Astrónomos identificam as estrelas onde quaisquer alienígenas teriam uma visão da Terra

Se partilharmos a galáxia com extraterrestres, eles só conseguem ver a passagem da Terra em frente ao sol se viverem em um destes sistemas estelares.

Publicado 25/06/2021, 11:36
exoplanet

Kepler-186f foi o primeiro exoplaneta rochoso a ser encontrado na zona habitável – a região em torno de uma estrela hospedeira onde a temperatura é ideal para um mundo ter água líquida na superfície. Se existir vida inteligente em planetas como o Kepler-186f, talvez essa vida tenha descoberto o nosso próprio planeta através de meios semelhantes.

Ilustração de NASA Ames/SETI Institute/JPL-Caltech

Milhares de mundos alienígenas já revelaram a sua presença aos astrónomos, obscurecendo durante breves momentos a luz de uma estrela enquanto deslizam à frente das suas estrelas natais – uma consequência simples da geometria celestial. Na última década, através da observação destes trânsitos, descobrimos que há mais planetas do que estrelas na Via Láctea – e que a galáxia está repleta de mundos onde as condições podem ser ideais para a vida prosperar.

Agora, os astrónomos estão a considerar o outro lado desta equação.

“Quais são as estrelas que nos poderiam ver como alienígenas, onde a Terra em trânsito bloqueia a luz do sol?” pergunta Lisa Kaltenegger, da Universidade Cornell, que elaborou uma resposta para esta questão num novo estudo publicado na revista Nature.

A maioria dos planetas para além do sistema solar foi detetada através da observação de mundos que cruzam a face das suas estrelas. Embora este método de trânsito tenha produzido resultados prodigiosos, não identifica os inúmeros planetas que não atravessam as suas estrelas a partir da perspetiva da Terra. Da mesma forma, os observadores alienígenas precisam de estar num determinado local para observar a forma como a Terra bloqueia periodicamente uma fração da luz do sol – e isto está sujeito a alterações conforme as estrelas mudam as suas posições relativas.

“O cosmos é dinâmico, pelo que esse ponto de vista deve mudar ao longo do tempo – e eu queria saber, quanto tempo temos realmente para encontrar um planeta?” diz Lisa.

Com a colaboração da cientista Jackie Faherty, do Museu Americano de História Natural de Nova Iorque, Lisa calculou que quaisquer alienígenas a orbitar 2.034 estrelas próximas conseguiriam ver a Terra a obscurecer a face do sol durante um período de 10.000 anos, abrangendo 5.000 anos para o passado e para o futuro.

As investigadoras também calcularam que cerca de 29 planetas potencialmente habitáveis conseguem ver o trânsito da Terra e estão próximos o suficiente para detetar transmissões de rádio feitas pelo homem. Estudos como este fornecem um conjunto de estrelas que podemos visar na nossa própria busca por inteligência extraterrestre, ou SETI, na sigla em inglês.

“Estas estrelas recém-identificadas devem ser os alvos principais da nossa própria SETI, porque podem ser fontes de mensagens interestelares deliberadas para nós”, diz por email René Heller, do Instituto Max Planck. Se os observadores alienígenas souberem que estamos aqui, podem “enviar-nos saudações”.

Um conjunto de estrelas em constante espiral

Para identificar as estrelas que têm uma visão da Terra a transitar o sol, Lisa e Jackie perscrutaram os dados da sonda Gaia, da Agência Espacial Europeia, que acompanha de perto os movimentos de mais de mil milhões de estrelas.

Todos os mundos que poderiam ver a Terra orbitam estrelas que estão precisamente alinhadas com o plano em que circundamos o sol – uma pequena porção de espaço geralmente designada eclíptica e, neste estudo, é designada zona de trânsito da Terra. Um pouco acima ou abaixo desta eclíptica, a impressão digital da Terra não é visível. A equipa começou por identificar 1.402 estrelas que estão atualmente nesta eclíptica, a cerca de 300 anos-luz da Terra. Depois, percorreram o céu para frente e para trás estudando a forma como as estrelas mudam ao longo do tempo para encontrar as que acidentalmente deslizam para uma posição que permite a observação da Terra.

Embora possa parecer que as estrelas no nosso céu não se movem muito, elas estão constantemente a mudar em relação umas às outras. Daqui a 2.000 anos, por exemplo, a Estrela Polar já não será a estrela do norte – assim como não era quando os antigos egípcios, babilónios e chineses mapearam o céu há milhares de anos.

“É por isso que a adição do elemento temporal, devido às grandes distâncias envolvidas, é crucial para esta ideia de observação da Terra enquanto planeta em trânsito”, escreve por email René Heller, que fez um cálculo semelhante. “É preciso considerar a aparência do céu literalmente como um filme em movimento, não como uma imagem estática.”

