Regressar à ‘normalidade’ pode parecer assustador. Descubra porquê.

Depois de um ano de ansiedade, raiva e desgaste, muitas pessoas estão a ter dificuldade em regressar aos comportamentos pré-pandemia. Os especialistas avaliam formas de lidar com o trauma.

Publicado 26/05/2021, 12:41
A sensação de desânimo ou aborrecimento que muitos de nós sentimos após 15 meses de pandemia ...

A sensação de desânimo ou aborrecimento que muitos de nós sentimos após 15 meses de pandemia é normal. Algumas pessoas podem até sentir aversão ao regresso à vida normal.

Fotografia de Jarod Lew

Os médicos estão a prever o que alguns peritos chamam de “quarta vaga” da pandemia de COVID-19. Os especialistas dizem que os impactos na saúde mental serão “profundos e de longo alcance”, provavelmente mais duradouros do que os impactos na saúde física e sobrecarregando os sistemas de saúde mental que já de si estão no limite.

À medida que as infeções na Índia e no Brasil aumentam, os números de casos nos EUA, Europa e em muitos outros lugares caíram acentuadamente e as restrições estão lentamente a ser levantadas. Mas, no mundo inteiro, muitas pessoas estão a sentir os efeitos psicológicos remanescentes do que tem sido uma experiência traumática coletiva.

“A pandemia produziu uma placa de Petri de fatores psicológicos que podem dar origem a problemas de saúde emocional: ansiedade, ‘névoa cerebral’, depressão e PSPT”, diz Luana Marques, psicóloga e professora da Escola de Medicina de Harvard. Os sintomas de fadiga, exaustão e esgotamento são comuns, e o stress pode ter efeitos duradouros na fisiologia e funções cerebrais.

O Relatório Mundial de Felicidade de 2021 revela que “quando a pandemia surgiu, houve um declínio enorme e imediato na saúde mental em muitos países de todo o mundo”. As investigações feitas anteriormente sobre desastres e pandemias mostram que a maioria das pessoas irá recuperar quando regressarmos ao escritório e à escola, quando passarmos tempo com amigos e familiares e perdermos o medo das infeções. No entanto, uma minoria considerável de pessoas pode vir a enfrentar novos problemas de saúde mental a longo prazo.

O custo na nossa saúde mental

Cerca de 15 meses de confinamento, solidão, videochamadas, tristeza, doença, monotonia, perda de emprego e dificuldades económicas provocaram “um aumento extraordinário na ansiedade e depressão”, diz Rebekah Levine Coley, psicóloga do Boston College. “O nível destes distúrbios... não tem precedentes.”

Durante os primeiros nove meses da pandemia, seis vezes mais adultos norte-americanos relataram problemas de saúde mental do que no início de 2019. Estes dados estão de acordo com as informações recolhidas pelo Gabinete de Censos dos EUA como parte da sondagem Household Pulse Survey, que está a quantificar os efeitos sociais e económicos do coronavírus nos lares americanos. Em fevereiro, dos quase 1.5 milhões de adultos norte-americanos que participaram nestas sondagens, 41.5% disseram ter sintomas de ansiedade ou depressão – dados que são semelhantes aos de outros países que monitorizam a saúde mental dos seus habitantes.

A ansiedade ou depressão manifestam-se de várias formas. Algumas pessoas não se conseguem concentrar, não conseguem produzir ou estão completamente exaustas. Muitas estão de luto devido à perda de entes queridos. Outras estão solitárias ou inseguras sobre o que podem fazer agora que foram vacinadas, ou receiam que uma variante anule os efeitos da vacina e as adoeça ou aos seus entes queridos.

Médicos e investigadores relatam que as pessoas dormem mal ou criam hábitos pouco saudáveis. Um estudo descobriu que o isolamento social agudo estimula desejos semelhantes à fome, levando algumas pessoas a comer mais e a ganhar peso; para algumas destas pessoas, a “quarentena 15” tornou-se na “quarentena 30”. Noutro estudo, 60% das pessoas disseram que consumiam álcool de forma mais excessiva.

A incapacidade de lidar com a situação gerou outras consequências mais nefastas. Em fevereiro, as crescentes taxas de suicídio no Japão levaram à nomeação de um “ministro da solidão”. O suicídio não disparou nos EUA ou na Europa, mas com muitas pessoas ainda em modo de sobrevivência, os sintomas traumáticos podem vir a manifestar-se mais tarde.

Em 2020, os EUA registaram um aumento acentuado noutras “mortes por desespero”. Os casos de overdose de medicamentos, sobretudo de fentanil e de outros opioides sintéticos, podem ter ultrapassado os 90.000, ao passo que em 2019 se tinham registado 70.630 casos. Embora os números tenham estado sempre a subir, este foi o maior aumento em duas décadas.

Grupos de alto risco para a saúde mental

Os confinamentos afetaram pessoas no mundo inteiro, mas as mais afetadas enquadram-se em algumas categorias, diz Barbara Sahakian, professora de neuropsicologia clínica da Universidade de Cambridge. Assim como algumas comunidades suportaram mais as disparidades de saúde da pandemia, os impactos na saúde mental também atingiram mais alguns grupos do que outros. Os jovens adultos, as mulheres, os pais de crianças mais pequenas, os profissionais de saúde menos instruídos na linha da frente, as comunidades negras e hispânicas, bem como as pessoas que já tinham problemas de saúde mental preexistentes estão a sofrer mais com toda esta situação.

No geral, a investigação de Barbara Sahakian revela que as pessoas que conseguiram manter ligações sociais fortes “mostraram muito menos propensão para cognições depressivas e negativas”.

A pressão financeira tem desempenhado um papel importante na saúde mental, com empregos perdidos, aumento da fome e algumas famílias a enfrentarem ordens de despejo quando as interdições forem levantadas. Mais de 2.3 milhões de mulheres saíram do mercado de trabalho, muitas delas incapazes de pagar uma creche para as crianças em idade pré-escolar. “Não interessa a forma como analisamos os dados”, diz Luana Marques, “a riqueza protege. Podemos ficar em casa, contratar alguém para ajudar, conseguimos sustentar a nossa família.”

Para as crianças que ficaram a estudar em casa durante longos períodos de tempo – sem relações com os colegas, sem um acompanhamento e refeições escolares – o custo na saúde mental tem sido catastrófico. “As salas das urgências e os hospitais estão agora cheios de crianças e famílias em crise”, diz Christina Gurnett, neurologista pediátrica do Hospital Infantil de St. Louis, no Missouri. Os sintomas destas crianças – desde distúrbios alimentares, perturbações no sono e até raiva, ansiedade, automutilação e agressão – não são invulgares, mas são agora mais prevalentes e graves. Um estudo de Harvard feito nos Estados Unidos com 224 crianças de idades entre os 7 e os 15 anos descobriu que cerca de 66% tinha sintomas de ansiedade e depressão clinicamente significativos – mais do dobro dos casos verificados em 2019.

As crianças mais pequenas, que algumas pessoas apelidaram de “bebés no bunker”, tiveram poucos contactos sociais durante um período crucial do seu desenvolvimento. Os adolescentes que normalmente estariam a testar a sua independência e aptidões sociais estão em casa com os pais.

Os trabalhadores na linha de frente foram particularmente atingidos, diz Barbara Sahakian, porque tiveram uma sobrecarga de trabalho enquanto temiam o contágio, uma sensação que foi agravada pela falta de equipamento de segurança, visto que testemunharam mortes sem precedentes durante mais de um ano.

Barbara também salienta que, devido às dificuldade de acesso a serviços e a um maior isolamento, a saúde mental também se deteriorou para muitas das pessoas que já tinham doenças preexistentes.

O impacto da COVID-19 no cérebro

As doenças infecciosas, incluindo a COVID-19, podem afetar o cérebro, alterando a função cognitiva e tomada de decisões, provocando problemas agudos e crónicos, diz Maura Boldrini, psiquiatra e neurocientista do Centro Médico Irving da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. “Vimos pessoas a chegar ao hospital com sintomas que se assemelham à depressão, com alucinações ou paranoia, que foram depois diagnosticadas com COVID”, diz Maura. Esta doença também tem provocado derrames maiores e menores.

O vírus faz com que o sistema imunitário acelere de forma excessiva, provocando inflamações a nível geral. Após recuperarem, algumas pessoas passam pelo que ficou conhecido por “COVID longa”. O interruptor da inflamação não desliga, semelhante a uma doença autoimune como o lúpus. A inflamação prolongada no cérebro afeta a comunicação entre os neurónios e pode matá-los.

Algumas pessoas ficam com problemas persistentes de memória e concentração, perdem o olfato e o paladar, sofrem de ansiedade, depressão e até psicose e convulsões. O vírus tem provocado mudanças na personalidade e no comportamento; e alguns pacientes cometeram suicídio. Dependendo dos sintomas, estes casos têm afetado entre 20 a 70 por cento dos pacientes. Quase um terço desenvolveu PSPT.

“Quanto tempo duram estes sintomas? Não sabemos”, diz Maura.

O cérebro e o stress

Os humanos estão programados para sobreviver. Quando estamos sob ameaça, o nosso “cérebro de lagarto” – a amígdala – reage, a adrenalina inunda a corrente sanguínea e estamos prontos para lutar, fugir ou congelar. Mas, ao contrário da maioria dos perigos, a pandemia ainda não terminou.

O medo reativo tornou-se num stress crónico, com os nossos corpos a ficarem carregados de cortisol e outras hormonas do stress que são tóxicas para o cérebro, potencialmente inibindo a produção de novos neurónios e desencadeando alterações que despoletam a depressão.

Neste estado, a amígdala emocionalmente reativa supera o córtex pré-frontal – a parte do cérebro encarregada das funções executivas e da tomada de decisões. Uma ressonância magnética do cérebro ilustra bem este cenário. Num paciente traumatizado, a amígdala brilha intensamente, enquanto o córtex pré-frontal fica mais escuro, indicando um funcionamento reduzido.

O córtex pré-frontal também nos ajuda a sobreviver – através do raciocínio e do planeamento, diz Judson Brewer, psiquiatra e neurocientista da Universidade Brown. Se não conseguimos lidar com a incerteza, começamos a ficar ansiosos. “Pense na ansiedade como se fosse um incêndio”, diz Judson. “Quando não conseguimos prever o futuro, ficamos ansiosos. Portanto, 2020 foi como se estivéssemos a atirar gasolina para a fogueira. Se tivermos propensão para nos preocuparmos, preocupamo-nos ainda mais, e sentimos como se estivéssemos sempre em perigo, ficamos acelerados de uma forma que é prejudicial.”

Algumas pessoas estão a sofrer de algo que os psicólogos Marcantonio Spada e Ana Nikčević apelidam de “síndrome de ansiedade COVID-19”. Estes sintomas são caracterizados por comportamentos de enfrentamento “que podem manter as pessoas presas num estado de ansiedade e medo contínuos”, com pessoas a ficarem com medo de sair de casa, a evitarem pessoas e lugares públicos e a preocuparem-se constantemente consigo próprias ou com outras pessoas devido ao vírus, diz Marcantonio.

Estes sintomas refletem outras condições, incluindo perturbação obsessivo-compulsiva e PSTP, e imitam as consequências psicológicas de presenciar uma guerra ou desastre, flagelos que perturbam sociedades e trazem grandes perdas. Passado um ano, diz Marcantonio, estes hábitos podem ser difíceis de abandonar. As pessoas que estão sob pressão financeira, que não têm apoios sociais ou que têm um histórico de problemas de saúde mental estão em maior risco.

