipo não se limita a atualizar os resultados anteriores, fornece também novos detalhes sobre como as consequências do desastre provocaram determinados tipos de cancro.

Publicado 4/05/2021, 16:39 WEST
Chernobyl

No Centro da Tiroide em Minsk, na Bielorrússia, os pacientes recebem tratamento para os efeitos destrutivos da radiação na glândula tiroide após terem sido expostos às partículas radioativas do acidente nuclear de Chernobyl em 1986.

Fotografia de Gerd Ludwig, Nat Geo Image Collection

Na manhã de 26 de abril de 1986, onde atualmente fica o norte da Ucrânia, um reator numa central nuclear explodiu e ardeu, provocando aquele que se tornaria no acidente nuclear mais mortífero da história. O incêndio infernal expeliu imensas nuvens de precipitação radioativa que entraram nos pulmões das pessoas e que se estabeleceram nas casas, campos e pastagens de gado e infiltraram-se nos seus alimentos. Leite, salame e ovos tornaram-se, de acordo com as palavras de um engenheiro nuclear, “num subproduto radioativo”.

Nos anos que se seguiram, os investigadores monitorizaram a saúde das populações que viveram o acidente de Chernobyl, desde as pessoas que viviam nas cidades vizinhas aos “liquidadores” que limparam e construíram um enorme sarcófago de betão sobre o local. Quase 35 anos depois, uma equipa internacional fez uma extensa análise sobre os efeitos genéticos do desastre – e os dois estudos resultantes encontraram novos detalhes tranquilizadores.

Dissipando os receios de longa data sobre como o desastre poderia afetar as futuras gerações, o maior estudo deste tipo alguma vez realizado – publicado no dia 22 de abril na revista Science – não encontrou evidências de que os pais expostos à radiação de Chernobyl transmitiram quaisquer mutações excessivas às crianças concebidas após a exposição. Os investigadores esperam que estas descobertas beneficiem outras populações afetadas por acidentes nucleares, como as pessoas deslocadas pelo colapso da central nuclear japonesa de Fukushima Daiichi em 2011.

“Se houver uma mutação nociva, será rara. Não podemos dizer que não vai acontecer, mas não o encaramos como uma crise comum de saúde pública”, diz o autor de ambos os estudos, Stephen Chanock, diretor da Divisão de Epidemiologia e Genética do Instituto Nacional do Cancro dos EUA. “Pensamos que [estas descobertas] devem ser reconfortantes.”

Pessoas conhecidas pelo nome de liquidadores ajudaram a construir um “sarcófago” de aço e betão para conter os restos do reator que provocou o acidente de Chernobyl. As autoridades atualizaram esta construção cerca de 30 anos depois, com um enorme arco de contenção de aço denominado Novo Confinamento Seguro.

Fotografia de Mike Hettwerr

“Embora o artigo... não possa excluir completamente que esses efeitos podem acontecer, parece óbvio a partir deste estudo que os riscos são substancialmente menores do que se pensava”, diz Robert Ullrich, vice-presidente da Fundação de Pesquisa de Efeitos de Radiação, uma cooperação EUA-Japão sediada em Hiroshima e Nagasaki. Robert Ullrich não participou nos estudos. “Se estes resultados puderem ser confirmados, creio que seriam garantidas mudanças substanciais nas atuais estimativas de risco.”

O outro estudo da equipa, também publicado na Science, examina a relação entre a precipitação radioativa de Chernobyl e centenas de casos de cancro da tiroide entre as pessoas que foram expostas. O estudo fornece novos detalhes sobre a forma como esses cancros surgiram – mas os investigadores também descobriram que os cancros provocados pela radiação não têm quaisquer “biomarcadores” exclusivos que os diferenciem.

Ambos os artigos sublinham que os avanços modernos no estudo do ADN melhoraram o estudo do cancro – e a importância de se estudar continuadamente a forma como a radiação pode afetar a saúde humana.

“Os dois estudos representam marcos críticos na avaliação dos efeitos da radiação em humanos em resposta ao acidente de Chernobyl”, escreve por email Shaheen Dewji, física de radioterapia da Universidade Texas A&M que não participou no estudo.

Durante décadas, os investigadores estudaram os sobreviventes dos bombardeamentos atómicos de 1945 em Hiroshima e Nagasaki para determinar as ligações entre a radiação e os riscos de saúde a longo prazo. Mas esses desastres representaram grandes doses de radiação absorvidas num período de tempo muito curto. Por outro lado, Chernobyl expôs as populações a doses mais baixas de radiação durante períodos de tempo ligeiramente mais longos – um regime que não tinha sido bem estudado, sobretudo em grandes escalas e com novas técnicas de ADN.

Para compreender os riscos que estes níveis de radiação representam, os cientistas apoiaram-se fortemente nos estudos feitos em laboratório com ratos. Alguns estudos genéticos anteriores de pessoas afetadas por Chernobyl afirmaram ter encontrado indícios de mutações hereditárias, nomeadamente um estudo de 1996 que encontrou alterações excessivas nos “minissatélites” das crianças: trechos de ADN sujeitos a mutações repetitivas que não codificam proteínas.

Os minissatélites examinados no estudo de 1996 não têm vínculos claros com resultados na saúde. As revisões posteriores na literatura científica descobriram que, se os pais irradiados transmitissem as mutações aos seus filhos, os riscos para a saúde seriam baixos. Os novos estudos recrutaram mais pessoas do que os estudos anteriores de Chernobyl e, graças à tecnologia moderna, conseguiram examinar mais profundamente o ADN dos participantes.

Yuri Dubrova, geneticista da Universidade de Leicester e o autor principal do estudo de 1996, disse por email que embora sejam necessárias mais investigações sobre espermatozoides e óvulos humanos, “os autores [dos novos estudos] fizeram um excelente trabalho: com um tamanho muito impressionante e uma cobertura enorme dos genomas”.

Sem excesso de mutações na próxima geração

De 2014 a 2018, uma equipa liderada por Meredith Yeager, investigadora do Instituto Nacional do Cancro dos EUA, sequenciou os genomas de 130 crianças que foram concebidas após o acidente e nascidas entre 1987 e 2002, bem como os genomas dos pais das crianças. O estudo concentrou-se em famílias onde pelo menos um dos pais estava a menos de 70 quilómetros de Chernobyl ou trabalhou como “liquidador” a limpar o local.

Esta roda gigante em Pripyat, na Ucrânia, estava agendada para ser inaugurada um mês após a explosão da central; e nunca foi usada.

Fotografia de Mike Hettwerr

A equipa de Meredith também usou dados antigos para reconstruir meticulosamente a dose de radiação que cada um dos pais recebeu. Por exemplo, entre os pais presentes no estudo, as suas gónadas absorveram uma dose média de radiação de 365 miligrays, cerca de cem vezes mais do que receberiam numa radiografia à pélvis.

Para testar se a radiação tinha afetado o ADN das crianças, os investigadores rastrearam novamente as mutações, ou pequenas variações no ADN de uma criança que não estão presentes em nenhum dos seus pais biológicos. Estes tipos de mutações acontecem naturalmente, uma vez que a maquinaria celular que copia o nosso ADN comete erros ocasionais, à medida que as nossas células se dividem – incluindo aquelas que produzem espermatozoides e óvulos. Em média, cada um de nós tem entre 50 e cem destas mutações aleatórias nos nossos próprios genomas e que distinguem o nosso ADN do dos nossos pais.

Em princípio, se a radiação tivesse um efeito, os investigadores esperariam ver mais mutações em crianças cujos pais foram submetidos a doses mais elevadas de radiação. Mas quando Meredith e os seus colegas analisaram o ADN das famílias, não encontraram esta relação. Em vez disso, o fator que mais influencia o número de mutações é a idade do pai.

Retrato detalhado do cancro da tiroide

Os estudos também fornecem uma visão aprofundada de como a radiação da precipitação radioativa de Chernobyl provocou cancro na tiroide, uma glândula em forma de borboleta que desempenha um papel crítico no metabolismo humano. O cancro da tiroide é altamente tratável, com uma taxa de sobrevivência superior a 90%. Nos primeiros 20 anos após Chernobyl, muito poucas pessoas morreram de cancro da tiroide associado à precipitação radioativa.

As investigações anteriores descobriram que as pessoas expostas à precipitação radioativa de Chernobyl tinham mais risco de cancro papilar da tiroide, sobretudo entre as pessoas que eram crianças na época. Isto porque a precipitação radioativa incluía iodo-131, um tipo de iodo radioativo, que entrou na cadeia de abastecimento local de alimentos após se estabelecer nos campos e pastagens de gado. Quando as pessoas ingeriam leite e verduras contaminados, os seus corpos absorviam o iodo-131 e acumulavam-no na tiroide. A radiação que esse iodo-131 libertou danificou o ADN das células da tiroide.

Agora, graças aos avanços nas técnicas genéticas, os investigadores podem usar o conjunto de dados de Chernobyl para começar “a descobrir como é que um cancerígeno provoca realmente cancro”, diz Lindsay Morton, epidemiologista do Instituto Nacional do Cancro dos EUA, autora principal do estudo.

Camas enferrujadas estão abandonadas no interior de uma escola em Pripyat, na Ucrânia.

