Túmulo de criança é o enterro humano mais antigo encontrado em África

Os restos mortais de uma criança desenterrados no Quénia podem iluminar as origens profundas dos enterros enquanto práticas rituais.

Publicado 10/05/2021, 12:10
Mtoto skull

Este crânio, datado de há cerca de 78.000 anos, estava entre os restos mortais de um antigo humano encontrado enterrado numa caverna no Quénia. Após vários meses de trabalho árduo, os cientistas revelaram o corpo de uma criança com 2 ou 3 anos de idade, apelidada de Mtoto, que em suaíli significa “criança”. Esta imagem mostra o lado esquerdo do crânio com o maxilar intacto, incluindo dois dentes por irromper com raízes não formadas, na parte inferior esquerda.

Fotografia de MARÍA MARTINÓN-TORRES, CENTRO NACIONAL DE PESQUISA EM EVOLUÇÃO HUMANA (CENIEH)

Num esforço árduo de descoberta, recuperação e análise, uma equipa interdisciplinar de investigação descobriu o enterro humano mais antigo de que há conhecimento em África. O túmulo, encontrado a menos de 16 quilómetros das exuberantes praias oceânicas do sudeste do Quénia, continha os restos mortais de uma criança com dois ou três anos de idade que foi cuidadosamente enterrada por uma comunidade dos primeiros Homo sapiens há cerca de 78.000 anos. Embora alguns enterros humanos no Médio Oriente e Europa sejam mais antigos, esta descoberta em África fornece um dos primeiros exemplos inequívocos de um corpo enterrado numa cova preparada para esse efeito e coberta de terra.

“Este é inequivocamente um enterro, e a sua datação é inequívoca. É muito antigo. É muito impressionante”, diz o especialista em enterros do paleolítico Paul Pettitt, da Universidade Durham em Inglaterra, que não esteve envolvido na investigação.

Estes restos mortais também oferecem um raro vislumbre do funcionamento da mente primitiva humana – e do coração. Descrito online na revista Nature, o fóssil apelidado de “Mtoto” – que em suaíli significa “criança” – vem juntar-se a dois outros túmulos ligeiramente mais recentes em África que também envolvem crianças. Embora três ocorrências num continente inteiro dificilmente sejam uma amostra robusta, Paul Pettitt considera as idades dos falecidos particularmente reveladoras para a compreensão do desenvolvimento dos enterros enquanto prática ritual.

Com base na forma como os restos mortais mudaram de posição, os investigadores suspeitam que algum tipo de material perecível foi colocado a fazer de almofada sob a cabeça da criança e que posteriormente se decompôs.

Fotografia de Fernando Fueyo (ilustração)

Uma reconstrução virtual dos restos mortais, sobreposta sobre um esqueleto comparativo transparente, conforme foram encontrados no chão da caverna em Panga ya Saidi. A análise microscópica dos ossos e do solo confirmou que a criança foi enterrada intencionalmente logo após a morte.

Fotografia de JORGE GONZÁLEZ GARCÍA, UNIVERSIDADE DO SUL DA FLÓRIDA E ELENA SANTOS, UNIVERSIDADE COMPLUTENSE DE MADRID

“Os grupos de caçadores-coletores modernos acreditam que a morte é natural e inevitável”, diz Paul. “Mas há duas exceções: a morte por trauma e a morte de bebés e crianças. Talvez a sensação de que a morte chega demasiado cedo não seja natural e precisa de ser assinalada de uma forma diferente da norma.”

Envolto no tempo

O túmulo de Mtoto foi encontrado em Panga ya Saidi, um enorme sistema de cavernas disperso ao longo de uma escarpa paralela à costa do Quénia. Desde 2010 que este sistema está a ser escavado por uma equipa liderada pelos Museus Nacionais do Quénia em Nairobi, e pelo Instituto Max Planck em Jena, na Alemanha.

Até agora, este sítio arqueológico já revelou dezenas de milhares de ferramentas de pedra, missangas feitas de conchas, restos de animais e outros artefactos, oferecendo testemunho de uma utilização continuada por parte de humanos desde há 80.000 anos, durante um período conhecido em África por Idade da Pedra Média.

“Este local foi sempre propício à ocupação”, diz Michael Petraglia, do Instituto Max Planck. “As pessoas nunca saíram completamente daqui.”

Em 2013, a equipa descobriu uma estrutura em forma de poço a cerca de 3 metros abaixo do atual piso da caverna. Outros trabalhos feitos em 2017 revelaram o que pareciam ser ossos decompostos. Este material provou ser demasiado frágil para ser escavado, pelo que a equipa decidiu envolver os ossos e sedimentos circundantes num molde de gesso e transportar o bloco para Nairobi para estudos adicionais.

E assim começou uma notável jornada post-mortem. A escavação inicial no laboratório do Museu Nacional revelou dois dentes junto à superfície do bloco que pareciam ser humanos.

“Sabíamos que tínhamos encontrado algo importante”, diz Emmanuel Ndiema, diretor do departamento de arqueologia do museu e membro da equipa de investigação. “Mas o espécime era extremamente delicado, estava para além da nossa capacidade de preparação.”

Emmanuel Ndiema entregou pessoalmente o fóssil a colegas no Instituto Max Planck em Jena. A partir daí, o fóssil seguiu para o Centro Nacional de Pesquisa em Evolução Humana (CENIEH) em Burgos, Espanha. O espécime foi submetido a mais de um ano de preparação e análises com microtomografia computadorizada, microscopia óptica e outras técnicas de imagiologia não invasivas, bem como a escavação manual em zonas onde o estado delicado dos ossos assim o permitia.

Gradualmente, todo o espécime começou a emergir: primeiro uma coluna articulada, depois a base de um crânio, depois o osso do maxilar e as raízes de dentes juvenis. Noutra secção do bloco, a equipa encontrou costelas e ossos do ombro nas suas posições anatómicas naturais.

“Estava tudo no lugar”, diz a diretora do CENIEH, María Martinón-Torres, que conduziu a investigação. “Não era apenas um fóssil. Tínhamos um corpo. Tínhamos uma criança.”

Para além do estado articulado do esqueleto, várias outras linhas de evidência sugeriam que a criança tinha sido propositadamente enterrada logo após a morte. Os sedimentos dentro do poço eram claramente diferentes dos sedimentos circundantes, e continham uma abundância de conchas e vestígios de caracóis que se alimentam dos vermes que se encontram em torno dos cadáveres enterrados na terra.

A análise geoquímica também revelou químicos no solo produzidos pela ação de bactérias carnívoras, responsáveis pelo avançado estado de decomposição dos ossos. À medida que a carne e os órgãos da criança se decompuseram, os espaços ficaram gradualmente preenchidos com sedimentos, pelo que a caixa torácica manteve a sua forma tridimensional. Mas as costelas superiores sofreram uma rotação de 90 graus, algo que aconteceria se o corpo tivesse sido compactado ou, mais provavelmente, envolto numa mortalha de algum material, talvez peles de animais ou folhas grandes que se decompuseram há muito tempo.

Para preservar os ossos, os cientistas removeram um bloco de material da caverna para limparem cuidadosamente em laboratório. Nesta imagem, a coluna vertebral flexionada com vértebras e costelas articuladas está arqueada, e alguns dentes, à esquerda, estão parcialmente expostos à superfície.

Fotografia de MARÍA MARTINÓN-TORRES, CENTRO NACIONAL DE PESQUISA EM EVOLUÇÃO HUMANA (CENIEH)

Por fim, a posição da cabeça e das vértebras cervicais em relação ao corpo indicava que a criança tinha sido enterrada com a cabeça sobre algum tipo de almofada – um momento da vida de uma comunidade primitiva humana que a equipa conseguiu captar pouco antes de todos os vestígios da criança desaparecerem.

“Os ossos estavam literalmente a transformar-se em pó”, diz María Martinón-Torres. “Chegámos mesmo a tempo, antes de desaparecerem para sempre.”

Ligações aos mortos

Os outros túmulos de crianças de que há conhecimento em África incluem uma criança de 8 a 10 anos, num sítio chamado Taramsa Hill no Egito, que se acredita ter cerca de 69.000 anos, e uma criança em Border Cave na África do Sul, com uma idade estimada em 74.000 anos. (Ambas as datações são menos precisas do que as do túmulo encontrado em Panga ya Saidi.)

Tanto a criança de Border Cave, encontrada em 1941, como o túmulo recém-descoberto em Panga ya Saidi revelam um forte vínculo entre as crianças falecidas e as pessoas que as sepultaram. No Quénia, parece que os participantes deram a Mtoto uma mortalha e uma almofada, enquanto que na África do Sul deixaram uma concha ornamentada coberta de pigmento. Isto levanta a questão: por que razão os humanos começaram a enterrar os seus mortos?

