A variante Delta é preocupante. Descubra porque está a aumentar.

A variante do vírus que provocou um aumento de infeções no Reino Unido está agora a propagar-se pelos EUA, e os especialistas estão muito preocupados.

Por Sanjay Mishra
Publicado 18/06/2021, 10:36 WEST
Delta

Um estudante demonstra um Teste Rápido de Antigénio do Instituto Nacional de Saúde de Inglaterra no dia 12 de maio de 2021. Em Inglaterra, as crianças devem fazer dois testes por semana e colocar os resultados num portal online.

Fotografia de Matt Cardy/Getty Images

Com as taxas de vacinação a abrandar nos Estados Unidos, e com outros países a enfrentar dificuldades para assegurar vacinas, os especialistas em saúde pública estão cada vez mais preocupados porque a chamada variante Delta do coronavírus, identificada pela primeira vez na Índia em março, pode vir a desencadear um aumento dramático de casos e mortes pelo mundo inteiro.

Em Portugal, já foram identificados mais de 90 casos associados a esta mutação do vírus.

Nos EUA, a variante Delta já é responsável por 18% dos casos no Colorado, Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul, Utah e Wyoming, e cerca de 6% dos casos por todo o país. Esta variante já se propagou em mais de 70 países e é agora a variante mais dominante na Índia, Reino Unido e Singapura. Na semana passada, a variante Delta provocou mais de 90% dos novos casos de COVID-19 no Reino Unido, levando a um aumento de 65% nas novas infecções desde o dia 1 de maio. Na segunda-feira, para conter a disseminação desta variante, o governo do Reino Unido decidiu adiar o “dia da liberdade”, que marcaria o fim das restrições de saúde pública.

A variante Delta é 60% mais transmissível do que a variante Alfa – identificada pela primeira vez no Reino Unido – que, por sua vez, era cerca de 50% mais transmissível do que a estirpe original de Wuhan. “É uma variante super propagadora, e isso é preocupante”, diz Eric Topol, fundador e diretor do Instituto Scripps de Investigação Translacional. A variante Delta tem características que lhe permitem escapar ao sistema imunitário e pode ser mais evasiva do que a variante Beta (B.1.351), identificada pela primeira vez na África do Sul, que até agora era a pior, diz Eric. “Para além disso, tem a maior transmissibilidade de tudo o que observámos até agora. É uma combinação péssima.”


Desanimado com a trajetória da variante Delta no Reino Unido, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, alertou o presidente Joe Biden na semana passada: “Não podemos permitir que isto aconteça nos Estados Unidos.”

O presidente ecoou estes sentimentos, publicando no Twitter: “A variante Delta – uma estirpe altamente infecciosa da COVID-19 – está a propagar-se rapidamente pelos jovens entre os 12 e os 20 anos no Reino Unido. Se são jovens e ainda não foram vacinados, está realmente na hora de se vacinarem.” Uma dose completa da vacina continua a ser eficaz na prevenção de casos graves de COVID-19 decorrentes da infeção pela variante Delta.

Por que razão a variante Delta é tão assustadora?

Os vírus que circulam livremente, sobretudo os coronavírus e os vírus da gripe, que codificam as suas instruções genéticas usando a molécula de RNA, sofrem mutações frequentes e aleatórias devido aos erros de cópia introduzidos à medida que se replicam nas células hospedeiras humanas. Algumas mutações permitem ao vírus escapar dos anticorpos; e algumas aumentam a sua capacidade de infetar uma célula; outras mutações passam despercebidas, pois não têm benefícios ou podem até mesmo enfraquecer o vírus.

A chave para o sucesso da variante Delta é a coleção de mutações que a variante acumulou na proteína “espigão” que envolve o SARS-CoV-2 e dá ao vírus a sua aparência característica em forma de coroa. Estas mutações alteraram o espigão e, como resultado, alguns dos anticorpos existentes podem não se ligar com tanta força ou frequência, explica Markus Hoffmann, biólogo de doenças infecciosas do Instituto Leibniz de Investigação de Primatas, na Alemanha. Markus demonstrou que a variante Kappa, intimamente relacionada com a Delta, evita anticorpos que foram gerados através de infeção e vacinação; e também resiste a terapias de anticorpos produzidos sinteticamente, como o Bamlanivimab.

A variante Delta tem mutações na proteína espigão que alteram a forma como interage com a proteína recetora ACE2, que se encontra na superfície dos pulmões e noutras células humanas, e é o portal para invadir uma célula. A mutação no local 452 da proteína espigão, que também está presente em algumas das variantes da Califórnia, parece tornar o vírus mais transmissível e ajuda na sua propagação pela população, explica Mehul Suthar, imunologista do Centro de Vacinas Emory.

Se uma mutação conferir a um vírus uma vantagem de aptidão ou reprodução, essa mutação tende a evoluir de forma independente pelo mundo inteiro. A variante Delta, juntamente com as suas variantes mais intimamente relacionadas, e a variante Alfa, que é altamente contagiosa, têm uma mutação na posição 681 da proteína espigão que é considerada uma mudança evolucionária de paradigma, que também facilita a invasão de uma célula hospedeira e a propagação do SARS-CoV-2. Esta mutação está rapidamente a tornar-se comum no vírus que provoca a COVID-19 em todo o planeta.

Para além destas mutações, um estudo recente, que ainda não foi revisto por pares, mostra uma alteração na posição 478 do espigão da variante Delta que permite ao vírus escapar aos anticorpos neutralizantes mais fracos. Desde o início de 2021 que esta mutação também se está a tornar cada vez mais prevalente nas variantes do SARS-CoV-2 nos EUA, México e Europa.

“Quando temos todas estas mutações, começamos a ver uma diferença na infetividade (do vírus)”, diz Ravindra Gupta, professor de microbiologia clínica da Universidade de Cambridge, que demonstrou através de um estudo não publicado como estas variantes podem ter mais potencial para provocar doenças.

Vacinas menos eficazes contra esta super propagadora

Os dados da Índia e do Reino Unido mostram que a Delta emergiu como a variante dominante nestes países no período de quatro a seis semanas. Isto indica que a Delta é mais transmissível e infecciosa do que as variantes anteriores. Existem evidências emergentes de que também pode provocar doenças mais graves. Por exemplo, na Escócia, as hospitalizações quase que duplicaram em relação à variante Alfa, que já provocava doenças mais graves do que a variante original do SARS-CoV-2.

“Esta combinação entre alta transmissibilidade, mais gravidade e provável escape das vacinas torna a Delta numa variante muito, muito perigosa”, diz Deepti Gurdasani, epidemiologista clínica da Universidade Queen Mary de Londres. Assim que a Delta entra num país, propaga-se rapidamente. “Vai ser muito difícil de conter e muito provavelmente tornar-se-á na variante dominante em poucas semanas. Isto pode mudar a trajetória da pandemia global.”

Embora as vacinas ainda sejam eficazes contra casos graves de doença e hospitalizações provocadas pelas variantes Alfa e Beta, oferecem menos proteção contra a variante Delta. As pessoas que já foram vacinadas com uma ou duas doses da vacina da Pfizer produziram níveis mais baixos de anticorpos capazes de neutralizar a variante Delta, em comparação com os níveis gerados contra a Alfa e a Beta. No Reino Unido, 31% de todos os pacientes confirmados com a variante Delta que precisaram de cuidados de emergência tinham recebido pelo menos uma dose da vacina da Pfizer.

Da mesma forma, um estudo ainda em revisão revelou que, após ambas as doses, a vacina da Pfizer mostrou uma eficácia de 88% contra uma doença sintomática provocada pela variante Delta, em comparação com os 93% que se verificam contra a variante Alfa. Duas doses da vacina da AstraZeneca atingem os 66% de eficácia contra a Alfa, mas apenas 60% contra a Delta. Com apenas uma única dose de qualquer uma das duas vacinas, a eficácia ronda apenas os 51% contra a variante Alfa, em comparação com os 33% contra a Delta. Esta eficácia fica abaixo do limite de eficácia dos 50% que a agência americana do medicamento estabeleceu para a projeção de vacinas seguras contra a COVID-19; onde uma vacina deve pelo menos impedir que metade das pessoas vacinadas desenvolvam sintomas de COVID-19.

Noutros estudos que ainda aguardam revisão por pares, os investigadores relatam que a Delta foi responsável pela maioria das infeções pós-vacina na Índia – que acontecem após a vacinação completa – levando a um aglomerado de casos entre profissionais de saúde completamente vacinados.

Existem muitas candidatas a vacinas a serem testadas pelo mundo inteiro e, uma vez que não há um acordo internacional para os padrões de eficácia, cada vacina pode oferecer um grau diferente de proteção contra as novas variantes. “Precisamos de mais informações sobre o desempenho de algumas das vacinas mais amplamente disponíveis noutras partes do mundo”, diz Benjamin Pinsky, médico e virologista da Escola de Medicina da Universidade de Stanford. “Creio que as pessoas precisam de se assegurar que são vacinadas. E até que estejam completamente vacinadas, é muito importante continuar com os cuidados de saúde pública.”

As vacinas abrandam o avanço de uma doença contagiosa ao aumentar a imunidade de grupo. Até que isso aconteça, medidas preventivas como o distanciamento social e o uso de máscara são estratégias que ajudam comprovadamente a combater a propagação do vírus.

Nos EUA, com apenas 44% da população completamente vacinada, a maioria das pessoas ainda está vulnerável. Levantar as restrições de saúde pública e declarar uma vitória prematura pode fornecer uma oportunidade para a variante Delta aumentar – sobretudo no outono.

Um dos estudos, que ainda não foi publicado, sugere a possibilidade de variações sazonais na incidência de COVID-19 – com base nas análises de um ano completo sobre a pandemia na Europa e Israel. “Embora as tendências sazonais do vírus ainda não estejam claras, sabemos que, quando as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados, com pouca ventilação e pouca humidade, o vírus propaga-se mais depressa”, diz Eric Topol.

O que está a acontecer no Reino Unido pode acontecer em muitos lugares do mundo. “Devemos manter o distanciamento social após a vacinação, porque vão existir sempre possibilidades de infeção pós-vacina, porque as vacinas podem não ser perfeitas contra as variantes emergentes”, diz Kei Sato, virologista da Universidade de Tóquio, no Japão, que estuda o efeito das mutações na transmissão da variante Delta e outras variantes emergentes.

“Quanto mais as variantes como esta se propagam, sobretudo em indivíduos não vacinados, mais estes vírus sofrem mutações e, eventualmente, adquirem mutações que lhes permite escapar de forma mais eficaz aos anticorpos. Isto pode, em teoria, tornar as vacinas atuais ainda menos eficazes contra estas variantes”, alerta Mehul Suthar.

“Se não levarmos a variante Delta a sério, haverá uma nova vaga nos EUA. Já é possível observar que a descida de casos estabilizou”, diz Ravindra Gupta. Eric Topol concorda que, “se ignorarmos esta variante, teremos um aumento significativo de casos em áreas vulneráveis, mais casos de hospitalização e a pandemia vai durar mais.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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