Crânio de ‘Homem Dragão’ pode pertencer a nova espécie, sacudindo a árvore genealógica humana

Escondido num poço durante décadas, o crânio incrivelmente completo está a estimular debates sobre o número crescente de fósseis que não se encaixam perfeitamente na história clássica da origem humana.

Publicado 30/06/2021, 13:34
Homem Dragão

O Homem Dragão viveu há mais de 146.000 anos numa região fria no nordeste da China, conforme retratado nesta ilustração.

Ilustração de Chuang Zhao

O estranho crânio apareceu pouco depois de os japoneses invadirem o nordeste da China, no início dos anos 1930. Um grupo de habitantes locais estava a erguer uma ponte perto de Harbin, uma cidade na província mais a norte da China, quando um dos trabalhadores tropeçou numa surpresa na lama do rio. O crânio humano quase completo era alongado, do qual se projetava o osso das sobrancelhas, sombreando os orifícios que outrora abrigavam os olhos.

E depois havia o tamanho invulgar do crânio: “É enorme”, diz o paleoantropólogo Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres.

Talvez ciente da magnitude da descoberta, o trabalhador escondeu o crânio num poço abandonado. Agora, quase 90 anos depois, um estudo publicado na revista The Innovation defende que este crânio representa uma nova espécie humana: o Homo longi, ou Homem Dragão.

Dois estudos adicionais revelam que o crânio incrivelmente bem preservado provavelmente pertence a um homem que morreu há pelo menos 146.000 anos. A sua mistura de características anatómicas antigas e modernas sugere uma localização única na árvore genealógica humana.

“Já tive nas mãos muitos crânios humanos e fósseis, mas nunca um como este”, diz Xijun Ni, paleoantropólogo da Academia Chinesa de Ciências, autor dos três estudos.

Com base na forma e no tamanho do crânio de Harbin, como é frequentemente chamado, e através da comparação com outros fósseis conhecidos, os investigadores supõem que este está profundamente relacionado com vários outros fósseis humanos desconcertantes, do mesmo período, que foram encontrados na Ásia. A análise dos cientistas sugere que todos estes fósseis pertencem a um grupo intimamente relacionado com a nossa própria espécie – talvez até mais do que os Neandertais.

“É um fóssil espetacular”, diz María Martinón-Torres, diretora do Centro Nacional de Investigação sobre Evolução Humana de Espanha, que não participou nos estudos.

Contudo, o grupo proposto e a designação de espécie está a provocar um debate entre os cientistas. Alguns especialistas veem indícios de que o Homem Dragão pode ter ligações com os misteriosos Denisova, um grupo irmão dos Neandertais do qual foram encontrados poucos fósseis – alguns dentes, um pedaço de crânio fraturado, um osso mindinho e talvez um osso partido do maxilar.

Embora esteja entusiasmada com o estado de preservação e com o mosaico de características do crânio de Harbin, María ainda não está certa do quão diferente é de outros grupos já conhecidos.

Ainda assim, este crânio salienta o quão emaranhados estão os ramos da árvore genealógica humana, e a forma como o estudo de toda a gama de antepassados enigmáticos humanos e a sua distribuição em constante mudança ao longo do tempo nos pode ajudar a decifrar as nossas próprias origens.

“Nós esquecemo-nos, mesmo enquanto antropólogos, que é realmente estranho sermos os únicos hominídeos vivos”, diz Laura Buck, antropóloga biológica da Universidade John Moores de Liverpool, que não fez parte da equipa do estudo.

A história do crânio

Antes de morrer, o trabalhador que encontrou o crânio revelou o seu segredo de longa data aos netos, que se aventuraram no poço para recuperar o tesouro em 2018. Qiang Ji, paleontólogo da Universidade Hebei GEO da China, que liderou a nova investigação, ouviu falar sobre o achado e quis dar uma vista de olhos. Sem ter  a certeza do que significava, Qiang tirou uma fotografia para mostrar a Xijun.