A equipa descobriu que, ao longo dos últimos 5.000 anos, 313 estrelas adicionais podem ter assistido à marcha da Terra em frente ao sol. Nos próximos 5.000 anos, outras 319 terão a mesma visão.

“Foi interessante descobrir quanto tempo dura este lugar na primeira fila para uma visão cósmica”, diz Lisa. Muitas estrelas têm pelo menos mil anos para encontrar a Terra. “E muitas delas têm mais de 10.000 anos. Portanto, é um tempo considerável.”

Sete destas estrelas têm exoplanetas conhecidos. Algumas até têm mundos que se suspeita serem rochosos. Usando o que se sabe sobre a ocorrência de planetas rochosos, Lisa e Jackie estimam que a sua amostra tem pelo menos 508 mundos habitáveis, com 29 próximos o suficiente para detetar as transmissões de rádio da Terra.

Factos sobre Exoplanetas
Os exoplanetas fazem-nos questionar se estamos sozinhos no universo. Saiba que tipos de exoplanetas existem, os métodos que os cientistas utilizam para os encontrar e quantos mundos podem existir na galáxia da Via Láctea.

Durante praticamente cem anos temos enviado sinais de rádio para o espaço. Alguns sinais, como os das transmissões de televisão, são demasiado fracos para serem facilmente percetíveis em distâncias cósmicas. Mas outros, como as rajadas concentradas de ondas de rádio emitidas pelos poderosos instrumentos de radar, são brilhantes o suficiente para serem facilmente detetáveis.

Hoje, as nossas transmissões de rádio mais fortes são emitidas pelos radares planetários – usados pelos astrónomos para estudar objetos no sistema solar, como asteroides, que refletem ondas de rádio. O Observatório de Arecibo era, até ter colapsado em dezembro, o radar planetário mais poderoso do planeta, e as ondas do seu transmissor – apontadas principalmente para objetos na eclíptica – estavam efetivamente a enviar ruído para quaisquer mundos alienígenas que estivessem no seu campo de visão.

“Se estivermos na zona de trânsito da Terra, veremos preferencialmente enormes rajadas de emissões de rádio à medida que os humanos estudam o seu próprio sistema solar, porque está tudo no mesmo plano”, diz Sofia Sheikh, do Centro de Pesquisa SETI da Universidade da Califórnia, que fez pesquisas SETI num conjunto semelhante de estrelas. “Portanto, as estrelas que nos conseguem ver em trânsito podem eventualmente detetar o excesso da nossa astronomia de radar.”

Com os instrumentos adequados, os observadores alienígenas na zona de trânsito da Terra poderiam até observar os humanos a alterar lentamente a composição da atmosfera do planeta – começando de forma mais dramática há cerca de 200 anos com a Revolução Industrial e continuando até aos dias de hoje. Isso, de acordo com Sofia Sheikh, é um exemplo de assinatura tecnológica, ou um sinal de que algo artificial está a afetar a composição natural dos gases que revestem um planeta.

Naves na noite

Porém, tal como Lisa e Jackie salientam, alguns dos mundos alienígenas que pensamos estar maduros para a vida ainda não conseguem ver a Terra em trânsito – embora os consigamos ver. É como olhar através de um espelho cósmico bidirecional.

Estes mundos incluem quatro dos sete planetas do tamanho da Terra que orbitam uma estrela chamada TRAPPIST-1, que só irá conseguir ver a Terra daqui a 1.642 anos. Os dois mundos com massa terrestre que orbitam a estrela Teegarden, a cerca de 12 anos-luz de distância do nosso planeta, só nos conseguirão ver em 2050. E Ross128, que hospeda um planeta de massa terrestre a cerca de 11 anos-luz de distância, pode ter observado os trânsitos terrestres durante 2.158 anos – até há 900 anos, quando desaparecemos de vista durante a Idade Média.

“Alguns hipotéticos observadores em torno de estrelas perto da eclíptica podem não nos conseguir ver em trânsito hoje, mas podem ter descoberto a Terra há milénios – ou só irão descobrir os nossos trânsitos daqui a milhares de anos”, escreve René Heller.

Será que alguém no planeta Ross128 teria reconhecido uma Terra habitada há quase mil anos? Será que perderam a oportunidade de detetar sinais de uma biosfera em evolução neste pálido ponto azul? E como será a vida na Terra quando os mundos de TRAPPIST-1 tiverem a possibilidade de encontrar o nosso planeta? Como irão mudar as impressões digitais do nosso planeta?

“Precisamos de pensar para além das noções de aqui e agora”, diz Sofia Sheikh. “Acabamos por limitar a nossa investigação se estivermos à procura de coisas que estão no mesmo estágio de evolução. Quer seja biológico ou tecnológico, creio que é necessário pensar sobre o futuro e passado longínquos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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