Será que os tiranossauros viviam em grupos? Especialistas debatem novas pistas fósseis.

Um novo sítio fóssil revela um grupo de tiranossauros que morreram juntos, fornecendo novas evidências de que estes predadores se envolviam em alguma forma de comportamento social.

Por POR MICHAEL GRESHKO
Publicado 4/05/2021, 14:42
grupo de tiranossauros afogados

Uma representação artística de um grupo de tiranossauros afogados com um crocodiliano necrófago ao fundo.

Fotografia de VICTOR LESHYK (ILUSTRAÇÃO)

Em julho de 2014, investigadores que procuravam fósseis de tartarugas em terrenos públicos no sul do Utah encontraram indícios de um “assassino monstruoso”: o osso do tornozelo de um tiranossauro chamado Teratophoneus. Em poucas horas, os investigadores peneiraram a areia entre os zimbros e encontraram os restos mortais de vários Teratophoneus – pareciam ter morrido todos no mesmo lugar, ao mesmo tempo.

Os cientistas revelaram este sítio arqueológico ao mundo num estudo publicado na revista científica PeerJ, sugerindo que os tiranossauros se reuniam em grupos sociais. “O comportamento dos dinossauros, a ecologia dos dinossauros, provavelmente será sempre um pouco mais complexo do que pensamos”, diz o autor principal do estudo, Alan Titus, paleontólogo do Gabinete de Gestão de Terrenos dos EUA que trabalha no Monumento Nacional de Grand Staircase-Escalante, onde está localizado o sítio fóssil.

Um grupo de fósseis de tiranossauros foram encontrados juntos na “Pedreira Arco-íris e Unicórnios” do Monumento Nacional de Grand Staircase-Escalante. Um crânio da mesma espécie de tiranossauro, na imagem, foi encontrado  a cerca de três quilómetros a norte do local onde estava este grupo de animais.

Fotografia de ALAN TITUS, BLM

Alan Titus acredita que o local pode ser uma evidência de que os tiranossauros trabalhavam juntos enquanto caçadores de grupo que cooperavam. “Agora temos estes predadores gigantes terrestres com comportamentos de grupo, muito mais parecidos com uma alcateia de lobos e leões, [o que] é impressionante”, diz Alan.

Mas, como Alan e outros especialistas realçam, a verdadeira caça em grupo é rara entre os predadores vivos. E os comportamentos sociais entre predadores varia desde a mais ínfima tolerância para com outro indivíduo até ataques coordenados em grupo.

Os novos fósseis não são o primeiro exemplo de vários tiranossauros descobertos no mesmo lugar, mas uma reconstrução meticulosa da história geológica da área fornece fortes evidências de que morreram em grupo. A questão mais premente passa por saber o que estavam a fazer juntos.

Pedreira Arco-íris e Unicórnios

O sítio com 75 milhões de anos – chamado Pedreira Arco-íris e Unicórnios por um colega de Alan devido aos seus espécimes aparentemente incríveis – é o primeiro do seu género no sul dos EUA. No entanto, está longe de ser o único a sugerir que os tiranossauros se reuniam em grupos. Um sítio fóssil em Alberta, no Canadá, contém os corpos de 12 a 14 Albertosaurus que aparentemente se concentraram durante uma inundação. No Montana, uma área com cerca de metade de um campo de ténis contém os restos mortais de pelo menos três Daspletosaurus. E o local no Dakota do Sul onde foi encontrado o famoso fóssil de T. rex chamado Sue também continha restos mortais de outros T. rex.

As pegadas fósseis também contribuem para esta imagem. Em 2014, os cientistas anunciaram que algumas rochas na Colúmbia Britânica preservam pegadas de três tiranossauros que caminharam na mesma direção num curto espaço de tempo, se não ao mesmo tempo. Os investigadores argumentaram que o sítio podia indicar um comportamento social, sugerindo até um substantivo coletivo para um grupo de tiranossauros: um “terror”.

O novo estudo sobre o grupo de Teratophoneus examinou de perto os sedimentos no interior e em torno dos ossos. A equipa suspeita que os tiranossauros morreram juntos numa inundação sazonal. As suas carcaças foram depois levadas para um lago e enterradas em lama de grãos finos que entrou nos orifícios expostos dos ossos.

Mais tarde, o lago secou e, depois disso, um rio nas proximidades mudou de curso e fluiu sobre o local onde os tiranossauros tinham sido sepultados. A torrente de água agitou e desarticulou os esqueletos, enterrando novamente os ossos amontoados na areia onde a equipa de Alan os encontrou.

Os sedimentos no local também contêm partículas de carvão, o que implica que um incêndio florestal eclodiu na época em que os restos dos dinossauros foram novamente enterrados.

Tiranossauros a socializar

Com várias linhas de evidência de que os tiranossauros viviam por vezes lado a lado, os investigadores começaram a olhar para os parentes destes dinossauros para formar hipóteses sobre o que os dinossauros poderiam estar a fazer juntos.