“Fiquei chocado”, diz Xijun. Não só o fóssil estava notavelmente bem preservado, como exibia aquela estranha mistura de características. O crânio de Harbin é atarracado e largo, com sobrancelhas proeminentes, como é comum entre os hominídeos antigos. Só resta um dente neste crânio sem maxilar inferior, mas o dente tem três raízes, uma característica rara entre os humanos modernos. Outras características – como as maçãs do rosto delicadas, que assentam retas e baixas na face – fazem lembrar mais a nossa própria espécie.

“Ficamos com uma sensação muito estranha quando olhamos para órbitas oculares”, diz Xijun. “Ficamos sempre a pensar que ele nos está a tentar dizer algo.”

Qiang Ji persuadiu a família a doar o espécime ao Museu de Geociências da Universidade de Hebei GEO, e a equipa começou a trabalhar. Os investigadores reuniram informações sobre 95 fósseis de crânios, maxilares e dentes, que representam uma variedade de grupos de hominídeos, catalogando mais de 600 características. Depois usaram um supercomputador para construir milhares de milhões de árvores filogenéticas, ferramentas que são usadas para realçar as relações evolutivas entre os hominídeos com o menor número de etapas evolutivas, algo que a maioria dos cientistas concorda ser a possibilidade mais provável. A árvore que brotou coloca o crânio de Harbin num novo ramo que está intimamente relacionado com a nossa própria espécie.

“Fiquei surpreendido quando vi isto”, diz Chris Stringer, autor de dois dos estudos que definem o grupo e a idade do fóssil. Chris esperava que o crânio de Harbin fosse uma ramificação dos Neandertais.

O crânio de Harbin, com a sua combinação de características antigas e modernas, vem juntar-se a um número crescente de achados fósseis de toda a Ásia que não encaixam perfeitamente nos ramos da árvore genealógica humana.

Fotografia de Xijun Ni

Parte da equipa achava que o crânio de Harbin era tão diferente de outros fósseis de hominídeos que devia ser nomeado como uma espécie separada. Xijun Ni, autor do terceiro estudo que define a nova espécie, assinala a lista de características que, todas juntas, definem o Homem Dragão: orifícios oculares incrivelmente quadrados, uma caixa craniana comprida e achatada, ausência de um rebordo ao longo da linha média do crânio e muito mais.

“Não é apenas uma característica que o distingue de todos os outros”, diz Xijun. “É uma espécie de combinação.”

Debater o Homem Dragão

Porém, nem todos os cientistas e especialistas externos concordam que o Homem Dragão é uma espécie separada – e também não concordam sobre a sua posição relativa na árvore genealógica dos hominídeos.

Muitas das características definidoras do crânio parecem ser questões de escala, em vez de características distintas, diz Laura Buck, da Universidade John Moores de Liverpool. “Mesmo dentro de uma espécie, espera-se alguma variação. As diferenças de sexo e idade do indivíduo, adaptações regionais, idade do fóssil e muito mais podem levar a pequenas mudanças individuais.”

Assim sendo, se não pertence à sua própria espécie, o que é o Homem Dragão? Chris refere uma mistura semelhante de traços modernos e mais antigos num fóssil chamado crânio de Dali, que o novo estudo categorizou no mesmo grupo do crânio de Harbin. Encontrado na província de Shaanxi, no noroeste da China, o referido crânio foi considerado estar na sua própria espécie, a Homo daliensis.

“Já existe um pouco de inflação nos nomes de espécies na antropologia”, acrescenta Bence Viola, paleoantropólogo da Universidade de Toronto, que não fez parte da equipa do estudo. Bence acredita que é preferível agrupar o crânio na espécie H. daliensis, ou deixar a espécie sem nome, em vez de cunhar uma nova espécie.

Depois há a questão dos misteriosos Denisova. Embora não sejam formalmente reconhecidos como uma espécie própria, este grupo provavelmente viveu na Ásia durante dezenas de milhares de anos, e muitos fósseis asiáticos foram sugeridos como membros. Mas como os cientistas só encontraram vestígios fósseis da sua existência, é necessária uma confirmação genética – e a preservação de ADN torna-se cada vez mais improvável nos fósseis mais antigos.

Em 2019, os cientistas anunciaram a descoberta de um maxilar fraturado no Planalto do Tibete que provavelmente pertencia a um Denisova, algo que tornaria esse osso no primeiro fóssil destes humanos antigos a ser encontrado fora da caverna que dá nome ao grupo.

A árvore filogenética agora proposta sugere que o Homem Dragão está mais intimamente relacionado com este maxilar, chamado maxilar de Xiahe.

“Provavelmente pertence à mesma espécie”, diz Xijun, que hesita em dizer que o maxilar (e por consequência o Homem Dragão) pertence a um Denisova, já que a identidade do maxilar fraturado foi obtida através de proteínas extraídas do maxilar e o ADN foi extraído de sedimentos, não diretamente do ADN do maxilar. O crânio de Harbin também carece de um maxilar para uma comparação física.

Bence Viola, que fez parte da equipa que descreveu originalmente os Denisova, não concorda, sublinhando que a identidade Denisova é mais lógica para o maxilar de Xiahe. Mas Bence refere que, mesmo que o Homem Dragão fosse um Denisova, a nova análise coloca o ramo da árvore que inclui o crânio de Harbin e o maxilar de Xiahe separado dos neandertais.

Isto seria estranho, já que este tipo de agrupamento entra em conflito com a história dos Denisova apresentada pelos estudos genéticos anteriores. As análises sugeriam que o antepassado comum dos neandertais e dos Denisova se separou dos antecessores do Homo sapiens há cerca de 600.000 anos. Esse antepassado dividiu-se depois em dois grupos, com os neandertais a espalharem-se pela Europa e pelo Médio Oriente e os Denisova a mudarem-se para a Ásia.

As relações entre todos estes grupos “estão destinadas a ser próximas e difíceis de resolver", diz por email a paleoantropóloga Katerina Harvati, que não fez parte da investigação. “Provavelmente isto é algo que precisa de ser mais aprofundado, quando houver mais evidências”, diz Katerina, da Universidade Eberhard Karls de Tübingen.

Dragões congelados

No horizonte podem estar mais evidências. A equipa envolvida nos novos trabalhos está a explorar a possibilidade de análises genéticas ao Homem Dragão, diz Xijun. Mas os investigadores estão a proceder com cautela porque esse trabalho requer a destruição de pequenas amostras do fóssil.

Independentemente de o Homem Dragão ser uma nova espécie, as suas características incrivelmente bem preservadas são um lembrete de que a natureza raramente é previsível, e que a categorização só ficará mais complexa à medida que surgirem novas descobertas.

“O que consideramos uma espécie é, na verdade, uma questão filosófica, e não uma verdade biológica”, diz Laura Buck. “A definição de espécies pode ser útil, mas para mim as questões mais interessantes são... como é que se adaptaram? E como é que existiram no mundo?”

Neste aspeto, o Homem Dragão também oferece possibilidades interessantes. O local exato onde o trabalhador retirou o crânio da lama permanece desconhecido, mas a região proposta é extremamente a norte, diz Michael Petraglia, paleoantropólogo do Instituto Max Planck, que não fez parte dos estudos. Mesmo nas condições relativamente amenas de hoje, as temperaturas de inverno nesta região podem cair até aos 10 graus negativos; há cerca de 146.000 anos, a região provavelmente não era muito mais quente.

A equipa especula que algumas das características mais robustas do crânio refletem adaptações a um clima muito mais frio. O ambiente também pode ter isolado o Homem Dragão e os seus parentes de outros hominíneos, diz Michael Petraglia, podendo ter influenciado algumas das particularidades encontradas hoje no fóssil.

O banco de dados completo da equipa e as imagens detalhadas do Homem Dragão estão agora disponíveis publicamente, diz Chris Stringer, para que outros investigadores possam sondar as profundezas deste hominídeo por conta própria. E muitos parecem ansiosos para o fazer.

Como diz por email Sarah Freidline, da Universidade da Flórida Central: “A integridade do crânio de Harbin é o sonho de qualquer paleoantropólogo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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