Fotografia de Mike Hettwerr

Lindsay Morton e os seus colegas estudaram amostras de tecido de 440 ucranianos diagnosticados com cancro da tiroide, 359 dos quais estiveram expostos à radiação de Chernobyl. A maioria era do sexo feminino e vivia em Kiev, capital da Ucrânia, durante o incidente de Chernobyl. E também eram jovens: em média, tinham cerca de sete anos na época da exposição e 28 quando foram diagnosticadas com cancro.

A equipa de Lindsay também sabia qual era a quantidade de radiação que a tiroide destes indivíduos tinha absorvido. Em 1986, os investigadores mediram diretamente os níveis de radioatividade na tiroide de 53 pessoas. Outras pessoas foram entrevistadas sobre onde viviam e o que comeram na época do acidente de Chernobyl, permitindo aos investigadores estimar as dosagens de radiação que provavelmente absorveram.

“Este estudo representa a primeira vez em que associamos estas imagens moleculares em grande escala com dados de exposição muito detalhados”, diz Lindsay.

À medida que Lindsay e a sua equipa mergulhavam nos dados, encontravam sinais claros dos efeitos da radiação no ADN. Quanto mais alta era a dosagem de radiação de uma pessoa, mais altas eram as probabilidades de as suas células da tiroide apresentarem um tipo de mutação chamada quebra de fita dupla de ADN. Os investigadores também descobriram que quanto mais jovem uma pessoa era quando exposta à radiação, mais pronunciadas se tornavam as alterações. Por exemplo, quanto mais alta era a dosagem de radiação numa pessoa, as probabilidades de os seus tumores não terem pequenas secções de ADN eram maiores.

A equipa de Lindsay também observou um excesso de eventos de “fusão génica”: mutações nas quais as fitas de ADN sofreram quebras completas e, conforme a célula tentava reparar os danos, as peças erradas eram juntadas de novo. Estes tipos de mutações também podem acontecer em casos “espontâneos” de cancro da tiroide, mas geralmente são mais raros.

“É como se a radiação tivesse empilhado um baralho de cartas”, diz Stephen Chanock, do Instituto Nacional do Cancro dos EUA. No entanto, a precipitação radioativa não introduziu quaisquer cartas novas. Embora Lindsay e os seus colegas tenham investigado tudo a fundo, não encontraram uma “assinatura” única de radiação em como as células cancerígenas tenham expressado os seus genes ou que os tenham etiquetado quimicamente.

Se os cancros tiverem essa assinatura, então deve estar presente apenas nos estágios iniciais do cancro, de acordo com Lindsay e Stephen. Assim que acontecem as principais mutações que levam ao cancro, esses genes assumem o controlo bioquimicamente – eliminando todos os cartões de visita da radiação como uma onda a destruir um minúsculo castelo de areia. “É um tumor, e o tumor não se importa se teve radiação antes”, diz Stephen. “Tem, por assim dizer, uma mente evolucionária própria.”

Robert Ullrich acrescenta que as descobertas do estudo suportam fortemente as ideias que os cientistas tinham anteriormente sobre a forma como a radiação aumenta o risco de cancro. “Este foi realmente o primeiro estudo capaz de caracterizar de forma abrangente os cancros relacionados com radiação”, diz Robert.

Estudos sobre os sobreviventes de Chernobyl devem continuar

Os estudos devem informar os cientistas sobre os riscos gerais que a radiação ionizante representa para a saúde, sobretudo entre as populações afetadas por acidentes nucleares, como os evacuados do incidente de 2011 em Fukushima. Stephen espera que os resultados tranquilizem as pessoas que foram deslocadas devido a Fukushima, que libertou um décimo da radiação de Chernobyl – e que, em teoria, representa um risco ainda mais pequeno de mutações hereditárias.

Mas tanto os autores do estudo como especialistas externos concordam que há mais trabalho para fazer, especialmente no rastreio dos efeitos que a radiação de Chernobyl tem na saúde durante as próximas décadas.

“Existem poucos estudos sobre pessoas expostas a radiação em idades jovens e que tenham dados de acompanhamento até à idade adulta”, diz Eric Grant, chefe adjunto de investigação na Fundação de Pesquisa de Efeitos de Radiação no Japão. “Os sobreviventes da bomba atómica são uma dessas coortes, [e] a coorte de Chernobyl será outra com esforços contínuos de acompanhamento.”

Evgenia Ostroumova, epidemiologista da Agência Internacional de Pesquisa do Cancro em Lyon, França, enfatiza que a investigação sobre Chernobyl continua a precisar de financiamento, sobretudo para se aprender mais sobre as consequências que as dosagens baixas de radiação têm para a saúde – consequências que só mais tempo e diligência irão trazer ao de cima.

“Para obtermos uma avaliação robusta e abrangente dos efeitos de Chernobyl na saúde e não perdermos informações científicas valiosas, as partes interessadas não podem agir individualmente”, escreve Evgenia por email. “Precisamos de consolidar os nossos esforços e agir agora, sem mais demoras.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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