Thomas Carr, paleontólogo do Carthage College em Kenosha, no Wisconsin, que não participou no novo estudo, diz que a existência de mais sinais de dinossauros sociais não deve ser necessariamente uma surpresa. Os dinossauros extintos pertencem a um grupo maior chamado arcossauros, que inclui animais sociais como aves modernas, crocodilos e jacarés.

Vista aérea da paisagem do Utah no Monumento Nacional de Grand Staircase-Escalante, perto de onde os ossos de tiranossauro foram encontrados.

Fotografia de ALAN TITUS, BLM

Os arcossauros vivos envolvem-se em muitas formas de comportamento social. Por vezes, os jacarés e crocodilos perseguem de forma oportunista a mesma presa sem se atacarem uns aos outros, ou afugentam peixes para a boca uns dos outros. As águias-reais também caçam por vezes aos pares. Mas estes comportamentos são extremamente raros e não dependem de estruturas sociais rígidas, ao contrário do que acontece com as alcateias modernas de lobos.

Os exemplos de uma verdadeira caça cooperativa dentro do grupo de arcossauros são poucos e muito distanciados. Talvez o melhor exemplo seja o falcão-de-asa-castanha, uma ave de rapina que vive no sudoeste dos EUA. Em algumas zonas da sua faixa de alcance, grupos de três a sete falcões nidificam e caçam juntos. Mas em alguns habitats, os falcões só nidificam aos pares.

Mesmo que os dinossauros extintos caçassem em grupo, os caçadores de grupo modernos podem não ser análogos perfeitos. Num estudo de 2020, uma equipa liderada pelo paleontólogo Joseph Frederickson analisou um parente do Velociraptor, o Deinonychus, que alguns paleontólogos especulavam ser um caçador de grupo parecido com os lobos. Nos lobos vivos, as crias alimentam-se das caçadas dos adultos, portanto, para testar se o Deinonychus fazia a mesma coisa, Joseph Frederickson mediu os vestígios químicos nos dentes pequenos e grandes de Deinonychus encontrados nos mesmos locais.

Os conjuntos de dentes eram quimicamente distintos, o que significa que as crias e os adultos não comiam as mesmas coisas, afastando a ideia de que o Deinonychus era realmente um caçador de grupo.

Posto isto, o que estavam os Teratophoneus a fazer juntos? “Por mais que adore testar estas coisas – por mais interessante que seja o conceito para mim – não tenho a certeza se algum dia iremos obter uma resposta para essa pergunta”, diz Joeph Frederickson, diretor do Museu Weis de Ciência da Terra da Universidade de Wisconsin. “O comportamento dos dinossauros poderá ser sempre um pequeno mistério para nós.”

Dino cérebros

Outra forma para os cientistas aprenderem mais sobre o comportamento dos tiranossauros é usando o que se sabe sobre os seus cérebros. Em comparação com os seus parentes próximos, diz Thomas Carr, os tiranossauros tinham cérebros bastante sofisticados, com regiões alargadas associadas ao equilíbrio e ao olfato. Mas, em relação à percentagem do seu tamanho corporal, os cérebros dos tiranossauros eram mais pequenos do que os das aves modernas e mais próximos do que encontramos nos jacarés e crocodilos da atualidade.

Os jacarés e os crocodilos conseguem ser sociais e muitas vezes vivem em altas densidades populacionais, mas nenhum caça regularmente em grupo. Se caçam de forma coordenada, como argumentam alguns investigadores, isso raramente foi observado.

Os fósseis de tiranossauros na Pedreira Arco-íris e Unicórnios cobertos por camadas de gesso em preparação para serem transportados para o laboratório de paleontologia do distrito de Paria River em Kanab, Utah.

Fotografia de ALAN TITUS, BLM

Assim sendo, não é fácil reconstruir o cérebro de um animal, muito menos determinar os tipos de comportamento que podia possibilitar, diz Amy Balanoff, bióloga evolucionista da Universidade Johns Hopkins que estuda a evolução do cérebro das aves. “Tudo se resume ao facto de os cérebros serem verdadeiramente complicados... trata-se do tamanho do cérebro, trata-se de ligações, o tamanho das ligações.”

Amy acrescenta que saber o máximo possível sobre o comportamento dos tiranossauros – como chocavam os seus ovos, por exemplo – ajudaria a preencher as lacunas.

Talvez a Pedreira Arco-íris e Unicórnios do Utah ajude a fornecer uma imagem mais detalhada. Alan Titus e os seus colegas planeiam realizar mais estudos no sítio dos Teratophoneus, talvez incluindo o mesmo tipo de trabalho químico que Joseph Frederickson usou nos dentes de Deinonychus.

A equipa também planeia fazer mais escavações – não apenas para dinossauros, mas também para outros fósseis. O local já foi um lago de água doce e o canal de um rio, e contém os ossos de tartarugas gigantes de água doce, bem como os restos do antigo crocodilo gigante Deinosuchus.

Alan tem divulgado o local com muito entusiasmo, levando à piada do seu colega de que parecia demasiado bom para ser verdade, e que devia conter “arco-íris e unicórnios”. “Agora, porém, creio que o nome é pouco ambicioso”, brinca Alan.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados