Descoberta de crânio intrigante pode apontar para um antepassado humano desconhecido

Os restos mortais estavam acompanhados por ferramentas que frequentemente são associadas aos humanos modernos, mas têm características de hominídeos arcaicos que já existiam há muito mais tempo.

Publicado 29/06/2021, 11:23
Os investigadores usaram os restos do crânio encontrado em Nesher Ramla para criar uma reconstrução virtual de ...

Os investigadores usaram os restos do crânio encontrado em Nesher Ramla para criar uma reconstrução virtual de um hominídeo que viveu há relativamente pouco tempo, mas que tem características muito arcaicas, incluindo a ausência de queixo.

Fotografia de ARIEL POKHOJAEV, FACULDADE DE MEDICINA SACKLER, UNIVERSIDADE DE TELAVIVE

Quando colocaram os olhos nos restos fragmentários do crânio – parte de uma caixa cerebral achatada, um maxilar inferior quase completo e sem queixo e um dente solitário – os paleantropologistas israelitas perceberam imediatamente que não se tratava de um... de nós.

Ao contrário dos Homo sapiens, com crânios altos e arredondados a envolver os nossos grandes cérebros, os restos mortais perante os investigadores tinham características típicas de espécies mais antigas de Homo que provavelmente chegaram ao Médio Oriente há cerca de 450.000 anos, ou seja, 250.000 anos antes de o Homo sapiens aparecer. O dente parecia muito semelhante aos encontrados nas populações locais de hominídeos datadas de há 400.000 anos, sendo também semelhante aos dos neandertais.

Contudo, este crânio invulgar, com algumas características um tanto ou quanto arcaicas, não tem mais do que 120.000 a 140.000 anos, uma época em que o Homo sapiens já existia. E estes restos mortais também estavam rodeados por ferramentas de pedra avançadas que normalmente são associadas ao Homo sapiens, que têm cérebros maiores, ou possivelmente Neandertais. Para os paleoantropólogos, esta tecnologia partilhada sugere que diferentes tipos de Homo provavelmente se encontraram.

Isto complica a imagem de um período que já de si é confuso e que se estende desde há cerca de 770.000 até há 126.000 anos: o Pleistoceno Médio. Naquela época, África e a Eurásia eram povoadas por uma variedade de hominídeos arcaicos que cronologicamente estão assinalados entre o anterior e mais primitivo Homo erectus e os mais avançados Neandertais e Homo sapiens. Os vestígios de hominídeos do Pleistoceno Médio, que muitas vezes exibem um conjunto de características primitivas e outras mais modernas, são frequentemente categorizados por Homo heidelbergensis, uma espécie “universal” que alguns cientistas agora consideram ter excedido os seus limites.

Os investigadores esperam que esta nova descoberta também possa trazer novos conhecimentos. Em dois artigos publicados na revista Science, os investigadores exploram as evidências que esta descoberta fornece para determinar onde é que os restos mortais se encaixam na árvore genealógica dos hominídeos e como podem estar ligados a outras populações.

“Sabíamos que o Homo sapiens estava nesta região naquela época”, diz Hila May, paleoantropóloga da Universidade de Telavive e um de vários autores dos artigos, “mas até agora não tínhamos quaisquer evidências de que outros tipos de Homo ainda existiam durante aquele período.”

“As implicações são surpreendentes”, diz o antropólogo Israel Hershkovitz, da Universidade de Telavive e Explorador da National Geographic, que foi o autor principal do artigo publicado na Science a descrever os ossos. “Dois grupos de Homo coexistiram no Levante durante quase 100.000 anos, trocando conhecimentos e genes.”

Aptidões impressionantes

A descoberta foi feita num local chamado Nesher Ramla, uma pedreira no centro de Israel. Em 2010, quando máquinas escavadoras revelaram acidentalmente um achado de ferramentas de pedra pré-históricas na pedreira, os arqueólogos passaram quase um ano a desenterrar evidências de atividades de caça prodigiosas de 140.000 a 100.000 anos atrás. Juntamente com dezenas de milhares de ferramentas de pedra estavam os restos de uma variedade de animais, incluindo tartarugas, gazelas e veados, bem como evidências de abates e fogo.

Os investigadores consideram que as ferramentas encontradas em Nesher Ramla são bastante avançadas. Originalmente, os nossos antepassados hominídeos transformavam as pedras ásperas em machados afiados, afiando as lascas até que a própria pedra pudesse ser usada para cortar e escavar. Mais tarde, quando estes artesãos descobriram que as lascas descartadas também podiam ser usados como facas mais finas, raspadores ou pontas de lança, desenvolveram novos métodos para cortar exatamente as lascas que gostavam a partir de uma boa pedra de sílex.

Este método de lascar pedra usado pelos hominídeos em Nesher Ramla é conhecido por “Levallois centrípeto”. As evidências do seu uso na região são frequentemente encontradas com os vestígios de Homo sapiens, que datam de há 140.000 a 80.000 anos. Mais tarde, na Europa, os neandertais aparentemente também usaram este método.

Yossi Zaidner, arqueólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém, primeiro autor do artigo que descreve as ferramentas e Explorador da National Geographic, atesta a complexidade das técnicas de fabrico de ferramentas observadas em Nesher Ramla. “Eu próprio lasquei um pouco de pedra. Consigo fazer ferramentas de pedra simples, mas não consigo fazer os gumes de Levallois, pois exigem muito treino. Portanto, ainda estou ao nível do Homo erectus”, brinca Yossi.

Como é que se explica a presença de um hominídeo que, com uma caixa craniana pequena e mais parecida com a de espécies arcaicas de Homo, tenha criado estas ferramentas avançadas? Será que algumas das ferramentas de pedra encontradas em Nesher Ramla tenham sido lá deixadas pelo Homo sapiens, permitindo ao seu primo distante e arcaico tentar descobrir uma forma de usar e produzir estas ferramentas?

Para Yossi, é pouco provável que esta teoria seja verosímil. “Em primeiro lugar, os fragmentos cranianos foram encontrados no fundo de um depósito, que tinha cerca de oito metros de profundidade, sugerindo fortemente que o recém-descoberto hominídeo em Nesher Ramla chegou a este local específico antes do Homo sapiens”, diz Yossi. Mais importante, o arqueólogo acredita que o método centrípeto de Levallois não teve origem no Médio Oriente, mas sim em África, e algumas das ferramentas encontradas no continente africano podem ter sido feitas por espécies arcaicas, em vez de Homo sapiens. Portanto, é igualmente possível, de acordo com Yossi, que o Homo sapiens tenha aprendido esta tecnologia específica para fazer ferramentas com hominídeos mais arcaicos.

A ser verdade, teria exigido alguma interação contemporânea entre espécies de hominídeos mais primitivas e mais modernas, diz a arqueóloga Alison Brooks, da Universidade George Washington, que não participou no estudo.

“A complexidade desta técnica é difícil de dominar sem um treino considerável, é algo que se ensina melhor de forma visual e oral”, diz Alison, que também acredita que esta tecnologia provavelmente originou em África.

Yossi concorda que os hominídeos que dominavam estas capacidades podem ter migrado para outros grupos de hominídeos, transmitindo a técnica através de demonstrações, propagando-a pela Europa e mais além.

Mais espécies novas, não, por favor

Quando os investigadores analisaram as características dos restos cranianos para tentar perceber em que lugar da árvore genealógica dos hominídeos se encaixavam, ficaram confusos. O espécime não parecia ter semelhanças suficientes com qualquer espécie particular de Homo, nem mesmo com o “universal” Homo heidelbergensis.

Portanto, alguns cientistas podem sentir a tentação de afirmar que o crânio de Nesher Ramla pertence a uma nova espécie, diz Israel Hershkovitz, embora não acredite que isso seja útil.