“Não conseguimos ler as suas mentes”, diz María Martinón-Torres, “mas, de certa forma, ao enterrarmos alguém estamos a prolongar a vida dessa pessoa. Estamos a dizer, eu não te quero deixar partir. Esta é uma das coisas que nos torna únicos, temos consciência da morte, consciência da vida.”

A criança foi encontrada sob uma saliência protegida na boca da caverna de Panga ya Saidi, perto da costa tropical montanhosa do Quénia.

Fotografia de MOHAMMAD JAVAD SHOAEE, INSTITUTO MAX PLANCK

Paul Pettitt acredita que os túmulos de crianças podem representar uma tradição em que se dava um tratamento especial às crianças falecidas já na Idade da Pedra Média. É claro que são necessárias mais evidências – e isto levanta outra questão: se há inúmeros túmulos antigos na Europa e no Médio Oriente, tanto de neandertais como de humanos primitivos modernos, alguns com 120.000 anos, então por que motivo existem apenas três em África?

Uma resposta pode estar na alteração de perspetiva sobre o que constitui um enterro. Desde o início até meados do século XX, quando a maioria dos fósseis de neandertais e dos primeiros humanos modernos na Europa e Ásia Ocidental foram descobertos, os arqueólogos não tinham os mesmos padrões rigorosos de escavação da atualidade, e os investigadores tinham mais propensão para tirar conclusões sobre os comportamentos funerários ritualizados a partir de escassas evidências.

De acordo com Paul, muitos dos sítios arqueológicos fora de África, que geralmente são citados como sendo sepulturas, são mais encarados como exemplos de “esconderijos funerários”, ou simplesmente atos onde se descartava um cadáver colocando-o numa fenda ou caverna, sem quaisquer sinais de ritual. Um destes locais é Sima de los Huesos – Poço dos Ossos – nas montanhas de Atapuerca, em Espanha, onde foram descobertos dezenas de esqueletos pertencentes a um antepassado dos neandertais, datado de há cerca de 430.000 anos.

Outro exemplo provável em África são os 15 esqueletos de uma espécie de hominídeo relativamente nova chamada Homo naledi, encontrada numa câmara no fundo de um sistema de cavernas na África do Sul e datada de há cerca de 250.000 anos. Lee Berger, líder da equipa que fez essa descoberta e Explorador da National Geographic, argumentou que o Homo naledi estava deliberadamente a descartar-se dos seus mortos, mas ainda não se sabe exatamente como é que os corpos acabaram nessa câmara.

Porções dos ossos da criança foram encontradas durante as escavações em Panga ya Saidi em 2013, mas só em 2017 é que a pequena cova que continha os ossos foi completamente exposta. A cerca de três metros de profundidade da caverna atual, o fosso circular continha os ossos todos agrupados, mas altamente decompostos, exigindo estabilização e gesso para os remover.

Fotografia de MOHAMMAD JAVAD SHOAEE, INSTITUTO MAX PLANCK

Mesmo que se excluam os locais que são exemplos mais prováveis de esconderijos funerários, o registo de enterros na Europa e no Médio Oriente começa mais cedo e é mais abundante do que em África, onde o Homo sapiens evoluiu pela primeira vez.

Talvez ainda não tenhamos encontrado mais enterros em África porque não procurámos em lugares suficientes. Os cientistas têm perscrutado as cavernas e fendas na Europa e no Médio Oriente desde a viragem do século passado. Por outro lado, as investigações em África concentraram-se em relativamente poucos locais, sobretudo na África do Sul e no Grande Vale do Rift de África Oriental. Atualmente, temos fósseis de apenas 10% do continente, diz Chris Stringer, paleoantropólogo do Museu de História Natural de Londres que passou décadas a estudar as origens humanas modernas.

“Estamos a lidar com pequenos vislumbres de informação”, diz Chris. “Esta descoberta é apenas uma pista do que ainda há para descobrir no resto de África.”

Um dos sítios africanos que promete mais revelações fica exatamente em Panga ya Saidi. Neste local, há depósitos muito abaixo de onde Mtoto foi encontrado, com camadas que representam fatias temporais talvez tão profundas quanto 400.000 anos. Os trabalhos foram interrompidos no ano passado devido à pandemia de COVID-19, mas a equipa de investigação está ansiosa para regressar às escavações assim que for seguro continuar.

“Ainda não sabemos até que profundidade podemos ir”, diz Emmanuel Ndiema. “Ainda não chegámos à cave.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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