Enquanto isso, existe um continuum de saúde mental que vai desde a prosperidade à depressão e ansiedade graves. Alguns de nós estamos presos algures no meio, numa espécie de limbo psicológico, um estado que o psicólogo Corey Keyes caracterizou em 2002 por “definhar”. O dicionário da Merriam-Webster define definhar como “ser ou tornar-se débil, fraco”, “viver num estado de depressão ou vitalidade decrescente”, “ficar desanimado”.

O desafio de regressar à vida normal

Com mais pessoas a voltar ao trabalho e às escolas, e empresas a reabrir, algumas pessoas estão a recuperar. Mas um número significativo não está e sente dificuldades de reintegração no quotidiano – em abril, 33% dos americanos relataram sintomas de saúde mental – mais de 80 milhões de pessoas. Noutra sondagem feita nos EUA, mais de metade dos pais expressou preocupação sobre os filhos.

Mas este é apenas um vislumbre da realidade; avaliar o número real de vítimas vai demorar anos. As investigações mostram que cerca de 50% das pessoas vai recuperar rapidamente, mas outras podem enfrentar desafios durante algum tempo. Luana Marques diz que uma década após os ataques terroristas do 11 de setembro de 2001, cerca de 12% dos primeiros socorristas ainda apresentam sintomas clínicos de PSPT. E três anos depois da recuperação da síndrome respiratória aguda grave (SARS), outro coronavírus, 25% dos sobreviventes ainda tinha PSPT.

Com 163 milhões de casos registados de COVID até meados de maio de 2021, e com milhares de milhões de pessoas afetadas pela pandemia no mundo inteiro, a onda de pessoas que podem vir a precisar de serviços de saúde mental pode na realidade ser um tsunami, diz Luana. “Nos EUA, estamos pelo menos no dobro do número de pessoas que precisam de apoio e não temos capacidade e, globalmente, 90% das pessoas que precisam de ajuda não a conseguem obter.”

Nos EUA, para lidar com esta crise, o Plano de Resgate Americano assinado em março alocou 4 mil milhões de dólares para os serviços de saúde mental e abuso de substâncias. O plano vai financiar um pouco de tudo, desde o tratamento e prevenção de overdoses à formação de profissionais de saúde e socorristas. Mas os especialistas afirmam que há uma grande escassez de profissionais de saúde mental, sobretudo para as crianças.

Ainda assim, a saúde mental continua a ser estigmatizada. “Acho que devíamos estar a falar sobre saúde cerebral, e não sobre saúde mental, para as pessoas poderem começar a mentalizar-se de que o cérebro é na verdade um órgão, como o coração”, diz Luana.

Para além do tratamento profissional, existem métodos bastante simples e comprovados para lidar com o stress. A meditação diária parece encolher a amígdala e engrossar o córtex pré-frontal. Estar em contacto com a natureza reduz os níveis de cortisol. Os exercícios físicos estimulam a resiliência emocional e, para algumas pessoas, podem ser tão eficazes quanto alguns tratamentos médicos. Comer bem e dormir cerca de sete horas por dia também é importante. A interação social é fundamental. Desligue-se das notícias e das redes sociais. Acompanhe regularmente os seus filhos para os ajudar a lidar com a situação. Há um programa gratuito disponível em mapmyhabit.com, desenvolvido por Judson Brewer, que ajuda as pessoas a acompanharem os seus hábitos de ansiedade – um primeiro passo para  mudar.

Luana Marques e outros especialistas sublinham a necessidade de uma campanha de saúde pública que ensine às pessoas a ciência básica do stress e como regular as emoções – algo que informe que, quando as pessoas sentem ansiedade, a amígdala é ativada e que há formas de acalmar o cérebro reativo e ativar o cérebro pensante.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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