“Acreditamos que é impreciso, até mesmo inapropriado, pegar num espécime assim tão isolado e nomeá-lo como uma nova espécie. Estamos perante uma combinação única de características. Mas isso parece ser comum entre os hominídeos do Pleistoceno Médio”, argumenta Israel. “Para nós, sugere a presença de vários tipos, não de várias espécies.”

O clima instável em torno do Pleistoceno Médio, com períodos de frio rigoroso alternados com climas mais amenos, fez com que as populações na Europa se contraíssem e expandissem. Quando os grupos de hominídeos ficaram pequenos e isolados devido às condições adversas, os seus corpos e culturas desenvolveram características peculiares. Quando as condições climáticas melhoravam, estas populações expandiam-se, encontrando e misturando-se com outros grupos de hominídeos, trocando cultura e genes. Tudo isto, argumentam Israel Hershkovitz e os seus colegas, deu origem ao mosaico de características observado nas populações de hominídeos do Pleistoceno Médio.

O grupo distinto de pessoas ao qual pertencia o dono do crânio encontrado em Nesher Ramla pode ter desempenhado um papel importante nesta história, acreditam os cientistas. Como as condições presentes no Médio Oriente naquela época eram mais estáveis do que as encontradas mais a norte, as populações regionais teriam sido maiores, possivelmente repovoando as regiões do norte sempre que as calotas polares recuavam.

“Acreditamos que os Homo de Nesher Ramla foram a fonte de muitos dos grupos que surgiram na Europa mais tarde”, diz Rachel Sarig, médica antropóloga da Universidade de Telavive e autora do estudo. Os dentes semelhantes aos de um Neandertal podem ser uma indicação.

Contudo, provavelmente não vai ser possível fazer uma análise genética ao hominídeo de Nesher Ramla e respetivas relações familiares, diz Hila May. “Ao ar livre e num ambiente quente como este, o ADN degrada-se muito mais depressa do que em cavernas ou climas mais frios”, explica Hila.

Porém, a época e a localização do fóssil são curiosas, e as suas características bem preservadas ajudam a descortinar outros achados feitos na região que até agora eram difíceis de categorizar. Isto inclui dentes de hominídeo encontrados na caverna Qesem, a cerca de 32 quilómetros mais a norte, que são muito semelhantes aos encontrados em Nesher Ramla, diz Rachel, mas que também são muito mais antigos, datando de há cerca de 400.000 anos.

Se isto significar que os hominídeos do tipo encontrado em Nesher Ramla já lá estavam naquela época, também podem ter contribuído com pelo menos alguns dos seus genes para um misterioso grupo de hominíneos encontrado em Sima de los Huesos (“Poço dos Ossos”) no norte de Espanha. Esse grupo também tem dentes muito semelhantes, diz Israel, e costumam ser considerados pré-Neandertais.

Uma análise genética feita anteriormente aos restos mortais encontrados em Sima de los Huesos revelou uma relação intrigante com os homens de Denisova da Sibéria. Talvez estes últimos tenham herdado características comuns através da população de Nesher Ramla, que pode ter tido a oportunidade de se misturar com os antepassados dos Denisova quando estes passaram pelo Médio Oriente a caminho da Ásia. “Acreditamos que os primeiros membros do grupo de Nesher Ramla podem ter começado a migrar para a Europa há 400.000 anos”, diz Israel.

O paleoantropólogo Michael Petraglia, do Instituto Max Planck, concorda que estas descobertas suportam a visão emergente de que “já não conseguimos vislumbrar um modelo linear simples da nossa evolução. Houve muitas expansões, contrações e extinções.”

Shara Bailey, paleoantropóloga da Universidade de Nova Iorque, que não esteve envolvida no estudo, concorda que os fósseis de Nesher Ramla mostram “uma combinação de características arcaicas e distintas de Neandertal”, mas acrescenta que “é sempre difícil saber se um só fóssil é um indicador de como era a sua população.”

“Em qualquer caso, creio que todos nós – ou a maioria de nós – estamos a começar a aceitar uma imagem muito mais turva da evolução humana durante o Pleistoceno Médio, uma visão que mudou muito em relação a algumas décadas atrás.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados