Novas espécies de mosca-formiga descobertas na Península Ibérica

Estudante da FCUL descobre quatro novas espécies de moscas-formiga, sendo que uma delas apenas existe em Portugal. A espécie tinha sido coletada uma única vez, há mais de 100 anos.

Publicado 7/05/2021, 11:35 WEST
A Tachydromia stenoptera apenas existe em Portugal.

Tachydromia stenoptera apenas existe em Portugal.

Fotografia de Ana Rita Gonçalves

No âmbito da investigação para a realização do mestrado em Biologia da Conservação, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), Ana Rita Gonçalves reescreveu a morfologia de todas as moscas-formiga conhecidas da Península Ibérica e de Itália.

Num total de dez espécies, quatro demonstraram-se novidade para a ciência, sendo elas a Tachydromia ebejeri, comum em Portugal e Espanha, a Tachydromia stenoptera, a Tachydromia nigrohirta e a Tachydromia cantabrica, ambas presentes em Espanha.

As moscas-formiga são moscas pertencentes ao género Tachydromia, com diminutas dimensões de cerca de dois milímetros. Habitam a manta morta de bosques e não possuem asas. Inicialmente, podem ser confundidas com formigas, não apenas sob o aspeto morfológico, como também pelo seu comportamento.

As moscas-formiga descritas pela estudante da FCUL.

Fotografia de Ana Rita Gonçalves

Das quatro novas espécies, a Tachydromia stenoptera apenas existe em Portugal, numa área restrita da Serra da Estrela e da Serra da Malcata, em zonas de floresta de folha caduca ou marcescente, sobretudo em carvalhais. Encontram-se frequentemente junto a formigas, mas estas tendem a ignorá-las.

A investigação colocou novas espécies no Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal

A investigação de Ana Rita Gonçalves, primeira autora do artigo, contou também com a participação de Patrick Grootaert, Rui Andrade, Octávio S. Paulo e Ximo Mengual. O trabalho resultou numa monografia, publicada no European Journal of Taxonomy.

Mediante os dados recolhidos, os cientistas envolvidos avaliaram o estado de conservação da Tachydromia lusitânica para o Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal e, em seguida, prevê-se a avaliação de outras moscas-formigas.

As moscas-formiga, das quais apenas se conhecia a localidade em que os únicos espécimes conhecidos tinham sido coletados pela primeira e única vez, há mais de cem anos, foram estudadas a diversos níveis.

As moscas-formiga têm asas, mas não voam

Entre outras características interessantes, verificou-se que os machos das moscas-formiga têm asas reduzidas a pequenos segmentos tubulares com um lobo na extremidade apical, parecendo uma pequena bandeira.

Em algumas espécies, este tipo de asa é utilizado durante a cópula, em que o macho se abana em frente aos olhos da fêmea, de modo a mantê-la entretida e evitando que esta escape. Estas asas acabam por ter uma função sinalizadora.

Com base nos dados moleculares, reconstruiram-se as relações filogenéticas entre todas as moscas-formiga, resultando na fundamentação da descrição destas novas espécies e no entendimento de que a redução das asas não tem importância taxonómica.

No decorrer da investigação, Ana Rita Gonçalves estudou ainda a forma como ocorre a cópula em espécies com asas diferentes ou sem asas. Concluiu, então, que na espécie Tachydromia iberica (áptera), o macho utiliza as patas dianteiras, pretas e amarelas, com a mesma finalidade das asas sinalizadoras, diante as fêmeas.

No caso da Tachydromia semiaptera, o macho também tem as asas reduzidas a uma porção algo tubular com um lobo similar a uma bandeira na extremidade, ainda que menos rígidas do que as restantes espécies. As patas dianteiras da T. semiaptera são peculiares por serem distintamente infladas, negras e amarelas.

Assim, a investigadora observou que o macho não utiliza de todo as suas asas como sinalizadoras durante a cópulas, mas sim as patas dianteiras, tal como a Tachydromia iberica. Verifica-se que, nas moscas-formiga, há vários tipos de redução de asas, desde a sua completa ausência, a asas que são minúsculas escamas ou à existência de asas muito reduzidas com o lobo apical.

No entanto, é interessante verificar que além do processo de redução das asas, comum entre insetos que vivem na mata morta, existe também uma modificação com importância sexual. Apesar de serem moscas, não têm asas funcionais.

A evolução da espécie parece relacionar-se com o seu habitat

O trabalho desenvolvido ajudou a fundamentar a descrição das novas espécies. Foi a primeira vez que todas as espécies da Península Ibérica e italianas foram sequenciadas e, a sua relação filogenética, bem como as relações evolutivas entre todas as espécies semelhantes, foram analisadas.

Uma hipótese sobre a evolução das moscas-formiga pode ser proposta com base nas relações filogenéticas recuperadas e no conhecimento sobre o comportamento e habitat. A maioria das populações de Tachydromia, semelhante à formiga ibérica, existem em paisagens altamente fragmentadas devido à sua ocorrência em habitats florestais temperados e húmidos.

Tal verificação é especialmente verdadeira para as espécies com populações na metade sul da Península Ibérica, onde estão circunscritas a pequenas ilhas bioclimáticas submediterrânicas, rodeadas por um ambiente seco e quente.

Os cientistas estimam, por fim, que as alterações climáticas, juntamente com a fragmentação do habitat, vão quase certamente colocar em perigo a conservação das espécies semelhantes às formigas ibéricas de Tachydromia.

Ana Rita Gonçalves encontra-se agora inscrita no programa doutoral de Entomologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, no Brasil, sujo projeto de doutoramento é focado no desenvolvimento de técnicas para acelerar a descrição taxonómica de forma eficiente e acessível de grupos megadiversos, com aplicação em dois géneros de moscas da família Hybotidae, Elaphropeza e Platypalpus.

O segundo objetivo da sua investigação, passa por estudar a evolução e biogeografia destes géneros, de modo a perceber quais os limites entre espécies e padrões de especiação ao longo de diferentes zonas biogeográficas.

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