A COVID-19 pode dar origem a diabetes? Eis o que precisa de saber.

Novos estudos mostram que o vírus da COVID-19 pode atacar o pâncreas, destruir células que produzem insulina e provocar alguns casos de diabetes.

Publicado 15/06/2021, 11:58 WEST
insulina

A insulina é uma hormona que mantém os níveis de glicose equilibrados no sangue.

Fotografia de Klaus Ohlenschlaeger, Alamy Stock Photo

Durante a primavera de 2020, médicos em Nova Iorque, cidade que naquele momento era o epicentro da pandemia nos Estados Unidos, repararam que um número considerável de pessoas hospitalizadas com COVID-19 tinha demasiado açúcar no sangue, uma condição denominada hiperglicemia e um sinal característico da diabetes.

“[Os meus colegas e eu] descobrimos que era muito difícil controlar os níveis de glicose no sangue de alguns pacientes com COVID-19, mesmo em casos sem histórico de diabetes”, diz Shuibing Chen, bióloga de células estaminais da Faculdade de Medicina Weill Cornell. O mais surpreendente, diz Shuibing, foi observar que alguns pacientes, que não tinham diabetes antes da infeção, tinham desenvolvido diabetes após recuperarem da COVID-19.

O vírus que provoca a COVID-19, o SARS-CoV-2, é conhecido por provocar danos nos pulmões e problemas respiratórios agudos. Mas saber como e porque é que um paciente com COVID-19 desenvolve repentinamente uma doença crónica como a diabetes é um mistério, assim como o número de pessoas que podem ter de lidar com esta complicação.


Uma análise global feita em 2020, conduzida pelo investigador de saúde populacional Thirunavukkarasu Sathish, da Universidade McMaster, no Canadá, descobriu que quase 15% dos pacientes com casos graves de COVID-19 também tinham desenvolvido diabetes. Mas Thirunavukkarasu admite que este número provavelmente será maior entre os indivíduos de alto risco. A investigação liderada pelo endocrinologista Paolo Fiorina na Escola de Medicina de Harvard revela que, entre 551 pacientes hospitalizados com COVID-19 em Itália, quase metade tornou-se hiperglicémica.

Peter Jackson, bioquímico da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, estima que até 30% dos pacientes com casos graves de COVID-19 podem desenvolver diabetes.

Intrigados com a ligação surpreendente entre a COVID-19 e a diabetes, Shuibing Chen e Peter Jackson fizeram investigações independentes para descobrir como é que o SARS-CoV-2 pode desencadear hiperglicemia. Ambos os grupos de investigação publicaram os seus resultados na edição de maio da revista Cell Metabolism.

“As suas descobertas oferecem informações cruciais sobre os mecanismos subjacentes pelos quais a COVID-19 pode levar ao desenvolvimento de diabetes em pacientes infetados”, diz Rita Kalyani, professora de medicina da Divisão de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo da Universidade Johns Hopkins, que não esteve envolvida nos estudos.

O pâncreas é outro alvo do vírus da COVID-19

O SARS-CoV-2 afeta as pessoas de formas muito diferentes. Muitas pessoas apresentam apenas sintomas ligeiros, mas outras desenvolvem doenças graves com risco de vida. Com o avançar da pandemia, ficou evidente que o vírus podia espalhar-se para além dos pulmões e danificar outros órgãos críticos, incluindo o fígado, o coração e os rins. Também ficou claro que a diabetes e a obesidade eram fatores de risco comuns para os casos graves de COVID-19.

Num estudo anterior, o grupo de Shuibing cultivou vários tipos de tecidos em laboratório e testou quais eram vulneráveis ao vírus da COVID-19. “Surpreendentemente, descobrimos que as células beta do pâncreas são altamente permissivas à infeção por SARS-CoV-2”, diz Shuibing. O pâncreas, que fica atrás do estômago, é um órgão complexo composto por vários tipos de células que auxiliam na digestão. E também contém células beta que produzem insulina, a hormona que escolta as moléculas de açúcar do sangue para as células do corpo, onde são usadas para produzir energia.

Contudo, apesar de um vírus poder infetar células cultivadas em laboratório, isso não significa que ataca o corpo da mesma maneira. Para garantir que as observações laboratoriais eram um reflexo verdadeiro do que acontece em humanos vivos, as equipas de Shuibing e Peter adquiriram amostras de autópsias de pacientes falecidos com COVID-19. Ambos os grupos detetaram SARS-CoV-2 nas células beta pancreáticas destes pacientes.

Mas como é que um vírus respiratório se move dos pulmões para o pâncreas? Depois de os pacientes apresentarem sintomas de pneumonia, a infeção na parte inferior dos pulmões pode provocar danos nos tecidos, danos que permitem que o vírus passe dos alvéolos pulmonares para os vasos sanguíneos, explica Peter. “Uma vez em circulação, o vírus pode entrar noutros tecidos altamente vascularizados, como o pâncreas, o cérebro e os rins.” Outros investigadoras especulam que o vírus pode entrar na corrente sanguínea através dos intestinos, algo que pode acontecer em pacientes que não têm bactérias intestinais saudáveis. (Os micróbios que temos nos intestinos podem ser novos recrutas na luta contra vírus.)

Como o vírus interrompe a produção de insulina

Ambas as equipas de investigação observaram que as células beta infetadas com SARS-CoV-2 pararam de produzir insulina. No estudo de Peter, as células beta infetadas morreram por apoptose, uma sequência de autodestruição programada geneticamente que é iniciada pelas células danificadas.

O grupo de Shuibing descobriu que as células beta infetadas passam por um processo denominado “transdiferenciação”, o que significa que são convertidas noutro tipo de célula; um tipo que já não produz insulina. É possível que algumas células beta infetadas sofram transdiferenciação enquanto outras entram no processo de autodestruição.

Em ambos os casos, o resultado final é o mesmo: quando o vírus da COVID-19 ataca as células beta do pâncreas, a produção de insulina diminui.

Isto pode dar origem à diabetes tipo 1, que geralmente é provocada por fatores de risco genéticos que estimulam uma reação autoimune que ataca e destrói as células beta. A diabetes tipo 1 é geralmente observada em idades mais jovens e exige que os pacientes injetem insulina todos os dias, pois o corpo não produz esta hormona. A diabetes tipo 1 também envolve um catalisador ambiental, como uma infeção, para iniciar a reação autoimune.

Por outro lado, a diabetes tipo 2, muito mais comum, acontece quando o corpo se torna resistente à própria insulina que produz. A diabetes tipo 2 pode ser controlada com mudanças na dieta e exercícios, embora às vezes sejam necessários medicamentos que aumentam a sensibilidade à insulina. De acordo com um relatório de 2020 dos Centros de Controlo de Doenças dos EUA, cerca de 34.2 milhões de americanos têm diabetes.

O destino das células beta infetadas é importante para um estudo mais aprofundado, pois pode haver uma forma de prevenir a sua destruição em pacientes com casos graves de COVID-19. A equipa de Shuibing investigou um vasto painel de químicos na esperança de encontrar um que conseguisse prevenir o processo de transdiferenciação.

Terapias possíveis

Esta investigação identificou um composto chamado trans-ISRIB que ajuda as células beta a manter a sua identidade e capacidade de produção de insulina quando infetadas com SARS-CoV-2. O trans-ISRIB, que significa Integrated Stress Response InhiBitor, é um composto descoberto em 2013 que consegue prevenir a resposta normal de uma célula ao stress. Estes compostos estão a ser explorados como potenciais tratamentos para prevenir a apoptose e danos generalizados.

Mas Shuibing alerta: “O trans-ISRIB não é um medicamento aprovado pela agência americana do medicamento, pelo que ainda não pode ser usado em pacientes. Mas os nossos estudos suportam a ideia de que pode ser desenvolvido um novo medicamento para evitar que a COVID-19 provoque diabetes.” O grupo de Peter descobriu que um recetor de proteína celular chamado neuropilina-1 era crítico para o SARS-CoV-2 invadir as células beta; bloquear este recetor impede que as células beta sejam infetadas.

Também há um grande interesse por parte da comunidade de investigação em desenvolver medicamentos que impeçam as células de se destruírem através da apoptose. Os compostos experimentais chamados inibidores de caspases, que previnem o suicídio celular, estão a ser estudados por outros investigadores como potenciais terapias para mitigar ou prevenir os casos graves de COVID-19. Infelizmente, os inibidores de caspases não têm sido um sucesso completo em ambiente clínico, apesar do seu grande potencial e interesse. No entanto, podem funcionar para a exposição de curto prazo para limitar os danos virais, diz Peter.

Shuibing acrescenta que o SARS-CoV-2 não é o único vírus que ameaça o pâncreas. “Já foi demonstrado que o Coxsackievirus B, o rotavírus, o vírus da papeira e o citomegalovírus infetam e danificam as células beta. Mas saber se são uma causa direta da diabetes tipo 1 tem sido um tema controverso.” São necessárias mais investigações para determinar se é possível neutralizar os ataques virais no pâncreas, quer seja através do bloqueio da infeção ou evitando que o vírus chegue sequer ao órgão.

Rita Kalyani salienta que estes estudos “sublinham ainda mais a importância da vacinação contra a COVID-19. Os indivíduos que contraem COVID-19, sobretudo os que têm condições de pré-diabetes ou outros fatores de risco para a diabetes, devem informar os seus médicos caso desenvolvam sintomas de hiperglicemia, como micção frequente, sede excessiva, visão nublada ou perda inexplicável de peso.”

Estas novas descobertas revelam que ainda há muito para aprender sobre a COVID-19 e respetivos efeitos posteriores. Parece evidente que, para algumas pessoas menos afortunadas, derrotar o vírus é apenas o início. Podem surgir complicações adicionais, dependendo dos sistemas corporais danificados na sequência da infeção viral.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados