Percorrer de forma interminável as redes sociais pode literalmente deixá-lo enjoado

Outrora um flagelo dos dispositivos de realidade virtual, o ciber-enjoo parece estar a aumentar à medida que a pandemia leva os nossos corpos aos seus limites digitais.

Publicado 20/05/2021, 19:14
ciber-enjoo de VR

Os investigadores descobriram que os dispositivos de realidade virtual (VR) podem provocar ciber-enjoo, que se manifesta através de tonturas e náuseas semelhantes ao enjoo. À medida que o tempo passado em frente aos dispositivos digitais aumenta, desde portáteis a smartphones, alguns utilizadores falam agora em sintomas mesmo fora de um ambiente VR.

Fotografia de Victor de Schwanberg, Science Photo Library (ILUSTRAÇÃO)

Quando uma nuvem escura de cinzas vinda dos incêndios florestais cobriu a área metropolitana de Seattle, Jack Riewe estava entre os milhões de pessoas que repentinamente ficaram retidas em casa. Estávamos em setembro de 2020 e, sem acesso ao ar livre durante a pandemia, tornou-se ainda mais difícil para este escritor de 27 anos conseguir ver outras pessoas. Jack só conseguia preencher os seus dias alternando entre trabalhar remotamente no computador, ver televisão ou percorrer as infindáveis atualizações sobre os incêndios no telemóvel.

“Fui obrigado a ficar fechado no meu apartamento quente sem qualquer escapatória, exceto a loucura que estava a acontecer no Twitter”, diz Jack.

Durante uma semana, Jack viu publicação atrás de publicação até que se começou a sentir “pesado, tonto e com náuseas”. Dadas as circunstâncias, Jack atribuiu os sintomas à qualidade do ar, e até se interrogou se tinha contraído coronavírus. Mas as causas eram algo mais insidiosas: o custo físico de viver quase inteiramente num mundo virtual.

A pandemia forçou a maioria das pessoas a estar online com taxas incomparáveis. Foi onde trabalhámos, tivemos aulas, participámos em festas e nos perdemos nos vorazes ciclos de notícias de 2020. Mas os nossos corpos não foram projetados para existir primariamente num espaço virtual como este e, à medida que o nosso tempo digital coletivo aumenta, algo chamado “ciber-enjoo” parece estar a contaminar a população em geral.

Caracterizado por tonturas e náuseas, o ciber-enjoo tem sido estudado principalmente no contexto das tecnologias de nicho agressivamente imersivas, como por exemplo os dispositivos de realidade virtual. Em 2011, 30 a 80 por cento dos utilizadores de realidade virtual (VR) tinham probabilidades de sentir ciber-enjoo, embora as melhorias no hardware de dispositivos VR tenha estreitado esta faixa em 2016 para os 25 a 60 por cento.

Agora, parece que até o movimento de procurar um filme na Netflix ou percorrer um feed de notícias nas redes sociais também tem o poder de provocar ciber-enjoo em circunstâncias excecionais: o dia inteiro, todos os dias. (Descubra a ‘Fadiga Zoom’ – videochamadas em excesso e os efeitos no cérebro.)

“Qualquer tipo de noção de movimento vai provocar ciber-enjoo”, diz Kay Stanney, CEO e fundadora da Design Interactive, uma pequena empresa que pesquisa integração de sistemas humanos. “O ciber-enjoo devido a realidade virtual ou realidade aumentada é apenas uma espécie de parente de outras formas de doenças relacionadas com a noção de movimento, o chamado scrolling seria outra forma.”

O que é velho é novamente novo

O ciber-enjoo é apenas o neologismo mais recente para descrever a luta contínua entre o corpo humano e um mundo que transformamos continuamente com a tecnologia. O ciber-enjoo é o enjoo espacial, o enjoo de andar de carro.

Os relatos de doenças provocadas por perceção incompatível datam de 800 a.C., quando os antigos gregos escreveram sobre uma “praga no mar”. Os navios, apesar do seu papel importante no comércio, na guerra e na migração, eram tão intoleráveis para alguns passageiros que a náusea não era apenas um sintoma de enjoo, mas sim a única palavra que existia para o descrever. A palavra “náusea” vem da palavra grega para navio: naus.

Por volta do ano 300 d.C., os antigos chineses começaram a documentar náuseas provocadas por todos os tipos de coisas, com palavras específicas para descrever cada experiência distinta. Viajar de carroça inspirou a palavra zhuche, ou influência de carroça, enquanto que um navio provocava zhuchuan, ou influência de barco.

Os cientistas compreendem agora que a chave para todas as formas de enjoo é o sistema vestibular: a combinação entre os órgãos sensoriais no ouvido interno e no cérebro que controla o equilíbrio e a orientação espacial. Se este sistema perceber movimento quando o sistema visual não percebe, a dissonância pode fazer com que vomitemos ou, pelo menos, sintamos tonturas e desequilíbrio.

“A palavra “náusea” vem da palavra grega para navio: naus.”

No século XXI, tudo isto está invertido no espaço virtual. Ao invés de nos movermos enquanto sentimos que estamos parados – como acontece quando estamos num barco, enquanto olhamos para o horizonte imóvel – desta vez continuamos a perceber o movimento. E isso cria um enigma semelhante para o corpo.

“Clinicamente, não há absolutamente qualquer diferença entre ambas as condições”, diz Eugene Nalivaiko, professor adjunto na Universidade de Newcastle, na Austrália, que estudou extensivamente o enjoo em geral e o ciber-enjoo. “Têm os mesmos sintomas, as mesmas sensações, é tudo igual.”

O tempo não está do nosso lado

Sarah Colley, de 30 anos, que vive em Asheville, na Carolina do Norte, é profissional de marketing e reparou nos piores sintomas de ciber-enjoo em março de 2021. O tempo que Sarah passava em frente ao ecrã aumentou durante um período de trabalho complicado, quando durante vários dias ficou 10 a 12 horas consecutivas no computador. Para além de tonturas e náuseas, Sarah diz que o próprio ecrã parecia estar a saltar, dificultando a concentração, e ela sentiu-se assoberbada por uma sensação de ansiedade.

“Se eu estiver a olhar para um ecrã e não houver movimento, isso não me incomoda. Mas se estiver a fazer scrolling, é quando se torna realmente num problema”, diz Sarah. “Mesmo quando fecho os olhos, sinto que estou a andar às voltas.” Após o incidente que sentiu em março, Sarah tirou quatro dias de folga para recuperar – um luxo que podia não ter conseguido num emprego que não lhe oferecesse os mesmos benefícios.

Para Sarah, o aumento do trabalho à distância exacerbou os sintomas ligeiros de ciber-enjoo que já sentia periodicamente antes da pandemia. Mas, para a maioria das pessoas, passar mais tempo online é uma faceta completamente nova, pelo que ainda não há muitas investigações disponíveis sobre este tema em específico. A maior parte da nossa compreensão vem das investigações sobre realidade virtual.

Um dos gatilhos do ciber-enjoo parece ser a quantidade de tempo que passamos imersos no mundo digital, algo que Kay Stanney diz acompanhar com a sua investigação sobre dispositivos de realidade virtual, prismas, ecrãs 3D e ecrãs 2D. Curiosamente, esta regra pode não ser verdadeira para a realidade aumentada. No dia anterior a conversarmos, Kay tinha acabado de analisar os dados do seu novo estudo, que ainda não foi publicado, e tinha descoberto um padrão surpreendente.

“Antes deste novo estudo, eu teria absolutamente dito que sim: quanto mais tempo passamos nesta situação, mais perturbados ficamos. Mas a realidade aumentada está a agir de forma diferente da realidade virtual. Quanto mais tempo estamos lá, melhor nos sentimos, e isso é muito estranho”, diz Kay. “Ainda estou a tentar descobrir exatamente o que isto significa.”

Porém, Kay diz que o tempo não é nosso amigo no espaço digital. Alguns minutos a percorrer o Instagram, a alternar entre janelas num portátil ou a visitar a Netflix para ver um programa em específico pode ser benigno, mas quando estas atividades se arrastam durante horas, como acontece durante os confinamentos, o movimento persistente no ecrã pode deixar-nos enjoados.

Kay também acredita que não é apenas o aumento do tempo passado em frente ao ecrã que está a provocar este fenómeno com os dispositivos do nosso quotidiano. Antes da pandemia, os humanos experimentavam movimentos mais regulares em muitas direções, quando voávamos de avião e fazíamos viagens regulares de carro, comboio e metro. Mas, durante o último ano, muitas pessoas abrandaram realmente, apesar de sermos seres que caminham, ficam de pé, que se sentam e se deitam.

Esta mudança pode estar a tornar algumas pessoas menos resilientes a um tipo de movimento digital que outrora toleravam sem perceber que era uma sobrecarga nos seus sistemas. “Quando vemos esta divergência entre movimento visual e repouso – como acontece [agora] na maior parte do tempo – talvez isso dê lugar a uma divergência ainda mais profunda”, diz Kay.

Por exemplo, podemos pensar que estamos em paz deitados na cama à noite na escuridão serena, completamente imóveis, exceto pelo dedo que está a percorrer o Twitter. “Na verdade, ficar deitado na cama pode ser uma das piores coisas que se pode fazer”, diz Kay. É desta forma que o nosso sistema vestibular pode estar mais “relaxado”, e o movimento prolongado num ecrã torna-se extremamente difícil de assimilar.

Um dos fatores é a ausência de algo que as investigações sobre realidade aumentada chamam de “estruturas de descanso”, ou seja, paredes ou pisos reais à nossa volta que agem como sinais estabilizadores para o cérebro. Segurar um telefone a centímetros do nosso rosto no escuro imita as condições ambientais da realidade virtual – quando se removem as estruturas de descanso – e, portanto, pode ser igualmente difícil de tolerar durante longos períodos. Os cientistas ainda não têm evidências empíricas de que as estruturas de descanso ajudam os utilizadores a tolerar a realidade aumentada durante mais tempo do que a realidade virtual, mas Kay especula que pode ser esse o caso, e recomenda que se tente ajustar a utilização do telemóvel de acordo com a situação.

“Se o telefone [estiver] um pouco mais afastado, ou se estivermos numa sala iluminada, isso pode ajudar a diminuir alguns destes eventos adversos”, aconselha Kay.

Eugene Nalivaiko concorda que, para quem não consegue largar o telemóvel,  mudar o campo de visão, segurando o telefone de maneira diferente, pode ajudar, bem como fazer scroll mais lentamente para assumir o controlo da velocidade de fotogramas, outro dos fatores do movimento digital que pode induzir náuseas. A investigação de Eugene em modelos animais também sugere que permanecer refrescado pode prevenir o enjoo. Para Jack Riewe, ficar fechado num apartamento quente sem descanso pode ter estimulado os seus piores sintomas.

“Se pensarmos sobre o que as pessoas sentem durante um enjoo, trata-se de suor, da sensação de calor, da necessidade de ar fresco”, diz Eugene.

Dispositivos tóxicos

Embora o enjoo e o ciber-enjoo estejam bem documentados, há algo que continua a confundir os investigadores. Por que é que uma desconexão entre os sistemas vestibular e visual provoca sequer náuseas?

“Temos duas sensações de aversão. Temos dor e temos náusea”, diz Eugene. “Ambas estão presentes quando a Mãe Natureza quer que paremos o que estamos a fazer, mas não sabemos o que a náusea quer prevenir.”

A dor envia uma mensagem direta: odeia esta sensação? Pois bem, nunca mais coloque a mão no lume. Mas a náusea é mais gradual, matizada e imprevisível, sobretudo quando está ligada a uma atividade que não parece abertamente perigosa, como sair para velejar ou navegar num smartphone.

A hipótese sobre a qual existe mais consenso é a de que se trata de uma falha na ativação de um reflexo que evoluiu para nos manter a salvo de toxinas. O álcool, por exemplo, quando é bebido muito depressa ou em abundância, pode fazer parecer com que uma sala está a girar, mesmo que juntemos os pés firmemente no chão. O álcool também nos pode matar. Portanto, o corpo humano evoluiu para ligar o efeito estonteante a uma ameaça e para induzir a náusea, para ajudar a eliminar a toxina e manter-nos vivos.

Quando sentimos a mesma incompatibilidade vestibular e visual provocada por forças não ameaçadoras, como os smartphones, o nosso corpo pensa que estamos em perigo grave. É uma metáfora adequada para a toxicidade emocional que pode ser desencadeada quando passamos demasiado tempo online, ou seja, o ciber-enjoo pode acabar por ser tão eficaz quanto um antídoto para um veneno real.

Quando Jack Riewe finalmente descobriu o que era ciber-enjoo, “foi um momento de conquista”, diz Jack. “Eu desliguei imediatamente o telefone e comecei a ler o meu livro. Passei da necessidade de vomitar para adormecer tranquilamente.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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